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Resumo do treinamento
Este treinamento capacita os profissionais para reconhecer o risco de queda, aplicar medidas preventivas individualizadas, manter o ambiente seguro e agir corretamente quando uma queda ocorrer. O conteúdo considera as características da clínica ortopédica, incluindo dor, limitação funcional, alterações da marcha, uso de muletas, bengalas, andadores, cadeiras de rodas, órteses, imobilizações e medicamentos que podem aumentar a instabilidade.
Público-alvo
Médicos, profissionais de enfermagem, fisioterapeutas, técnicos de radiologia, recepcionistas, profissionais da limpeza e manutenção, trabalhadores de apoio, membros do Núcleo de Segurança do Paciente, gestores, prestadores de serviços, estudantes e demais pessoas que participem do acolhimento, da assistência, do transporte ou da organização do ambiente.
1. Introdução
A queda é um deslocamento não intencional do corpo para um nível inferior à posição inicial, com incapacidade de correção em tempo hábil. Pode ocorrer da própria altura, de uma maca, cadeira, cadeira de rodas ou durante a transferência. Mesmo quando não produz lesão aparente, representa um incidente que precisa ser avaliado, registrado e analisado. Quando causa dano, como contusão, ferimento, medo persistente ou fratura, caracteriza evento adverso.
Na clínica de ortopedia, muitos pacientes apresentam fatores que aumentam a vulnerabilidade: dor aguda, fraqueza, redução da mobilidade, alterações do equilíbrio, lesões em membros inferiores, pós-operatório, idade avançada e uso recente de dispositivos de auxílio. Um gesso ou uma órtese pode modificar a marcha; uma muleta mal ajustada pode favorecer desequilíbrio; um medicamento pode causar tontura; e um piso molhado pode transformar uma limitação leve em um evento grave. Por isso, prevenir quedas é responsabilidade de toda a instituição.
O Protocolo Nacional de Prevenção de Quedas tem como finalidade reduzir a ocorrência de quedas nos pontos de assistência e o dano delas decorrente, por meio da avaliação do risco, do cuidado multiprofissional, de um ambiente seguro e da educação do paciente, dos familiares e dos profissionais. A RDC Anvisa nº 36/2013 inclui a prevenção de quedas entre as estratégias do Plano de Segurança do Paciente.
2. O que é este treinamento
É uma capacitação teórica e prática destinada a padronizar a identificação, a avaliação e o controle do risco de queda. Ao final, o participante deverá reconhecer fatores intrínsecos e extrínsecos, utilizar o instrumento definido pela clínica, adotar medidas proporcionais ao risco, orientar pacientes e acompanhantes, comunicar mudanças clínicas e executar a resposta imediata após uma ocorrência.
O treinamento deve incluir demonstrações de transferência, posicionamento, ajuste de dispositivos e condução segura. Cada categoria profissional precisa compreender sua responsabilidade. A recepção acolhe e identifica limitações visíveis; a equipe assistencial avalia o risco e define medidas; a fisioterapia orienta mobilidade e dispositivos; a limpeza e a manutenção controlam perigos ambientais; e o NSP acompanha incidentes, indicadores e planos de melhoria.
3. Desenvolvimento
3.1 Avaliação do risco de queda
A avaliação deve ocorrer no primeiro contato assistencial e ser repetida quando houver mudança relevante. Em uma clínica ambulatorial, o fluxo pode começar com uma triagem breve: dificuldade para caminhar, queda recente, tontura, alteração visual, necessidade de apoio, uso de dispositivo, sedação ou medicamento capaz de interferir no equilíbrio. O resultado precisa ser registrado e comunicado aos profissionais que continuarão o atendimento.
A escala ou lista institucional não substitui o julgamento clínico. O instrumento deve ser adequado ao perfil do serviço, aplicado por profissional capacitado e associado a uma conduta. Classificar o risco sem implementar medidas transforma o registro em mera formalidade. Uma pessoa inicialmente estável pode passar a apresentar risco após procedimento doloroso, imobilização, administração de medicamento ou alteração súbita da pressão e, portanto, deverá ser reavaliada.
3.2 Fatores intrínsecos e extrínsecos
Fatores intrínsecos pertencem à condição do paciente. Incluem idade avançada, história de queda, fraqueza muscular, alteração da marcha, déficit visual, tontura, confusão, hipotensão, urgência urinária, dor intensa, medo de caminhar e doenças neurológicas ou musculoesqueléticas. Medicamentos sedativos, anti-hipertensivos, hipoglicemiantes e outras classes podem contribuir, conforme a condição individual e o esquema utilizado.
Fatores extrínsecos estão relacionados ao ambiente e ao processo: piso molhado ou irregular, tapete solto, iluminação insuficiente, corredores obstruídos, ausência de corrimão, mobiliário instável, maca sem trava, cadeira de rodas sem freios, calçado inadequado, dispositivo mal regulado e falta de ajuda durante a transferência. A prevenção exige atuar sobre ambos os grupos, sem atribuir o evento exclusivamente ao comportamento do paciente.
3.3 Medidas universais de prevenção
As medidas universais devem ser aplicadas a todas as pessoas, mesmo sem classificação de alto risco. A clínica deve manter rotas livres, iluminação adequada, pisos secos, sinalização temporária de áreas molhadas, cadeiras estáveis, macas travadas e equipamentos em condições de uso. Objetos pessoais e dispositivos devem permanecer ao alcance sem bloquear a circulação. A equipe precisa orientar o paciente a pedir ajuda e evitar que ele se desloque sozinho quando estiver inseguro.
O paciente deve usar calçado fechado ou antiderrapante sempre que possível. Bengalas, muletas e andadores devem ser avaliados quanto à altura, ponteiras, empunhaduras e estabilidade. Cadeiras de rodas devem ter freios acionados durante a transferência e apoio para os pés posicionado de forma a não provocar tropeço. Macas devem permanecer na menor altura segura quando o paciente estiver sem assistência.
Tabela 6: Riscos de queda e medidas preventivas na clínica ortopédica
| Situação de risco | Sinal de alerta | Medida preventiva | Responsável envolvido |
|---|---|---|---|
| Dor ou fraqueza em membro inferior | Marcha insegura ou necessidade de apoio. | Oferecer ajuda, assento e dispositivo adequado. | Recepção e equipe assistencial. |
| Uso de muletas ou andador | Altura incorreta ou ponteira desgastada. | Avaliar, ajustar e ensinar o uso antes da saída. | Fisioterapia e equipe assistencial. |
| Cadeira de rodas | Freios soltos e apoios dos pés abaixados. | Travar, elevar apoios e acompanhar a transferência. | Todos os profissionais treinados. |
| Após procedimento ou medicamento | Tontura, sonolência ou hipotensão. | Reavaliar antes de levantar e manter observação. | Equipe assistencial. |
| Ambiente inseguro | Piso molhado, obstáculo ou iluminação insuficiente. | Isolar, sinalizar e corrigir imediatamente. | Limpeza, manutenção e todos que identificarem. |
| Gesso ou órtese recente | Mudança do apoio e do padrão de marcha. | Testar mobilidade e orientar paciente e acompanhante. | Equipe assistencial e fisioterapia. |
Fonte: elaboração institucional com base no Protocolo de Prevenção de Quedas (Brasil, 2013).
3.4 Medidas individualizadas para pacientes de maior risco
Pessoas classificadas em maior risco devem receber medidas adicionais definidas no protocolo. Podem ser priorizadas no fluxo, acomodadas em local próximo à equipe, acompanhadas nos deslocamentos e orientadas a não se levantar sem ajuda. A sinalização do risco, quando utilizada, precisa ser discreta, padronizada e compreendida por todos, sem expor diagnóstico ou gerar falsa sensação de que apenas pacientes sinalizados podem cair.
O plano deve considerar a autonomia. A prevenção não significa restringir desnecessariamente o movimento. O profissional explica o risco, combina como pedir ajuda e oferece meios para uma mobilidade segura. Familiares e acompanhantes podem colaborar, mas não substituem a responsabilidade da equipe. Se o paciente recusar uma medida, devem ser fornecidas informações claras, avaliadas alternativas e realizado o registro correspondente.
3.5 Transferência e mobilização segura
Antes da transferência, o profissional deve explicar a sequência, verificar se o paciente compreendeu, avaliar força e equilíbrio e preparar o destino. Cadeira ou maca deve estar próxima, travada e posicionada adequadamente. Bolsas, tubos, órteses e roupas não podem prender os movimentos. O profissional utiliza a técnica compatível com sua capacitação e solicita ajuda quando o peso, a instabilidade ou a condição clínica ultrapassarem o manejo seguro por uma pessoa.
Após a colocação de gesso, órtese ou dispositivo, a equipe deve observar o primeiro deslocamento. A orientação verbal isolada pode ser insuficiente. É recomendável demonstrar, permitir que o paciente pratique sob supervisão e confirmar a compreensão pelo retorno da demonstração. A alta somente deve ocorrer quando a mobilidade, o apoio permitido e os sinais de alerta estiverem esclarecidos.
3.6 Educação do paciente e do acompanhante
A orientação deve utilizar linguagem simples e relacionar-se à situação real. O paciente precisa saber por que está em risco, como chamar ajuda, como levantar lentamente, onde apoiar as mãos e como usar o dispositivo. Deve ser orientado a comunicar tontura, fraqueza, visão turva, dor intensa ou insegurança. Materiais impressos podem complementar, mas não substituir, a conversa e a verificação de entendimento.
Em casa, o paciente e o acompanhante devem observar iluminação, tapetes, degraus, banheiro, disposição dos móveis e presença de animais ou objetos no trajeto. Essas orientações precisam respeitar as condições sociais e funcionais. Quando houver necessidade de avaliação especializada ou adaptação mais ampla, a equipe deverá realizar o encaminhamento pertinente.
3.7 Conduta imediata após uma queda
Ao encontrar uma pessoa no chão, a primeira medida é manter a calma, proteger o local e não levantá-la automaticamente. O profissional deve avaliar responsividade, dor, sangramento, deformidade, sinais neurológicos e demais condições dentro de sua competência, acionando a equipe responsável. A movimentação deverá ocorrer apenas após avaliação e com técnica segura, exceto quando houver perigo imediato no ambiente.
O atendimento clínico tem prioridade. Depois da estabilização, devem ser registrados horário, local, circunstâncias, avaliação, condutas e comunicação ao responsável e ao acompanhante, quando aplicável. A queda deve seguir o fluxo de notificação. O relato precisa ser objetivo, sem julgamentos ou alterações para proteger a equipe. Ausência de lesão aparente não elimina a necessidade de observação e análise.
3.8 Análise, indicadores e melhoria
O NSP deve analisar onde, quando e como as quedas e os quase erros ocorreram. Fatores como demora no atendimento, ausência de assento, falha de freio, dispositivo inadequado, piso molhado ou orientação insuficiente ajudam a definir ações. A análise busca corrigir o sistema e também verificar se os protocolos foram seguidos, preservando a responsabilidade profissional e a cultura justa.
Podem ser acompanhados número de quedas, quedas com dano, proporção de pacientes avaliados, conformidade do ambiente, adesão às medidas e reincidência. A taxa deve utilizar denominador compatível com a realidade ambulatorial, como número de atendimentos, quando definido pelo serviço. Resultados precisam ser apresentados às equipes, associados a plano de ação e reavaliados após a intervenção.
4. Estudo de caso
Um paciente de 72 anos chegou à clínica com fratura no tornozelo e utilizando muletas emprestadas. Na recepção, caminhava com dificuldade, mas não recebeu cadeira de rodas porque informou que conseguia se deslocar. Após a consulta, recebeu uma imobilização que modificou seu apoio. Ao sair da sala, tentou levantar-se sozinho. Uma das muletas estava alta e com a ponteira desgastada. O paciente perdeu o equilíbrio e caiu, relatando dor no quadril.
A prioridade é impedir nova movimentação, realizar avaliação clínica, acionar o profissional responsável e providenciar o atendimento necessário. O evento deve ser registrado e notificado. A análise mostra múltiplas oportunidades de prevenção: acolhimento do risco na chegada, oferta de transporte seguro, avaliação das muletas, reavaliação após a imobilização, demonstração do novo padrão de marcha e acompanhamento no primeiro deslocamento. A afirmação de que o paciente conseguia andar não dispensava a avaliação profissional.
5. Exercício de aprendizagem
Para cada situação, identifique o risco e descreva a ação imediata mais segura:
- Paciente relata tontura ao levantar-se após um procedimento.
- Cadeira de rodas permanece sem freio durante a transferência.
- Piso molhado é identificado próximo à entrada da clínica.
- Paciente com gesso recente tenta usar sozinho muletas não ajustadas.
- Pessoa cai na sala de espera e afirma que não sente dor.
Questão aplicada: percorra mentalmente o caminho da entrada até a sala de procedimentos e liste cinco perigos ambientais que devem integrar a inspeção da clínica.
6. Gabarito comentado
- Tontura após procedimento: manter o paciente sentado ou deitado, avaliar, comunicar a equipe e permitir deslocamento somente após reavaliação.
- Cadeira sem freio: interromper a transferência, acionar os freios, posicionar os apoios e reiniciar apenas quando houver estabilidade.
- Piso molhado: impedir o acesso, sinalizar, providenciar a secagem e verificar a causa.
- Muletas não ajustadas: interromper o deslocamento, avaliar e regular o dispositivo, ensinar a técnica e acompanhar a prática.
- Queda sem dor: não levantar automaticamente; avaliar, observar, registrar e notificar conforme o protocolo, pois a ausência inicial de dor não exclui dano.
7. Conclusão
A prevenção de quedas exige avaliação do paciente, ambiente seguro, comunicação e medidas individualizadas. Na clínica ortopédica, dor, imobilização e dispositivos de auxílio podem alterar rapidamente a mobilidade, tornando indispensável a reavaliação após procedimentos e antes da saída. A participação do paciente fortalece a segurança, mas não transfere a ele a responsabilidade de controlar riscos institucionais.
O treinamento será efetivo quando cada profissional souber reconhecer perigos, interromper deslocamentos inseguros, oferecer ajuda, utilizar equipamentos corretamente e responder de forma organizada a uma queda. O NSP deve acompanhar indicadores, investigar as circunstâncias e verificar a eficácia das ações. Prevenir quedas não é impedir a mobilidade, mas criar condições para que ela aconteça com o menor risco possível.
Referências do capítulo
BRASIL. Ministério da Saúde; AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA; FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Protocolo de prevenção de quedas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.095, de 24 de setembro de 2013. Aprova os Protocolos Básicos de Segurança do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada nº 36, de 25 de julho de 2013. Institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde e dá outras providências. Brasília, DF: Anvisa, 2013.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Step safely: strategies for preventing and managing falls across the life-course. Geneva: World Health Organization, 2021.
