Leia o conteúdo, examine o estudo de caso, realize o exercício e confira o gabarito apresentado na própria aula.
Resumo do treinamento
Este treinamento apresenta a higienização das mãos como medida essencial para prevenir a transmissão de microrganismos durante a assistência. O conteúdo aborda os cinco momentos, a escolha entre água e sabonete líquido ou preparação alcoólica, a técnica correta, o uso de luvas, os cuidados com unhas e adornos, a disponibilidade de produtos nos pontos de assistência e o monitoramento da adesão.
Público-alvo
Médicos, profissionais de enfermagem, fisioterapeutas, técnicos de radiologia, profissionais responsáveis por curativos, infiltrações, punções e imobilizações, trabalhadores da limpeza e apoio, estudantes e demais pessoas que mantenham contato com pacientes, superfícies ou materiais do ambiente assistencial.
1. Introdução
As mãos dos profissionais podem transportar microrganismos de uma superfície para outra, entre diferentes pacientes ou entre regiões do corpo do mesmo paciente. A higienização das mãos interrompe essa transmissão e constitui uma das medidas mais importantes para reduzir infecções relacionadas à assistência. Na clínica de ortopedia, sua aplicação é necessária em consultas, curativos, retirada de pontos, imobilizações, infiltrações, administração de medicamentos e contato com equipamentos utilizados por diferentes pessoas.
A RDC Anvisa nº 42/2010 determina a disponibilização de preparação alcoólica para fricção antisséptica das mãos nos serviços de saúde, especialmente nos pontos de assistência. A RDC Anvisa nº 36/2013 inclui a higiene das mãos nas ações do Plano de Segurança do Paciente. O Protocolo para a Prática de Higiene das Mãos, aprovado pela Portaria MS nº 1.377/2013, organiza os momentos, as técnicas e os indicadores utilizados para implantação e avaliação da prática.
2. O que é este treinamento
É uma capacitação teórica e prática destinada a desenvolver a competência para reconhecer quando e como higienizar as mãos. A simples disponibilização de pias, sabonete e preparação alcoólica não assegura a adesão. O profissional precisa compreender o risco de transmissão, selecionar o método adequado, realizar todos os passos da técnica e permitir que as mãos sequem antes de prosseguir.
Ao final, o participante deverá identificar os cinco momentos, diferenciar as indicações da preparação alcoólica e da lavagem com água e sabonete, demonstrar a técnica, utilizar luvas de forma segura e reconhecer fatores que prejudicam a eficácia, como adornos, unhas inadequadas, produto insuficiente ou interrupção precoce da fricção. A avaliação deve incluir observação prática, e não apenas questões teóricas.
3. Desenvolvimento
3.1 Os cinco momentos para a higiene das mãos
O primeiro momento ocorre antes de tocar o paciente. Sua finalidade é proteger a pessoa contra microrganismos presentes nas mãos do profissional. Na clínica ortopédica, aplica-se antes do exame físico, da palpação de um membro, do auxílio para levantar ou da instalação de uma órtese. O segundo momento ocorre antes de procedimento limpo ou asséptico, como curativo, retirada de pontos, punção ou infiltração.
O terceiro momento ocorre após risco de exposição a fluidos corporais, mesmo quando o profissional utilizou luvas. O quarto ocorre após tocar o paciente. O quinto ocorre após contato com superfícies próximas ao paciente, incluindo maca, cadeira de rodas, muletas, grades, mesa de procedimento e equipamentos utilizados no atendimento. Esses momentos acompanham o fluxo do cuidado e podem se repetir durante a mesma consulta.
3.2 Preparação alcoólica ou água e sabonete
A preparação alcoólica é indicada quando as mãos não apresentam sujidade visível. Deve estar acessível no ponto de assistência para que a higienização ocorra exatamente onde o cuidado é realizado. A quantidade precisa ser suficiente para cobrir todas as superfícies das mãos e permanecer em fricção até a secagem completa. O produto não deve ser removido com papel nem ter sua secagem acelerada de forma inadequada.
A lavagem com água e sabonete líquido é indicada quando as mãos estiverem visivelmente sujas, contaminadas com sangue ou outros fluidos, após utilização do sanitário e nas demais condições previstas pelo protocolo institucional. Após a lavagem, as mãos devem ser enxaguadas e secas com papel-toalha descartável. Deve-se evitar tocar diretamente a torneira após finalizar o procedimento quando o modelo exigir fechamento manual, utilizando a barreira definida pelo serviço.
3.3 Técnica de higienização
A técnica deve alcançar palmas, dorsos, espaços entre os dedos, dorso dos dedos, polegares, pontas dos dedos, unhas e punhos. Uma falha frequente é concentrar o produto apenas nas palmas. Outra é interromper a fricção antes que todas as áreas sejam cobertas. O treinamento prático pode utilizar solução marcadora e luz apropriada para demonstrar regiões esquecidas, desde que o recurso seja seguro e previsto no programa educativo.
Antes de iniciar, o profissional deve manter unhas curtas e naturais e retirar adornos incompatíveis com a assistência. Anéis, pulseiras, relógios e outros objetos dificultam a fricção, acumulam matéria orgânica e podem danificar luvas. Lesões nas mãos, dermatites ou reações aos produtos devem ser comunicadas para avaliação e definição de medidas que protejam o profissional sem comprometer a segurança do paciente.
Tabela 3: Métodos e indicações para a higienização das mãos
| Método | Indicação principal | Cuidados essenciais | Exemplo na clínica |
|---|---|---|---|
| Preparação alcoólica | Mãos sem sujidade visível. | Cobrir todas as áreas e friccionar até secar. | Antes do exame físico e após contato com a maca. |
| Água e sabonete líquido | Sujidade visível ou contaminação com fluidos. | Enxaguar e secar com papel descartável. | Após contato visível com sangue durante curativo. |
| Antissepsia cirúrgica | Procedimentos cirúrgicos, quando aplicável. | Utilizar produto, técnica e tempo padronizados. | Preparação para pequena cirurgia ortopédica. |
Fonte: elaboração institucional com base no Protocolo para a Prática de Higiene das Mãos em Serviços de Saúde (Brasil, 2013).
3.4 Uso de luvas
As luvas não substituem a higiene das mãos. O profissional deve higienizar as mãos antes de calçá-las quando houver indicação e imediatamente após retirá-las. As luvas podem apresentar microperfurações, contaminar-se durante a retirada ou transferir microrganismos entre superfícies quando utilizadas de maneira prolongada. O mesmo par não pode ser utilizado para atender pacientes diferentes nem para alternar entre uma área contaminada e uma área limpa.
O uso desnecessário também produz risco porque cria falsa sensação de proteção e aumenta o contato com superfícies. O profissional não deve tocar celular, computador, maçaneta, prontuário ou materiais limpos com luvas contaminadas. A indicação precisa estar associada ao risco da tarefa, e a retirada deve ocorrer assim que a atividade terminar.
3.5 Pontos de assistência e responsabilidade institucional
A adesão depende da disponibilidade dos recursos no local e no momento do cuidado. A clínica deve manter preparação alcoólica próxima às áreas de consulta e procedimento, pias funcionais onde forem necessárias, sabonete líquido, papel-toalha, recipientes adequados e reposição regular. Produtos vencidos, dispensadores vazios, frascos improvisados ou recipientes sem identificação comprometem a prática.
O NSP deve atuar em conjunto com os responsáveis pelo controle de infecções, direção técnica, compras, manutenção e lideranças. Cabe à instituição selecionar produtos regularizados, orientar o uso, monitorar o abastecimento, capacitar profissionais e tratar as não conformidades. A equipe precisa comunicar falta de insumos ou falhas em dispensadores assim que identificadas.
3.6 Higiene das mãos em situações ortopédicas
No exame de um paciente com gesso ou órtese, a higiene deve ocorrer antes do contato e depois do atendimento. Em curativos e retirada de pontos, o profissional deve higienizar as mãos antes de preparar o material, antes da etapa asséptica, após risco de contato com secreção, após retirar as luvas e depois de organizar o ambiente. Em infiltrações e punções, a higiene integra a técnica asséptica e não substitui a preparação adequada da pele do paciente.
Equipamentos compartilhados, como cadeiras de rodas, muletas e aparelhos de pressão, exigem limpeza conforme protocolo, mas a limpeza do equipamento não substitui a higiene das mãos. Da mesma forma, higienizar as mãos não dispensa a limpeza e a desinfecção das superfícies. São barreiras complementares.
3.7 Monitoramento e avaliação da eficácia
O serviço deve acompanhar a adesão aos momentos definidos. A observação direta permite calcular o número de ações realizadas em relação ao número de oportunidades identificadas. Também podem ser avaliados disponibilidade de insumos, consumo de preparação alcoólica, adequação da técnica e ocorrências relacionadas à transmissão de infecções. Cada indicador precisa ter fonte de dados, responsável, periodicidade e meta institucional.
Os resultados devem ser devolvidos às equipes de maneira educativa. Quando houver baixa adesão, o plano de ação pode incluir reposicionamento dos dispensadores, revisão do fluxo, treinamento prático, lembretes visuais e supervisão. Repetir a mesma aula sem investigar as causas locais tende a produzir efeito limitado.
4. Estudo de caso
Durante um curativo em ferida pós-operatória, o profissional higienizou as mãos, calçou luvas e retirou a cobertura antiga. Em seguida, com o mesmo par de luvas, abriu o pacote estéril e manipulou as gazes que seriam aplicadas na ferida. Após concluir, retirou as luvas e foi diretamente ao computador registrar o atendimento. A preparação alcoólica estava disponível na entrada da sala, mas não próxima à maca.
O caso contém várias falhas. As luvas utilizadas na retirada da cobertura contaminada não poderiam ser mantidas para a etapa limpa. Era necessário retirar as luvas, higienizar as mãos e preparar-se para a etapa asséptica. Após a retirada final das luvas, uma nova higiene deveria ocorrer antes do contato com o computador. A localização do dispensador também deve ser revista para facilitar a prática no ponto de assistência. A orientação individual precisa ser acompanhada de análise do fluxo e dos recursos.
5. Exercício de aprendizagem
Relacione cada situação ao momento correspondente da higiene das mãos:
- Antes de palpar o joelho durante o exame físico.
- Antes de iniciar uma infiltração articular.
- Após contato acidental com secreção durante um curativo.
- Depois de auxiliar o paciente a transferir-se da maca para a cadeira de rodas.
- Após ajustar a grade e organizar a mesa ao lado da maca, sem tocar diretamente o paciente.
Questão aplicada: identifique três falhas estruturais ou organizacionais que podem reduzir a adesão e proponha uma ação corretiva para cada uma.
6. Gabarito comentado
- Antes de palpar o joelho: primeiro momento, antes de tocar o paciente.
- Antes da infiltração: segundo momento, antes de procedimento limpo ou asséptico.
- Após contato com secreção: terceiro momento, após risco de exposição a fluidos corporais.
- Depois da transferência: quarto momento, após tocar o paciente.
- Após contato com grade e mesa: quinto momento, após tocar superfícies próximas ao paciente.
7. Conclusão
A higienização das mãos é uma prática simples em sua finalidade, mas exige organização, técnica e repetição em todos os momentos indicados. Preparação alcoólica, água e sabonete líquido e antissepsia cirúrgica possuem indicações específicas. O uso de luvas não elimina a necessidade de higienização, e a limpeza das superfícies não substitui o cuidado com as mãos.
A clínica deve garantir produtos adequados nos pontos de assistência, capacitação prática, supervisão e indicadores. O treinamento será efetivo quando os profissionais reconhecerem espontaneamente as oportunidades, executarem a técnica completa e interromperem o atendimento diante da falta de condições. A melhoria deve ser sustentada por auditoria, devolutiva à equipe e correção das barreiras estruturais e organizacionais.
Referências do capítulo
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada nº 42, de 25 de outubro de 2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de disponibilização de preparação alcoólica para fricção antisséptica das mãos. Brasília, DF: Anvisa, 2010.
BRASIL. Ministério da Saúde; AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA; FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Protocolo para a prática de higiene das mãos em serviços de saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica nº 01/2018 GVIMS/GGTES/Anvisa: orientações gerais para higiene das mãos em serviços de saúde. Brasília, DF: Anvisa, 2018.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE; AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Guia para implementação da estratégia multimodal da OMS para a melhoria da higiene das mãos. Brasília, DF: Opas; Anvisa, 2009.
