A interpretação dos resultados no VB-MAPP é uma das etapas mais importantes de todo o processo avaliativo, pois é nesse momento que os dados coletados deixam de ser apenas registros e passam a orientar decisões clínicas. Avaliar não é apenas marcar respostas corretas ou incorretas, mas compreender o que esses dados revelam sobre o funcionamento da criança, suas potencialidades e suas necessidades de intervenção.
O VB-MAPP não é um instrumento diagnóstico. Sua função é organizar informações sobre o repertório comportamental, permitindo identificar quais habilidades estão presentes, quais estão em desenvolvimento e quais ainda não foram adquiridas. A partir dessa leitura, o profissional consegue definir prioridades de ensino e estruturar programas mais adequados.
A interpretação exige, portanto, um olhar clínico que articule diferentes componentes do protocolo, incluindo marcos do desenvolvimento, barreiras à aprendizagem, análise de tarefas e avaliação de transição. Nenhum dado deve ser analisado de forma isolada.
1. Leitura do perfil de desenvolvimento
O primeiro passo na interpretação dos resultados consiste na leitura do perfil geral da criança a partir dos marcos do desenvolvimento. Esse perfil permite visualizar em quais áreas há maior avanço e onde estão concentradas as principais dificuldades. A organização visual do protocolo facilita essa análise, mostrando de forma clara a distribuição das habilidades.
É importante observar não apenas a quantidade de itens pontuados, mas também a qualidade dos repertórios. Uma criança pode apresentar pontuação elevada em determinada área, mas ainda depender de ajuda significativa para emitir as respostas. Da mesma forma, outra pode ter pontuação menor, mas apresentar respostas mais independentes e consistentes.
Essa análise ajuda a evitar interpretações simplistas e permite uma compreensão mais precisa do estágio de desenvolvimento em que a criança se encontra.
| Tabela 1 – Elementos da leitura do perfil | Significado clínico |
|---|---|
| Distribuição dos marcos | Indica áreas de maior e menor desenvolvimento. |
| Qualidade das respostas | Avalia independência e consistência do comportamento. |
| Necessidade de ajuda | Identifica nível de suporte necessário para emissão da resposta. |
Fonte: elaborado com base em Martone (2017) e Sundberg (2008).
2. Identificação de lacunas e prioridades
Após a leitura do perfil geral, o próximo passo é identificar lacunas importantes no repertório. Essas lacunas correspondem a habilidades que ainda não foram adquiridas e que são fundamentais para o avanço do desenvolvimento. Nem todas as habilidades ausentes têm o mesmo peso clínico, por isso é necessário estabelecer prioridades.
As prioridades devem ser definidas com base na funcionalidade das habilidades. Habilidades que aumentam a comunicação, reduzem comportamentos-problema, ampliam a autonomia ou favorecem a interação social tendem a ter maior relevância. Esse critério ajuda a organizar o planejamento de forma mais eficiente.
A identificação de lacunas também deve considerar a presença de pré-requisitos. Em alguns casos, a ausência de uma habilidade mais complexa está relacionada à falta de repertórios básicos que precisam ser ensinados primeiro.
| Tabela 2 – Critérios para definição de prioridades | Aplicação prática |
|---|---|
| Funcionalidade | Escolha de habilidades que impactam o cotidiano da criança. |
| Pré-requisitos | Identificação de habilidades básicas necessárias para avanços futuros. |
| Redução de barreiras | Seleção de objetivos que diminuem comportamentos que interferem na aprendizagem. |
Fonte: elaborado com base em Martone (2017) e Sundberg (2008).
3. Integração com a avaliação de barreiras
A interpretação dos resultados não pode ignorar a avaliação de barreiras. Muitas vezes, a ausência de determinadas habilidades não está relacionada apenas à falta de ensino, mas à presença de comportamentos ou condições que dificultam a aprendizagem.
Barreiras como dependência de ajuda, baixa motivação, problemas de comportamento, dificuldades de generalização e déficits de atenção podem comprometer significativamente o avanço do repertório. Por isso, a intervenção deve considerar tanto o ensino de novas habilidades quanto a redução dessas barreiras.
A integração entre marcos e barreiras permite uma leitura mais completa e evita interpretações reducionistas. Em vez de focar apenas no que falta ensinar, o profissional passa a considerar também o que precisa ser modificado para que a aprendizagem ocorra.
| Tabela 3 – Integração entre marcos e barreiras | Impacto na intervenção |
|---|---|
| Marcos do desenvolvimento | Indicam o que a criança já consegue fazer. |
| Barreiras à aprendizagem | Mostram o que está dificultando o avanço. |
| Integração dos dados | Orienta decisões mais precisas sobre intervenção. |
Fonte: elaborado com base em Martone (2017) e Sundberg (2008).
4. Construção do perfil comportamental
A partir da integração dos dados, o profissional pode construir um perfil comportamental da criança. Esse perfil sintetiza as principais características do repertório, destacando pontos fortes, dificuldades e necessidades de intervenção. Ele funciona como base para o planejamento terapêutico.
Esse processo exige capacidade de síntese e interpretação. Não se trata de repetir os dados do protocolo, mas de transformá-los em uma leitura clínica que oriente decisões práticas. Um bom perfil comportamental é aquele que permite compreender a criança de forma global e funcional.
Além disso, o perfil facilita a comunicação com a família e com a equipe, tornando os dados mais acessíveis e compreensíveis.
| Tabela 4 – Elementos do perfil comportamental | Descrição |
|---|---|
| Pontos fortes | Habilidades já consolidadas e funcionais. |
| Lacunas | Habilidades ausentes ou pouco desenvolvidas. |
| Barreiras | Fatores que dificultam a aprendizagem. |
| Prioridades | Objetivos principais para intervenção. |
Fonte: elaborado com base em Martone (2017) e Sundberg (2008).
Referências
ANICETO, Gabriela; LAZZARINI, Fernanda Squassoni; GIL, Maria Stella Coutinho de Alcântara. VB-MAPP: levantamento do repertório de linguagem de quatro crianças pequenas com síndrome de down. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO ESPECIAL, 8., 2018. Anais […]. São Carlos: UFSCar, 2018.
MARTONE, Maria Carolina Correa. Tradução e adaptação do Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program (VB-MAPP) para a língua portuguesa e a efetividade do treino de habilidades comportamentais para qualificar profissionais. 2017. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2017.
SKINNER, B. F. Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957.
SUNDBERG, Mark L. VB-MAPP: Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program. Concord: AVB Press, 2008.
