Os marcos do desenvolvimento constituem o núcleo central do VB-MAPP. É por meio deles que o instrumento organiza a avaliação do repertório verbal e de habilidades relacionadas ao desenvolvimento infantil. Quando se fala em marcos, não se está tratando apenas de uma lista de comportamentos desejáveis ou de uma sequência ilustrativa do crescimento da criança. No VB-MAPP, os marcos são indicadores observáveis e funcionalmente relevantes que permitem ao profissional identificar, com maior precisão, o que já foi adquirido, o que está emergindo e o que ainda precisa ser ensinado.
A força do instrumento está justamente em transformar o desenvolvimento em repertórios mais concretos, mensuráveis e clinicamente úteis. Em vez de trabalhar com ideias genéricas sobre atraso ou avanço, o protocolo oferece critérios mais objetivos para reconhecer o nível funcional da criança em diferentes áreas. Isso faz com que a avaliação deixe de ser apenas descritiva e passe a orientar, de modo muito mais claro, o planejamento terapêutico e educacional.
A adaptação brasileira do VB-MAPP descreve a avaliação de marcos como composta por 170 marcos do desenvolvimento distribuídos em três níveis, correspondentes aproximadamente às faixas de 0 a 18 meses, 18 a 30 meses e 30 a 48 meses, abrangendo habilidades como mando, tato, ecóico, intraverbal, comportamento de ouvinte, imitação motora, brincar, repertórios sociais e habilidades acadêmicas iniciais :contentReference[oaicite:2]{index=2}. Isso mostra que os marcos não se restringem à fala em sentido estrito. Eles abrangem uma visão mais ampla do desenvolvimento, integrando linguagem, cognição, interação social, percepção visual, autonomia funcional e pré-requisitos acadêmicos.
1. O que são os marcos do desenvolvimento no VB-MAPP
Os marcos do desenvolvimento no VB-MAPP funcionam como pontos de referência dentro de uma trajetória desenvolvimental. Cada marco representa uma habilidade considerada relevante para determinado momento do desenvolvimento infantil. Ao avaliá-los, o profissional consegue estimar em que ponto da sequência funcional a criança se encontra. Isso não significa reduzir a singularidade da criança a uma pontuação, mas usar a pontuação como recurso técnico para compreender melhor o repertório.
O aspecto mais importante dessa proposta é que cada marco está vinculado a uma função. No caso da linguagem, por exemplo, não basta saber se a criança fala palavras. É necessário entender se ela pede, nomeia, responde, repete, compreende, participa de interações e consegue usar o repertório em diferentes contextos. Os marcos transformam essas distinções em critérios mais claros de observação.
Essa organização é particularmente valiosa no trabalho com autismo e atrasos do desenvolvimento, pois muitos repertórios aparecem de forma irregular, fragmentada ou pouco funcional. A criança pode, por exemplo, repetir palavras, mas não conseguir pedir de forma espontânea. Pode reconhecer figuras, mas não responder adequadamente a perguntas simples. Pode apresentar comportamentos vocais, mas ainda não organizar linguagem funcional. A avaliação de marcos ajuda a diferenciar essas situações e a evitar leituras superficiais do desenvolvimento.
| Tabela 1 – Funções dos marcos do desenvolvimento no VB-MAPP | Contribuição clínica |
|---|---|
| Localizar o repertório atual | Permite identificar em que ponto do desenvolvimento funcional a criança se encontra. |
| Diferenciar habilidades | Ajuda a separar repertórios distintos, como pedir, nomear, repetir e responder. |
| Evidenciar lacunas | Mostra pré-requisitos ausentes ou repertórios ainda instáveis. |
| Orientar o planejamento | Favorece a definição de metas graduais, realistas e baseadas em dados. |
| Monitorar o progresso | Permite reavaliação e comparação longitudinal do desenvolvimento. |
Fonte: elaborado com base em Martone (2017) e Sundberg (2008).
2. A distribuição dos marcos em três níveis
Os 170 marcos do desenvolvimento estão distribuídos em três níveis. Essa divisão foi organizada a partir de referências do desenvolvimento típico, mas sua função no protocolo é servir como parâmetro funcional para interpretação do repertório observado. O Nível 1 corresponde aproximadamente ao intervalo de 0 a 18 meses, o Nível 2 ao intervalo de 18 a 30 meses e o Nível 3 ao intervalo de 30 a 48 meses.
Essa distribuição é importante porque evita que a avaliação seja feita de maneira desordenada. O profissional trabalha a partir de uma progressão, observando primeiro habilidades mais básicas e, depois, repertórios mais complexos. Na prática, isso ajuda a reconhecer se há fundamentos necessários para o avanço. Se a criança ainda não emite mandos funcionais consistentes, por exemplo, faz pouco sentido supor repertórios intraverbais avançados como meta imediata. Da mesma forma, se o comportamento de ouvinte ainda é muito restrito, isso terá impacto sobre a aquisição de repertórios mais sofisticados.
A distribuição em níveis também ajuda a analisar discrepâncias. Uma criança pode ter repertórios de Nível 2 em uma área e ainda apresentar habilidades típicas de Nível 1 em outra. Esse perfil desigual é comum no desenvolvimento atípico e exige leitura clínica cuidadosa. O VB-MAPP permite justamente captar essas assimetrias e evitar conclusões globalizantes.
| Tabela 2 – Níveis dos marcos do desenvolvimento | Faixa desenvolvimental aproximada | Características gerais |
|---|---|---|
| Nível 1 | 0 a 18 meses | Repertórios iniciais de comunicação, ouvinte, imitação, brincar e percepção visual. |
| Nível 2 | 18 a 30 meses | Ampliação da linguagem funcional, maior discriminação e repertórios intermediários de interação. |
| Nível 3 | 30 a 48 meses | Repertórios mais complexos de linguagem, grupo, estrutura linguística e habilidades acadêmicas iniciais. |
Fonte: elaborado com base em Martone (2017).
3. As principais áreas contempladas pelos marcos
Os marcos do VB-MAPP são distribuídos por áreas de habilidade. Essa divisão permite uma leitura mais refinada do desenvolvimento. Entre as áreas contempladas estão mando, tato, comportamento de ouvinte, percepção visual e emparelhamento com o modelo, brincar independente, comportamento social, imitação motora, ecóico, comportamento verbal espontâneo, responder de ouvinte por função, característica e classe, intraverbal, estrutura linguística, leitura, escrita e matemática :contentReference[oaicite:3]{index=3}.
Essa amplitude revela que o VB-MAPP não entende o desenvolvimento verbal de forma isolada. A linguagem aparece em articulação com a capacidade de ouvir, discriminar, imitar, interagir, brincar e participar de contextos de aprendizagem. Essa organização é muito importante porque, clinicamente, não se sustenta uma intervenção que tente ensinar fala sem considerar repertórios correlatos que dão função a essa linguagem.
Além disso, a presença de áreas como brincar, socialização e pré-acadêmico mostra que o instrumento reconhece o desenvolvimento infantil em sua complexidade. A criança não é avaliada apenas por quantas palavras emite, mas por como essas habilidades se organizam dentro de uma vida prática, relacional e educativa. Essa é uma das razões pelas quais o VB-MAPP se tornou tão útil para planejamento individualizado.
| Tabela 3 – Áreas avaliadas pelos marcos do desenvolvimento | Exemplo de foco funcional |
|---|---|
| Mando | Capacidade de pedir itens, ações ou ajuda de forma funcional. |
| Tato | Capacidade de nomear objetos, pessoas, ações ou eventos. |
| Comportamento de ouvinte | Resposta a instruções, discriminações verbais e seguimento de comandos. |
| Brincar e social | Uso funcional de brinquedos, participação em trocas e interação com pares e adultos. |
| Leitura, escrita e matemática | Habilidades acadêmicas iniciais no Nível 3 e em componentes relacionados. |
Fonte: elaborado com base em Martone (2017) e Sundberg (2008).
4. Como os marcos ajudam a construir o perfil da criança
O valor clínico dos marcos está em sua capacidade de compor um perfil detalhado do repertório da criança. Ao final da avaliação, o profissional não obtém apenas um escore total. Ele passa a ter uma visão mais precisa de como a criança se distribui pelas diferentes áreas. Em alguns casos, o repertório de mando pode estar mais desenvolvido do que o de tato. Em outros, a imitação motora pode aparecer melhor estabelecida do que o comportamento de ouvinte. Há ainda situações em que a criança apresenta repertórios dispersos, com ilhas de habilidade em meio a lacunas importantes.
Esse tipo de leitura é muito superior a interpretações genéricas como “a criança tem atraso global” ou “fala pouco”. Os marcos tornam possível reconhecer nuances. Eles ajudam a perceber que tipo de linguagem existe, em que contexto ela aparece, quão funcional ela é e quais pré-requisitos precisam ser fortalecidos. É essa leitura que transforma a avaliação em ferramenta de planejamento.
Outro ponto importante é que os marcos ajudam a dialogar com a família e com a equipe. Quando o profissional apresenta resultados baseados em repertórios observáveis, a comunicação tende a ser mais clara. Em vez de apenas dizer que existem dificuldades, ele consegue mostrar em quais áreas essas dificuldades se concentram e o que pode ser feito a partir daí.
| Tabela 4 – Contribuições dos marcos para a construção do perfil funcional | Resultado prático |
|---|---|
| Leitura por áreas | Permite identificar pontos fortes e fracos em diferentes dimensões do repertório. |
| Identificação de assimetrias | Mostra quando a criança apresenta desenvolvimento desigual entre áreas. |
| Comunicação com equipe e família | Facilita a explicação dos resultados e das prioridades de intervenção. |
| Base para metas | Favorece definição de objetivos individualizados e progressivos. |
Fonte: elaborado para fins didáticos com base em Martone (2017).
5. Marcos, pré-requisitos e hierarquia do ensino
Uma das principais utilidades dos marcos é permitir ao profissional reconhecer pré-requisitos. Em intervenção comportamental, o ensino não pode ser organizado apenas pela urgência subjetiva do adulto ou pela pressão do contexto. Ele precisa respeitar a lógica de aquisição dos repertórios. Isso significa que determinadas habilidades servem de base para outras.
A criança que ainda não discrimina instruções simples, por exemplo, terá mais dificuldade em contextos grupais. A criança que não emite mandos funcionais consistentes pode apresentar mais comportamentos problema por não conseguir comunicar necessidades. A criança que ainda não nomeia objetos ou ações de forma estável terá limitações em repertórios intraverbais mais sofisticados. Os marcos evidenciam essas relações e ajudam a organizar uma hierarquia de ensino mais realista.
Essa função é fundamental porque evita dois extremos: o ensino excessivamente simplificado, que subestima a criança, e o ensino excessivamente complexo, que ignora pré-requisitos. Com base nos marcos, o profissional consegue construir uma sequência mais ajustada, em que cada objetivo prepara o terreno para o seguinte.
| Tabela 5 – Relação entre marcos e organização hierárquica do ensino | Implicação clínica |
|---|---|
| Identificação de pré-requisitos | Ajuda a definir quais habilidades devem ser ensinadas antes de objetivos mais complexos. |
| Sequência de metas | Favorece progressão gradual e funcional do programa de intervenção. |
| Redução de erros de planejamento | Evita propor metas incompatíveis com o repertório atual da criança. |
| Maior funcionalidade do ensino | Torna os programas mais consistentes com as necessidades reais de desenvolvimento. |
Fonte: elaborado com base em Martone (2017) e Sundberg (2008).
6. O uso dos marcos na reavaliação e no acompanhamento clínico
Os marcos do desenvolvimento não servem apenas para uma avaliação inicial. Eles também são fundamentais para reavaliações periódicas. Ao reaplicar partes do protocolo ou revisar áreas específicas, o profissional consegue verificar avanços, estabilizações e novas dificuldades que surgem ao longo do processo terapêutico. Isso torna o acompanhamento mais confiável e menos dependente de impressões vagas.
Em vez de afirmar apenas que a criança melhorou, o avaliador pode demonstrar em quais áreas houve avanço, quais repertórios se consolidaram e quais metas precisam ser revistas. Essa prática é importante tanto para a clínica quanto para a escola, pois fortalece a intervenção baseada em dados. Também é relevante para a família, que passa a visualizar de forma mais concreta os progressos do desenvolvimento.
Dessa forma, os marcos do desenvolvimento cumprem uma função longitudinal. Eles não apenas revelam o ponto de partida, mas ajudam a acompanhar o percurso. É essa capacidade de organizar o antes, o durante e o depois que faz do VB-MAPP uma ferramenta tão valiosa para planejamento contínuo.
7. Considerações finais
O estudo dos marcos do desenvolvimento mostra que o VB-MAPP foi construído para oferecer uma leitura funcional, progressiva e detalhada do repertório infantil. Seus 170 marcos distribuídos em três níveis permitem que o profissional abandone interpretações vagas e avance para uma avaliação mais precisa das habilidades de linguagem, interação, percepção, imitação, brincar e repertórios acadêmicos iniciais.
Mais do que medir desempenho, os marcos ajudam a compreender a organização do desenvolvimento. Eles revelam lacunas, evidenciam pré-requisitos, favorecem a definição de metas e sustentam o acompanhamento longitudinal da intervenção. Em outras palavras, constituem o coração avaliativo do VB-MAPP. Compreendê-los bem é fundamental para que a avaliação não seja apenas uma formalidade, mas um instrumento real de tomada de decisão clínica.
Nos próximos módulos, essa base será aprofundada com maior atenção às barreiras à aprendizagem, à interpretação dos resultados e à transformação dos dados em programas de ensino individualizados. Mas tudo isso depende de uma boa compreensão dos marcos, porque são eles que primeiro organizam o olhar técnico sobre a criança e oferecem a base concreta para intervenção.
Referências
ANICETO, Gabriela; LAZZARINI, Fernanda Squassoni; GIL, Maria Stella Coutinho de Alcântara. VB-MAPP: levantamento do repertório de linguagem de quatro crianças pequenas com síndrome de down. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO ESPECIAL, 8., 2018. Anais […]. São Carlos: UFSCar, 2018.
MARTONE, Maria Carolina Correa. Tradução e adaptação do Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program (VB-MAPP) para a língua portuguesa e a efetividade do treino de habilidades comportamentais para qualificar profissionais. 2017. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2017.
SKINNER, B. F. Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957.
SUNDBERG, Mark L. VB-MAPP: Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program. Concord: AVB Press, 2008.
