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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 2 – Acompanhamento Terapêutico em Ambiente Escolar

O acompanhamento terapêutico no ambiente escolar constitui uma das estratégias mais relevantes no campo da inclusão de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista. Sua atuação não deve ser compreendida como um suporte assistencial, uma vigilância constante ou uma simples presença ao lado do aluno, mas como uma intervenção planejada, técnica e aplicada diretamente no contexto natural onde o comportamento acontece.

Isso significa que o acompanhante terapêutico atua no espaço em que as demandas reais emergem, onde as dificuldades se manifestam de forma concreta e onde as aprendizagens precisam ser sustentadas ao longo do tempo. A escola é um ambiente vivo, dinâmico e socialmente complexo. Nela, o aluno precisa lidar com regras coletivas, interações com pares, instruções de professores, mudanças de rotina, estímulos sensoriais, exigências acadêmicas e desafios emocionais.

Diferentemente do ambiente clínico, que tende a ser mais estruturado, previsível e controlado, a escola é marcada por múltiplas interações, mudanças constantes e exigências simultâneas. É nesse cenário que a criança precisa responder a estímulos variados, adaptar-se a rotinas coletivas e sustentar comportamentos de aprendizagem. Portanto, compreender o funcionamento do aluno apenas dentro da clínica é insuficiente. É necessário observar e intervir no contexto onde a vida escolar acontece.

Um dos principais desafios no desenvolvimento de crianças com TEA está na generalização das habilidades. Muitas vezes, a criança apresenta bom desempenho em ambiente terapêutico, conseguindo executar tarefas, responder a comandos e demonstrar repertórios importantes. No entanto, ao ser inserida no ambiente escolar, essas mesmas habilidades não se mantêm. Isso ocorre porque o comportamento é funcionalmente dependente do contexto. Ou seja, ele está sob controle de estímulos específicos, que nem sempre estão presentes em outros ambientes.

A ausência de generalização não deve ser interpretada como incapacidade do aluno, mas como uma limitação do processo de ensino quando este não contempla a variabilidade dos contextos. É nesse ponto que o acompanhamento terapêutico assume um papel central. O AT atua como mediador entre os repertórios já adquiridos pela criança e as exigências do ambiente escolar, promovendo a transferência, a manutenção e o uso funcional das habilidades em situações reais.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

O acompanhante terapêutico escolar não deve substituir o aluno, responder por ele ou criar dependência. Sua função é mediar o ambiente, favorecer aprendizagem, apoiar a generalização de habilidades e retirar gradualmente os suportes para ampliar autonomia.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Baer, Wolf e Risley (1968), Hyman, Levy e Myers (2020), Leaf et al. (2016) e Wolf (1978).

A função do acompanhante terapêutico na escola

O acompanhante terapêutico no ambiente escolar atua como um mediador técnico entre o aluno, o ambiente, as demandas pedagógicas e as interações sociais. Sua função não é fazer as atividades pelo aluno, antecipar todas as respostas ou impedir qualquer dificuldade. Ao contrário, o objetivo central é criar condições para que o aluno desenvolva repertórios de autonomia, comunicação, participação e aprendizagem.

O AT também intervém em situações que não são facilmente reproduzidas em ambiente clínico, como interações espontâneas com colegas, conflitos sociais, mudanças inesperadas na rotina, transições entre espaços, participação em recreio, atividades coletivas e demandas pedagógicas simultâneas. Essas situações exigem respostas rápidas, ajustadas e contextualizadas, o que demanda conhecimento técnico e capacidade de leitura funcional do ambiente.

É importante destacar que o AT não atua isoladamente. Sua prática precisa estar articulada com a escola, a família e a equipe terapêutica. Quando o acompanhamento ocorre sem alinhamento, há risco de contradições, dependência excessiva, perda de objetivos funcionais e confusão sobre o papel de cada profissional.

Tabela 1 – Funções do acompanhante terapêutico em ambiente escolar

Função Descrição Exemplo prático Objetivo
Mediação da aprendizagem Apoiar o aluno na compreensão e execução das demandas escolares. Dividir uma atividade em etapas menores e oferecer pistas graduais. Favorecer participação e conclusão das tarefas.
Generalização de habilidades Ajudar o aluno a usar na escola habilidades aprendidas na clínica ou em casa. Ensinar o aluno a pedir ajuda ao professor, e não apenas ao terapeuta. Ampliar uso funcional das habilidades.
Promoção de autonomia Oferecer suporte apenas quando necessário e retirar ajuda progressivamente. Reduzir prompts verbais conforme o aluno inicia a tarefa sozinho. Evitar dependência do adulto.
Mediação social Favorecer interações adequadas com colegas e participação em grupos. Organizar uma atividade em dupla e reforçar tentativas de interação. Promover pertencimento e habilidades sociais.
Organização comportamental Apoiar o aluno em transições, rotinas, espera e permanência em atividades. Usar agenda visual para antecipar a próxima atividade. Reduzir ansiedade e aumentar previsibilidade.
Coleta de dados Registrar comportamentos e evolução para orientar decisões. Anotar frequência de pedidos de ajuda, fugas ou participação independente. Avaliar eficácia das intervenções.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Baer, Wolf e Risley (1968), Hyman, Levy e Myers (2020), Leaf et al. (2016) e Wolf (1978).

Formação necessária para o acompanhante terapêutico

A atuação do acompanhante terapêutico exige formação estruturada, sistemática e fundamentada em princípios científicos do comportamento. Não se trata de uma função intuitiva ou baseada apenas na experiência prática, mas de uma atuação que demanda conhecimento técnico consistente, especialmente no campo da Análise do Comportamento Aplicada.

Dentro dessa perspectiva, o AT precisa desenvolver uma leitura funcional do comportamento. Isso significa ir além da descrição superficial do que a criança faz e avançar na compreensão das variáveis que controlam esse comportamento. O profissional deve identificar antecedentes, condições ambientais, consequências e funções comportamentais.

Essa análise permite responder a perguntas fundamentais: por que o comportamento ocorre, o que o mantém e como ele pode ser modificado de forma ética e eficaz. A partir dessa leitura, o AT constrói intervenções individualizadas, considerando o repertório do aluno, seus déficits específicos, suas habilidades já adquiridas e os objetivos educacionais e terapêuticos definidos pela equipe.

A formação inclui o domínio de estratégias específicas, como reforçamento positivo, modelagem, encadeamento, ensino estruturado, comunicação funcional, manejo de antecedentes, prompts, fading e coleta de dados. Essas estratégias devem ser organizadas dentro de um plano de intervenção, com objetivos claros, critérios de avanço e acompanhamento contínuo.

Tabela 2 – Componentes essenciais da formação do acompanhante terapêutico

Componente Descrição Aplicação prática Risco quando ausente
Base teórica Conhecimento em análise do comportamento, desenvolvimento humano e aprendizagem. Compreender como comportamentos são aprendidos e mantidos. Intervenções baseadas em opinião ou senso comum.
Formação em ABA Domínio de princípios como reforçamento, extinção, modelagem e análise funcional. Planejar estratégias adequadas à função do comportamento. Reforçar comportamentos inadequados sem perceber.
Planejamento de intervenção Construção de programas individualizados com objetivos claros e mensuráveis. Definir metas de autonomia, comunicação e participação escolar. Atuação improvisada e sem direção clínica.
Coleta de dados Registro sistemático do comportamento para avaliação de progresso. Registrar frequência, duração, independência e necessidade de ajuda. Decisões baseadas em impressão subjetiva.
Ética profissional Atuação responsável, respeitando limites, sigilo, função e autonomia do aluno. Atuar com discrição, consentimento e respeito à dignidade. Exposição, dependência ou violação de direitos.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Behavior Analyst Certification Board (2022), Slocum et al. (2014), Hyman, Levy e Myers (2020) e Wolf (1978).

Competências técnicas desenvolvidas na formação do AT

Além dos aspectos teóricos, a formação do acompanhante terapêutico envolve o desenvolvimento de habilidades clínicas importantes. Entre elas, destacam-se a capacidade de observação sistemática, o controle emocional diante de situações desafiadoras, a habilidade de intervir sem interromper o fluxo natural do ambiente escolar e a capacidade de trabalhar em equipe.

O AT precisa atuar com discrição, precisão e intencionalidade. Sua presença não deve chamar mais atenção do que o próprio processo de inclusão. Em muitos momentos, a melhor intervenção é reduzir a ajuda, aproximar o aluno do professor, favorecer interação com colegas e evitar que a criança se torne dependente de um único adulto.

Tabela 3 – Competências técnicas do acompanhante terapêutico

Competência Aplicação prática Benefício para o aluno Cuidado ético
Análise funcional Identificar a função do comportamento e planejar intervenções adequadas. Reduz respostas inadequadas e ensina alternativas funcionais. Não punir sem compreender a função do comportamento.
Observação sistemática Registrar comportamentos de forma objetiva e consistente. Permite acompanhar evolução real. Evitar registros subjetivos ou julgamentos pessoais.
Manejo comportamental Intervir em situações de crise, fuga ou desorganização. Promove segurança e autorregulação. Priorizar estratégias menos intrusivas.
Ensino estruturado Organizar atividades em etapas claras e previsíveis. Facilita compreensão e participação. Evitar excesso de controle e rigidez.
Promoção de autonomia Reduzir suporte gradualmente, favorecendo independência. Aumenta participação funcional. Evitar dependência do adulto.
Comunicação com equipe Alinhar estratégias com professor, família e supervisão. Garante continuidade e coerência nas intervenções. Preservar sigilo e limites profissionais.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Behavior Analyst Certification Board (2022), Hanley (2012), Slocum et al. (2014) e Wolf (1978).

Caixa explicativa 2 – Suporte não é dependência

O suporte do AT deve ser planejado para diminuir ao longo do tempo. Quando o profissional permanece como único mediador de todas as respostas do aluno, há risco de dependência. A intervenção ética busca autonomia progressiva.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Wolf (1978), Van Houten et al. (1988) e Behavior Analyst Certification Board (2022).

Formação prática e supervisão

A formação teórica, por si só, não é suficiente para preparar o profissional para a complexidade da prática escolar. A prática supervisionada é uma etapa essencial, pois é nesse momento que o conhecimento passa a ser aplicado em situações reais.

Durante a supervisão, o profissional aprende a observar comportamentos em tempo real, identificar suas funções e escolher estratégias adequadas para cada situação. Além disso, desenvolve habilidades de manejo, aprende a lidar com variáveis inesperadas e constrói uma postura profissional alinhada com a ética da intervenção.

Outro ponto importante é que a formação do AT é progressiva. Muitos profissionais iniciam sua trajetória ainda na graduação, especialmente em cursos como psicologia, pedagogia, terapia ocupacional, fonoaudiologia ou áreas afins. No entanto, essa entrada no campo exige cuidado com a supervisão, pois a atuação sem orientação pode comprometer tanto o desenvolvimento do aluno quanto a formação do próprio profissional.

Tabela 4 – Etapas da formação prática do AT

Etapa Objetivo Exemplo de atividade Resultado esperado
Observação Desenvolver olhar técnico para identificação de padrões comportamentais. Observar antecedente, comportamento e consequência em sala de aula. Compreender função e contexto do comportamento.
Intervenção supervisionada Aplicar estratégias com acompanhamento de profissional experiente. Usar prompts, reforçamento e rotina visual com orientação do supervisor. Ganhar precisão técnica e segurança clínica.
Feedback clínico Ajustar a prática com base em análise técnica. Rever vídeos, registros e decisões tomadas em sessão. Corrigir falhas e aprimorar intervenção.
Autonomia progressiva Ampliar independência mantendo qualidade e responsabilidade clínica. Conduzir intervenções com menor necessidade de orientação direta. Atuar com competência e responsabilidade.

Fonte: Adaptado de Behavior Analyst Certification Board (2022), Cooper, Heron e Heward (2020), Slocum et al. (2014) e Hyman, Levy e Myers (2020).

Aspectos legais dos cursos livres para formação de AT

No Brasil, a formação para atuação como acompanhante terapêutico, especialmente quando ofertada na modalidade de curso livre, deve ser compreendida dentro do campo da formação inicial, continuada ou qualificação profissional. A legislação educacional brasileira permite a oferta de cursos livres por pessoas físicas ou jurídicas, desde que esses cursos não sejam apresentados como graduação, curso técnico reconhecido ou especialização lato sensu autorizada pelo Ministério da Educação.

A base legal mais utilizada para justificar cursos livres está na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394/1996. O artigo 42 prevê que as instituições de educação profissional e tecnológica, além dos cursos regulares, podem oferecer cursos especiais abertos à comunidade, condicionados à capacidade de aproveitamento do aluno, sem exigência obrigatória de escolaridade formal anterior.

Além disso, o Decreto nº 5.154/2004 organiza a educação profissional e prevê cursos e programas de formação inicial e continuada de trabalhadores. O artigo 3º inclui capacitação, aperfeiçoamento, especialização e atualização em todos os níveis de escolaridade, com o objetivo de desenvolver aptidões para a vida produtiva e social.

Dessa forma, um curso livre de formação em acompanhante terapêutico ou assistente terapêutico ABA pode ser ofertado como capacitação profissional, atualização ou formação inicial e continuada. No entanto, é fundamental esclarecer que esse tipo de curso não regulamenta uma profissão por si só, nem substitui graduação em psicologia, pedagogia, terapia ocupacional, fonoaudiologia ou áreas correlatas.

No caso do AT em ambiente escolar, essa distinção é ainda mais importante. O curso livre pode formar o aluno em fundamentos da ABA, coleta de dados, análise funcional, reforçamento, modelagem, encadeamento, comunicação funcional, manejo de comportamento e ética profissional. Entretanto, a atuação prática deve ocorrer preferencialmente sob supervisão de profissional habilitado, sobretudo quando envolver planejamento terapêutico, tomada de decisão clínica ou intervenção com comportamentos complexos.

Tabela 5 – Curso livre, formação e limites de atuação

Aspecto Descrição Cuidado necessário
Curso livre Modalidade de capacitação, atualização ou formação inicial e continuada. Não deve ser divulgado como graduação, curso técnico reconhecido ou pós-graduação.
Certificado Pode informar carga horária, conteúdo programático, instituição, aluno e responsável. Não declarar reconhecimento do MEC quando não se aplicar.
Atuação prática Pode capacitar para apoio supervisionado em contextos clínicos, escolares e domiciliares. Respeitar limites éticos e técnicos da função.
Supervisão Essencial para segurança, qualidade e tomada de decisão adequada. Não assumir casos complexos sem orientação especializada.

Fonte: Adaptado de Brasil (1996), Brasil (2004), Behavior Analyst Certification Board (2022), Cooper, Heron e Heward (2020) e Slocum et al. (2014).

Caixa explicativa 3 – Curso livre e transparência

Cursos livres podem ser importantes para capacitação profissional, mas devem ser apresentados com clareza. Eles não substituem graduação, não regulamentam profissão e não devem prometer habilitação inexistente. A atuação ética exige formação, supervisão e respeito aos limites profissionais.

Fonte: Adaptado de Brasil (1996), Brasil (2004), Behavior Analyst Certification Board (2022) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Estudo de caso

Lucas, 8 anos, diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista nível 2, frequentava o 3º ano do ensino fundamental em uma escola regular. Apresentava repertório cognitivo preservado para sua faixa etária, especialmente em atividades estruturadas e com apoio direto, porém demonstrava dificuldades significativas no funcionamento escolar cotidiano, principalmente relacionadas à autonomia, iniciação de tarefas e interação social.

Em sala de aula, Lucas dependia constantemente da mediação de adultos para iniciar qualquer atividade. Diante de demandas pedagógicas, frequentemente verbalizava “não sei”, evitava contato com o material ou levantava-se da cadeira, circulando pela sala sem objetivo claro. Esse padrão comportamental ocorria com maior frequência em atividades que exigiam maior esforço cognitivo, organização ou tempo prolongado de atenção.

Além disso, Lucas apresentava baixo engajamento social. Evitava interações com colegas, não participava espontaneamente de atividades em grupo e, quando inserido nessas situações, demonstrava comportamento de retraimento ou afastamento. Durante momentos como recreio ou trabalhos coletivos, tendia a permanecer isolado ou buscar proximidade apenas com adultos.

Antes da inserção do acompanhamento terapêutico, a equipe escolar interpretava esses comportamentos como falta de interesse, desmotivação ou oposição. Essa leitura, embora comum, desconsiderava a função do comportamento e levava a intervenções pouco eficazes, baseadas em repetição de comandos ou aumento da exigência, o que frequentemente resultava em maior evasão das tarefas.

A partir da entrada do AT, foi realizada uma avaliação funcional mais detalhada. Observou-se que o comportamento de evitação estava relacionado principalmente a duas variáveis: dificuldade em iniciar tarefas de forma independente e medo de errar diante de demandas percebidas como complexas. O comportamento de dizer “não sei” funcionava como uma resposta de esquiva, que frequentemente resultava na retirada da demanda ou no aumento do suporte do adulto, reforçando esse padrão ao longo do tempo.

Com base nessa análise, foi estruturado um plano de intervenção. Inicialmente, o foco foi reduzir a exigência de início independente, oferecendo suporte graduado. As atividades passaram a ser organizadas em etapas menores, com instruções claras e objetivas. O AT utilizou prompts no início das tarefas, garantindo que Lucas conseguisse dar o primeiro passo, reduzindo a probabilidade de evasão.

Paralelamente, foi implementado um sistema de reforçamento positivo, no qual pequenas respostas de aproximação, como iniciar uma tarefa ou permanecer sentado por determinado tempo, eram imediatamente reforçadas. Isso aumentou a probabilidade de engajamento e começou a modificar o padrão comportamental de esquiva.

Outro eixo importante da intervenção foi o ensino de respostas alternativas. Lucas foi ensinado a pedir ajuda de forma funcional, substituindo o “não sei” por comportamentos mais adequados, como levantar a mão ou solicitar apoio verbalmente. Essa mudança foi fundamental, pois manteve a função do comportamento, obter ajuda, mas com uma forma mais adaptativa.

Simultaneamente, o AT realizou orientação direta com a professora. Foram ajustadas as formas de instrução, priorizando comandos mais curtos, objetivos e acompanhados de pistas visuais quando necessário. Também foi trabalhado o conceito de suporte inicial com retirada gradual, evitando tanto a superproteção quanto a exigência excessiva.

No campo social, o AT iniciou intervenções discretas de mediação, incentivando interações simples com colegas, como compartilhar materiais, responder a perguntas ou participar de pequenas atividades em dupla. Essas interações eram planejadas e reforçadas, respeitando o ritmo de Lucas.

Com o avanço da intervenção, Lucas começou a apresentar mudanças significativas. Passou a iniciar atividades com menor necessidade de ajuda, aumentou o tempo de permanência nas tarefas e reduziu comportamentos de fuga. No aspecto social, passou a tolerar melhor a proximidade dos colegas e, gradualmente, iniciou interações simples.

Diante desse progresso, foi iniciado o processo de fading, ou retirada gradual dos suportes. O AT reduziu progressivamente a quantidade de ajuda oferecida, permitindo que Lucas assumisse maior controle sobre suas ações. Esse processo foi conduzido de forma cuidadosa, garantindo que a autonomia fosse construída sem gerar novas situações de frustração.

Tabela 6 – Análise do estudo de caso de Lucas

Situação observada Interpretação inicial Análise funcional Intervenção do AT
Dizia “não sei” diante de tarefas Falta de interesse. Resposta de esquiva diante de tarefas difíceis. Ensino de pedido funcional de ajuda.
Levantava-se e circulava pela sala Oposição ou desobediência. Fuga de demandas prolongadas. Divisão da tarefa em etapas e reforço de permanência.
Dependia do adulto para iniciar tarefas Incapacidade ou preguiça. Ausência de repertório de iniciação independente. Prompts graduados e fading.
Evitava colegas Desinteresse social. Baixo repertório de interação e insegurança social. Mediação de interações simples e reforçamento social.
Buscava proximidade apenas com adultos Preferência fixa por adultos. Histórico de maior previsibilidade e ajuda com adultos. Transferência gradual de apoio para professor e pares.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley (2012), Hyman, Levy e Myers (2020), Leaf et al. (2016), Slocum et al. (2014) e Wolf (1978).

Questões reflexivas

  1. Explique por que a formação técnica é indispensável para o trabalho do acompanhante terapêutico no ambiente escolar.
  2. Analise o papel da supervisão na formação do acompanhante terapêutico.
  3. Discuta a importância da coleta de dados na atuação do AT.
  4. Explique por que o AT não deve substituir o aluno nas tarefas escolares.
  5. A partir do caso de Lucas, explique como o AT contribuiu para a autonomia e a inclusão escolar.

Gabarito comentado

Na primeira questão, a formação técnica é indispensável porque o AT atua diretamente sobre comportamentos complexos, em ambiente natural e com múltiplas variáveis. Sem formação em princípios da aprendizagem, análise funcional, reforçamento, coleta de dados e ética, há risco de intervenções improvisadas, inconsistentes ou até prejudiciais ao aluno.

Na segunda questão, a supervisão é essencial porque transforma conhecimento teórico em prática qualificada. Por meio dela, o AT aprende a observar, interpretar, intervir, receber feedback e ajustar sua atuação. A supervisão também protege o aluno, pois evita que profissionais em formação tomem decisões clínicas complexas sem orientação adequada.

Na terceira questão, a coleta de dados permite avaliar objetivamente se a intervenção está funcionando. No ambiente escolar, os dados ajudam a identificar padrões, medir progresso, ajustar estratégias e comunicar resultados à equipe. Sem dados, a intervenção fica baseada em impressões subjetivas.

Na quarta questão, o AT não deve substituir o aluno porque o objetivo da intervenção é promover autonomia. Quando o profissional responde pelo aluno, faz suas tarefas ou antecipa todas as dificuldades, pode gerar dependência. O suporte precisa ser oferecido de forma planejada e retirado gradualmente.

Na quinta questão, o AT contribuiu para a autonomia de Lucas ao identificar a função dos comportamentos de esquiva, organizar tarefas em etapas, ensinar pedido funcional de ajuda, reforçar aproximações e retirar suportes gradualmente. No campo social, também favoreceu interações simples com colegas, promovendo participação e inclusão real.

Encerramento da aula

O acompanhamento terapêutico no ambiente escolar exige muito mais do que presença. Exige formação, técnica, supervisão, responsabilidade ética e compreensão funcional do comportamento. O AT bem formado não apenas auxilia o aluno, mas contribui para transformar o ambiente ao seu redor, tornando a inclusão mais concreta, planejada e funcional.

A prática do AT deve estar sempre orientada à autonomia, à generalização das habilidades, à participação social e à aprendizagem significativa. Quando atua de forma técnica e supervisionada, o acompanhante terapêutico ajuda a escola a compreender melhor o aluno, reduz barreiras e amplia possibilidades de desenvolvimento.

Na próxima aula, aprofundaremos a relação entre terapeuta e escola, elemento essencial para que o acompanhamento terapêutico não seja uma prática isolada, mas parte de uma rede de cuidado, educação e inclusão.

Referências Bibliográficas

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