Aula 09 – Desenvolvimento de Habilidades de Comunicação na Intervenção Precoce
O desenvolvimento da comunicação é um dos eixos centrais da intervenção precoce no Transtorno do Espectro Autista. Não se trata apenas de ensinar a criança a falar, mas de ensinar a criança a se comunicar de forma funcional, ou seja, expressar necessidades, desejos, emoções, desconfortos e interagir com o outro de maneira significativa.
Na prática clínica, uma das principais dificuldades observadas em crianças com TEA é justamente a ausência ou limitação da comunicação funcional. Muitas vezes, a criança não aponta, não solicita, não responde ao nome e não utiliza gestos ou vocalizações com intenção comunicativa clara. Diante disso, comportamentos como choro, grito, fuga, agressividade ou resistência podem passar a ocupar o lugar da comunicação.
Por isso, o ensino de comunicação funcional não é apenas uma habilidade a mais dentro do programa terapêutico. Ele é uma intervenção estruturante. Ao ensinar a criança a se comunicar, reduzimos comportamentos disruptivos, ampliamos a interação social, favorecemos o vínculo com os adultos e criamos base para o desenvolvimento de outras habilidades, como brincar funcional, imitação, atenção compartilhada, autonomia e aprendizagem.
Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula
Comunicação funcional é toda resposta que permite à criança expressar uma necessidade, fazer uma escolha, recusar algo, pedir ajuda, solicitar continuidade ou interagir com o outro. Na intervenção precoce, o foco inicial não deve ser apenas a fala, mas a função comunicativa.
Fonte: Adaptado de Skinner (1957), Sundberg (2008), Rogers e Dawson (2010), Cooper, Heron e Heward (2020) e Hume et al. (2021).
Comunicação funcional: conceito e importância
Comunicação funcional é qualquer forma de comportamento que permite à criança acessar algo, recusar algo, pedir ajuda, chamar atenção, compartilhar interesse ou interagir com o ambiente de maneira eficaz. Isso pode incluir gestos, apontar, troca de figuras, olhar direcionado, aproximação, vocalizações, palavras e frases.
O foco inicial não deve ser apenas a forma da comunicação, mas sua função. Uma criança que aponta para pedir algo está se comunicando de forma mais funcional do que uma criança que repete palavras sem intenção comunicativa. Por isso, a intervenção precisa avaliar se a resposta da criança produz efeito no ambiente e se ela compreende que pode influenciar o outro por meio da comunicação.
Na intervenção precoce, muitas crianças ainda não possuem repertório verbal suficiente para falar. Nesses casos, insistir exclusivamente na fala pode gerar frustração e aumentar comportamentos disruptivos. O caminho mais adequado é construir uma ponte comunicativa, começando por respostas mais acessíveis e avançando gradualmente para formas mais complexas de comunicação.
Tabela 1 – Tipos de comunicação funcional
| Tipo | Exemplo | Função | Benefício Clínico |
|---|---|---|---|
| Gestual | Apontar, estender a mão, entregar um objeto ao adulto. | Solicitar, pedir ajuda ou indicar interesse. | Facilita o início da comunicação antes da fala. |
| Visual | Troca de figuras, cartões de escolha ou prancha visual. | Pedir, escolher, recusar ou antecipar rotina. | Reduz frustração e amplia previsibilidade. |
| Vocal | Vocalizações com intenção, sons aproximados ou sílabas. | Interagir, pedir continuidade ou chamar o adulto. | Prepara o caminho para respostas verbais mais elaboradas. |
| Verbal | Palavras, frases simples e combinações verbais. | Comunicação mais complexa e socialmente ampla. | Aumenta autonomia, interação e participação social. |
Fonte: Adaptado de Skinner (1957), Sundberg (2008), Bondy e Frost (2001), Cooper, Heron e Heward (2020) e Hume et al. (2021).
Relação entre comunicação e comportamento
Muitos comportamentos considerados inadequados são, na verdade, tentativas de comunicação. Quando a criança não possui repertório comunicativo, ela utiliza o que tem disponível. Isso inclui chorar, gritar, fugir, empurrar, se jogar no chão, puxar a mão do adulto ou resistir a uma atividade.
Do ponto de vista da análise do comportamento, esses comportamentos possuem função. Geralmente estão relacionados ao acesso a itens desejados, fuga de demandas, busca de atenção ou tentativa de evitar situações aversivas. Assim, o comportamento não deve ser visto apenas pela sua forma, mas pelo efeito que produz no ambiente.
Portanto, ao invés de apenas tentar reduzir o comportamento disruptivo, é necessário ensinar uma forma alternativa de comunicação que cumpra a mesma função. Se a criança chora para pedir água, a meta não é apenas fazer o choro desaparecer. A meta é ensinar uma resposta funcional para pedir água, seja por gesto, figura, vocalização ou palavra.
Caixa explicativa 2 – Comportamento também comunica
Quando uma criança não sabe pedir, recusar ou solicitar ajuda, comportamentos como choro, fuga ou grito podem passar a funcionar como comunicação. A intervenção precisa ensinar uma resposta alternativa mais eficiente, e não apenas tentar eliminar o comportamento.
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Hanley (2012), Cooper, Heron e Heward (2020) e Hume et al. (2021).
Tabela 2 – Comunicação e comportamento
| Comportamento Observado | Possível Função | Alternativa Funcional | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Choro diante de objeto desejado. | Pedir algo ou recuperar acesso. | Apontar, entregar figura, vocalizar ou pedir com palavra. | Redução do choro e aumento de pedidos adequados. |
| Fuga de uma atividade. | Evitar demanda difícil ou desconfortável. | Pedir ajuda, pedir pausa ou solicitar “mais fácil”. | Maior tolerância e participação na tarefa. |
| Grito para chamar adulto. | Buscar atenção. | Chamar pelo nome, tocar no adulto ou usar cartão de atenção. | Interação mais funcional e socialmente adequada. |
| Puxar a mão do adulto. | Levar o adulto até algo desejado. | Apontar, mostrar, entregar figura ou vocalizar pedido. | Maior clareza comunicativa e menor dependência física. |
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Sundberg (2008), Hanley (2012), Cooper, Heron e Heward (2020) e Hume et al. (2021).
Estratégias para desenvolvimento da comunicação
O ensino da comunicação deve ser estruturado, mas também naturalístico. Isso significa que o profissional precisa planejar metas claras, mas utilizar situações reais, motivadoras e significativas para a criança. A comunicação deve surgir de uma necessidade real, e não apenas de uma exigência artificial.
Uma das estratégias fundamentais é criar oportunidades de comunicação. Para isso, o adulto pode colocar um item desejado à vista, mas fora do alcance; entregar um pote fechado; fazer uma pausa em uma música preferida; interromper uma brincadeira de forma breve; ou oferecer escolhas entre dois itens. Essas situações convidam a criança a se comunicar.
Outra estratégia importante é esperar a iniciativa da criança. Muitos adultos antecipam todas as necessidades, entregando objetos antes que a criança precise solicitar. Embora essa atitude seja compreensível, ela reduz oportunidades de comunicação. Esperar alguns segundos, observar sinais de interesse e reforçar qualquer tentativa comunicativa são atitudes essenciais.
A modelagem também é indispensável. O adulto demonstra a resposta esperada, oferecendo um modelo acessível à criança. Esse modelo pode ser gestual, visual, vocal ou verbal. Em seguida, utiliza ajuda quando necessário e reforça imediatamente a tentativa comunicativa.
O reforçamento imediato é um dos pontos mais importantes. Quando a criança tenta se comunicar, a consequência precisa ser rápida, clara e relacionada ao pedido. Se a criança aponta para bolhas de sabão, o reforço ideal é brincar com as bolhas, e não apenas elogiar. Isso torna a comunicação funcional e significativa.
Caixa explicativa 3 – A comunicação precisa valer a pena
A criança aprende a se comunicar quando percebe que sua resposta produz efeito no ambiente. Por isso, tentativas comunicativas devem ser reforçadas de forma imediata, natural e coerente com aquilo que a criança tentou expressar.
Fonte: Adaptado de Skinner (1957), Sundberg (2008), Rogers e Dawson (2010), Cooper, Heron e Heward (2020) e Hume et al. (2021).
Tabela 3 – Estratégias para ensinar comunicação funcional
| Estratégia | Como Aplicar | Exemplo Prático | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Criar oportunidades | Organizar situações em que a criança precise comunicar algo. | Deixar o brinquedo preferido visível, mas fora do alcance. | Aumento de pedidos espontâneos. |
| Esperar iniciativa | Dar tempo para a criança olhar, apontar, vocalizar ou se aproximar. | Pausar uma música e aguardar tentativa de pedido para continuar. | Maior participação ativa da criança. |
| Modelar respostas | Demonstrar a resposta esperada de forma simples e acessível. | Apontar para o objeto e dizer “quer” como modelo. | Aprendizagem por imitação e aproximação. |
| Reforçar imediatamente | Entregar a consequência relacionada à tentativa comunicativa. | A criança aponta para a bola e o adulto entrega a bola. | Fortalecimento da comunicação funcional. |
| Usar interesses da criança | Partir de objetos e atividades altamente motivadoras. | Ensinar pedidos durante bolhas, carrinhos, cócegas ou músicas. | Maior engajamento e menor resistência. |
Fonte: Adaptado de Sundberg (2008), Rogers e Dawson (2010), Bondy e Frost (2001), Cooper, Heron e Heward (2020) e Hume et al. (2021).
Estudo de caso clínico
Enzo, 2 anos e 6 meses, apresentava ausência de fala funcional e baixa interação social. A família relatava que ele chorava intensamente quando queria algo e não conseguia expressar suas necessidades de forma compreensível. Não apontava, não respondia ao nome de forma consistente e evitava contato visual em muitas situações de interação.
Durante a avaliação, observou-se que Enzo possuía interesse por brinquedos específicos, especialmente carrinhos, bolhas de sabão e músicas infantis. No entanto, não utilizava esse interesse para interagir. Pegava os objetos sozinho quando conseguia, puxava a mão do adulto ou chorava até que alguém o ajudasse.
A análise funcional indicou que o choro ocorria principalmente em situações de acesso a objetos desejados e em momentos em que Enzo não conseguia comunicar o que queria. A equipe compreendeu que o choro não era apenas um comportamento inadequado, mas uma forma pouco eficiente de comunicação, mantida pelas respostas do ambiente.
A intervenção iniciou com foco em comunicação funcional. O primeiro objetivo foi ensinar o gesto de apontar e aceitar ajuda para solicitar. Para isso, foram criadas situações em que o objeto desejado ficava visível, mas fora de alcance. O terapeuta aguardava uma tentativa de comunicação, oferecia ajuda física leve quando necessário e reforçava imediatamente qualquer aproximação funcional.
No início, Enzo chorava em vez de apontar. O terapeuta, então, utilizou ajuda física leve para guiar o gesto, reforçando imediatamente quando o comportamento ocorria. Gradualmente, a ajuda foi retirada, permitindo que Enzo emitisse respostas mais independentes.
Paralelamente, os pais foram treinados para aplicar as mesmas estratégias em casa. Foram orientados a não antecipar todas as necessidades da criança e a esperar tentativas de comunicação. Também aprenderam a organizar pequenas oportunidades durante alimentação, banho, brincadeiras e músicas com pausas.
Nas primeiras semanas, houve aumento do choro, pois esse comportamento deixou de ser reforçado automaticamente. Esse momento exigiu consistência dos adultos. A equipe orientou os pais a acolherem Enzo, mas manterem a exigência de uma tentativa comunicativa simples antes de entregar o item desejado.
Com a consistência da intervenção, Enzo começou a apontar para solicitar e, posteriormente, iniciou vocalizações com função comunicativa. Após três meses, observou-se avanço significativo: aumento da comunicação funcional, redução de comportamentos disruptivos e maior interação social. O foco na comunicação alterou toda a dinâmica comportamental da criança.
Esse caso demonstra que ensinar comunicação não é apenas desenvolver linguagem, mas reorganizar o comportamento da criança em relação ao ambiente. Quando a criança aprende que pode comunicar suas necessidades de forma funcional, ela passa a depender menos de respostas disruptivas e participa mais das interações.
Tabela 4 – Matriz de análise do caso Enzo
| Situação Observada | Análise Funcional | Estratégia Utilizada | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Choro para acessar brinquedos. | Comportamento mantido por acesso a itens desejados. | Ensino de apontar, vocalizar ou solicitar por figura. | Redução do choro e aumento de pedidos funcionais. |
| Ausência de apontar. | Déficit em comunicação gestual funcional. | Ajuda física leve, modelagem e reforço imediato. | Aquisição gradual de gesto comunicativo. |
| Pais antecipavam necessidades. | Redução de oportunidades de comunicação. | Treinamento parental para esperar e criar oportunidades. | Maior iniciativa comunicativa no ambiente natural. |
| Baixa interação social. | Pouca função social da comunicação. | Uso de brincadeiras motivadoras, músicas e bolhas com pausas. | Aumento de engajamento, olhar e turnos sociais. |
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Sundberg (2008), Rogers e Dawson (2010), Cooper, Heron e Heward (2020) e Hume et al. (2021).
Questões reflexivas
- Por que a comunicação funcional deve ser priorizada na intervenção precoce?
- Analise a relação entre ausência de comunicação e comportamentos disruptivos.
- Explique a importância de usar motivação no ensino da comunicação.
- Discuta o papel da família no desenvolvimento da comunicação.
- Por que o gesto pode ser mais importante que a fala no início da intervenção?
Gabarito comentado
Na primeira questão, o aluno deve explicar que a comunicação funcional deve ser priorizada porque reorganiza toda a dinâmica comportamental da criança. Quando uma criança não possui meios eficazes de se comunicar, ela recorre a comportamentos alternativos, como choro, grito, agressividade ou fuga. Ao ensinar comunicação funcional, substituímos um padrão comportamental por outro mais eficiente e socialmente adequado.
Na segunda questão, espera-se que o aluno analise que a ausência de comunicação funcional está diretamente relacionada ao aumento de comportamentos disruptivos. Quando a criança não consegue pedir, recusar ou solicitar ajuda, outros comportamentos assumem essa função. O problema não está apenas no comportamento em si, mas na ausência de repertório alternativo. Por isso, reduzir o comportamento sem ensinar comunicação costuma ser ineficaz.
Na terceira questão, o aluno deve explicar que a motivação é central no ensino da comunicação porque aumenta a probabilidade de emissão da resposta. Quando o ensino é baseado nos interesses da criança, ela tem uma razão concreta para se comunicar. A comunicação produz acesso ao reforçador, tornando o aprendizado mais rápido, consistente e funcional.
Na quarta questão, espera-se que o aluno discuta que a família exerce papel central no desenvolvimento da comunicação porque está presente nos momentos mais significativos da rotina da criança. Quando os pais aprendem a esperar, modelar respostas e reforçar tentativas comunicativas, aumentam significativamente as oportunidades de aprendizagem e favorecem a generalização.
Na quinta questão, o aluno deve explicar que, no início da intervenção, o foco principal deve ser a função comunicativa, e não apenas a fala. O gesto, como apontar ou estender a mão, pode ser mais acessível para muitas crianças e permite estabelecer rapidamente a relação entre comunicação e consequência. Ensinar gestos não limita a fala; ao contrário, constrói uma base para formas comunicativas mais complexas.
Fechamento didático
O desenvolvimento da comunicação é um dos elementos mais transformadores da intervenção precoce. Ao ensinar a criança a se comunicar, alteramos não apenas o comportamento, mas sua forma de se relacionar com o mundo.
Nesta aula, compreendemos que comunicação funcional não se limita à fala. Gestos, figuras, vocalizações, palavras e frases podem ser caminhos legítimos para que a criança expresse necessidades, faça escolhas, solicite ajuda, recuse algo e participe de interações sociais.
Na próxima aula, avançaremos para a avaliação contínua do progresso, compreendendo como monitorar e ajustar a intervenção ao longo do tempo.
Referências Bibliográficas
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Hume, K. et al. Evidence-based practices for children, youth, and young adults with autism: third generation review. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 51, n. 11, p. 4013-4032, 2021. DOI: 10.1007/s10803-020-04844-2. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10803-020-04844-2. Acesso em: 15 jun. 2026.
Rogers, S. J.; Dawson, G. Early start Denver model for young children with autism: promoting language, learning, and engagement. New York: Guilford Press, 2010. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.guilford.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Skinner, B. F. Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.bfskinner.org. Acesso em: 15 jun. 2026.
Sundberg, M. L. VB-MAPP: verbal behavior milestones assessment and placement program. Concord: AVB Press, 2008. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.vbmappapp.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
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