Critérios Diagnósticos do Transtorno do Espectro Autista e Prevalência

Sejam bem-vindos à terceira aula do nosso curso de pós-graduação em Análise do Comportamento Aplicada (ABA). Após compreendermos a definição do Transtorno do Espectro Autista e sua construção histórica, avançaremos agora para os critérios diagnósticos atuais e para a compreensão da prevalência do TEA na população. Esse conhecimento é essencial para a prática clínica, educacional e comportamental, pois orienta a identificação precoce, o planejamento das interventions e a construção de programas individualizados baseados em evidências científicas.
O Transtorno do Espectro Autista, conhecido pela sigla TEA, é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por déficits persistentes na comunicação social e na interação social, associados à presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. A palavra espectro indica que o autismo não se apresenta de uma única maneira. Ao contrário, envolve diferentes formas de manifestação, níveis de suporte, habilidades, dificuldades e trajetórias de desenvolvimento.
O diagnóstico do TEA é clínico. Isso significa que não existe, até o momento, um exame laboratorial, genético ou de imagem que, isoladamente, confirme o diagnóstico. O processo diagnóstico depende da análise cuidadosa da história do desenvolvimento, da observação direta do comportamento, da escuta da família, da avaliação da comunicação, da interação social, dos padrões comportamentais e do funcionamento adaptativo da pessoa.
Atualmente, um dos principais referenciais utilizados internacionalmente para o diagnóstico do TEA é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua quinta edição revisada, conhecido como DSM-5-TR, publicado pela American Psychiatric Association em 2022. Esse manual organiza os critérios diagnósticos do autismo em dois grandes domínios: comunicação social e interação social; e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.
Para a Análise do Comportamento Aplicada, compreender os critérios diagnósticos não significa reduzir a pessoa ao diagnóstico. Pelo contrário, significa reconhecer quais áreas do desenvolvimento precisam ser melhor avaliadas e quais repertórios podem ser ensinados de maneira planejada, ética e individualizada. A ABA não trabalha apenas com o rótulo diagnóstico, mas com comportamentos observáveis, habilidades funcionais, necessidades de suporte e possibilidades reais de desenvolvimento.
A prevalência do TEA também se tornou um tema central nos últimos anos. Estudos epidemiológicos internacionais mostram aumento progressivo no número de diagnósticos. Segundo relatório do Centers for Disease Control and Prevention, publicado em 2025, a prevalência observada nos Estados Unidos foi de aproximadamente 1 criança com TEA para cada 31 crianças de 8 anos avaliadas. Esse dado deve ser interpretado com cautela, considerando fatores como ampliação dos critérios diagnósticos, maior conscientização social, melhora dos sistemas de rastreio e maior acesso aos serviços de avaliação.
Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula
O diagnóstico do TEA não é feito por um único exame. Ele depende da análise clínica do desenvolvimento, da observação do comportamento, da escuta familiar e da aplicação criteriosa de instrumentos padronizados. Para a ABA, o diagnóstico orienta a avaliação, mas o planejamento da intervenção deve sempre considerar as necessidades individuais da pessoa.
Fonte: Adaptado de American Psychiatric Association (2022) e Hyman, Levy e Myers (2020).
Evolução Histórica dos Critérios Diagnósticos do Autismo
A compreensão científica do autismo passou por profundas transformações ao longo do século XX e início do século XXI. Em 1943, Leo Kanner descreveu um grupo de crianças que apresentavam isolamento social, dificuldades de comunicação, alterações na linguagem e forte resistência a mudanças. No ano seguinte, Hans Asperger descreveu crianças com dificuldades sociais importantes, interesses específicos e linguagem formalmente preservada. Essas descrições inauguraram um campo de estudo que, ao longo das décadas, foi sendo progressivamente refinado.
Durante muito tempo, o autismo foi confundido com formas graves de psicose infantil ou esquizofrenia infantil. Essa compreensão gerou práticas clínicas inadequadas e interpretações equivocadas sobre sua origem. Com o avanço da psiquiatria infantil, da psicologia do desenvolvimento, da genética e da neurociência, o autismo passou a ser compreendido como uma condição do neurodesenvolvimento, presente desde os primeiros anos de vida e associada a alterações na comunicação, na interação social e no comportamento.
No DSM-IV, publicado em 1994, o autismo era classificado dentro dos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. Essa categoria incluía Transtorno Autista, Síndrome de Asperger, Transtorno Desintegrativo da Infância, Síndrome de Rett e Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação. Com o passar do tempo, pesquisas mostraram que havia grande sobreposição entre essas categorias, dificultando a precisão diagnóstica.
Com a publicação do DSM-5, em 2013, essas categorias foram unificadas no diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. Essa mudança permaneceu no DSM-5-TR, publicado em 2022, reforçando a compreensão de que o autismo envolve uma ampla variação de manifestações clínicas dentro de uma mesma condição diagnóstica.
Caixa explicativa 2 – Por que o termo espectro é importante?
O termo espectro indica que o TEA pode se manifestar de formas muito diferentes. Duas pessoas podem ter o mesmo diagnóstico e apresentar perfis bastante distintos de linguagem, cognição, autonomia, sensibilidade sensorial, interesses e necessidades de suporte. Por isso, o diagnóstico deve sempre ser acompanhado de uma avaliação individualizada.
Fonte: Adaptado de Lord et al. (2020).
Critérios Diagnósticos Segundo o DSM-5-TR
O DSM-5-TR establishes que o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista exige a presença de déficits persistentes na comunicação social e na interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Sinais devem estar presentes desde o início do desenvolvimento, ainda que possam se tornar mais evidentes apenas quando as demandas sociais ultrapassam as capacidades da pessoa.
Além disso, os sintomas precisam causar prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, acadêmico, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida. O manual também destaca que essas características não devem ser melhor explicadas exclusivamente por deficiência intelectual ou atraso global do desenvolvimento, embora o TEA possa ocorrer junto com essas condições.
Na prática clínica, isso significa que o diagnóstico não se baseia apenas na presença de comportamentos isolados. Uma criança pode apresentar atraso de fala sem ter TEA, assim como pode apresentar movimentos repetitivos por diferentes razões. O diagnóstico exige a análise do conjunto dos sinais, sua persistência, sua intensidade, sua presença em diferentes contextos e seu impacto funcional.
Domínio A: Comunicação Social e Interação Social
O primeiro domínio diagnóstico envolve déficits persistentes na comunicação social e na interação social. Esses déficits devem estar presentes em três áreas: reciprocidade socioemocional, comunicação não verbal e desenvolvimento, manutenção e compreensão de relacionamentos.
A reciprocidade socioemocional refere-se à capacidade de iniciar e responder a interações sociais, compartilhar interesses, emoções e experiências. Em crianças pequenas, pode aparecer como pouca iniciativa para chamar a atenção dos pais, ausência de apontar para mostrar objetos, menor resposta ao nome ou dificuldade em compartilhar prazer durante brincadeiras.
A comunicação não verbal inclui contato visual, gestos, expressões faciais, postura corporal e integração entre linguagem verbal e não verbal. Algumas crianças com TEA podem apresentar contato visual reduzido, uso limitado de gestos comunicativos ou expressões faciais pouco compatíveis com o contexto social.
A terceira área envolve o desenvolvimento e a manutenção de relacionamentos. Crianças com TEA podem apresentar dificuldades para participar de brincadeiras simbólicas, compreender regras sociais implícitas, adaptar o comportamento a diferentes contextos ou estabelecer amizades compatíveis com seu nível de desenvolvimento.
Caixa explicativa 3 – Atenção compartilhada
A atenção compartilhada é a habilidade de dividir o foco de atenção com outra pessoa em relação a um objeto, evento ou experiência. Por exemplo, quando uma criança aponta para um avião no céu e olha para o adulto para compartilhar aquele interesse, ela está usando atenção compartilhada. Essa habilidade costuma estar reduzida em muitas crianças com TEA e é um alvo importante de intervenção precoce.
Fonte: Adaptado de Dawson et al. (2010) e Hyman, Levy e Myers (2020).
Domínio B: Padrões Restritos e Repetitivos de Comportamento
O segundo domínio diagnóstico envolve padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Para o diagnóstico, devem estar presentes pelo menos duas manifestações desse domínio. Elas podem incluir movimentos motores repetitivos, uso repetitivo de objetos, fala repetitiva, insistência em rotinas, interesses altamente restritos e alterações sensoriais.
Os movimentos motores repetitivos podem incluir balançar o corpo, agitar as mãos, girar objetos ou alinhar brinquedos. A fala repetitiva pode aparecer como ecolalia imediata ou tardia. É importante compreender que esses comportamentos podem exercer diferentes funções, como autorregulação, busca sensorial, previsibilidade ou comunicação.
A insistência em rotinas é outro aspecto frequente. Alterações inesperadas na rotina podem gerar sofrimento, ansiedade, irritabilidade ou comportamentos de oposição. Do ponto de vista comportamental, a previsibilidade pode funcionar como uma forma de organização diante de ambientes percebidos como complexos ou imprevisíveis.
Os interesses restritos podem envolver temas, objetos ou atividades específicas, recebendo atenção intensa e prolongada. Esses interesses não devem ser vistos apenas como sintomas a serem eliminados. Em muitos casos, podem ser utilizados como ponto de partida para ensino, vínculo, motivação e ampliação de repertórios.
Alterações Sensoriais no TEA
Uma contribuição importante do DSM-5 foi incluir as alterações sensoriais entre os critérios diagnósticos do TEA. Muitas pessoas autistas apresentam hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais. Isso pode envolver sons, luzes, texturas, cheiros, temperaturas, dor, movimento ou estímulos vestibulares e proprioceptivos.
A hipersensibilidade pode fazer com que sons cotidianos, como liquidificador, secador, descarga ou campainha, sejam percebidos como extremamente desconfortáveis. A hipossensibilidade pode levar a pessoa a buscar estímulos intensos, como pular, girar, apertar objetos ou tocar superfícies repetidamente.
Na ABA, essas características devem ser consideradas durante a avaliação funcional e o planejamento ambiental. Um comportamento de fuga, por exemplo, pode estar relacionado a uma demanda difícil, mas também pode estar relacionado a um estímulo sensorial aversivo presente no ambiente.
Caixa explicativa 4 – Atenção clínica às questões sensoriais
Nem todo comportamento de fuga, recusa ou irritabilidade deve ser interpretado como oposição. Em muitas situações, a criança pode estar tentando escapar de um estímulo sensorial intenso ou desorganizador. Avaliar o ambiente é parte essencial de uma intervenção ética e funcional.
Fonte: Adaptado de American Psychiatric Association (2022) e Lord et al. (2020).
Níveis de Suporte no TEA
O DSM-5-TR descreve três níveis de suporte para o Transtorno do Espectro Autista. O nível 1 indica necessidade de suporte; o nível 2 indica necessidade de suporte substancial; e o nível 3 indica necessidade de suporte muito substancial. Essa classificação busca descrever a intensidade de apoio necessária, principalmente nas áreas de comunicação social e padrões restritos e repetitivos de comportamento.
É fundamental destacar que os níveis de suporte não definem o valor, a inteligência, a personalidade ou o futuro da pessoa. Eles indicam uma necessidade funcional em determinado momento da vida. Uma criança pode necessitar de suporte substancial em comunicação, mas apresentar boas habilidades cognitivas. Outra pode necessitar de suporte intenso em autonomia, mas demonstrar grande capacidade de aprendizagem quando recebe ensino estruturado.
Na prática da ABA, os níveis de suporte ajudam a estimar a intensidade dos serviços, a frequência das intervenções, a necessidade de mediação em ambientes naturais e o tipo de adaptação que será necessária para favorecer aprendizagem, autonomia e participação social.
Instrumentos Utilizados na Avaliação Diagnóstica
Embora o diagnóstico do TEA seja clínico, existem instrumentos padronizados que auxiliam o processo avaliativo. Esses instrumentos não substituem o julgamento clínico, mas fornecem informações estruturadas sobre comunicação, interação social, comportamento, desenvolvimento e funcionamento adaptativo.
Entre os instrumentos mais utilizados internacionalmente estão o ADOS-2, considerado uma avaliação observacional padronizada; o ADI-R, entrevista estruturada realizada com familiares; a CARS-2, escala de avaliação do autismo infantil; o M-CHAT-R/F, instrumento de rastreio para crianças pequenas; e escalas adaptativas como a Vineland-3.
Na avaliação comportamental, além dos instrumentos diagnósticos, é indispensável realizar análise funcional, levantamento de repertórios, avaliação de preferência, observação em ambiente natural e entrevistas com cuidadores e professores. Esse conjunto de informações permite construir um plano de intervenção coerente com as necessidades reais da criança.
Prevalência do Transtorno do Espectro Autista
A prevalência do TEA aumentou significativamente nas últimas décadas. O relatório mais recente do Centers for Disease Control and Prevention, publicado em 2025, indicou prevalência de 32,2 casos para cada 1.000 crianças de 8 anos, o que corresponde aproximadamente a 1 criança com TEA para cada 31 crianças avaliadas nos Estados Unidos.
Esse dado não deve ser interpretado de forma simplista como uma epidemia. O aumento da prevalência pode estar relacionado a múltiplos fatores, incluindo ampliação dos critérios diagnósticos, maior conscientização das famílias, melhor formação dos profissionais, aumento das estratégias de rastreamento, maior acesso aos serviços especializados e mudanças nos sistemas educacionais e de saúde.
No Brasil, ainda há limitações importantes nos dados epidemiológicos nacionais. A ausência de um sistema amplo e contínuo de vigilância dificulta estimativas precisas. No entanto, considerando as tendências internacionais, é provável que o número de pessoas com TEA seja significativo e demande políticas públicas organizadas, formação profissional e ampliação do acesso a serviços especializados.
Outro aspecto importante é a diferença histórica entre diagnósticos em meninos e meninas. Tradicionalmente, o TEA é mais diagnosticado em meninos. No entanto, pesquisas recentes indicam que meninas podem estar subdiagnosticadas, especialmente quando apresentam linguagem preservada, melhores estratégias de camuflagem social ou interesses restritos socialmente mais aceitos.
Caixa explicativa 5 – O aumento da prevalência significa aumento real do autismo?
O aumento dos diagnósticos de TEA pode refletir, em grande parte, mudanças nos critérios diagnósticos, maior conscientização social, melhor rastreamento, maior acesso à avaliação e reconhecimento de casos antes não identificados. Isso não exclui a necessidade de pesquisas sobre fatores genéticos e ambientais, mas exige cuidado para evitar conclusões simplistas.
Fonte: Adaptado de Shaw et al. (2025) e Lord et al. (2020).
Tabela 1 – Conceitos Centrais dos Critérios Diagnósticos
| Conceito | Definição | Aplicação Prática |
|---|---|---|
| Comunicação social | Déficits persistentes na reciprocidade social, comunicação não verbal e desenvolvimento de relacionamentos. | Planejamento de programas de comunicação funcional, atenção compartilhada e habilidades sociais. |
| Padrões restritos e repetitivos | Comportamentos repetitivos, rigidez, interesses restritos e insistência em rotinas. | Avaliação funcional, ensino de flexibilidade e ampliação de repertórios. |
| Alterações sensoriais | Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais do ambiente. | Adaptação ambiental, prevenção de crises e planejamento de estratégias de autorregulação. |
| Níveis de suporte | Classificação da intensidade de apoio necessária para o funcionamento da pessoa. | Definição da intensidade da intervenção, frequência de atendimentos e suporte em ambientes naturais. |
Fonte: Adaptado de American Psychiatric Association (2022), Hyman, Levy e Myers (2020) e Lord et al. (2020).
Tabela 2 – Exemplos Clínicos, Comportamentos Observáveis e Estratégias de Intervenção
| Exemplo Clínico | Comportamento Observável | Implicação Prática | Estratégia de Intervenção |
|---|---|---|---|
| Dificuldade de interação social | A criança não inicia brincadeiras com pares e evita atividades coletivas. | Redução das oportunidades de aprendizagem social. | Treino de habilidades sociais, ensino por pares e reforçamento de aproximações sociais. |
| Comunicação funcional limitada | A criança chora ou puxa o adulto em vez de pedir o que deseja. | Aumento de frustração e dependência do adulto. | Treino de comunicação funcional, ensino de mandos e uso de comunicação alternativa quando necessário. |
| Rigidez comportamental | A criança apresenta crise quando a rotina é modificada. | Dificuldade de adaptação a contextos naturais. | Ensino gradual de tolerância, uso de previsibilidade visual e reforçamento diferencial. |
| Hipersensibilidade auditiva | A criança tapa os ouvidos e foge de ambientes com sons intensos. | Evitação de ambientes escolares, sociais e familiares. | Adaptação ambiental, análise de antecedentes e construção gradual de tolerância. |
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Schreibman et al. (2015) e Hyman, Levy e Myers (2020).
Estudo de Caso
Ana, 4 anos, foi encaminhada para avaliação após observações realizadas pela escola e pela família. Segundo os professores, Ana raramente participa de brincadeiras em grupo, apresenta preferência por atividades solitárias e demonstra dificuldade em responder quando colegas tentam interagir. Durante a roda de conversa, costuma permanecer afastada, manipular objetos repetidamente e apresentar pouco interesse pelas falas dos colegas.
Os pais relatam que Ana começou a falar algumas palavras por volta dos 2 anos, mas sua linguagem ainda é limitada para a idade. Frequentemente repete frases de desenhos animados, utiliza poucas palavras para pedir ajuda e, quando deseja algo, costuma puxar a mão do adulto até o objeto. Também apresenta forte resistência a mudanças na rotina, especialmente quando precisa sair de casa por caminhos diferentes ou quando há alteração nos horários habituais.
Outro aspecto observado pela família é a sensibilidade a sons altos. Ana tapa os ouvidos diante do barulho do liquidificador, do secador de cabelo e de festas com música alta. Em algumas situações, chora intensamente e tenta sair do ambiente. Na avaliação clínica, observou-se contato visual reduzido, baixa reciprocidade social, dificuldade em compartilhar atenção, ecolalia, interesse restrito por determinados personagens e resistência a transições entre atividades.
Do ponto de vista comportamental, o caso de Ana exige uma avaliação ampla. Não basta identificar os sinais diagnósticos. É necessário compreender quais habilidades estão presentes, quais repertórios precisam ser ensinados, quais comportamentos interferem na aprendizagem e quais condições ambientais favorecem ou dificultam sua participação.
Questões reflexivas
- Quais critérios diagnósticos do DSM-5-TR estão presentes no caso de Ana?
- Quais comportamentos indicam déficits na comunicação social e na interação social?
- Quais comportamentos indicam padrões restritos e repetitivos?
- Há sinais de alterações sensoriais? Quais?
- Quais seriam prioridades iniciais para um programa de intervenção em ABA?
- Por que o diagnóstico, sozinho, não é suficiente para planejar a intervenção?
Gabarito comentado
Na primeira questão, observa-se que Ana apresenta características compatíveis com os dois grandes domínios diagnósticos do TEA. No domínio da comunicação social, há dificuldades de interação com pares, contato visual reduzido, baixa reciprocidade social e dificuldade em compartilhar atenção. No domínio dos padrões restritos e repetitivos, há ecolalia, resistência a mudanças, interesses restritos e comportamentos repetitivos com objetos.
Na segunda questão, os comportamentos que indicam déficits na comunicação social incluem a pouca participação em brincadeiras coletivas, a dificuldade em responder às tentativas de interação dos colegas, o uso limitado da linguagem funcional e a tendência de puxar a mão do adulto em vez de realizar pedidos verbais ou alternativos. Esses comportamentos mostram dificuldades tanto na comunicação expressiva quanto na reciprocidade social.
Na terceira questão, os padrões restritos e repetitivos aparecem na repetição de frases de desenhos animados, no interesse restrito por personagens específicos, na manipulação repetitiva de objetos e na resistência intensa a mudanças de rotina. Esses comportamentos devem ser analisados funcionalmente, pois podem estar relacionados a previsibilidade, autorregulação, acesso a reforçadores ou fuga de situações aversivas.
Na quarta questão, há sinais claros de alteração sensorial, especialmente hipersensibilidade auditiva. Ana reage intensamente a sons como liquidificador, secador de cabelo e música alta. Essa informação é clinicamente relevante, pois pode explicar comportamentos de fuga, choro ou recusa em determinados ambientes.
Na quinta questão, as prioridades iniciais para uma intervenção em ABA poderiam incluir ensino de comunicação funcional, ampliação da atenção compartilhada, treino de habilidades sociais iniciais, ensino de tolerância a mudanças, adaptação ambiental e orientação familiar. Também seria importante realizar avaliação de preferência, avaliação funcional e levantamento de repertórios de linguagem, imitação, brincar, autonomia e habilidades acadêmicas iniciais.
Na sexta questão, o diagnóstico não é suficiente porque duas crianças com TEA podem apresentar necessidades completamente diferentes. Uma pode precisar de ensino intensivo de comunicação alternativa, enquanto outra pode precisar de suporte para flexibilidade social e autonomia. Por isso, a intervenção deve ser planejada a partir de avaliação individualizada, dados objetivos e acompanhamento contínuo.
Encerramento da aula
Nesta aula, estudamos os critérios diagnósticos do Transtorno do Espectro Autista segundo o DSM-5-TR, compreendendo que o diagnóstico envolve déficits persistentes na comunicação social e na interação social, associados a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Também discutimos a importância das alterações sensoriais, dos níveis de suporte e dos instrumentos utilizados no processo avaliativo.
Compreendemos que o aumento da prevalência do TEA deve ser analisado com cuidado, considerando fatores como maior conscientização, ampliação dos critérios diagnósticos, melhoria dos sistemas de rastreio e maior acesso à avaliação especializada. Também destacamos a importância de reconhecer diferentes formas de apresentação clínica, incluindo o possível subdiagnóstico em meninas.
Para a ABA, os critérios diagnósticos são importantes, mas não substituem a avaliação comportamental individualizada. O profissional precisa olhar para a pessoa, seus contextos, suas habilidades, suas necessidades de suporte, suas barreiras de aprendizagem e suas possibilidades de desenvolvimento.
Na próxima aula, aprofundaremos os níveis de suporte no Transtorno do Espectro Autista, discutindo suas implicações práticas para avaliação, planejamento terapêutico, intensidade da intervenção e organização de programas baseados em evidências.
Referências Bibliográficas
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