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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula Extra – Manejo Prático de Comportamentos Interferentes no Cotidiano

Introdução

Olá, alunos. Nesta aula extra, vamos trabalhar um material extremamente importante para a prática clínica: o manejo de comportamentos interferentes no cotidiano da criança, com foco em aplicação prática.

Diferente das aulas anteriores, que aprofundaram conceitos e técnicas, aqui vamos organizar o conhecimento em forma de orientação prática, voltada especialmente para pais, professores e profissionais que atuam diretamente com a criança no dia a dia.

O objetivo é simples, mas profundo: transformar conhecimento técnico em ação concreta. Isso significa compreender o comportamento, organizar o ambiente, ensinar habilidades funcionais e responder de forma mais planejada às situações difíceis.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

Comportamentos interferentes não devem ser vistos apenas como birra, desobediência ou provocação. Eles precisam ser compreendidos como respostas que possuem função no ambiente. O manejo prático começa quando o adulto deixa de reagir automaticamente e passa a observar, registrar, ensinar e reforçar alternativas adequadas.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Kazdin (2005), Bearss et al. (2015) e Lopes (2025).

Compreendendo o comportamento da criança

O primeiro ponto fundamental é compreender que todo comportamento tem uma função. Essa é uma das bases da Análise do Comportamento Aplicada, que orienta toda a prática clínica com comportamentos interferentes.

Antes de agir, o adulto deve se perguntar: “o que a criança está tentando obter, evitar ou comunicar com esse comportamento?”. Essa pergunta muda a forma de olhar para a situação. Em vez de apenas tentar parar o comportamento, o adulto passa a investigar o que o mantém.

Uma criança pode gritar para chamar atenção, chorar para escapar de uma tarefa difícil, jogar-se no chão para manter acesso a um brinquedo ou morder objetos para buscar regulação sensorial. A mesma forma de comportamento pode ter funções diferentes em crianças diferentes, ou até na mesma criança em momentos distintos.

Tabela 1 – Funções dos comportamentos interferentes

Função Descrição Exemplo no cotidiano Direção da intervenção
Atenção A criança busca interação, olhar, fala ou resposta do adulto. Grita enquanto o adulto conversa com outra pessoa. Ensinar formas adequadas de chamar, esperar e pedir atenção.
Fuga ou esquiva A criança tenta evitar, interromper ou adiar algo desconfortável. Chora quando recebe uma tarefa difícil. Ensinar a pedir ajuda, solicitar pausa e tolerar demandas graduais.
Acesso a item ou atividade A criança tenta obter algo desejado. Joga-se no chão para ganhar o tablet. Ensinar pedido funcional, espera e aceitação de limites.
Sensorial A criança busca ou evita estímulos sensoriais. Tampa os ouvidos em ambiente barulhento ou balança o corpo repetidamente. Organizar ambiente, oferecer alternativas reguladoras e respeitar limites sensoriais.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Kazdin (2005) e Lopes (2025).

Sem compreender a função, qualquer intervenção se torna superficial e ineficaz. A criança pode até parar momentaneamente, mas o comportamento tende a voltar, mudar de forma ou aparecer em outro contexto.

Estratégia central: reforçamento positivo

O reforçamento positivo é uma das estratégias mais importantes da ABA. Ele consiste em apresentar uma consequência significativa após um comportamento adequado, aumentando a chance de esse comportamento ocorrer novamente no futuro.

Esse reforço pode ser material, social, simbólico, sensorial ou uma atividade de interesse. Nem sempre precisa ser um objeto. Um elogio específico, um sorriso, um abraço, um tempo de brincadeira ou a possibilidade de escolher uma atividade também podem funcionar como reforçadores.

O ponto central é a contingência: comportamento adequado seguido de consequência positiva aumenta a probabilidade de repetição. Por isso, o adulto precisa reforçar o que deseja ver mais vezes, e não apenas reagir ao que deseja interromper.

Caixa explicativa 2 – Reforçar não é subornar

Reforçar não é comprar o comportamento da criança. Reforçar é ensinar. Quando o adulto reforça um pedido adequado, uma espera, uma tentativa de comunicação ou uma participação, está fortalecendo repertórios que podem substituir comportamentos interferentes.

Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016) e Lopes (2025).

Estruturação do ambiente: quadros de rotina

Outro ponto fundamental no manejo cotidiano é a organização do ambiente por meio de rotinas visuais. Crianças, especialmente aquelas com TEA ou dificuldades de autorregulação, costumam se beneficiar de previsibilidade. Quando sabem o que vai acontecer, quando vai terminar e o que virá depois, tendem a apresentar maior segurança comportamental.

Quadros de rotina ajudam a reduzir ansiedade, organizar o dia e diminuir comportamentos interferentes associados à imprevisibilidade. Eles podem incluir imagens, palavras, fotografias ou símbolos simples, de acordo com o nível de compreensão da criança.

Além disso, o uso de reforçadores ao final da rotina fortalece o comportamento de seguir atividades de forma estruturada. Por exemplo, após guardar os brinquedos, a criança pode escolher uma brincadeira; após terminar a tarefa, pode ter um intervalo; após escovar os dentes, pode marcar a etapa como concluída no quadro visual.

Tabela 2 – Recursos práticos para organização do ambiente

Recurso Função Exemplo de uso Benefício esperado
Quadro de rotina Organizar a sequência do dia. Mostrar: banho, jantar, escovar dentes e dormir. Redução de ansiedade e resistência.
Timer visual Antecipar o fim de uma atividade. Avisar que faltam 5 minutos para terminar o tablet. Melhor tolerância a transições.
Cartão de escolha Favorecer comunicação e autonomia. Escolher entre massinha ou desenho. Aumento de participação e redução de recusa.
Pistas visuais Indicar o que fazer sem excesso de fala. Imagem de “guardar brinquedos”. Mais independência e menos dependência de comandos verbais.

Fonte: Adaptado de Hume et al. (2021), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016) e Lopes (2025).

Comunicação alternativa como prevenção de comportamento

Muitos comportamentos inadequados surgem por dificuldade de comunicação. Quando a criança não consegue pedir, recusar, solicitar ajuda, pedir pausa ou indicar desconforto, ela tende a reagir com o repertório que possui. Muitas vezes, esse repertório aparece como choro, grito, fuga, agressividade ou desorganização.

O uso de sistemas de comunicação alternativa e aumentativa, como figuras, cartões, gestos, pranchas de comunicação, aplicativos ou PECS, permite que a criança substitua o comportamento problema por uma forma funcional de comunicação.

Isso muda completamente o cenário clínico: a criança deixa de depender apenas da crise para ser compreendida e passa a ter um meio mais claro de expressar necessidades.

Reforço diferencial como estratégia de substituição

O reforço diferencial é uma estratégia que consiste em reforçar determinados comportamentos e não reforçar outros. Ele é muito útil quando o objetivo é reduzir comportamentos interferentes e, ao mesmo tempo, ensinar respostas mais adequadas.

Tabela 3 – Tipos de reforço diferencial

Técnica Definição Exemplo prático Objetivo clínico
DRO Reforço de outro comportamento, geralmente pela ausência do comportamento problema em determinado intervalo. Reforçar quando a criança permanece 5 minutos sem gritar. Reduzir frequência de uma resposta interferente.
DRI Reforço de comportamento incompatível com o comportamento problema. Reforçar mãos ocupadas com massinha quando a criança costuma bater nos objetos. Substituir por resposta que não pode ocorrer ao mesmo tempo que o problema.
DRA Reforço de comportamento alternativo que cumpre função semelhante. Reforçar pedido de ajuda em vez de choro diante da tarefa. Ensinar uma alternativa funcional ao comportamento interferente.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Vollmer e Iwata (1992) e Lopes (2025).

Essas estratégias mostram que o foco não é apenas eliminar comportamento, mas substituí-lo por algo funcional. Quando a criança aprende uma forma mais adequada de alcançar a mesma função, o comportamento interferente perde parte de sua utilidade.

Extinção e consistência

A extinção consiste na retirada do reforço que mantém um comportamento inadequado. Porém, esse procedimento precisa ser usado com muito cuidado, planejamento e supervisão, especialmente quando envolve comportamentos intensos ou risco físico.

Um ponto crucial é que, no início, o comportamento pode aumentar. Esse fenômeno é conhecido como explosão de extinção. A criança pode chorar mais alto, insistir mais, gritar por mais tempo ou variar a forma do comportamento, tentando recuperar o reforço que antes funcionava.

Sem consistência, o processo falha. Com consistência e ensino de habilidades substitutivas, o comportamento tende a enfraquecer. Por isso, a extinção nunca deve ser aplicada de forma isolada. Ela precisa vir acompanhada de reforçamento do comportamento adequado, comunicação funcional e organização do ambiente.

Caixa explicativa 3 – Extinção não é abandono

Extinção não significa ignorar a criança, deixá-la sofrer ou retirar acolhimento. Extinção significa não entregar a consequência que mantinha o comportamento problema, enquanto se ensina uma forma mais adequada de comunicação ou enfrentamento.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Kazdin (2005) e Lopes (2025).

Ensino de habilidades funcionais

Muitos comportamentos interferentes existem porque a criança não sabe o que fazer no lugar. Por isso, ensinar habilidades funcionais é essencial para reduzir comportamentos inadequados de forma ética e duradoura.

Entre as habilidades mais importantes estão pedir ajuda, pedir pausa, esperar, compartilhar, aceitar “não”, tolerar transições, guardar objetos, seguir rotina, comunicar dor ou desconforto e lidar gradualmente com frustrações.

Esse é o ponto mais clínico de todos: comportamento não se elimina de forma isolada, comportamento se substitui. A redução do comportamento interferente deve ser consequência da ampliação de repertórios funcionais.

Estudo de caso integrado e ampliado

Lucas, 4 anos, apresentava comportamento de jogar-se no chão sempre que queria um brinquedo. Os pais relatavam que os episódios aconteciam principalmente quando o brinquedo estava fora de alcance ou quando era necessário interromper uma brincadeira. Diante da intensidade da reação, os adultos geralmente cediam rapidamente, entregando o brinquedo ou permitindo mais tempo de uso.

A análise inicial indicou função de acesso ao item. Lucas não estava apenas “fazendo birra”; ele havia aprendido que jogar-se no chão produzia uma consequência eficaz: o acesso ao brinquedo desejado. Além disso, observou-se que ele ainda não possuía repertório funcional para pedir, esperar ou aceitar uma negativa temporária.

A intervenção foi organizada em três passos principais. Primeiro, a família foi orientada a não entregar o brinquedo imediatamente após o comportamento de birra, para que o comportamento não continuasse sendo reforçado. Segundo, foi ensinado um pedido funcional, inicialmente por meio de gesto e cartão visual. Terceiro, qualquer tentativa adequada de pedido era reforçada imediatamente, com acesso ao item por tempo breve e previsível.

Nos primeiros dias, houve aumento do comportamento, caracterizando explosão de extinção. Lucas chorava por mais tempo e tentava intensificar a resposta. Esse momento exigiu preparo da família, pois a tendência natural seria ceder para encerrar a crise. Com orientação, os pais mantiveram consistência e passaram a reforçar apenas o pedido adequado.

Após algumas semanas, Lucas começou a utilizar o cartão para pedir o brinquedo. Posteriormente, passou a tolerar pequenas esperas com apoio visual. O comportamento de jogar-se no chão reduziu de forma significativa, não porque foi simplesmente bloqueado, mas porque perdeu sua função diante de uma alternativa mais eficiente.

Esse caso sintetiza a lógica da ABA aplicada ao cotidiano: compreender função, reorganizar consequência, ensinar alternativa e reforçar comportamento funcional.

Tabela 4 – Análise do estudo de caso

Elemento analisado Descrição no caso Intervenção aplicada Resultado esperado
Função Acesso ao brinquedo. Não entregar o item após birra. Redução da eficácia do comportamento inadequado.
Déficit de habilidade Dificuldade em pedir e esperar. Ensino de pedido funcional com gesto ou cartão. Aumento de comunicação adequada.
Consequência anterior Adultos cediam diante da crise. Reforçar apenas o pedido adequado. Mudança nas contingências familiares.
Generalização O comportamento ocorria em diferentes momentos da rotina. Treino dos pais no cotidiano. Uso da habilidade fora da clínica.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Bearss et al. (2015) e Lopes (2025).

Questões estilo ENEM – aprofundadas

  1. Por que compreender a função do comportamento é essencial antes de intervir?
  2. Por que o reforço positivo é considerado uma estratégia central?
  3. Qual é a relação entre comunicação e comportamento interferente?
  4. Por que a extinção pode gerar aumento inicial do comportamento?
  5. Qual é o objetivo do ensino de habilidades substitutivas?

Gabarito comentado

Na primeira questão, o aluno deve explicar que compreender a função é essencial porque o comportamento não ocorre ao acaso. Ele é mantido por consequências específicas. Quando o adulto intervém sem saber se a função é atenção, fuga, acesso a item ou autorregulação sensorial, pode aplicar uma estratégia inadequada e até reforçar o comportamento que deseja reduzir.

Na segunda questão, espera-se que o aluno compreenda que o reforço positivo é central porque fortalece comportamentos adequados. A intervenção eficaz não se limita a reduzir problemas; ela constrói repertórios. Quando a criança é reforçada por pedir, esperar, participar ou tolerar uma transição, esses comportamentos tendem a aumentar.

Na terceira questão, o aluno deve relacionar comunicação e comportamento interferente. Quando a criança não consegue expressar necessidades, desconforto ou desejos, pode utilizar choro, grito, fuga ou agressividade como forma de comunicação. Ensinar comunicação funcional reduz a necessidade desses comportamentos.

Na quarta questão, espera-se que o aluno explique a explosão de extinção. Quando um comportamento deixa de produzir o reforço que antes produzia, é comum que aumente temporariamente em intensidade, frequência ou duração. Esse aumento não indica falha automática da intervenção, mas exige consistência, segurança e ensino de uma resposta alternativa.

Na quinta questão, o aluno deve afirmar que o objetivo das habilidades substitutivas é oferecer alternativas funcionais ao comportamento problema. Sem ensinar o que a criança deve fazer no lugar, o comportamento pode reaparecer ou ser substituído por outro comportamento inadequado.

Fechamento

Esta aula extra nos mostra que a ABA não é apenas técnica, mas prática aplicada à vida real. O comportamento da criança não muda apenas com intervenção clínica, mas com organização do ambiente, consistência, comunicação funcional e ensino de habilidades substitutivas.

Quando o adulto compreende a função do comportamento, deixa de agir apenas pela urgência e passa a responder com planejamento. Essa mudança é decisiva para reduzir sofrimento, ampliar repertórios e tornar o cotidiano mais previsível para a criança e para a família.

Encerramos este módulo compreendendo que o treino parental, a generalização e o manejo cotidiano são pilares da intervenção em ABA. Eles garantem consistência, continuidade e aplicação real das habilidades aprendidas.

A partir daqui, vocês estarão preparados para avançar no próximo módulo: intervenção precoce de forma mais aplicada e estratégica.

Referências Bibliográficas

Bearss, K. et al. Effect of parent training vs parent education on behavioral problems in children with autism spectrum disorder: a randomized clinical trial. JAMA, v. 313, n. 15, p. 1524-1533, 2015. DOI: 10.1001/jama.2015.3150. Disponível em: https://doi.org/10.1001/jama.2015.3150. Acesso em: 15 jun. 2026.

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Hume, K. et al. Evidence-based practices for children, youth, and young adults with autism: third generation review. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 51, n. 11, p. 4013-4032, 2021. DOI: 10.1007/s10803-020-04844-2. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10803-020-04844-2. Acesso em: 15 jun. 2026.

Kazdin, A. E. Parent management training: treatment for oppositional, aggressive, and antisocial behavior in children and adolescents. New York: Oxford University Press, 2005. DOI: não se aplica. Disponível em: https://global.oup.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Miltenberger, R. G. Behavior modification: principles and procedures. 6. ed. Boston: Cengage Learning, 2016. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.cengage.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Skinner, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.bfskinner.org. Acesso em: 15 jun. 2026.

Vollmer, T. R.; Iwata, B. A. Differential reinforcement as treatment for behavior disorders: procedural and functional variations. Research in Developmental Disabilities, v. 13, n. 4, p. 393-417, 1992. DOI: 10.1016/0891-4222(92)90013-v. Disponível em: https://doi.org/10.1016/0891-4222(92)90013-v. Acesso em: 15 jun. 2026.

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