Contextualização do caso
Em uma igreja localizada em um bairro urbano, são realizados cultos semanais e atividades paralelas para crianças, adolescentes e famílias. Durante os cultos, há momentos de louvor com música mais intensa, períodos de silêncio para oração e falas longas do líder religioso. Samuel, 14 anos, frequenta a igreja com sua família desde a infância e costuma permanecer próximo aos pais durante as celebrações.
Nos últimos meses, a equipe de apoio percebe que Samuel se levanta repetidamente durante o culto, cobre os ouvidos em momentos de música alta e, por vezes, sai do templo sem avisar, retornando após alguns minutos. Alguns membros interpretam essas atitudes como desrespeito ou falta de reverência, sugerindo que ele seja advertido ou orientado a “permanecer sentado como os demais”.
–– Ambientes religiosos também podem produzir exclusão quando não reconhecem a diversidade de comportamentos. ––
Inclusão para além da presença no espaço religioso
A partir dos conteúdos do Módulo 6, a liderança da igreja passa a refletir sobre o conceito de inclusão para além da presença física. Samuel está presente no culto, mas sua participação é limitada pelas condições ambientais. A inclusão, nesse contexto, não significa obrigá-lo a permanecer sentado durante todo o culto, mas possibilitar que ele vivencie o espaço religioso de forma digna e respeitosa.
Observa-se que os momentos de maior desconforto coincidem com estímulos sensoriais intensos e longos períodos sem possibilidade de movimento. A ABA contribui ao deslocar a pergunta “por que ele não se comporta?” para “o que no ambiente dificulta sua permanência?”. Essa mudança de perspectiva permite que a comunidade religiosa se reconheça como parte ativa do processo de inclusão (COOPER; HERON; HEWARD, 2020).
–– Incluir é ajustar o espaço sagrado para acolher diferentes formas de vivenciar a fé. ––
Ajustes ambientais e sensibilização da comunidade
Com base nessa leitura, a igreja implementa ajustes simples e éticos. Cria-se um espaço lateral tranquilo, onde Samuel pode permanecer quando os estímulos se tornam excessivos, sem que isso seja visto como punição ou exclusão. A família é orientada sobre essa possibilidade, e Samuel passa a utilizar o espaço de forma espontânea, retornando ao templo quando se sente mais confortável.
Paralelamente, a liderança promove uma breve sensibilização com os voluntários e membros mais próximos, explicando que comportamentos diferentes não significam falta de fé ou desinteresse espiritual. Essa ação reduz olhares de julgamento e comentários inadequados, fortalecendo uma cultura de acolhimento baseada no respeito e na empatia (SEELA, 2018).
–– A sensibilização da comunidade transforma o olhar e reduz o estigma silencioso. ––
Pertencimento e igreja como espaço de cuidado
Com o tempo, Samuel passa a permanecer por períodos mais longos no culto, participando ativamente de momentos específicos, como cânticos mais tranquilos e atividades em pequenos grupos. Ele se envolve também em tarefas simples, como organizar cadeiras antes das reuniões, o que fortalece seu senso de pertencimento à comunidade religiosa.
A igreja compreende que cuidar não é vigiar nem corrigir constantemente, mas oferecer suporte e condições para que cada pessoa viva sua espiritualidade de acordo com suas possibilidades. Quando o desconforto de Samuel ultrapassa o que pode ser manejado no contexto comunitário, a família é respeitosamente orientada a buscar apoio especializado, sem julgamento ou imposição.
–– Comunidades religiosas acolhedoras cuidam sem controlar e incluem sem padronizar. ––
Síntese do aprendizado do estudo de caso
Este estudo de caso demonstra como os princípios do Módulo 6 podem ser aplicados de forma concreta no contexto de uma igreja. Ao reconhecer limites, ajustar o ambiente e sensibilizar a comunidade, a inclusão deixa de ser apenas discurso e passa a se expressar em práticas cotidianas.
O caso de Samuel evidencia que a aplicação da ABA no contexto religioso não compromete valores espirituais; ao contrário, fortalece-os ao promover respeito, cuidado e pertencimento. Assim, a igreja se consolida como espaço de convivência acolhedora, no qual diferentes formas de estar e participar são reconhecidas e valorizadas.
