Conteúdo do curso
Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
0/1
Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Definição de Estratégias de Ensino

Seja muito bem-vindo a esta primeira aula do módulo. É com grande satisfação que iniciamos este percurso formativo, cujo objetivo é aprofundar a compreensão sobre como ensinar de forma estruturada, intencional e eficaz. Ao longo desta aula, você será convidado a refletir não apenas sobre o que é ensinar, mas principalmente sobre como o ensino acontece na prática e quais elementos tornam esse processo realmente produtivo.

Quando falamos em ensino, muitas vezes pensamos imediatamente na transmissão de conteúdo. No entanto, essa visão é limitada e não dá conta da complexidade do processo de aprendizagem. Ensinar não é apenas falar, explicar ou expor informações. Ensinar é criar condições para que o outro aprenda. É exatamente nesse ponto que surge a necessidade das estratégias de ensino.

As estratégias de ensino podem ser compreendidas como o conjunto de ações planejadas e organizadas com o objetivo de favorecer a aprendizagem do aluno. Elas envolvem decisões conscientes sobre o que ensinar, como ensinar, quando ensinar, com quais recursos ensinar e para que ensinar. Diferentemente de uma prática improvisada, a estratégia implica planejamento, direção e intencionalidade.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

Estratégias de ensino são formas planejadas de organizar o processo de aprendizagem. Elas transformam o ensino em uma prática intencional, permitindo que o professor ou terapeuta escolha objetivos, métodos, recursos e formas de avaliação adequadas ao aluno.

Fonte: Adaptado de Skinner (1968), Vygotsky (1978), Hattie (2009), Mayer et al. (2019) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Estratégia de ensino: conceito e função

É importante compreender que estratégia não é sinônimo de técnica. Uma técnica é uma ação pontual, como fazer uma pergunta, utilizar um recurso visual, apresentar um exemplo ou oferecer uma dica. Já a estratégia é o conjunto organizado dessas ações dentro de um plano maior. Por exemplo, ler um texto em voz alta é uma técnica; ensinar leitura por meio de mediação, questionamento, interpretação, feedback e retomada de ideias principais é uma estratégia.

Essa diferença é fundamental para evitar práticas fragmentadas e pouco eficazes. Quando o profissional utiliza técnicas isoladas, sem objetivo claro, pode até produzir respostas momentâneas, mas dificilmente constrói aprendizagem consistente. A estratégia, por sua vez, organiza as ações em uma sequência coerente, conectando objetivo, conteúdo, método, recursos e avaliação.

Ao longo da prática pedagógica e clínica, torna-se evidente que a ausência de estratégia compromete o ensino. Quando o professor não planeja, o ensino tende a se tornar repetitivo, desorganizado e pouco eficiente. Por outro lado, quando há estratégia, o processo se torna mais claro, estruturado e direcionado. O aluno passa a compreender melhor o que está sendo proposto e consegue avançar de forma mais consistente.

Tabela 1 – Diferença entre estratégia e técnica

Elemento Definição Exemplo Função
Técnica Ação pontual utilizada durante o ensino. Fazer uma pergunta, mostrar uma imagem ou dar uma dica. Apoiar uma resposta específica.
Estratégia Conjunto organizado de ações planejadas para favorecer a aprendizagem. Ensinar interpretação de texto com leitura mediada, perguntas, discussão e síntese. Organizar o processo de aprendizagem.
Plano de ensino Estrutura maior que integra objetivos, estratégias, recursos e avaliação. Sequência de aulas para desenvolver leitura funcional. Dar continuidade e direção ao ensino.

Fonte: Adaptado de Skinner (1968), Hattie (2009), Mayer et al. (2019) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Estratégia como mediação da aprendizagem

Outro aspecto importante é que a estratégia de ensino funciona como mediação. O aluno não acessa o conhecimento de maneira neutra ou automática. Ele precisa de condições organizadas para entrar em contato com o conteúdo, responder a ele, praticar, receber feedback e construir sentido. Essa mediação pode ocorrer por meio da linguagem do professor, dos recursos utilizados, das atividades propostas, da organização do ambiente e das oportunidades de participação.

A estratégia organiza essa mediação, definindo o ritmo, a sequência e a forma de participação do aluno. Dessa forma, o ensino deixa de ser apenas transmissão e passa a ser construção. O professor não apenas entrega uma informação, mas cria condições para que o aluno se aproprie dela.

Além disso, as estratégias permitem considerar a singularidade do aluno. Cada sujeito aprende de uma forma, em um ritmo próprio e com determinadas dificuldades. Uma estratégia bem construída leva em conta essas diferenças e adapta o ensino conforme necessário. Isso é especialmente relevante no contexto clínico, onde frequentemente encontramos alunos que necessitam de intervenções mais específicas, graduais e estruturadas.

Caixa explicativa 2 – Ensinar é mediar

A estratégia de ensino funciona como uma ponte entre o aluno e o conhecimento. Ela organiza a forma como o conteúdo será apresentado, praticado, retomado e avaliado, permitindo que o aluno participe ativamente do processo de aprendizagem.

Fonte: Adaptado de Vygotsky (1978), Skinner (1968), Mayer et al. (2019) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Estrutura das estratégias de ensino

Toda estratégia de ensino envolve elementos essenciais. O primeiro é o objetivo, que define o que o aluno deve aprender. Sem objetivo, o ensino perde direção. O segundo é o conteúdo, que indica o repertório, conceito ou habilidade a ser trabalhado. O terceiro é o método, que define como o ensino será conduzido. O quarto envolve os recursos, como materiais, imagens, textos, jogos, pistas visuais ou tecnologias. Por fim, a avaliação permite verificar se a aprendizagem ocorreu e se ajustes são necessários.

Quando esses elementos estão alinhados, o ensino tende a ser mais eficaz. Quando estão desconectados, o processo se torna confuso. Por exemplo, se o objetivo é ensinar interpretação, mas o método usado é apenas cópia de texto, haverá uma ruptura entre o que se pretende desenvolver e o que está sendo efetivamente praticado.

Tabela 2 – Estrutura das estratégias de ensino

Elemento Descrição Pergunta Orientadora Exemplo
Objetivo Define o que o aluno deve aprender. O que quero que o aluno desenvolva? Identificar a ideia principal de um texto.
Conteúdo Indica o que será ensinado. Qual repertório será trabalhado? Leitura e compreensão textual.
Método Define como será ensinado. Como vou conduzir a aprendizagem? Leitura mediada com perguntas graduadas.
Recursos Materiais utilizados no processo. Quais apoios facilitarão a aprendizagem? Texto curto, imagens, quadro visual e marca-texto.
Avaliação Forma de verificar a aprendizagem. Como saberei se o aluno aprendeu? Responder perguntas e resumir o texto com apoio reduzido.

Fonte: Adaptado de Hattie (2009), Mayer et al. (2019), Skinner (1968) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Estratégia e aprendizagem significativa

Outro ponto central é a relação entre estratégia e aprendizagem significativa. Quando o ensino é bem estruturado, o aluno não apenas memoriza, mas compreende e consegue aplicar o que aprendeu. Isso ocorre porque a estratégia cria conexões entre o conteúdo e a experiência do aluno, facilitando a construção de sentido.

A aprendizagem significativa exige participação ativa. O aluno precisa responder, experimentar, errar, corrigir, comparar, praticar e aplicar. Por isso, estratégias eficazes não colocam o aluno apenas como ouvinte, mas como participante do processo. Quanto maior a participação, maior a chance de o conteúdo se transformar em repertório funcional.

Ensinar, portanto, é um processo que exige reflexão constante. O professor precisa observar, avaliar e ajustar sua prática de acordo com as respostas do aluno. A estratégia não é algo fixo, mas dinâmico. Ela se modifica conforme o processo de aprendizagem avança.

Caixa explicativa 3 – Estratégia é planejamento em movimento

A estratégia de ensino não é uma receita pronta. Ela precisa ser planejada, aplicada, observada e ajustada conforme a resposta do aluno. Uma boa estratégia mantém o objetivo, mas adapta o caminho quando necessário.

Fonte: Adaptado de Hattie (2009), Mayer et al. (2019), Skinner (1968) e Wolf (1978).

Papel do professor e do aluno

Nesse contexto, o papel do professor também se transforma. Ele deixa de ser apenas um transmissor de conhecimento e passa a ser mediador, planejador e organizador do processo de aprendizagem. Sua função é criar condições para que o aluno participe, experimente, erre, receba feedback e aprenda.

O aluno, por sua vez, deixa de ocupar uma posição passiva. Ele passa a ser agente do próprio aprendizado, participando ativamente do processo. Essa mudança de posição é fundamental para o desenvolvimento da autonomia. Aprender não é apenas receber informação, mas construir repertórios que possam ser utilizados em diferentes situações.

Tabela 3 – Papel do professor e do aluno nas estratégias de ensino

Participante Papel Exemplo de Atuação Objetivo
Professor ou terapeuta Mediar, planejar, organizar e avaliar. Escolher objetivos, recursos e formas de feedback. Criar condições para aprendizagem.
Aluno Participar, responder, praticar e construir repertórios. Ler, responder perguntas, tentar resolver e corrigir erros. Tornar-se mais ativo e autônomo.
Ambiente Oferecer condições, estímulos e consequências para aprendizagem. Materiais adequados, rotina clara e reforçamento. Sustentar o processo de ensino.

Fonte: Adaptado de Vygotsky (1978), Skinner (1968), Cooper, Heron e Heward (2020) e Wolf (1978).

Estudo de caso clínico-pedagógico

Uma professora do Ensino Fundamental percebeu que seus alunos apresentavam dificuldades em compreender textos simples. Inicialmente, ela utilizava apenas leitura em voz alta e explicação direta. Após a leitura, perguntava se todos haviam entendido e, diante do silêncio da turma, prosseguia para a próxima atividade.

Com o passar das semanas, a professora observou que muitos alunos respondiam às perguntas copiando trechos do texto, sem demonstrar compreensão real. Outros permaneciam quietos, evitavam participar ou esperavam que colegas respondessem. A dificuldade passou a ser interpretada inicialmente como falta de atenção ou desinteresse.

Ao analisar a situação com maior cuidado, a professora percebeu que a estratégia utilizada não favorecia participação ativa. Os alunos ouviam o texto, mas não eram ensinados a identificar ideias principais, relacionar informações, fazer inferências ou expressar compreensão com suas próprias palavras. A dificuldade não estava apenas nos alunos, mas também na forma como o ensino estava sendo conduzido.

Diante disso, a professora modificou sua prática. Passou a dividir o texto em partes menores, fazer perguntas durante a leitura, solicitar que os alunos identificassem personagens, ações e ideias principais, usar imagens de apoio e promover breves discussões em grupo. Também passou a oferecer feedback imediato, valorizando respostas aproximadas e ajudando os alunos a melhorar suas formulações.

Com essa mudança, os alunos passaram a participar mais ativamente. Aqueles que antes permaneciam silenciosos começaram a responder perguntas simples. Os alunos que copiavam trechos passaram a explicar com suas próprias palavras. A turma demonstrou melhora na compreensão, no engajamento e na confiança para participar.

Esse caso evidencia que a dificuldade não estava apenas no aluno, mas na forma como o ensino estava sendo estruturado. A estratégia foi o elemento que transformou o processo. Ao mudar a mediação, a professora criou condições mais adequadas para a aprendizagem.

Tabela 4 – Análise do estudo de caso

Situação Observada Limitação Inicial Estratégia Ajustada Resultado Esperado
Alunos ouviam o texto, mas não compreendiam. Ensino centrado apenas na leitura em voz alta. Leitura mediada com perguntas durante o processo. Maior compreensão progressiva.
Respostas copiadas do texto. Ausência de ensino de elaboração verbal. Solicitação de respostas com as próprias palavras. Maior interpretação e expressão.
Baixa participação da turma. Poucas oportunidades de resposta ativa. Discussões breves, perguntas graduadas e feedback. Aumento de engajamento.
Dificuldade interpretada como desinteresse. Análise limitada do problema. Revisão da estratégia de ensino. Compreensão mais precisa da dificuldade.

Fonte: Adaptado de Hattie (2009), Mayer et al. (2019), Skinner (1968), Vygotsky (1978) e Wolf (1978).

Avaliação

  1. Defina o que são estratégias de ensino.
  2. Diferencie estratégia de técnica.
  3. Explique por que o planejamento é importante no ensino.
  4. O que significa dizer que a estratégia é mediação?
  5. Como as estratégias influenciam a aprendizagem?
  6. Qual é a relação entre estratégia e aprendizagem significativa?
  7. Como a estratégia considera as diferenças individuais?
  8. Qual é o papel do professor no uso de estratégias?
  9. Qual é o papel do aluno no processo de aprendizagem?
  10. Por que a ausência de estratégia compromete o ensino?

Gabarito comentado

Na primeira questão, o aluno deve definir estratégias de ensino como conjuntos de ações planejadas, organizadas e intencionais, voltadas a favorecer a aprendizagem. Elas envolvem objetivos, métodos, recursos, avaliação e adaptação ao perfil do aluno.

Na segunda questão, espera-se que o aluno explique que técnica é uma ação pontual, enquanto estratégia é um conjunto organizado de ações dentro de um plano maior. Uma pergunta, uma imagem ou uma dica são técnicas; uma sequência de ensino com mediação, prática e avaliação constitui uma estratégia.

Na terceira questão, o aluno deve afirmar que o planejamento é importante porque organiza e direciona o ensino. Sem planejamento, a prática tende a ser improvisada, repetitiva e pouco eficiente. Com planejamento, o profissional sabe o que pretende ensinar, como conduzir e como avaliar.

Na quarta questão, a resposta deve indicar que a estratégia é mediação porque organiza o acesso do aluno ao conhecimento. Ela define como o conteúdo será apresentado, praticado, retomado e avaliado, funcionando como ponte entre o aluno e a aprendizagem.

Na quinta questão, espera-se que o aluno explique que as estratégias influenciam a aprendizagem porque estruturam o processo, aumentam a participação, favorecem compreensão e permitem ajustes conforme a resposta do aluno.

Na sexta questão, o aluno deve explicar que a aprendizagem significativa ocorre quando o aluno compreende e consegue aplicar o que aprendeu. Estratégias bem planejadas conectam o conteúdo à experiência do aluno e promovem participação ativa.

Na sétima questão, espera-se que o aluno destaque que estratégias consideram diferenças individuais ao adaptar ritmo, recursos, nível de ajuda, exemplos, formas de resposta e critérios de progresso conforme as necessidades do aluno.

Na oitava questão, o aluno deve afirmar que o professor atua como mediador, planejador e organizador do processo de aprendizagem. Ele cria condições, oferece recursos, conduz atividades, observa respostas e ajusta a intervenção.

Na nona questão, espera-se que o aluno compreenda que o aluno deve ser participante ativo do processo. Ele responde, pratica, experimenta, erra, corrige e constrói repertórios, deixando de ocupar uma posição apenas passiva.

Na décima questão, o aluno deve explicar que a ausência de estratégia compromete o ensino porque torna a prática desorganizada, improvisada e pouco eficaz. Sem estratégia, não há clareza de objetivo, método, avaliação ou adaptação às necessidades do aluno.

Encerramento da aula

Ao final desta aula, é possível compreender que estratégias de ensino são o fundamento da prática pedagógica e clínica. Elas organizam, direcionam e tornam possível a aprendizagem. Sem estratégia, o ensino se perde; com estratégia, ele se estrutura e produz resultados mais consistentes.

Ao longo das próximas aulas, aprofundaremos essa compreensão, explorando a importância das estratégias, seus diferentes tipos e suas aplicações em contextos específicos. Esse percurso permitirá que você desenvolva uma prática mais consciente, estruturada e eficaz.

Na próxima aula, avançaremos para a compreensão da importância das estratégias de ensino e como elas impactam diretamente o processo de aprendizagem.

Referências Bibliográficas

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Hattie, J. Visible learning: a synthesis of over 800 meta-analyses relating to achievement. London: Routledge, 2009. DOI: 10.4324/9780203887332. Disponível em: https://doi.org/10.4324/9780203887332. Acesso em: 15 jun. 2026.

Mayer, R. E. et al. Applied behavior analysis. 3. ed. Upper Saddle River: Pearson, 2019. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Skinner, B. F. The technology of teaching. New York: Appleton-Century-Crofts, 1968. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.bfskinner.org. Acesso em: 15 jun. 2026.

Vygotsky, L. S. Mind in society: the development of higher psychological processes. Cambridge: Harvard University Press, 1978. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.hup.harvard.edu. Acesso em: 15 jun. 2026.

Wolf, M. M. Social validity: the case for subjective measurement or how applied behavior analysis is finding its heart. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 11, n. 2, p. 203-214, 1978. DOI: 10.1901/jaba.1978.11-203. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1978.11-203. Acesso em: 15 jun. 2026.

“`