Os comportamentos-problema constituem uma das principais barreiras ao desenvolvimento de habilidades em crianças com autismo e atrasos no desenvolvimento. No contexto da análise do comportamento aplicada, esses comportamentos não são compreendidos como manifestações isoladas ou aleatórias, mas como respostas que possuem função específica dentro de um sistema de contingências. O VB-MAPP, ao incluir a avaliação de barreiras, permite identificar fatores que interferem diretamente na aprendizagem e no engajamento da criança.
O manejo de comportamentos-problema não deve ser baseado em estratégias punitivas ou exclusivamente reativas. Pelo contrário, deve partir de uma análise funcional que permita compreender por que o comportamento ocorre e quais variáveis o mantêm. A partir dessa compreensão, torna-se possível desenvolver intervenções que promovam comportamentos alternativos mais adaptativos.
Além disso, é fundamental reconhecer que muitos comportamentos-problema estão relacionados a déficits de comunicação. Crianças que não conseguem expressar suas necessidades de forma funcional tendem a recorrer a respostas que produzem efeitos imediatos no ambiente, ainda que socialmente inadequadas.
1. Conceito funcional de comportamento-problema
Na perspectiva da ABA, um comportamento-problema é qualquer resposta que interfere no aprendizado, na interação social ou na segurança do indivíduo e das pessoas ao seu redor. Esses comportamentos podem incluir agressividade, autoagressão, fuga de tarefas, estereotipias excessivas e comportamentos disruptivos.
O ponto central da análise comportamental é compreender a função do comportamento. Em geral, comportamentos-problema são mantidos por quatro funções principais: obtenção de atenção, acesso a itens ou atividades, fuga de demandas e estimulação automática.
A identificação da função é essencial para o planejamento da intervenção. Intervenções que não consideram a função do comportamento tendem a ser ineficazes ou produzir resultados temporários.
| Tabela 1 – Funções do comportamento-problema | Exemplo clínico |
|---|---|
| Atenção | Criança grita para obter interação do adulto |
| Acesso a itens | Choro para conseguir brinquedo |
| Fuga | Recusa diante de tarefa difícil |
| Estimulação automática | Movimentos repetitivos sem mediação social |
Fonte: elaborado com base em Cooper, Heron e Heward (2020).
2. Relação entre VB-MAPP e comportamentos-problema
O VB-MAPP inclui uma seção específica dedicada à avaliação de barreiras à aprendizagem. Essas barreiras frequentemente estão associadas à presença de comportamentos-problema que dificultam o ensino e a aquisição de habilidades.
Entre as barreiras mais comuns estão baixa motivação, dependência de ajuda, problemas de comportamento e dificuldades de atenção. A identificação dessas variáveis permite compreender que o comportamento-problema não é apenas um obstáculo, mas um indicador de necessidades não atendidas.
Ao integrar a análise das barreiras com os marcos do desenvolvimento, o profissional consegue planejar intervenções mais eficazes, que não apenas reduzam comportamentos inadequados, mas também promovam habilidades alternativas.
| Tabela 2 – Barreiras no VB-MAPP | Impacto na aprendizagem |
|---|---|
| Problemas de comportamento | Interrupção do ensino |
| Baixa motivação | Redução do engajamento |
| Déficits de atenção | Dificuldade em manter tarefas |
Fonte: elaborado com base em Sundberg (2008).
3. Estratégias de intervenção comportamental
O manejo de comportamentos-problema deve priorizar o ensino de comportamentos alternativos funcionalmente equivalentes. Isso significa ensinar à criança uma forma adequada de obter o mesmo resultado que antes era alcançado por meio do comportamento inadequado.
Entre as principais estratégias estão o reforçamento diferencial, o ensino de comunicação funcional (FCT), a extinção planejada e a manipulação de antecedentes. Essas intervenções devem ser aplicadas de forma sistemática e consistente.
É importante destacar que a intervenção não deve focar apenas na redução do comportamento-problema, mas principalmente na construção de repertórios adaptativos que substituam essas respostas.
| Tabela 3 – Estratégias de manejo | Descrição |
|---|---|
| Reforçamento diferencial | Reforçar comportamentos adequados |
| FCT | Ensinar comunicação funcional |
| Extinção | Retirada de reforço do comportamento-problema |
| Manipulação de antecedentes | Prevenção do comportamento |
Fonte: elaborado com base em Cooper, Heron e Heward (2020).
4. Integração com o planejamento terapêutico
O manejo de comportamentos-problema deve estar integrado ao planejamento geral da intervenção. Não se trata de um processo isolado, mas de uma dimensão que atravessa todas as etapas do ensino.
Ao utilizar o VB-MAPP como base, o profissional consegue identificar quais habilidades precisam ser ensinadas para reduzir comportamentos inadequados. Por exemplo, o aumento de mandos pode reduzir comportamentos de frustração, enquanto o desenvolvimento de habilidades sociais pode diminuir o isolamento.
A intervenção eficaz é aquela que considera simultaneamente a redução de barreiras e a ampliação de repertórios. Essa integração garante resultados mais consistentes e duradouros.
| Tabela 4 – Integração clínica | Aplicação |
|---|---|
| Ensino de mandos | Redução de frustração |
| Treino social | Aumento da interação |
| Planejamento individualizado | Maior eficácia da intervenção |
Fonte: elaborado com base em Sundberg (2008) e Martone (2017).
Referências
COOPER, John O.; HERON, Timothy E.; HEWARD, William L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020.
MARTONE, Maria Carolina Correa. Tradução e adaptação do VB-MAPP. 2017. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de São Carlos.
SKINNER, B. F. Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957.
SUNDBERG, Mark L. VB-MAPP. Concord: AVB Press, 2008.
