Aula 1 – Estratégias de Reforçamento Positivo
Olá, alunos. Tudo bem com vocês? Eu sou a professora Bárbara e, na aula de hoje, vamos iniciar o módulo Gestão de Comportamentos Interferentes estudando uma das estratégias mais importantes da Análise do Comportamento Aplicada: o reforçamento positivo.
Quando falamos em comportamentos interferentes, muitas vezes pensamos primeiro em gritos, choros, agressões, fugas, birras ou recusas. Porém, antes de pensar em como reduzir um comportamento, precisamos pensar em algo ainda mais importante: quais comportamentos queremos ensinar no lugar? É aqui que o reforçamento positivo se torna essencial.
O reforçamento positivo não é simplesmente dar prêmio, agradar a criança ou fazer elogios aleatórios. Ele é um procedimento técnico em que uma consequência é apresentada depois de um comportamento e aumenta a chance de esse comportamento acontecer novamente. Ou seja, quando a criança faz algo adequado e recebe uma consequência significativa, esse comportamento tende a se fortalecer.
Nesta aula, vamos compreender o conceito de reforçamento positivo, seus tipos, seus cuidados éticos e sua aplicação prática com crianças com TEA e outros atrasos no desenvolvimento.
Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula
O reforçamento positivo fortalece comportamentos adequados por meio de consequências significativas. Na gestão de comportamentos interferentes, ele não serve para “comprar” a criança, mas para ensinar repertórios funcionais que substituam respostas inadequadas.
Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Baer, Wolf e Risley (1968), Cooper, Heron e Heward (2020) e Wolf (1978).
O que é reforçamento positivo?
O reforçamento positivo ocorre quando algo é acrescentado ao ambiente após uma resposta e essa consequência aumenta a frequência futura do comportamento. Por exemplo, se uma criança pede água usando uma palavra, gesto ou figura, e imediatamente recebe água, a chance de ela voltar a pedir de forma adequada aumenta.
Perceba que o foco não está no objeto em si, mas no efeito que ele produz sobre o comportamento. Um brinquedo, um elogio, um alimento, uma pausa, uma brincadeira ou a atenção do adulto só podem ser chamados de reforçadores se aumentarem a probabilidade de o comportamento se repetir.
Tabela 1 – Conceitos básicos do reforçamento positivo
| Elemento | Descrição | Exemplo | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Comportamento | Resposta observável emitida pela criança. | Pedir ajuda. | Identificar o repertório que será fortalecido. |
| Consequência | Evento apresentado após o comportamento. | Adulto ajuda imediatamente. | A criança acessa uma consequência significativa. |
| Efeito | Aumento da chance de o comportamento ocorrer novamente. | A criança passa a pedir ajuda com mais frequência. | Fortalecimento do comportamento adequado. |
Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020) e Moreira e Medeiros (2019).
Tipos de reforçadores positivos
Os reforçadores podem assumir diferentes formas. Podem ser sociais, como elogios, atenção, sorriso e contato afetivo. Podem ser tangíveis, como brinquedos, adesivos ou objetos preferidos. Podem ser atividades, como brincar, desenhar, assistir a um vídeo curto ou escolher uma brincadeira. Também podem ser sensoriais, como massinha, balanço, pressão profunda ou objetos com textura agradável.
O mais importante é lembrar que o reforçador precisa ter valor para aquela criança. O que reforça uma criança pode não reforçar outra. Por isso, antes de aplicar reforçamento positivo, o profissional precisa conhecer preferências, interesses, sensibilidades e necessidades individuais.
Caixa explicativa 2 – Reforçador não é o que o adulto gosta
Um item só é reforçador se aumentar a frequência do comportamento. Por isso, o adulto não deve escolher reforçadores apenas pelo que considera adequado, bonito ou educativo, mas pelo efeito real que aquela consequência produz na criança.
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Skinner (1953) e Leaf et al. (2016).
Tabela 2 – Tipos de reforçadores e aplicações práticas
| Tipo de Reforçador | Exemplo | Aplicação Clínica | Cuidado Necessário |
|---|---|---|---|
| Social | Elogio, sorriso, atenção, comemoração. | Reforçar contato visual, pedido adequado ou participação. | Verificar se atenção social tem valor para a criança. |
| Tangível | Brinquedo, adesivo, ficha ou objeto preferido. | Aumentar engajamento em tarefas iniciais. | Evitar dependência excessiva de itens artificiais. |
| Atividade | Escolher uma brincadeira, desenhar ou brincar com bolhas. | Ensinar espera, finalização de tarefa ou transição. | Planejar tempo de acesso e transição posterior. |
| Sensorial | Balanço, massinha, textura, pressão profunda. | Favorecer regulação e participação em atividades. | Considerar perfil sensorial e segurança da criança. |
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hume et al. (2021), Leaf et al. (2016) e Lopes (2025).
Cuidados na aplicação do reforçamento positivo
O reforçamento positivo precisa ser imediato, contingente e proporcional. Imediato significa que deve ocorrer logo após o comportamento. Contingente significa que deve ser entregue apenas quando o comportamento esperado acontece. Proporcional significa que deve estar adequado ao esforço, à habilidade e ao momento da criança.
Um erro comum é reforçar sem clareza. Por exemplo, a criança grita, o adulto entrega o celular para ela parar de gritar e, sem perceber, reforça o grito. Nesse caso, o comportamento que tende a aumentar é justamente o gritar. Por isso, é fundamental reforçar o comportamento adequado, não apenas interromper o comportamento difícil.
Outro cuidado importante é não depender exclusivamente de reforçadores artificiais. No início, fichas, brinquedos e itens tangíveis podem ser úteis. Porém, ao longo do processo, o profissional deve aproximar o reforço de consequências naturais, como conseguir se comunicar, participar de uma brincadeira, receber atenção adequada e conquistar autonomia.
Tabela 3 – Cuidados técnicos no uso do reforçamento positivo
| Cuidado | Descrição | Exemplo Correto | Risco Quando Ausente |
|---|---|---|---|
| Imediaticidade | O reforço deve ocorrer logo após a resposta. | A criança pede ajuda e o adulto oferece ajuda imediatamente. | A criança pode não relacionar resposta e consequência. |
| Contingência | O reforço deve depender do comportamento esperado. | O adulto entrega o brinquedo após o pedido funcional. | Reforçar comportamentos inadequados sem perceber. |
| Individualização | O reforçador deve ter valor para aquela criança. | Usar bolhas para criança que demonstra interesse por bolhas. | Usar consequências sem efeito sobre o comportamento. |
| Naturalização | Aos poucos, aproximar o reforço de consequências naturais. | A criança pede para brincar e participa da brincadeira com o adulto. | Dependência excessiva de prêmios externos. |
Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020), Wolf (1978) e Lopes (2025).
Estudo de caso clínico-pedagógico
Lucas, 5 anos, diagnóstico de TEA nível 2 de suporte, iniciou acompanhamento apresentando choros intensos sempre que precisava guardar brinquedos para iniciar atividades dirigidas. A família relatava que, em casa, quando Lucas chorava, geralmente recebia mais alguns minutos de brincadeira ou o adulto desistia da transição. Na escola, a professora tentava insistir verbalmente, repetindo várias vezes: “guarde agora”, mas Lucas chorava mais alto, jogava objetos e se deitava no chão.
Após observação, a equipe percebeu que o comportamento de chorar parecia ter função de fuga da transição e manutenção do acesso ao brinquedo. Em vez de iniciar a intervenção retirando o brinquedo de forma brusca, a equipe decidiu ensinar um repertório alternativo: guardar um item com ajuda e solicitar “mais um minuto” por meio de cartão visual.
No início, Lucas recebia reforço imediato sempre que entregava um brinquedo ao adulto ou apontava para o cartão. O reforço incluía elogio específico, acesso breve ao brinquedo e previsibilidade visual com timer. Aos poucos, passou a guardar dois brinquedos, depois três, até conseguir finalizar a brincadeira e iniciar a tarefa com menor resistência.
A intervenção também envolveu a família e a escola. Os adultos foram orientados a não reforçar o choro com acesso imediato ao brinquedo, mas a ajudar Lucas a emitir uma resposta mais adequada. Quando ele usava o cartão, entregava um brinquedo ou aceitava o timer, recebia acesso breve, elogio claro e continuidade previsível da rotina.
Esse caso mostra que o reforçamento positivo não foi usado para “comprar” o comportamento da criança, mas para ensinar uma nova habilidade. Lucas aprendeu a comunicar necessidade de tempo, aceitar transições e participar de uma rotina com mais segurança.
Tabela 4 – Análise do caso de Lucas
| Situação Observada | Análise Funcional | Resposta Alternativa Ensinada | Uso do Reforçamento Positivo |
|---|---|---|---|
| Choro ao guardar brinquedos. | Fuga da transição e manutenção do acesso ao brinquedo. | Guardar um item com ajuda. | Elogio específico e acesso breve após guardar. |
| Resistência ao início da tarefa. | Baixa previsibilidade da mudança de atividade. | Usar cartão de “mais um minuto”. | Timer visual e continuidade previsível da rotina. |
| Adultos desistiam diante do choro. | O choro era fortalecido por acesso ou retirada da demanda. | Pedir tempo ou ajuda de forma funcional. | Reforçar o pedido adequado, não o choro. |
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley (2012) e Lopes (2025).
Questões reflexivas
- Uma criança grita sempre que deseja um brinquedo e, em seguida, o adulto entrega o objeto para que ela se acalme. Analise essa situação a partir do conceito de reforçamento positivo.
- Explique por que o reforçador precisa ser individualizado.
- Uma professora elogia dizendo “muito bem” várias vezes durante a aula, mas o comportamento adequado da criança não aumenta. O que isso indica?
- Qual é a diferença entre reforçar um comportamento adequado e simplesmente interromper um comportamento inadequado?
- Por que o reforçamento positivo é considerado uma estratégia central na gestão de comportamentos interferentes?
Gabarito comentado
Na primeira questão, o aluno deve explicar que o adulto pode estar reforçando positivamente o comportamento de gritar, pois o brinquedo é entregue logo após o grito. Se essa consequência aumenta a chance de o comportamento ocorrer novamente, o grito passa a ser fortalecido. A intervenção adequada deve ensinar uma resposta alternativa, como apontar, pedir verbalmente ou usar figura, e reforçar essa forma adequada de comunicação.
Na segunda questão, espera-se que o aluno afirme que o reforçador só é reforçador se aumentar a frequência do comportamento. Como cada criança possui interesses, sensibilidades e preferências diferentes, não podemos presumir que o mesmo item servirá para todos. Uma criança pode ser motivada por elogios; outra, por movimento; outra, por brinquedos específicos. A avaliação de preferências é essencial para uma intervenção eficaz.
Na terceira questão, o aluno deve explicar que o elogio pode não estar funcionando como reforçador para aquela criança ou pode estar sendo usado de forma pouco contingente. Para ser efetivo, o elogio precisa estar ligado a um comportamento específico e ter valor para o aluno. A professora poderia dizer: “você esperou sua vez para falar, isso foi muito importante”, tornando o reforço mais claro e funcional.
Na quarta questão, espera-se que o aluno diferencie interrupção de ensino. Interromper um comportamento inadequado pode produzir alívio momentâneo, mas não ensina o que a criança deve fazer no lugar. Reforçar um comportamento adequado significa fortalecer uma resposta alternativa e funcional. A intervenção eficaz não se limita a reduzir problemas; ela constrói repertórios que permitem à criança agir de forma mais adaptativa.
Na quinta questão, o aluno deve afirmar que o reforçamento positivo é central porque permite ensinar novas habilidades e fortalecer comportamentos desejáveis. Em vez de focar apenas na eliminação do comportamento interferente, ele direciona a intervenção para a construção de comunicação, autonomia, participação social e autorregulação. Isso torna a intervenção mais ética, educativa e funcional.
Encerramento da aula
Nesta aula, aprendemos que o reforçamento positivo é uma ferramenta essencial para ensinar comportamentos adequados e reduzir, indiretamente, comportamentos interferentes. Vimos que reforçar não é agradar sem critério, mas apresentar consequências planejadas que aumentam respostas importantes para o desenvolvimento da criança.
Também compreendemos que o reforçamento precisa ser individualizado, imediato, contingente e progressivamente aproximado de consequências naturais. O objetivo final não é tornar a criança dependente de prêmios, mas ajudá-la a desenvolver repertórios funcionais para se comunicar, participar e aprender.
Na próxima aula, estudaremos a avaliação de comportamentos prejudiciais, compreendendo como observar, registrar e interpretar comportamentos antes de planejar qualquer intervenção.
Referências Bibliográficas
Baer, D. M.; Wolf, M. M.; Risley, T. R. Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 1, n. 1, p. 91-97, 1968. DOI: 10.1901/jaba.1968.1-91. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1968.1-91. Acesso em: 15 jun. 2026.
Carr, E. G.; Durand, V. M. Reducing behavior problems through functional communication training. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 18, n. 2, p. 111-126, 1985. DOI: 10.1901/jaba.1985.18-111. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1985.18-111. Acesso em: 15 jun. 2026.
Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Hanley, G. P. Functional assessment of problem behavior: dispelling myths, overcoming implementation obstacles, and developing new lore. Behavior Analysis in Practice, v. 5, n. 1, p. 54-72, 2012. DOI: 10.1007/BF03391818. Disponível em: https://doi.org/10.1007/BF03391818. Acesso em: 15 jun. 2026.
Hume, K. et al. Evidence-based practices for children, youth, and young adults with autism: third generation review. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 51, n. 11, p. 4013-4032, 2021. DOI: 10.1007/s10803-020-04844-2. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10803-020-04844-2. Acesso em: 15 jun. 2026.
Leaf, J. B. et al. Applied behavior analysis is a science and, therefore, progressive. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 46, p. 720-731, 2016. DOI: 10.1007/s10803-015-2591-6. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10803-015-2591-6. Acesso em: 15 jun. 2026.
Moreira, M. B.; Medeiros, C. A. Princípios básicos de análise do comportamento. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.grupoa.com.br. Acesso em: 15 jun. 2026.
Skinner, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.bfskinner.org. Acesso em: 15 jun. 2026.
Wolf, M. M. Social validity: the case for subjective measurement or how applied behavior analysis is finding its heart. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 11, n. 2, p. 203-214, 1978. DOI: 10.1901/jaba.1978.11-203. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1978.11-203. Acesso em: 15 jun. 2026.
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