Aula 7 – Modelagem de Comportamentos
Olá, alunos. Tudo bem com vocês? Eu sou a professora Bárbara e, na aula de hoje, vamos estudar um dos procedimentos mais potentes da Análise do Comportamento Aplicada: a modelagem de comportamentos.
Até aqui, aprendemos a avaliar comportamentos, identificar suas funções, aplicar reforçamento e utilizar estratégias como extinção. Agora, avançamos para um ponto ainda mais sofisticado: ensinar comportamentos que ainda não existem no repertório da criança. Essa é uma das maiores demandas na clínica com Transtorno do Espectro Autista, pois muitas dificuldades não estão relacionadas apenas à presença de comportamentos interferentes, mas também à ausência de habilidades.
A modelagem permite construir comportamentos complexos a partir de pequenas respostas iniciais. Em vez de exigir que a criança realize uma habilidade completa desde o início, o profissional passa a reforçar aproximações sucessivas, respeitando o nível atual de desenvolvimento e aumentando gradualmente a exigência.
Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula
Modelagem é o ensino gradual de um comportamento por meio do reforçamento de aproximações sucessivas. Ela permite transformar respostas simples em habilidades mais complexas, respeitando o repertório inicial da criança.
Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).
O que é modelagem?
A modelagem é um procedimento baseado no reforçamento diferencial de aproximações sucessivas. Isso significa que o comportamento final é dividido em etapas, e cada resposta que se aproxima do objetivo é reforçada progressivamente, até que a resposta completa seja adquirida.
Esse processo é fundamental na clínica, pois muitas crianças não conseguem emitir respostas complexas de forma imediata. Uma criança que ainda não aponta, por exemplo, pode inicialmente apenas olhar para o objeto desejado. Esse olhar pode ser o primeiro passo para a construção de uma resposta comunicativa mais funcional.
A modelagem torna o processo de aprendizagem mais acessível, reduz frustração e aumenta o engajamento. Em vez de exigir uma resposta pronta, o profissional constrói um caminho de aprendizagem possível, reforçando pequenos avanços e ajustando os critérios conforme a criança evolui.
Tabela 1 – Estrutura da modelagem comportamental
| Etapa | Descrição | Exemplo | Função Clínica |
|---|---|---|---|
| Comportamento inicial | Resposta simples já presente no repertório da criança. | Olhar para o objeto desejado. | Identificar o ponto de partida possível. |
| Aproximações sucessivas | Respostas intermediárias reforçadas progressivamente. | Estender a mão, tocar o objeto ou aceitar ajuda. | Construir gradualmente o comportamento-alvo. |
| Reforçamento diferencial | Reforçar respostas mais próximas do objetivo e deixar de reforçar respostas anteriores. | Reforçar apenas quando a criança estende a mão, e não mais apenas quando olha. | Promover avanço no repertório. |
| Comportamento final | Resposta completa que se deseja ensinar. | Apontar, entregar figura ou pedir verbalmente. | Estabelecer uma habilidade funcional e adaptativa. |
Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).
Critérios na modelagem
A modelagem exige critérios bem definidos. O profissional precisa decidir quando reforçar, quando aumentar a exigência e quando ajustar o processo. Esses critérios devem ser baseados na resposta da criança, e não em expectativas rígidas ou em comparação com outras crianças.
Se o critério for muito alto, a criança pode não responder, o que aumenta a frustração e a chance de comportamentos de fuga. Se o critério for muito baixo por muito tempo, o comportamento pode estagnar, pois a criança continua recebendo reforço por uma resposta inicial e não avança para formas mais elaboradas.
O equilíbrio entre desafio e possibilidade de acerto é essencial. A modelagem deve manter a criança em contato com o sucesso, mas também conduzi-la progressivamente para respostas mais completas, funcionais e independentes.
Caixa explicativa 2 – Critério adequado
O critério de reforçamento deve ser suficientemente fácil para permitir acertos e suficientemente desafiador para promover avanço. Modelar não é exigir perfeição, mas também não é manter a criança indefinidamente em respostas iniciais.
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).
Tabela 2 – Erros comuns na modelagem
| Erro | Consequência | Exemplo Clínico | Correção Recomendada |
|---|---|---|---|
| Critério muito alto | Frustração, evasão e baixa emissão de respostas. | Exigir fala completa de uma criança que ainda não vocaliza. | Reforçar respostas mais simples, como olhar, gesto ou aproximação. |
| Critério muito baixo | Estagnação do comportamento. | Continuar reforçando apenas o olhar, mesmo quando a criança já consegue estender a mão. | Aumentar gradualmente a exigência. |
| Reforço inconsistente | Confusão na aprendizagem. | Ora reforçar o choro, ora reforçar o pedido adequado. | Definir claramente quais respostas serão reforçadas. |
| Ausência de planejamento | Intervenção desorganizada e pouco mensurável. | Mudar o alvo de ensino a cada sessão. | Definir comportamento-alvo, etapas e critérios de progresso. |
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).
Modelagem e comunicação funcional
Na intervenção com crianças com TEA, a modelagem é especialmente importante no desenvolvimento da comunicação funcional. Muitas crianças não iniciam a intervenção apontando, vocalizando ou usando palavras. Ainda assim, podem apresentar respostas iniciais que servem como ponto de partida, como olhar para um item, aproximar-se de um objeto, pegar a mão do adulto ou emitir sons não direcionados.
O papel do profissional é transformar essas respostas iniciais em formas mais organizadas de comunicação. Para isso, é necessário observar o que a criança já faz, identificar o que pode ser reforçado e planejar a próxima aproximação. O objetivo é construir uma resposta cada vez mais clara, funcional e compreensível para o ambiente.
A modelagem também contribui para reduzir comportamentos interferentes. Quando a criança aprende uma forma funcional de pedir, recusar, solicitar ajuda ou pedir pausa, comportamentos como choro, grito, fuga e agressão tendem a perder parte de sua função.
Caixa explicativa 3 – Modelar é construir repertório
A modelagem não serve apenas para reduzir problemas. Sua principal função é construir habilidades. Quando ensinamos uma resposta funcional, o comportamento interferente deixa de ser o único recurso disponível para a criança.
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016) e Lopes (2025).
Tabela 3 – Exemplo de progressão na modelagem da comunicação
| Fase | Resposta Reforçada | Critério de Progresso | Objetivo Clínico |
|---|---|---|---|
| Fase 1 | Olhar para o objeto desejado. | A criança olha em pelo menos algumas oportunidades motivadoras. | Estabelecer relação entre interesse e resposta comunicativa inicial. |
| Fase 2 | Aproximar-se ou estender a mão. | A criança inicia aproximação sem choro intenso. | Aumentar intencionalidade da solicitação. |
| Fase 3 | Apontar ou tocar a figura do item. | A criança usa gesto ou figura com ajuda mínima. | Construir uma forma clara de pedido. |
| Fase 4 | Emitir vocalização ou palavra aproximada. | A criança vocaliza ou tenta nomear o item em contexto funcional. | Ampliar comunicação expressiva. |
| Fase 5 | Pedir de forma independente. | A criança solicita em diferentes contextos e com diferentes pessoas. | Promover generalização e autonomia. |
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Sundberg (2008), Miltenberger (2016) e Lopes (2025).
Estudo de caso clínico-pedagógico
Sofia, 4 anos, diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista nível 2 de suporte, apresentava ausência significativa de comunicação funcional. No cotidiano, quando desejava acesso a objetos, alimentos ou atividades, Sofia não utilizava gestos, vocalizações direcionadas ou qualquer forma estruturada de solicitação. Em vez disso, recorria a comportamentos como choro intenso, puxar o braço do adulto de forma desorganizada ou se jogar no chão.
A família relatava episódios frequentes de frustração, tanto por parte da criança quanto dos cuidadores. Muitas vezes, os adultos tentavam adivinhar o que Sofia queria, oferecendo diferentes objetos até que ela se acalmasse. Esse padrão, embora compreensível no contexto familiar, acabava reforçando o comportamento interferente, pois o choro e a desorganização produziam acesso ao que ela desejava.
A avaliação funcional indicou que o comportamento tinha função clara de acesso a itens tangíveis, mas com ausência de repertório comunicativo adequado. Ou seja, Sofia não apresentava o comportamento problema por oposição ou desafio, mas por falta de habilidade. Ela queria acessar algo, mas não possuía uma forma funcional de pedir.
Diante disso, a intervenção foi estruturada com base na modelagem de comportamento, com o objetivo de ensinar uma forma funcional de solicitação, inicialmente por meio do apontar. O plano considerou três aspectos fundamentais: o repertório atual da criança, o valor do reforçador e a progressão gradual da exigência.
No início do processo, qualquer aproximação ao comportamento-alvo era reforçada imediatamente. Se Sofia apenas olhasse para o objeto desejado, o adulto já sinalizava a associação e oferecia ajuda. Quando ela começava a se movimentar em direção ao objeto ou aceitava o auxílio físico, essas respostas também eram reforçadas.
Gradualmente, os critérios foram sendo ajustados. O reforço passou a ocorrer apenas quando Sofia tocava o objeto, depois quando estendia a mão de forma mais direcionada e, posteriormente, quando realizava o gesto de apontar com menor ajuda. Esse processo exigiu observação constante e ajustes finos, respeitando o ritmo da criança.
Outro aspecto importante foi o controle das contingências ambientais. Os adultos foram orientados a não antecipar automaticamente as necessidades da criança e a esperar por alguma forma de resposta, mesmo que inicial, antes de oferecer o item desejado. Isso foi essencial para não manter o padrão anterior de reforçamento do comportamento inadequado.
Com o avanço da intervenção, observou-se aumento consistente do comportamento de apontar e redução significativa dos episódios de choro e desorganização. Sofia passou a acessar seus interesses de forma mais previsível e funcional, o que também impactou positivamente sua regulação emocional e a qualidade das interações familiares.
Esse caso evidencia que a modelagem não apenas ensina uma habilidade isolada, mas reorganiza todo o sistema comportamental da criança. Ao oferecer uma alternativa mais eficiente, o comportamento interferente perde sua função e tende a diminuir naturalmente.
Tabela 4 – Análise do estudo de caso de Sofia
| Situação Observada | Análise Funcional | Estratégia Utilizada | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Sofia chorava para acessar objetos. | Comportamento mantido por acesso a tangíveis. | Modelagem de pedido funcional. | Redução do choro e aumento de solicitação adequada. |
| A família tentava adivinhar o que ela queria. | O ambiente reforçava a desorganização. | Treinamento dos adultos para esperar respostas iniciais. | Mais oportunidades de comunicação. |
| Sofia não apontava. | Déficit de repertório comunicativo. | Reforço de aproximações: olhar, alcançar, tocar e apontar. | Construção gradual do comportamento-alvo. |
| Havia frustração familiar frequente. | Comunicação pouco previsível. | Organização das contingências e reforço imediato. | Interações mais claras, previsíveis e funcionais. |
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Sundberg (2008) e Lopes (2025).
Questões reflexivas
- Uma criança não consegue solicitar objetos e apresenta comportamento de choro para obter acesso. Qual estratégia baseada em modelagem é mais adequada?
- Por que a modelagem é considerada uma estratégia essencial na intervenção em TEA?
- O que acontece quando o profissional mantém o mesmo critério por muito tempo durante a modelagem?
- Qual é a relação entre modelagem e reforçamento positivo?
- Por que a modelagem contribui para a redução de comportamentos interferentes?
Gabarito comentado
Na primeira questão, o aluno deve indicar que a estratégia mais adequada é reforçar aproximações sucessivas do comportamento comunicativo, partindo do repertório atual da criança. Inicialmente, respostas simples como olhar para o objeto, aproximar-se, estender a mão ou aceitar ajuda podem ser reforçadas. Aos poucos, o critério deve ser aumentado até que a criança consiga emitir uma resposta mais funcional, como apontar, entregar uma figura ou pedir verbalmente.
Na segunda questão, espera-se que o aluno compreenda que a modelagem é essencial porque muitas crianças com TEA apresentam déficits importantes de repertório. Nessas situações, não basta reduzir comportamentos inadequados; é necessário construir habilidades. A modelagem permite ensinar respostas complexas de forma gradual, respeitando o desenvolvimento da criança e reduzindo frustração.
Na terceira questão, o aluno deve explicar que, quando o profissional mantém o mesmo critério por muito tempo, o comportamento tende a estagnar. A criança aprende que aquela resposta inicial já é suficiente para obter reforço e não avança para formas mais elaboradas. Por isso, a modelagem exige ajuste progressivo dos critérios.
Na quarta questão, espera-se que o aluno explique que a modelagem depende diretamente do reforçamento positivo. Cada aproximação sucessiva ao comportamento-alvo é fortalecida por meio de um reforçador significativo. O reforço não é usado de forma aleatória, mas como ferramenta de construção comportamental.
Na quinta questão, o aluno deve compreender que a modelagem reduz comportamentos interferentes porque ensina alternativas funcionais. Quando a criança aprende uma forma mais eficiente de obter o que deseja, o comportamento problema perde sua utilidade. Assim, o foco não é apenas eliminar o comportamento inadequado, mas substituir sua função por uma resposta mais adaptativa.
Encerramento da aula
Nesta aula, compreendemos que a modelagem é um dos pilares do ensino em ABA, permitindo a construção de comportamentos complexos a partir de pequenas respostas. Vimos que modelar exige observação, definição de critérios, uso adequado de reforçamento positivo e progressão gradual.
Também aprendemos que a modelagem é especialmente importante na intervenção com crianças com TEA, pois muitas dificuldades surgem da ausência de repertórios funcionais. Ao construir novas habilidades, diminuímos a necessidade de comportamentos interferentes e ampliamos a autonomia da criança.
Na próxima aula, avançaremos para o encadeamento de comportamentos, aprofundando o ensino de habilidades mais complexas e funcionais.
Referências Bibliográficas
Carr, E. G.; Durand, V. M. Reducing behavior problems through functional communication training. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 18, n. 2, p. 111-126, 1985. DOI: 10.1901/jaba.1985.18-111. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1985.18-111. Acesso em: 15 jun. 2026.
Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Martin, G.; Pear, J. Behavior modification: what it is and how to do it. 11. ed. New York: Routledge, 2019. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.routledge.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Miltenberger, R. G. Behavior modification: principles and procedures. 6. ed. Boston: Cengage Learning, 2016. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.cengage.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Skinner, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.bfskinner.org. Acesso em: 15 jun. 2026.
Sundberg, M. L. VB-MAPP: verbal behavior milestones assessment and placement program. Concord: AVB Press, 2008. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.avbpress.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
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