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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 7 – Modelagem de Comportamentos

Olá, alunos. Tudo bem com vocês? Eu sou a professora Bárbara e, na aula de hoje, vamos estudar um dos procedimentos mais potentes da Análise do Comportamento Aplicada: a modelagem de comportamentos.

Até aqui, aprendemos a avaliar comportamentos, identificar suas funções, aplicar reforçamento e utilizar estratégias como extinção. Agora, avançamos para um ponto ainda mais sofisticado: ensinar comportamentos que ainda não existem no repertório da criança. Essa é uma das maiores demandas na clínica com Transtorno do Espectro Autista, pois muitas dificuldades não estão relacionadas apenas à presença de comportamentos interferentes, mas também à ausência de habilidades.

A modelagem permite construir comportamentos complexos a partir de pequenas respostas iniciais. Em vez de exigir que a criança realize uma habilidade completa desde o início, o profissional passa a reforçar aproximações sucessivas, respeitando o nível atual de desenvolvimento e aumentando gradualmente a exigência.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

Modelagem é o ensino gradual de um comportamento por meio do reforçamento de aproximações sucessivas. Ela permite transformar respostas simples em habilidades mais complexas, respeitando o repertório inicial da criança.

Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

O que é modelagem?

A modelagem é um procedimento baseado no reforçamento diferencial de aproximações sucessivas. Isso significa que o comportamento final é dividido em etapas, e cada resposta que se aproxima do objetivo é reforçada progressivamente, até que a resposta completa seja adquirida.

Esse processo é fundamental na clínica, pois muitas crianças não conseguem emitir respostas complexas de forma imediata. Uma criança que ainda não aponta, por exemplo, pode inicialmente apenas olhar para o objeto desejado. Esse olhar pode ser o primeiro passo para a construção de uma resposta comunicativa mais funcional.

A modelagem torna o processo de aprendizagem mais acessível, reduz frustração e aumenta o engajamento. Em vez de exigir uma resposta pronta, o profissional constrói um caminho de aprendizagem possível, reforçando pequenos avanços e ajustando os critérios conforme a criança evolui.

Tabela 1 – Estrutura da modelagem comportamental

Etapa Descrição Exemplo Função Clínica
Comportamento inicial Resposta simples já presente no repertório da criança. Olhar para o objeto desejado. Identificar o ponto de partida possível.
Aproximações sucessivas Respostas intermediárias reforçadas progressivamente. Estender a mão, tocar o objeto ou aceitar ajuda. Construir gradualmente o comportamento-alvo.
Reforçamento diferencial Reforçar respostas mais próximas do objetivo e deixar de reforçar respostas anteriores. Reforçar apenas quando a criança estende a mão, e não mais apenas quando olha. Promover avanço no repertório.
Comportamento final Resposta completa que se deseja ensinar. Apontar, entregar figura ou pedir verbalmente. Estabelecer uma habilidade funcional e adaptativa.

Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

Critérios na modelagem

A modelagem exige critérios bem definidos. O profissional precisa decidir quando reforçar, quando aumentar a exigência e quando ajustar o processo. Esses critérios devem ser baseados na resposta da criança, e não em expectativas rígidas ou em comparação com outras crianças.

Se o critério for muito alto, a criança pode não responder, o que aumenta a frustração e a chance de comportamentos de fuga. Se o critério for muito baixo por muito tempo, o comportamento pode estagnar, pois a criança continua recebendo reforço por uma resposta inicial e não avança para formas mais elaboradas.

O equilíbrio entre desafio e possibilidade de acerto é essencial. A modelagem deve manter a criança em contato com o sucesso, mas também conduzi-la progressivamente para respostas mais completas, funcionais e independentes.

Caixa explicativa 2 – Critério adequado

O critério de reforçamento deve ser suficientemente fácil para permitir acertos e suficientemente desafiador para promover avanço. Modelar não é exigir perfeição, mas também não é manter a criança indefinidamente em respostas iniciais.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

Tabela 2 – Erros comuns na modelagem

Erro Consequência Exemplo Clínico Correção Recomendada
Critério muito alto Frustração, evasão e baixa emissão de respostas. Exigir fala completa de uma criança que ainda não vocaliza. Reforçar respostas mais simples, como olhar, gesto ou aproximação.
Critério muito baixo Estagnação do comportamento. Continuar reforçando apenas o olhar, mesmo quando a criança já consegue estender a mão. Aumentar gradualmente a exigência.
Reforço inconsistente Confusão na aprendizagem. Ora reforçar o choro, ora reforçar o pedido adequado. Definir claramente quais respostas serão reforçadas.
Ausência de planejamento Intervenção desorganizada e pouco mensurável. Mudar o alvo de ensino a cada sessão. Definir comportamento-alvo, etapas e critérios de progresso.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

Modelagem e comunicação funcional

Na intervenção com crianças com TEA, a modelagem é especialmente importante no desenvolvimento da comunicação funcional. Muitas crianças não iniciam a intervenção apontando, vocalizando ou usando palavras. Ainda assim, podem apresentar respostas iniciais que servem como ponto de partida, como olhar para um item, aproximar-se de um objeto, pegar a mão do adulto ou emitir sons não direcionados.

O papel do profissional é transformar essas respostas iniciais em formas mais organizadas de comunicação. Para isso, é necessário observar o que a criança já faz, identificar o que pode ser reforçado e planejar a próxima aproximação. O objetivo é construir uma resposta cada vez mais clara, funcional e compreensível para o ambiente.

A modelagem também contribui para reduzir comportamentos interferentes. Quando a criança aprende uma forma funcional de pedir, recusar, solicitar ajuda ou pedir pausa, comportamentos como choro, grito, fuga e agressão tendem a perder parte de sua função.

Caixa explicativa 3 – Modelar é construir repertório

A modelagem não serve apenas para reduzir problemas. Sua principal função é construir habilidades. Quando ensinamos uma resposta funcional, o comportamento interferente deixa de ser o único recurso disponível para a criança.

Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016) e Lopes (2025).

Tabela 3 – Exemplo de progressão na modelagem da comunicação

Fase Resposta Reforçada Critério de Progresso Objetivo Clínico
Fase 1 Olhar para o objeto desejado. A criança olha em pelo menos algumas oportunidades motivadoras. Estabelecer relação entre interesse e resposta comunicativa inicial.
Fase 2 Aproximar-se ou estender a mão. A criança inicia aproximação sem choro intenso. Aumentar intencionalidade da solicitação.
Fase 3 Apontar ou tocar a figura do item. A criança usa gesto ou figura com ajuda mínima. Construir uma forma clara de pedido.
Fase 4 Emitir vocalização ou palavra aproximada. A criança vocaliza ou tenta nomear o item em contexto funcional. Ampliar comunicação expressiva.
Fase 5 Pedir de forma independente. A criança solicita em diferentes contextos e com diferentes pessoas. Promover generalização e autonomia.

Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Sundberg (2008), Miltenberger (2016) e Lopes (2025).

Estudo de caso clínico-pedagógico

Sofia, 4 anos, diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista nível 2 de suporte, apresentava ausência significativa de comunicação funcional. No cotidiano, quando desejava acesso a objetos, alimentos ou atividades, Sofia não utilizava gestos, vocalizações direcionadas ou qualquer forma estruturada de solicitação. Em vez disso, recorria a comportamentos como choro intenso, puxar o braço do adulto de forma desorganizada ou se jogar no chão.

A família relatava episódios frequentes de frustração, tanto por parte da criança quanto dos cuidadores. Muitas vezes, os adultos tentavam adivinhar o que Sofia queria, oferecendo diferentes objetos até que ela se acalmasse. Esse padrão, embora compreensível no contexto familiar, acabava reforçando o comportamento interferente, pois o choro e a desorganização produziam acesso ao que ela desejava.

A avaliação funcional indicou que o comportamento tinha função clara de acesso a itens tangíveis, mas com ausência de repertório comunicativo adequado. Ou seja, Sofia não apresentava o comportamento problema por oposição ou desafio, mas por falta de habilidade. Ela queria acessar algo, mas não possuía uma forma funcional de pedir.

Diante disso, a intervenção foi estruturada com base na modelagem de comportamento, com o objetivo de ensinar uma forma funcional de solicitação, inicialmente por meio do apontar. O plano considerou três aspectos fundamentais: o repertório atual da criança, o valor do reforçador e a progressão gradual da exigência.

No início do processo, qualquer aproximação ao comportamento-alvo era reforçada imediatamente. Se Sofia apenas olhasse para o objeto desejado, o adulto já sinalizava a associação e oferecia ajuda. Quando ela começava a se movimentar em direção ao objeto ou aceitava o auxílio físico, essas respostas também eram reforçadas.

Gradualmente, os critérios foram sendo ajustados. O reforço passou a ocorrer apenas quando Sofia tocava o objeto, depois quando estendia a mão de forma mais direcionada e, posteriormente, quando realizava o gesto de apontar com menor ajuda. Esse processo exigiu observação constante e ajustes finos, respeitando o ritmo da criança.

Outro aspecto importante foi o controle das contingências ambientais. Os adultos foram orientados a não antecipar automaticamente as necessidades da criança e a esperar por alguma forma de resposta, mesmo que inicial, antes de oferecer o item desejado. Isso foi essencial para não manter o padrão anterior de reforçamento do comportamento inadequado.

Com o avanço da intervenção, observou-se aumento consistente do comportamento de apontar e redução significativa dos episódios de choro e desorganização. Sofia passou a acessar seus interesses de forma mais previsível e funcional, o que também impactou positivamente sua regulação emocional e a qualidade das interações familiares.

Esse caso evidencia que a modelagem não apenas ensina uma habilidade isolada, mas reorganiza todo o sistema comportamental da criança. Ao oferecer uma alternativa mais eficiente, o comportamento interferente perde sua função e tende a diminuir naturalmente.

Tabela 4 – Análise do estudo de caso de Sofia

Situação Observada Análise Funcional Estratégia Utilizada Resultado Esperado
Sofia chorava para acessar objetos. Comportamento mantido por acesso a tangíveis. Modelagem de pedido funcional. Redução do choro e aumento de solicitação adequada.
A família tentava adivinhar o que ela queria. O ambiente reforçava a desorganização. Treinamento dos adultos para esperar respostas iniciais. Mais oportunidades de comunicação.
Sofia não apontava. Déficit de repertório comunicativo. Reforço de aproximações: olhar, alcançar, tocar e apontar. Construção gradual do comportamento-alvo.
Havia frustração familiar frequente. Comunicação pouco previsível. Organização das contingências e reforço imediato. Interações mais claras, previsíveis e funcionais.

Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Sundberg (2008) e Lopes (2025).

Questões reflexivas

  1. Uma criança não consegue solicitar objetos e apresenta comportamento de choro para obter acesso. Qual estratégia baseada em modelagem é mais adequada?
  2. Por que a modelagem é considerada uma estratégia essencial na intervenção em TEA?
  3. O que acontece quando o profissional mantém o mesmo critério por muito tempo durante a modelagem?
  4. Qual é a relação entre modelagem e reforçamento positivo?
  5. Por que a modelagem contribui para a redução de comportamentos interferentes?

Gabarito comentado

Na primeira questão, o aluno deve indicar que a estratégia mais adequada é reforçar aproximações sucessivas do comportamento comunicativo, partindo do repertório atual da criança. Inicialmente, respostas simples como olhar para o objeto, aproximar-se, estender a mão ou aceitar ajuda podem ser reforçadas. Aos poucos, o critério deve ser aumentado até que a criança consiga emitir uma resposta mais funcional, como apontar, entregar uma figura ou pedir verbalmente.

Na segunda questão, espera-se que o aluno compreenda que a modelagem é essencial porque muitas crianças com TEA apresentam déficits importantes de repertório. Nessas situações, não basta reduzir comportamentos inadequados; é necessário construir habilidades. A modelagem permite ensinar respostas complexas de forma gradual, respeitando o desenvolvimento da criança e reduzindo frustração.

Na terceira questão, o aluno deve explicar que, quando o profissional mantém o mesmo critério por muito tempo, o comportamento tende a estagnar. A criança aprende que aquela resposta inicial já é suficiente para obter reforço e não avança para formas mais elaboradas. Por isso, a modelagem exige ajuste progressivo dos critérios.

Na quarta questão, espera-se que o aluno explique que a modelagem depende diretamente do reforçamento positivo. Cada aproximação sucessiva ao comportamento-alvo é fortalecida por meio de um reforçador significativo. O reforço não é usado de forma aleatória, mas como ferramenta de construção comportamental.

Na quinta questão, o aluno deve compreender que a modelagem reduz comportamentos interferentes porque ensina alternativas funcionais. Quando a criança aprende uma forma mais eficiente de obter o que deseja, o comportamento problema perde sua utilidade. Assim, o foco não é apenas eliminar o comportamento inadequado, mas substituir sua função por uma resposta mais adaptativa.

Encerramento da aula

Nesta aula, compreendemos que a modelagem é um dos pilares do ensino em ABA, permitindo a construção de comportamentos complexos a partir de pequenas respostas. Vimos que modelar exige observação, definição de critérios, uso adequado de reforçamento positivo e progressão gradual.

Também aprendemos que a modelagem é especialmente importante na intervenção com crianças com TEA, pois muitas dificuldades surgem da ausência de repertórios funcionais. Ao construir novas habilidades, diminuímos a necessidade de comportamentos interferentes e ampliamos a autonomia da criança.

Na próxima aula, avançaremos para o encadeamento de comportamentos, aprofundando o ensino de habilidades mais complexas e funcionais.

Referências Bibliográficas

Carr, E. G.; Durand, V. M. Reducing behavior problems through functional communication training. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 18, n. 2, p. 111-126, 1985. DOI: 10.1901/jaba.1985.18-111. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1985.18-111. Acesso em: 15 jun. 2026.

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Martin, G.; Pear, J. Behavior modification: what it is and how to do it. 11. ed. New York: Routledge, 2019. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.routledge.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Miltenberger, R. G. Behavior modification: principles and procedures. 6. ed. Boston: Cengage Learning, 2016. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.cengage.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Skinner, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.bfskinner.org. Acesso em: 15 jun. 2026.

Sundberg, M. L. VB-MAPP: verbal behavior milestones assessment and placement program. Concord: AVB Press, 2008. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.avbpress.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

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