Alterações Sensoriais no Transtorno do Espectro Autista: hipersensibilidade, hipossensibilidade e intervenção em ABA

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Alterações Sensoriais no Transtorno do Espectro Autista: hipersensibilidade, hipossensibilidade e intervenção em ABA

Artigo desenvolvido para orientar profissionais, estudantes e famílias sobre as alterações sensoriais no Transtorno do Espectro Autista, seus impactos no comportamento, na aprendizagem e no planejamento de intervenções baseadas em evidências.

Autor: Márcio Gomes da Costa, Psicopedagogo, Especialista em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Neuropsicopedagogia e Neuropsicomotricidade.

Data de publicação: 06 de junho de 2026.

Resumo

As alterações sensoriais no Transtorno do Espectro Autista representam uma dimensão fundamental para a compreensão do comportamento, da aprendizagem e da interação da pessoa autista com o ambiente. Desde a publicação do DSM-5, as respostas sensoriais atípicas passaram a integrar oficialmente os critérios diagnósticos do TEA, dentro do domínio dos padrões restritos e repetitivos de comportamento. Essas alterações podem se manifestar como hipersensibilidade, quando o indivíduo reage de forma intensificada a sons, luzes, texturas, cheiros ou movimentos; ou como hipossensibilidade, quando há resposta reduzida e busca por estímulos mais intensos. O processamento sensorial atípico pode afetar alimentação, sono, atenção, participação social, comportamento adaptativo e desempenho escolar. Este artigo apresenta os principais sistemas sensoriais envolvidos, exemplos clínicos, impactos funcionais e estratégias de intervenção em ABA e em contexto multiprofissional.

Palavras-chave: Alterações Sensoriais; Transtorno do Espectro Autista; Processamento Sensorial; ABA; Autismo.

Resumo rápido

✔ Alterações sensoriais fazem parte dos critérios diagnósticos do TEA.
✔ Podem aparecer como hipersensibilidade ou hipossensibilidade.
✔ Sons, luzes, texturas, cheiros e movimentos podem gerar sofrimento ou busca sensorial.
✔ O comportamento sensorial pode ter função de autorregulação.
✔ A intervenção deve considerar ambiente, análise funcional e necessidades individuais.

Introdução

As alterações sensoriais no Transtorno do Espectro Autista são fundamentais para compreender muitos comportamentos observados na rotina clínica, escolar e familiar. Durante muito tempo, respostas sensoriais foram tratadas apenas como preferências, manias ou comportamentos inadequados. Hoje, a literatura científica reconhece que muitas pessoas autistas processam os estímulos do ambiente de forma diferente.

Essas diferenças podem interferir diretamente na aprendizagem, na comunicação, na alimentação, no sono, na participação social e na regulação emocional. Uma criança que tapa os ouvidos diante de sons altos, recusa alimentos por textura ou busca girar o corpo repetidamente pode estar respondendo a uma necessidade sensorial real.

Na prática em Análise do Comportamento Aplicada, compreender as alterações sensoriais é essencial para realizar uma análise funcional mais precisa. Antes de interpretar um comportamento como oposição, birra ou desobediência, é necessário investigar quais estímulos antecedem a resposta e quais consequências mantêm o comportamento.

Caixa explicativa: Alteração sensorial não é frescura

As respostas sensoriais atípicas no TEA podem gerar desconforto intenso, dor, ansiedade ou necessidade de busca por estímulos. Por isso, devem ser avaliadas com cuidado clínico e não interpretadas como simples preferência ou comportamento voluntário.

Fonte: Robertson, Ashley E.; Baron-Cohen, Simon. Sensory perception in autism. Nature Reviews Neuroscience, v. 18, p. 671-684, 2017. DOI: 10.1038/nrn.2017.112. Recuperado em: 06 jun. 2026.

Processamento sensorial no TEA

O processamento sensorial refere-se à forma como o sistema nervoso recebe, organiza, interpreta e responde aos estímulos do ambiente e do próprio corpo. No TEA, esse processamento pode ocorrer de maneira atípica, resultando em respostas exageradas, reduzidas ou inconsistentes.

Essas respostas podem envolver diferentes sistemas sensoriais: visão, audição, tato, olfato, paladar, propriocepção e sistema vestibular. Cada um desses sistemas contribui para a forma como o indivíduo percebe o mundo, organiza seu corpo e participa das atividades diárias.

Quando o processamento sensorial é atípico, o ambiente pode se tornar excessivamente invasivo ou insuficientemente estimulante. Um som comum para a maioria das pessoas pode ser percebido como insuportável. Por outro lado, uma criança pode buscar movimentos intensos, pressão corporal ou estímulos repetitivos para regular sua sensação interna.

Hipersensibilidade sensorial no autismo

A hipersensibilidade ocorre quando a pessoa apresenta resposta intensificada a determinados estímulos. Sons, luzes, texturas, cheiros ou sabores podem ser percebidos como muito fortes, desconfortáveis ou dolorosos.

No cotidiano, a hipersensibilidade pode aparecer quando a criança tapa os ouvidos, evita locais barulhentos, recusa roupas com determinadas etiquetas, demonstra desconforto com luz forte, evita alimentos por causa da textura ou reage negativamente ao toque.

Esses comportamentos podem ser compreendidos como tentativas de fuga ou esquiva diante de estímulos aversivos. Por isso, a intervenção não deve forçar a exposição de forma brusca. O manejo precisa respeitar o limite da criança, adaptar o ambiente e ensinar gradualmente formas de tolerância e comunicação.

Caixa explicativa: Crises podem ter origem sensorial

Ambientes com excesso de som, luz, movimento ou contato físico podem desencadear sobrecarga sensorial. Nesses casos, a crise não deve ser interpretada apenas como comportamento desafiador, mas como resposta a uma condição ambiental difícil de suportar.

Fonte: Hyman, Susan L.; Levy, Susan E.; Myers, Scott M. Identification, evaluation, and management of children with autism spectrum disorder. Pediatrics, v. 145, n. 1, e20193447, 2020. DOI: 10.1542/peds.2019-3447. Recuperado em: 06 jun. 2026.

Hipossensibilidade sensorial no autismo

A hipossensibilidade ocorre quando a pessoa apresenta resposta reduzida a estímulos sensoriais. Nesses casos, pode ser necessário um estímulo mais intenso para que haja percepção, reação ou organização corporal.

Crianças com hipossensibilidade podem parecer pouco responsivas a sons, dor, temperatura ou toque. Também podem buscar estímulos intensos, como girar, pular, correr, bater objetos, pressionar o corpo contra superfícies ou procurar movimentos repetitivos.

Essa busca sensorial pode ter função reguladora. O comportamento não deve ser observado apenas pela forma, mas pela função que exerce. Em muitos casos, a criança busca estímulos para organizar o corpo, aumentar o nível de alerta ou reduzir desconforto interno.

Na intervenção, é importante oferecer alternativas seguras, funcionais e planejadas para que a criança tenha acesso a estímulos adequados sem comprometer sua segurança ou aprendizagem.

Sistemas sensoriais envolvidos no TEA

As alterações sensoriais podem afetar diferentes sistemas. O sistema auditivo está relacionado à percepção de sons. Alterações nesse sistema podem gerar aversão a ruídos, medo de ambientes barulhentos ou aparente pouca resposta ao chamado.

O sistema visual envolve a percepção de luz, cores, movimentos e padrões. Algumas pessoas autistas demonstram incômodo com luzes fortes, enquanto outras buscam estímulos visuais, como observar objetos girando ou luzes piscando.

O sistema tátil refere-se à sensação de toque, textura, temperatura e pressão. Alterações táteis podem aparecer na recusa de roupas, alimentos, escovação de cabelo, corte de unhas ou contato físico.

O sistema vestibular está relacionado ao equilíbrio e ao movimento. Quando há busca vestibular, a criança pode gostar de girar, balançar, pular ou correr. O sistema proprioceptivo, por sua vez, permite perceber o corpo no espaço e pode estar relacionado à busca por pressão, empurrar objetos ou necessidade de movimentos intensos.

Caixa explicativa: Nem toda busca sensorial deve ser bloqueada

Quando segura e funcional, a busca sensorial pode ajudar na autorregulação. O objetivo da intervenção não é eliminar toda resposta sensorial, mas compreender sua função e ensinar formas mais adaptativas de participação no ambiente.

Fonte: Schaaf, Roseann C.; Lane, Alison E. Toward a best-practice protocol for assessment of sensory features in ASD. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 45, p. 1380-1395, 2015. DOI: 10.1007/s10803-014-2299-z. Recuperado em: 06 jun. 2026.

Impacto das alterações sensoriais no comportamento e na aprendizagem

As alterações sensoriais podem impactar profundamente o comportamento e a aprendizagem. Uma sala muito barulhenta, uma luz fluorescente intensa ou uma textura desconfortável podem comprometer a atenção, aumentar a ansiedade e reduzir a participação da criança.

Em alguns casos, comportamentos considerados desafiadores são mantidos por fuga de estímulos sensoriais aversivos. Em outros, comportamentos repetitivos podem estar relacionados à busca por estímulos específicos.

Na ABA, a análise funcional é essencial para compreender essa relação. O profissional deve observar antecedentes, comportamento e consequências, considerando também variáveis sensoriais que podem estar influenciando a resposta.

Estratégias como adaptação do ambiente, uso de rotina visual, preparação para mudanças, acesso planejado a estímulos sensoriais, comunicação funcional e colaboração com terapeutas ocupacionais podem favorecer o desenvolvimento e reduzir sofrimento.

Tabela 1. Tipos de alterações sensoriais no TEA

Tipo Característica Exemplo clínico Possível função
Hipersensibilidade Resposta exagerada ao estímulo. Tapa os ouvidos diante de sons altos. Fuga ou esquiva de estímulo aversivo.
Hipossensibilidade Resposta reduzida ao estímulo. Busca girar, pular ou pressionar o corpo. Busca de regulação sensorial.
Resposta inconsistente Reage de formas diferentes ao mesmo estímulo. Tolera um som em um dia e rejeita em outro. Pode variar conforme cansaço, ambiente ou sobrecarga.

Tabela 2. Sistemas sensoriais e exemplos de alteração

Sistema sensorial Função Exemplo de alteração
Auditivo Percepção de sons. Aversão a ruídos, liquidificador, fogos ou sala cheia.
Visual Percepção de luz, cor e movimento. Incômodo com luz forte ou fascínio por objetos girando.
Tátil Sensação de toque, textura e pressão. Recusa roupas, etiquetas ou determinados alimentos.
Vestibular Equilíbrio e movimento. Busca girar, balançar ou pular repetidamente.
Proprioceptivo Percepção do corpo no espaço. Busca pressão corporal ou empurra objetos.
Olfativo e gustativo Percepção de cheiros e sabores. Recusa alimentos por cheiro, sabor ou textura.

Estudo de caso

Lucas, de 5 anos, apresenta grande desconforto em ambientes barulhentos, tapando os ouvidos com frequência. Recusa determinados alimentos devido à textura e evita contato físico. Em outros momentos, busca girar o corpo repetidamente, pula no sofá e demonstra interesse intenso por movimentos rápidos.

Questões para reflexão

  1. Quais tipos de alteração sensorial estão presentes no caso?
  2. Como essas alterações podem influenciar o comportamento de Lucas?
  3. Quais estratégias podem ser utilizadas na intervenção?
  4. Por que a análise funcional é importante nesse caso?

Gabarito comentado

Lucas apresenta sinais de hipersensibilidade auditiva e tátil, evidenciados pelo desconforto com sons, recusa de alimentos por textura e evitação de contato físico. Também apresenta sinais de hipossensibilidade ou busca vestibular, observados no girar do corpo, pular e buscar movimentos intensos. Essas alterações podem gerar comportamentos de fuga, esquiva ou busca sensorial. A intervenção deve incluir adaptação do ambiente, comunicação funcional, introdução gradual de estímulos, acesso seguro a atividades sensoriais e análise funcional para compreender antecedentes e consequências dos comportamentos.

Conclusão

As alterações sensoriais no Transtorno do Espectro Autista são parte central da compreensão clínica e comportamental. Elas influenciam aprendizagem, comunicação, alimentação, sono, interação social, participação escolar e regulação emocional.

Compreender a diferença entre hipersensibilidade e hipossensibilidade permite que o profissional evite interpretações simplistas e construa intervenções mais respeitosas. Muitos comportamentos observados em crianças autistas possuem relação direta com a forma como elas percebem e processam o ambiente.

Na prática em ABA, a análise funcional deve considerar variáveis sensoriais, ambientais e comunicativas. O objetivo não é eliminar a singularidade sensorial da pessoa autista, mas promover maior conforto, funcionalidade, autonomia e qualidade de vida.

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Referências

American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. Washington: APA, 2022. Recuperado em: 06 jun. 2026.

Hyman, Susan L.; Levy, Susan E.; Myers, Scott M. Identification, evaluation, and management of children with autism spectrum disorder. Pediatrics, v. 145, n. 1, e20193447, 2020. DOI: 10.1542/peds.2019-3447. Recuperado em: 06 jun. 2026.

Robertson, Ashley E.; Baron-Cohen, Simon. Sensory perception in autism. Nature Reviews Neuroscience, v. 18, p. 671-684, 2017. DOI: 10.1038/nrn.2017.112. Recuperado em: 06 jun. 2026.

Schaaf, Roseann C.; Lane, Alison E. Toward a best-practice protocol for assessment of sensory features in ASD. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 45, p. 1380-1395, 2015. DOI: 10.1007/s10803-014-2299-z. Recuperado em: 06 jun. 2026.

Lord, Catherine et al. Autism spectrum disorder. Nature Reviews Disease Primers, v. 6, n. 1, 2020. DOI: 10.1038/s41572-019-0138-4. Recuperado em: 06 jun. 2026.

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