Conteúdo do curso
Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 6 – Introdução ao ABLLS-R

1. Introdução

Olá, alunos. Na aula anterior, avançamos no planejamento de intervenção com base no VB-MAPP, compreendendo como transformar dados avaliativos em decisões clínicas. Agora, vamos iniciar o estudo de um novo instrumento dentro da Análise do Comportamento Aplicada: o ABLLS-R.

Esse protocolo amplia o olhar do profissional e permite uma avaliação mais detalhada e funcional do repertório da criança. Enquanto o VB-MAPP nos auxilia na compreensão dos marcos do desenvolvimento e do comportamento verbal, o ABLLS-R nos leva a uma análise mais abrangente, envolvendo linguagem, aprendizagem, autonomia, habilidades sociais, comportamento de estudante e repertórios de vida diária.

Dessa forma, o ABLLS-R torna o planejamento mais completo e mais conectado à realidade cotidiana da criança, pois permite observar não apenas o que ela fala ou responde, mas o que ela consegue fazer de forma funcional nos diferentes ambientes em que vive.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

O ABLLS-R é uma ferramenta de avaliação e planejamento curricular que permite mapear habilidades básicas de linguagem, aprendizagem, autonomia e vida diária. Ele ajuda o profissional a transformar avaliação em objetivos de ensino funcionais.

Fonte: Adaptado de Partington (2006), Sundberg (2008) e Cooper, Heron e Heward (2020).

2. O que é o ABLLS-R

O ABLLS-R, sigla para Assessment of Basic Language and Learning Skills – Revised, é um protocolo de avaliação desenvolvido para identificar habilidades básicas de linguagem e aprendizagem. Ele não deve ser compreendido como um teste diagnóstico tradicional, mas como uma ferramenta funcional de avaliação do repertório da criança.

Seu principal objetivo é mapear habilidades adquiridas, habilidades emergentes e habilidades ausentes. Esse mapeamento permite ao profissional compreender quais repertórios a criança já possui, quais precisam ser fortalecidos e quais devem ser ensinados com prioridade.

Além disso, o ABLLS-R funciona como um guia curricular. Isso significa que ele não apenas avalia, mas também ajuda a organizar o ensino, permitindo que o profissional construa objetivos progressivos, mensuráveis e individualizados.

3. Características do ABLLS-R

Uma das principais características do ABLLS-R é sua amplitude. O protocolo avalia mais de 500 habilidades distribuídas em diversas áreas do desenvolvimento. Isso permite uma compreensão mais global da criança, indo além da linguagem expressiva ou receptiva.

Outro ponto importante é sua organização sequencial. As habilidades são apresentadas de forma progressiva, partindo de repertórios mais simples para repertórios mais complexos. Isso favorece a construção de um plano de intervenção mais coerente, pois respeita pré-requisitos importantes para a aprendizagem.

Na prática clínica, essa característica evita que o profissional proponha metas desconectadas do repertório atual da criança. O ensino passa a ser organizado com base em dados, e não em impressões subjetivas.

Tabela 1 – Características do ABLLS-R

Característica Descrição Implicação clínica
Amplitude Avalia múltiplas áreas do desenvolvimento. Permite análise global do repertório da criança.
Sequência lógica Organiza habilidades do simples ao complexo. Facilita a progressão do ensino.
Função curricular Serve como base para definição de objetivos de intervenção. Evita planejamento aleatório e fragmentado.
Monitoramento Permite acompanhar o progresso ao longo do tempo. Facilita revisão e ajuste do plano terapêutico.

Fonte: Elaborado com base em Partington (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Sundberg (2008).

4. Diferença entre VB-MAPP e ABLLS-R

O VB-MAPP e o ABLLS-R são instrumentos importantes na prática ABA, mas possuem estruturas e finalidades diferentes. O VB-MAPP organiza o desenvolvimento em níveis e tem foco importante no comportamento verbal, especialmente nos repertórios iniciais de linguagem.

O ABLLS-R, por sua vez, organiza as habilidades por categorias e amplia a avaliação para diferentes áreas do desenvolvimento. Ele permite observar habilidades acadêmicas iniciais, habilidades sociais, autonomia, autocuidado, comportamento de aprendizagem e repertórios funcionais do cotidiano.

Na prática, os dois protocolos podem ser utilizados de forma complementar. O VB-MAPP ajuda a compreender a base do comportamento verbal e dos marcos iniciais do desenvolvimento. O ABLLS-R amplia essa compreensão, permitindo um planejamento mais detalhado e funcional.

Tabela 2 – Comparação entre VB-MAPP e ABLLS-R

Aspecto VB-MAPP ABLLS-R
Organização Organizado por níveis de desenvolvimento. Organizado por categorias de habilidades.
Foco principal Comportamento verbal e marcos iniciais. Desenvolvimento global, aprendizagem e autonomia.
Uso clínico Avaliação inicial de linguagem e repertórios básicos. Avaliação ampla e guia curricular.
Contribuição Identifica marcos, barreiras e transição. Detalha habilidades funcionais e objetivos de ensino.

Fonte: Elaborado com base em Sundberg (2008), Partington (2006) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Caixa explicativa 2 – Uso complementar dos protocolos

O VB-MAPP ajuda a compreender os marcos iniciais do comportamento verbal. O ABLLS-R amplia o planejamento para habilidades de aprendizagem, autonomia, vida diária e repertórios escolares. Juntos, permitem uma avaliação mais completa.

Fonte: Adaptado de Sundberg (2008), Partington (2006) e Martone (2017).

5. Aplicação prática do ABLLS-R

Na prática, o ABLLS-R permite identificar dificuldades que muitas vezes não aparecem em avaliações focadas apenas em linguagem. Uma criança pode falar, nomear objetos e responder perguntas simples, mas ainda apresentar dificuldades importantes em autonomia, comportamento de estudante, organização de materiais, espera, tolerância à frustração e participação em grupo.

Por isso, o ABLLS-R ajuda o profissional a sair de uma visão limitada do desenvolvimento. O foco deixa de ser apenas “falar melhor” e passa a incluir “viver melhor”. A intervenção passa a considerar independência, participação social, habilidades escolares e funcionalidade cotidiana.

Esse olhar é essencial especialmente em crianças que já apresentam algum repertório verbal, mas continuam dependentes em atividades básicas. Nesses casos, o planejamento precisa incluir habilidades que favoreçam autonomia e qualidade de vida.

Tabela 3 – Áreas que podem ser avaliadas pelo ABLLS-R

Área avaliada O que observa Exemplo clínico
Linguagem Repertórios expressivos, receptivos e funcionais. Pedir, nomear, responder e seguir instruções.
Comportamento de aprendizagem Atenção, permanência, resposta a instruções e engajamento. Completar tarefas simples com menor ajuda.
Autonomia Habilidades de autocuidado e independência. Vestir-se, lavar as mãos e guardar materiais.
Habilidades sociais Interação, espera, turnos e participação social. Esperar a vez em uma atividade coletiva.
Habilidades acadêmicas iniciais Repertórios escolares básicos. Identificar letras, números, cores e formas.

Fonte: Elaborado com base em Partington (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Martone (2017).

6. Estudo de caso

Mariana, 7 anos, foi encaminhada para avaliação após apresentar avanços importantes em linguagem durante intervenção anterior. Ela já conseguia nomear objetos, responder perguntas simples e emitir pedidos básicos. À primeira vista, poderia ser considerada uma criança com bom repertório verbal.

No entanto, a família relatava dificuldades significativas no dia a dia. Mariana não conseguia se vestir sozinha, dependia de ajuda para organizar seus materiais escolares, apresentava resistência em iniciar tarefas e tinha dificuldade em seguir rotinas. Na escola, a professora observava que Mariana precisava de instruções individuais constantes e não conseguia acompanhar atividades em grupo.

Ao aplicar o ABLLS-R, foi possível identificar um perfil bastante irregular. Enquanto a linguagem expressiva estava relativamente desenvolvida, havia déficits importantes em comportamento de aprendizagem, autonomia, habilidades sociais e organização.

Por exemplo, Mariana conseguia responder perguntas, mas não conseguia manter atenção por tempo suficiente para completar uma atividade. Conseguia pedir objetos, mas não conseguia esperar sua vez ou lidar com frustração. Conseguia nomear figuras, mas não conseguia organizar seus materiais após o uso.

Essa avaliação levou a uma mudança significativa no planejamento da intervenção. O foco deixou de ser apenas linguagem e passou a incluir habilidades funcionais, como seguir rotinas, iniciar tarefas, organizar materiais, aumentar tempo de permanência e desenvolver maior independência.

Esse caso ilustra como o ABLLS-R amplia a compreensão clínica e evita uma visão limitada do desenvolvimento baseada apenas na linguagem.

Tabela 4 – Interpretação inicial do caso Mariana

Dado observado Interpretação clínica Direção de intervenção
Bom repertório verbal. Linguagem presente, mas não suficiente para autonomia. Manter linguagem e ampliar funcionalidade.
Dificuldade em vestir-se. Déficit em habilidades de vida diária. Ensinar autocuidado por análise de tarefas.
Dependência para organizar materiais. Baixa independência em rotina escolar. Ensinar organização com pistas visuais e encadeamento.
Dificuldade em acompanhar atividades em grupo. Déficit em comportamento de estudante e habilidades sociais. Ensinar espera, seguimento de instruções coletivas e participação gradual.

Fonte: Elaborado com base em Partington (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Martone (2017).

7. Questões

  1. Uma criança apresenta bom repertório verbal, mas baixa autonomia. Com base no conteúdo estudado, explique por que essa situação exige revisão do planejamento de intervenção.
  2. Analise por que o ABLLS-R pode ser considerado uma ferramenta mais abrangente que o VB-MAPP em determinados contextos clínicos.
  3. Explique como a função curricular do ABLLS-R contribui para a prática do analista do comportamento.
  4. Por que avaliações focadas apenas em linguagem podem ser insuficientes?

Gabarito comentado

Na primeira questão, espera-se que o aluno compreenda que a presença de linguagem não garante desenvolvimento funcional completo. A intervenção deve considerar múltiplas áreas, incluindo autonomia, comportamento de aprendizagem, habilidades sociais e vida diária. Quando essas áreas estão deficitárias, a qualidade de vida da criança fica comprometida. O ABLLS-R permite identificar essas lacunas e reorganizar o planejamento, direcionando o ensino para habilidades mais funcionais.

Na segunda questão, o aluno deve explicar que o ABLLS-R avalia um número maior de habilidades e inclui áreas que vão além da linguagem, como habilidades acadêmicas, sociais, motoras, de autocuidado e de vida diária. Em crianças que já apresentam avanços no comportamento verbal, ele permite uma análise mais completa, orientando intervenções voltadas para autonomia e independência.

Na terceira questão, espera-se que o aluno compreenda que a função curricular do ABLLS-R organiza as habilidades em sequência lógica, permitindo que o profissional transforme avaliação em ensino estruturado. Isso evita intervenções desorganizadas e garante progressão adequada das habilidades, respeitando os pré-requisitos necessários para cada aprendizagem.

Na quarta questão, o aluno deve explicar que avaliações focadas apenas em linguagem podem ser insuficientes porque o desenvolvimento humano envolve múltiplas áreas. A linguagem é apenas uma delas. Sem considerar habilidades sociais, autonomia e comportamento de aprendizagem, o planejamento pode ficar incompleto e não atender às demandas reais da criança.

8. Fechamento

Nesta aula, iniciamos o estudo do ABLLS-R, compreendendo sua importância como instrumento de avaliação e guia curricular. Vimos que ele amplia o olhar do profissional, permitindo identificar habilidades além da linguagem e organizar intervenções mais funcionais.

Também compreendemos que uma criança pode apresentar repertório verbal e, ainda assim, precisar de intervenção em autonomia, comportamento de estudante, habilidades sociais e habilidades de vida diária. Por isso, o planejamento deve ser amplo, individualizado e orientado por dados.

Na próxima aula, avançaremos para a estrutura e os componentes do ABLLS-R, aprofundando sua organização e aplicação prática no planejamento da intervenção.

Referências Bibliográficas

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Martone, M. C. C. Tradução e adaptação do verbal behavior milestones assessment and placement program (VB-MAPP) para a língua portuguesa e a efetividade do treino de habilidades comportamentais para qualificar profissionais. Tese de doutorado. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2017. DOI: não se aplica. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br. Acesso em: 15 jun. 2026.

Partington, J. W. The assessment of basic language and learning skills – revised: ABLLS-R. Pleasant Hill: Behavior Analysts, 2006. DOI: não se aplica. Disponível em: https://partingtonbehavioranalysts.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Sundberg, M. L. VB-MAPP: verbal behavior milestones assessment and placement program. Concord: AVB Press, 2008. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.avbpress.com. Acesso em: 15 jun. 2026.