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Apresentação do Curso de Psicanálise Clinica
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Curso de Psicanálise Clínica Online | Formação Teórica e Prática – SOBRAPA

Neurose Obsessiva, Ambivalência e Formação do Sintoma no Caso do Homem dos Ratos

Autor: Marcio Gomes da Costa

Resumo

O presente texto aborda, em perspectiva psicanalítica, a neurose obsessiva a partir de elementos narrativos do caso conhecido como “Homem dos Ratos”. Descrevem-se manifestações típicas do quadro, como pensamentos intrusivos, impulsos autoagressivos, rituais defensivos, culpa e temor intenso de dano a figuras amadas, articulando tais fenômenos aos conceitos de recalque, retorno do recalcado, ambivalência afetiva e formação de compromisso. Sustenta-se que o sintoma obsessivo não é um “erro” acidental do psiquismo, mas uma solução defensiva que simultaneamente encobre e revela o conflito, permitindo uma satisfação substitutiva e produzindo sofrimento. Por fim, discute-se a função clínica da transferência e da associação livre na produção de ligações simbólicas capazes de deslocar o sujeito de uma repetição paralisante para um trabalho de elaboração.

Palavras-chave: Neurose obsessiva; Recalque; Ambivalência; Sintoma; Transferência.

1. Introdução

A neurose obsessiva apresenta, com frequência, um núcleo de angústia ligado à ideia de que algo terrível poderá ocorrer a pessoas amadas, acompanhado por impulsos invasivos que surgem como “ordens internas” e exigem respostas defensivas imediatas. Em relatos clínicos clássicos, tais vivências aparecem como medo intenso, imagens de catástrofe, pensamentos blasfemos, impulsos autoagressivos e rituais de anulação. A psicanálise compreende esses fenômenos como formações do inconsciente, produzidas por conflito psíquico e organizadas por mecanismos defensivos. Nesse sentido, o caso do “Homem dos Ratos” é referência decisiva por evidenciar a lógica da obsessão como luta entre forças opostas, especialmente amor e ódio dirigidos às mesmas figuras, com forte participação da culpa. **Freud, 1909**.

2. Descrição clínica e elementos estruturais

No material apresentado, aparecem três eixos clínicos principais. O primeiro é a presença de pensamentos intrusivos e temores de dano ao pai e à namorada, vividos como inevitáveis e “claros” ao sujeito, embora reconhecidos como irracionais. O segundo é a emergência de impulsos autoagressivos, como a ideia de cortar a própria garganta, seguidos de manobras para impedir a ação, configurando um circuito típico de tentação, alarme e defesa. O terceiro é a instalação de rituais e promessas mentais, como juramentos e orações repetidas em alta velocidade para impedir que “o pior” aconteça, revelando o mecanismo obsessivo de anulação e controle mágico do pensamento.

A psicanálise descreve esse conjunto como expressão de conflito entre desejo e interdição. A defesa não elimina o conteúdo recalcado; ao contrário, produz substituições: o sujeito “troca” o conteúdo insuportável por um sistema de sinais, números, palavras e obrigações internas, que passa a governar a vida psíquica. Assim, o sintoma obsessivo funciona como formação de compromisso: protege o eu da irrupção direta do desejo, mas conserva algo do desejo na forma disfarçada do ritual, do pensamento repetitivo e da autocensura. **Freud, 1909**; **Freud, 1915**.

3. Recalque, culpa e ambivalência

Um aspecto central do caso é a ambivalência: coexistem amor intenso e hostilidade recalcada em relação ao pai e, por extensão, às figuras investidas de importância afetiva. O temor de que o pai morra, por exemplo, pode ser compreendido como retorno deformado de uma moção hostil recalcada: o que aparece como “medo” traz a marca de um desejo que não pode ser reconhecido como tal. Nessa lógica, o supereu intensifica a culpa e exige punição, enquanto o sujeito tenta “pagar” simbolicamente por pensamentos considerados criminosos. A neurose obsessiva, assim, tende a transformar o conflito em um tribunal íntimo no qual o eu se acusa, se vigia e se castiga.

A narrativa do castigo com ratos ocupa a função de significante privilegiado: ela condensa crueldade, sexualidade, punição e humilhação, e passa a organizar uma rede associativa que envolve dívida, juramento, pai e mulher amada. A partir desse ponto, observa-se o modo como a obsessão cria encadeamentos forçados: uma obrigação (pagar) é conectada a uma ameaça (o castigo), que por sua vez é conectada a figuras amadas, gerando um circuito em que a tentativa de proteção inclui também, de modo encoberto, a realização fantasmática da agressividade. Essa estrutura evidencia o caráter paradoxal do obsessivo: proteger e atacar, salvar e punir, amar e odiar, em uma mesma operação psíquica. **Freud, 1909**.

4. Formação do sintoma e economia psíquica

Do ponto de vista econômico, o sintoma obsessivo serve para administrar tensão. Quando o conflito se intensifica (por exemplo, diante da escolha amorosa ou de exigências familiares), a obsessão oferece um “trilho” rígido: o sujeito desloca a angústia para tarefas mentais, repetições, cálculos, promessas e precauções. Com isso, obtém-se um alívio parcial e momentâneo, ao custo de aprisionamento psíquico e empobrecimento da vida cotidiana. Esse alívio não é solução definitiva; ele mantém o conflito ativo, repetindo-o sob forma de obrigação e culpa.

A presença de sexualidade infantil nas lembranças (curiosidade, excitação, cenas com governantas) indica um ponto importante: a organização sintomática posterior não se explica por um único evento, mas por uma trama de desejos, interdições e fantasias que se fixam e retornam em novas configurações. A neurose obsessiva, nesse contexto, mostra como o passado não “passa” quando foi recalcado: ele insiste como repetição, como exigência moral e como sintoma. **Freud, 1905**; **Freud, 1909**.

5. Transferência e direção do tratamento

Clinicamente, destaca-se que o método da associação livre permite que o sujeito diga inclusive o que considera irrelevante, vergonhoso ou sem sentido. Essa regra técnica tem uma função decisiva: sustentar a passagem do sintoma como “coisa” para o sintoma como “texto”, isto é, como enigma interpretável. No material apresentado, a transferência aparece quando o sujeito atribui ao analista intenções e posições que pertencem à sua história (por exemplo, supor que o analista o “empurra” para determinado casamento). Nessa dinâmica, reatualiza-se o conflito, agora no setting analítico, criando a possibilidade de interpretação e elaboração. **Freud, 1912**; **Lacan, 1964**.

A direção do tratamento, nessa perspectiva, não visa “convencer” o sujeito por argumentos racionais, mas produzir ligações simbólicas mais precisas: ligar culpa a suas determinações inconscientes, reconhecer a ambivalência, localizar o lugar do desejo e reduzir a necessidade de punição. O efeito clínico esperado não é a extinção mágica do conflito, mas a transformação da relação com ele: menos compulsão, menos tirania superegoica, mais possibilidade de escolha e de responsabilização subjetiva. **Freud, 1909**; **Freud, 1914**.

6. Considerações finais

O caso do “Homem dos Ratos” permite compreender a neurose obsessiva como uma construção defensiva complexa, na qual o sintoma funciona como compromisso entre desejo e interdição. Medos catastróficos, impulsos intrusivos e rituais não surgem como simples “falhas”, mas como soluções que tentam controlar o retorno do recalcado, organizando a culpa e a ambivalência em um sistema de obrigações. A clínica mostra que a elaboração depende do trabalho de palavra, sustentado pela transferência e pela associação livre, para que o sujeito possa deslocar-se do circuito repetitivo de punição e recuperar graus de liberdade frente ao próprio desejo. **Freud, 1909**; **Lacan, 1964**.

Referências

Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1909). Notas sobre um caso de neurose obsessiva (O Homem dos Ratos). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1912). A dinâmica da transferência. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1914). Recordar, repetir e elaborar. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1915). O recalque. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1964). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

Quadro

Eixo Pontos centrais
Sintomas nucleares Pensamentos intrusivos, medo de dano a figuras amadas, impulsos autoagressivos e rituais defensivos (orações, juramentos, anulações).
Conflito psíquico Conflito entre desejo e interdição, com ambivalência afetiva (amor e ódio dirigidos ao mesmo objeto), intensificando a culpa.
Mecanismos Recalque e retorno do recalcado; formação de compromisso; anulação; pensamento mágico; deslocamentos simbólicos que organizam a obsessão.
Significante organizador A cena dos ratos condensa punição, sexualidade, crueldade e dívida, estruturando associações com pai, mulher amada e obrigações financeiras.
Função do sintoma Administração de tensão e alívio parcial, ao custo de repetição, empobrecimento da vida e intensificação da tirania superegoica.
Direção do tratamento Associação livre e transferência para produzir ligações simbólicas, reconhecer ambivalência e reduzir a necessidade de punição, ampliando a liberdade subjetiva.