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Apresentação do Curso de Psicanálise Clinica
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Curso de Psicanálise Clínica Online | Formação Teórica e Prática – SOBRAPA

O caso do Pequeno Hans e a construção da fobia na psicanálise freudiana

O presente texto tem como objetivo apresentar e analisar, em perspectiva acadêmica, o caso clínico conhecido como Pequeno Hans, um dos relatos mais emblemáticos da história da psicanálise. Trata-se de um caso que inaugura, no início do século XX, a aplicação do método psicanalítico à clínica infantil, trazendo contribuições fundamentais para a compreensão da fobia, da sexualidade infantil e das formações sintomáticas na infância, conforme elaborado por Freud (1909).

O caso do Pequeno Hans foi publicado em 1909 por :contentReference[oaicite:0]{index=0}, sob o título “Análise da fobia de um menino de cinco anos”. Embora amplamente associado à figura de Freud, é importante destacar que o atendimento direto da criança não foi realizado por ele. Hans, cujo nome verdadeiro era Herbert Graf, foi acompanhado pelo próprio pai, Max Graf, amigo de Freud e interessado na psicanálise, que mantinha com ele uma intensa troca de correspondências, funcionando como uma forma inicial de supervisão clínica.

Freud encontrou Hans pessoalmente apenas duas vezes. Ainda assim, o caso tornou-se um marco por demonstrar como o método psicanalítico poderia operar a partir da escuta da criança, mediada pela função paterna, e da interpretação simbólica de seus sintomas. Hans começa a apresentar, por volta dos três anos e meio de idade, após o nascimento de sua irmã Hanna, um intenso medo de sair de casa. A investigação desse comportamento revela que, na verdade, o menino tinha medo específico de cavalos.

Esse medo causa estranhamento inicial ao pai, uma vez que Hans demonstrava interesse e afeição por cavalos, animais extremamente comuns nas ruas de Viena no início do século XX, já que eram um dos principais meios de locomoção da época. Não havia registro de nenhum acidente ou experiência traumática direta que justificasse o surgimento repentino da fobia. A partir disso, iniciam-se diálogos sistemáticos entre pai e filho, que se tornam material clínico fundamental para a análise do caso.

Hans relata que o medo dos cavalos estaria ligado à advertência feita por um cuidador, que o alertou sobre o risco de ser mordido caso colocasse a mão próxima à boca do animal. Freud interpreta esse medo não apenas como receio concreto de uma agressão física, mas como uma formação simbólica associada à fantasia de castração, na qual o medo de perder os dedos se articula ao medo de perder o pênis, compreendido como objeto central da curiosidade sexual infantil, conforme descrito por Freud (1909).

Desde muito cedo, Hans demonstrava intensa curiosidade pela sexualidade, especialmente pelo pênis, que ele chamava de seu “fazedor de xixi”. Essa curiosidade se estendia ao corpo dos animais e das pessoas com quem convivia. Em um episódio marcante, a mãe de Hans, ao vê-lo tocando o próprio pênis, ameaça levá-lo ao médico para que este fosse cortado. Tal enunciação materna, ainda que proferida de modo aparentemente banal, adquire, na leitura freudiana, um peso simbólico decisivo na constituição da angústia de castração.

Hans passa então a formular uma série de perguntas sobre quem possui ou não o “fazedor de xixi”, interrogando-se sobre as diferenças anatômicas entre homens, mulheres e animais. Essas indagações revelam o momento crucial da organização da sexualidade infantil e da entrada da criança no complexo de Édipo. A fobia surge, nesse contexto, como uma solução defensiva, deslocando a angústia ligada à figura paterna para um objeto externo, o cavalo.

Em um dos encontros presenciais com Freud, Hans é convidado a desenhar o cavalo que lhe causava medo. No desenho, Freud observa um traço destacado na região da boca do animal, semelhante a um bigode. Ao notar que o pai do menino possuía um bigode marcante, Freud interpreta o cavalo como uma representação simbólica do pai. Hans confirma essa associação ao afirmar que o cavalo tinha um bigode igual ao de seu pai, evidenciando o processo de deslocamento e o início da transferência, conforme descrito por Freud (1909).

A intensificação da fobia ocorre em um período em que a família passa férias fora de Viena, enquanto o pai se ausenta parcialmente devido ao trabalho. Essa situação gera em Hans sentimentos ambíguos: por um lado, o prazer de estar sozinho com a mãe, recebendo cuidados exclusivos; por outro, o desejo e a admiração pela figura paterna. A impossibilidade de sustentar simultaneamente esses afetos contraditórios contribui para o aumento da angústia, manifestada em sonhos recorrentes com cavalos e despertares assustados.

O caso do Pequeno Hans demonstra, de forma exemplar, como a fobia pode funcionar como uma solução psíquica frente à angústia edípica, permitindo à criança organizar simbolicamente seus conflitos internos. Ao deslocar o medo do pai para o cavalo, Hans encontra uma forma de lidar com a ameaça percebida sem desestruturar completamente seu mundo psíquico. Trata-se, portanto, de um caso fundamental para a compreensão da clínica das neuroses infantis e da lógica do sintoma na psicanálise.

Quadro síntese do caso do Pequeno Hans

Aspecto Descrição
Autor do caso Sigmund Freud
Ano de publicação 1909
Paciente Herbert Graf (Pequeno Hans), 5 anos
Sintoma principal Fobia de cavalos
Elemento central Angústia de castração e complexo de Édipo
Função do sintoma Deslocamento da angústia do pai para um objeto externo
Contribuição teórica Fundamentação da clínica psicanalítica infantil e da fobia

Referência

Freud, S. (1909). Análise da fobia de um menino de cinco anos (O Pequeno Hans). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.