Compreender a estrutura do VB-MAPP é uma etapa indispensável para qualquer profissional que deseje utilizar o instrumento com rigor técnico e coerência clínica. Depois de conhecer sua proposta geral e seus fundamentos conceituais, torna-se necessário avançar para a organização interna do protocolo. Esse passo é importante porque o VB-MAPP não é apenas um conjunto de itens soltos ou uma lista de comportamentos a serem observados. Trata-se de um sistema de avaliação construído com lógica progressiva, dividido em componentes complementares, níveis de desenvolvimento e áreas específicas de habilidade.
Essa estrutura foi organizada para que a avaliação não se limite a registrar acertos e erros, mas permita uma leitura ampla do desenvolvimento da criança. Ao analisar os níveis, as áreas e os componentes, o profissional consegue identificar repertórios presentes, lacunas importantes, barreiras que interferem no avanço e prioridades de ensino. Em vez de fornecer uma informação fragmentada, o protocolo oferece um mapa funcional do desenvolvimento, articulando avaliação e planejamento de intervenção.
O VB-MAPP foi descrito na literatura brasileira como um instrumento dividido em cinco componentes e constituído por 170 marcos do desenvolvimento distribuídos em três níveis, baseados em faixas aproximadas do desenvolvimento infantil. Além disso, o instrumento foi concebido para avaliar não apenas linguagem, mas também habilidades relacionadas ao comportamento de ouvinte, imitação, percepção visual, brincar, repertórios sociais e competências acadêmicas iniciais. Essa amplitude estrutural é uma de suas principais forças, pois permite que o profissional compreenda o repertório infantil de modo mais detalhado e funcional.
1. Organização geral do instrumento
O VB-MAPP é composto por cinco grandes partes que se articulam entre si. A primeira é a avaliação de marcos, que examina repertórios do desenvolvimento. A segunda é a avaliação de barreiras, voltada para comportamentos que dificultam aprendizagem e generalização. A terceira é a avaliação de transição, que ajuda a analisar se a criança apresenta condições para contextos menos restritivos. A quarta é a análise de tarefas e rastreamento de habilidades, responsável por decompor objetivos em sequências mais detalhadas. A quinta corresponde à organização de metas e direcionamentos para intervenção.
Essa divisão faz com que o instrumento funcione em camadas. Em uma primeira camada, ele identifica o nível geral do repertório. Em uma segunda, aponta o que está impedindo o progresso. Em uma terceira, ajuda a transformar a avaliação em metas concretas. Em termos práticos, isso significa que a estrutura do VB-MAPP foi desenhada para sustentar decisões clínicas, pedagógicas e terapêuticas, evitando que a avaliação fique separada do planejamento.
| Tabela 1 – Componentes estruturais do VB-MAPP | Função principal |
|---|---|
| Avaliação de marcos | Mapear repertórios verbais e habilidades relacionadas ao desenvolvimento. |
| Avaliação de barreiras | Identificar obstáculos comportamentais que interferem na aprendizagem. |
| Avaliação de transição | Analisar prontidão para contextos de ensino menos restritivos. |
| Análise de tarefas e rastreamento | Detalhar habilidades, sequenciar ensino e acompanhar progresso. |
| Metas e direcionamento de intervenção | Transformar os dados da avaliação em objetivos práticos de ensino. |
Fonte: elaborado com base em Martone, 2017; Sundberg, 2008.
2. Os três níveis do desenvolvimento no VB-MAPP
A avaliação de marcos do VB-MAPP está organizada em três níveis do desenvolvimento. Esses níveis correspondem aproximadamente às faixas de 0 a 18 meses, 18 a 30 meses e 30 a 48 meses. Essa divisão não deve ser lida de forma rígida como equivalência direta entre idade cronológica e desempenho. Sua função é fornecer uma referência de desenvolvimento para a interpretação dos repertórios avaliados.
Na prática, o protocolo parte de uma lógica progressiva. O profissional inicia a investigação pelos repertórios mais básicos e vai avançando conforme identifica desempenho consistente. Isso permite que a avaliação respeite a hierarquia do desenvolvimento, evitando que habilidades complexas sejam cobradas quando pré-requisitos essenciais ainda não foram estabelecidos. Em outras palavras, a estrutura em níveis favorece uma leitura gradual, sequencial e funcional do repertório da criança.
| Tabela 2 – Níveis do VB-MAPP e referência desenvolvimental | Faixa de desenvolvimento aproximada | Função na avaliação |
|---|---|---|
| Nível 1 | 0 a 18 meses | Avaliar repertórios iniciais de comunicação, ouvinte, imitação, brincar e percepção visual. |
| Nível 2 | 18 a 30 meses | Examinar repertórios intermediários de linguagem, interação e ampliação de discriminações. |
| Nível 3 | 30 a 48 meses | Investigar repertórios mais complexos de intraverbal, grupo, linguagem estruturada, leitura, escrita e matemática inicial. |
Fonte: elaborado com base em Martone, 2017.
3. Distribuição das áreas avaliadas em cada nível
Um dos aspectos mais importantes da estrutura do VB-MAPP é a distribuição das áreas avaliadas em cada nível. O protocolo não repete simplesmente os mesmos comportamentos ao longo de toda a avaliação. Ele amplia gradualmente o tipo de repertório investigado. Assim, à medida que a criança avança, novas exigências de linguagem, cognição e adaptação social passam a integrar a avaliação.
No Nível 1, predominam habilidades iniciais como mando, tato, ouvinte, percepção visual e emparelhamento com o modelo, brincar, comportamento social, imitação, ecoico e vocalização. No Nível 2, surgem novas áreas e repertórios mais sofisticados, como responder de ouvinte por função, recurso e classe, intraverbal, atividades de grupo e estruturas linguísticas. No Nível 3, essas áreas se expandem e incorporam habilidades acadêmicas iniciais, incluindo leitura, escrita e matemática.
| Tabela 3 – Áreas avaliadas ao longo dos três níveis | Principais áreas |
|---|---|
| Nível 1 | Mando, tato, ouvinte, percepção visual e emparelhamento com o modelo, brincar, social, imitação, ecoico e vocal. |
| Nível 2 | Mando, tato, ouvinte, VP/MTS, brincar, social, imitação, ecoico, LRFFC, intraverbal, atividades em grupo e estruturas linguísticas. |
| Nível 3 | Mando, tato, ouvinte, VP/MTS, brincar, social, imitação, ecoico, LRFFC, intraverbal, atividades em grupo, estruturas linguísticas e habilidades matemáticas iniciais, com expansão para leitura e escrita na organização geral do protocolo. |
Fonte: elaborado com base em Martone, 2017 e Aniceto, Lazzarini e Gil, 2018.
4. A lógica progressiva dos marcos do desenvolvimento
Os 170 marcos do desenvolvimento não foram distribuídos de forma aleatória. Cada marco cumpre a função de representar uma habilidade relevante dentro de uma sequência de desenvolvimento. Isso significa que a estrutura do VB-MAPP é hierarquizada. O objetivo é permitir que o profissional reconheça o ponto em que a criança se encontra e, a partir desse ponto, organize passos possíveis e coerentes de avanço.
Essa lógica progressiva ajuda a prevenir dois erros comuns. O primeiro é superestimar repertórios, interpretando respostas isoladas como domínio de uma área inteira. O segundo é subestimar a criança, desconsiderando habilidades já consolidadas por não haver uma leitura sistemática do protocolo. Ao trabalhar com marcos sequenciados, o instrumento favorece maior precisão clínica e melhor definição de prioridades.
| Tabela 4 – Vantagens da organização por marcos do desenvolvimento | Contribuição clínica |
|---|---|
| Sequência progressiva | Ajuda a localizar o repertório atual da criança em uma trajetória de desenvolvimento. |
| Critérios operacionais | Reduz subjetividade e melhora a consistência da avaliação. |
| Identificação de lacunas | Mostra quais pré-requisitos ainda não estão suficientemente estabelecidos. |
| Planejamento de metas | Permite transformar avaliação em objetivos funcionais e graduais de ensino. |
Fonte: elaborado para fins didáticos com base em Martone, 2017.
5. Relação entre idade cronológica e idade de desenvolvimento
Um aspecto central para interpretar a estrutura do VB-MAPP é compreender que o protocolo trabalha com referência desenvolvimental, e não com exigência fixa baseada apenas em idade cronológica. Isso é decisivo no trabalho com autismo e atrasos do desenvolvimento, pois muitas crianças apresentam idade cronológica superior ao repertório funcional observado. O instrumento ajuda justamente a fazer essa distinção.
Em termos clínicos, isso significa que uma criança de cinco ou seis anos pode ter seu repertório distribuído em marcos correspondentes a níveis iniciais do protocolo, sem que isso represente desvalorização ou redução de sua singularidade. Ao contrário, essa leitura permite que o planejamento seja realista, ético e tecnicamente fundamentado. A comparação entre idade cronológica e repertório desenvolvimental não é feita para rotular, mas para orientar o ensino.
| Tabela 5 – Idade cronológica e idade de desenvolvimento no VB-MAPP | Função na interpretação |
|---|---|
| Idade cronológica | Indica a idade real da criança e oferece referência contextual. |
| Idade de desenvolvimento aproximada | Mostra em que ponto da sequência de marcos o repertório atual se concentra. |
| Leitura comparativa | Permite dimensionar discrepâncias e organizar metas condizentes com o repertório funcional. |
Fonte: elaborado com base em Martone, 2017; Sundberg, 2008.
6. Estrutura e tomada de decisão clínica
A estrutura do VB-MAPP não deve ser vista apenas como forma de organização interna do manual. Ela tem implicações diretas na tomada de decisão clínica. Quando o profissional entende como os níveis se articulam, como as áreas se distribuem e como os marcos se encadeiam, ele passa a ter maior clareza para definir o que avaliar primeiro, o que ensinar em seguida e quais habilidades funcionam como pré-requisito para objetivos mais complexos.
Essa dimensão clínica da estrutura é especialmente importante em intervenções individualizadas. Uma avaliação bem estruturada permite identificar prioridades reais, evitar programas excessivamente abstratos e organizar objetivos que façam sentido para a rotina da criança. Assim, a compreensão do protocolo deixa de ser apenas teórica e passa a sustentar uma prática mais objetiva, funcional e baseada em dados.
7. Considerações finais
Estudar a estrutura do VB-MAPP é compreender o modo como o instrumento pensa o desenvolvimento infantil em uma perspectiva funcional. Seus cinco componentes, seus três níveis e sua organização por áreas e marcos não são apenas detalhes técnicos do manual. Eles constituem a base que permite transformar observação clínica em leitura organizada do repertório e, depois, em planejamento de intervenção.
Quando essa estrutura é bem compreendida, o profissional passa a utilizar o protocolo com mais precisão e menos improviso. Em vez de aplicar itens de forma fragmentada, ele consegue ler o instrumento como um sistema integrado. É essa compreensão que prepara o terreno para os próximos módulos, nos quais cada componente será aprofundado com mais detalhe, especialmente a avaliação de marcos, a avaliação de barreiras e os desdobramentos da interpretação clínica.
Referências
ANICETO, Gabriela; LAZZARINI, Fernanda Squassoni; GIL, Maria Stella Coutinho de Alcântara. VB-MAPP: levantamento do repertório de linguagem de quatro crianças pequenas com síndrome de down. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO ESPECIAL, 8., 2018. Anais […]. São Carlos: UFSCar, 2018.
MARTONE, Maria Carolina Correa. Tradução e adaptação do Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program (VB-MAPP) para a língua portuguesa e a efetividade do treino de habilidades comportamentais para qualificar profissionais. 2017. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2017.
SKINNER, B. F. Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957.
SUNDBERG, Mark L. VB-MAPP: Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program. Concord: AVB Press, 2008.
