Aula 6 – Definição de Intervenção para Adultos com TEA
Ao avançarmos para a vida adulta, o campo da intervenção em Transtorno do Espectro Autista (TEA) enfrenta um de seus maiores desafios: a escassez de modelos estruturados voltados especificamente para essa fase do desenvolvimento. Enquanto a infância e a adolescência recebem maior atenção na literatura, nos serviços clínicos, educacionais e nas políticas de intervenção, a vida adulta ainda permanece, em muitos contextos, desassistida ou sustentada por adaptações de modelos originalmente pensados para crianças e adolescentes.
No entanto, o desenvolvimento humano não se encerra na adolescência. Adultos com TEA continuam apresentando necessidades importantes de apoio, aprendizagem, adaptação e participação social. Essas necessidades podem envolver comunicação funcional, autonomia, comportamento adaptativo, organização da rotina, saúde, segurança, participação comunitária, vida familiar, habilidades ocupacionais, lazer e qualidade de vida. Em pessoas com maiores necessidades de suporte, esses objetivos tornam-se ainda mais complexos, exigindo intervenções estruturadas, contínuas, individualizadas e eticamente orientadas.
Diferentemente das fases anteriores, a intervenção na vida adulta precisa considerar não apenas a aquisição de novas habilidades, mas também a manutenção de repertórios já aprendidos, a prevenção de regressões, a redução de dependência excessiva, a adaptação de ambientes e a construção de uma rotina significativa. Isso implica uma mudança importante de foco: a intervenção deixa de estar centrada apenas no desenvolvimento inicial e passa a se organizar em torno da funcionalidade, da dignidade, da segurança e da qualidade de vida ao longo do tempo.
Nesta aula, vamos definir o que caracteriza a intervenção para adultos com TEA, considerando suas especificidades, objetivos, desafios e possibilidades. O foco será compreender que a intervenção na vida adulta não deve ser vista como uma continuidade automática da intervenção infantil, mas como uma prática própria, sensível às demandas adultas e ao nível de suporte necessário.
Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula
A intervenção para adultos com TEA deve priorizar funcionalidade, autonomia possível, comunicação, segurança, participação social e qualidade de vida. Na vida adulta, não basta ensinar habilidades isoladas; é necessário garantir que essas habilidades façam sentido no cotidiano e sustentem maior participação do sujeito em seus ambientes reais.
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hume et al. (2021), Speyer et al. (2022), Wehman et al. (2014) e Wolf (1978).
O que é intervenção para adultos com TEA
A intervenção para adultos com TEA pode ser definida como um conjunto sistemático, planejado e individualizado de estratégias voltadas para o desenvolvimento, manutenção, generalização e adaptação de habilidades funcionais. Essas estratégias devem estar orientadas para a ampliação da autonomia possível, a redução de barreiras, o aumento da comunicação, a organização ambiental e a promoção de qualidade de vida.
Essa definição inclui o ensino de novas habilidades, mas não se limita a ele. Em muitos adultos com TEA, especialmente aqueles com maior necessidade de suporte, parte importante da intervenção consiste em manter habilidades já adquiridas, evitar perdas de repertório, reduzir comportamentos que comprometem segurança e organizar o ambiente de modo mais previsível e funcional.
A intervenção também deve considerar o nível de suporte do adulto. Pessoas com TEA nível 1 podem necessitar de apoio em habilidades sociais, adaptação profissional, organização, planejamento, regulação emocional e vida independente. Pessoas com TEA nível 2 podem demandar suporte mais frequente em comunicação, rotina, habilidades adaptativas e participação social. Já adultos com TEA nível 3 geralmente necessitam de suporte intensivo, comunicação alternativa, organização ambiental constante, ajuda em atividades básicas e manejo de comportamentos desafiadores.
Portanto, a intervenção na vida adulta deve ser funcional, contextualizada e realista. Seu objetivo não é padronizar o adulto nem fazê-lo corresponder a expectativas sociais rígidas, mas ampliar suas possibilidades de comunicação, participação, segurança, escolha e bem-estar.
Tabela 1 – Características da intervenção na vida adulta
| Aspecto | Característica | Exemplo Prático | Objetivo Funcional |
|---|---|---|---|
| Foco | Funcionalidade, manutenção e generalização de repertórios. | Ensinar o adulto a usar comunicação alternativa para pedir ajuda em diferentes ambientes. | Aumentar participação e reduzir dependência de comportamentos disruptivos. |
| Objetivo | Qualidade de vida, segurança, autonomia possível e participação social. | Organizar rotina diária com atividades de autocuidado, lazer e convivência. | Promover vida cotidiana mais previsível e significativa. |
| Contexto | Ambientes naturais e situações reais de vida. | Treinar habilidades de compra em mercado ou organização de rotina em casa. | Garantir uso funcional das habilidades. |
| Suporte | Variável conforme repertório, nível de suporte e contexto. | Usar apoio visual, mediação de cuidador ou tecnologia assistiva. | Oferecer ajuda adequada sem anular possibilidades de independência. |
| Avaliação | Contínua, funcional e baseada em dados. | Registrar frequência de comunicação funcional e redução de comportamentos de risco. | Ajustar a intervenção conforme os resultados. |
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hume et al. (2021), Speyer et al. (2022), Wehman et al. (2014) e Wolf (1978).
Especificidades do TEA na vida adulta
Na vida adulta, o TEA pode se manifestar de formas muito diferentes, conforme a história de desenvolvimento, o acesso prévio a intervenções, o nível de suporte, a presença de deficiência intelectual, as condições médicas associadas, as oportunidades sociais e a qualidade dos ambientes em que a pessoa está inserida. Por isso, não existe um único modelo de adulto com TEA.
Em adultos com menor necessidade de suporte, as dificuldades podem aparecer principalmente em interações sociais complexas, vida profissional, organização financeira, planejamento da rotina, relações afetivas, manejo de ansiedade, tomada de decisões e adaptação a mudanças. Nesses casos, a intervenção pode envolver treino de habilidades sociais adultas, suporte ocupacional, organização de rotina, autocuidado, regulação emocional e planejamento de vida independente.
Em adultos com maior necessidade de suporte, como no TEA nível 3, as demandas costumam envolver comunicação funcional limitada, dependência significativa para atividades de vida diária, dificuldade em lidar com mudanças, comportamentos desafiadores, necessidade de supervisão constante e maior risco de exclusão social. Nesses casos, a intervenção precisa ser mais intensiva e centrada em comunicação alternativa, organização ambiental, prevenção de riscos, manutenção de habilidades básicas e redução de comportamentos que comprometam segurança.
Caixa explicativa 2 – A vida adulta exige outro olhar
Adultos com TEA não são crianças grandes. A intervenção precisa respeitar sua idade, sua dignidade, sua história e seus contextos reais. Mesmo quando há grande dependência de suporte, as metas devem ser pensadas a partir da vida adulta: comunicação, escolhas possíveis, segurança, rotina significativa, participação familiar, comunitária e qualidade de vida.
Fonte: Adaptado de Hyman, Levy e Myers (2020), Speyer et al. (2022), Wehman et al. (2014) e Wolf (1978).
Tabela 2 – Diferenças entre níveis de suporte na vida adulta
| Nível de Suporte | Características Frequentes | Demandas de Intervenção | Exemplo de Meta |
|---|---|---|---|
| Nível 1 | Necessidade de suporte em interação social, flexibilidade, organização e adaptação a demandas adultas. | Habilidades sociais adultas, planejamento, autonomia, vida profissional e regulação emocional. | Organizar rotina semanal de trabalho, estudo, autocuidado e lazer. |
| Nível 2 | Dificuldades mais evidentes de comunicação, adaptação, flexibilidade e participação social. | Comunicação funcional, suporte em AVDs, treino comunitário e redução de dependência excessiva. | Solicitar ajuda, seguir rotina visual e participar de atividade comunitária com suporte. |
| Nível 3 | Comprometimentos significativos em comunicação, autonomia e comportamento adaptativo. | Comunicação alternativa, organização ambiental, suporte intensivo, segurança e manejo comportamental. | Usar figuras para pedir pausa, alimento, banheiro ou ajuda. |
Fonte: Adaptado de American Psychiatric Association (2022), Cooper, Heron e Heward (2020), Hyman, Levy e Myers (2020) e Speyer et al. (2022).
Objetivos da intervenção em adultos com TEA
Os objetivos da intervenção na vida adulta devem estar diretamente relacionados à qualidade de vida. Isso significa que a escolha das metas precisa considerar o impacto real da habilidade na rotina do adulto. Uma intervenção funcional pergunta: essa habilidade aumenta comunicação? Reduz sofrimento? Melhora segurança? Amplia participação? Diminui dependência? Favorece escolhas? Facilita convivência? Torna a rotina mais digna e significativa?
Entre os principais objetivos, destacam-se comunicação funcional, autonomia em atividades de vida diária, organização da rotina, participação social, autorregulação, redução de comportamentos desafiadores, desenvolvimento ocupacional, lazer, saúde, segurança e apoio à família ou cuidadores.
Em adultos com TEA nível 3, os objetivos podem ser mais básicos, mas não menos importantes. Solicitar água, indicar dor, pedir pausa, aceitar transições com apoio visual, participar de uma atividade breve, tolerar higiene pessoal, escolher entre duas opções ou permanecer em ambiente comunitário com segurança são metas altamente relevantes quando produzem maior bem-estar e reduzem sofrimento.
Tabela 3 – Objetivos centrais da intervenção em adultos
| Objetivo | Descrição | Exemplo de Aplicação | Benefício Esperado |
|---|---|---|---|
| Comunicação funcional | Ensinar formas eficazes de expressar necessidades, escolhas e desconfortos. | Uso de figuras, gestos, comunicação verbal, aplicativo ou dispositivo alternativo. | Redução de frustração e comportamentos disruptivos. |
| Autonomia possível | Ampliar participação do adulto nas próprias rotinas. | Participar do banho, escolher roupa ou organizar objetos pessoais. | Maior independência e dignidade. |
| Organização ambiental | Estruturar o ambiente para favorecer previsibilidade e segurança. | Quadro visual com sequência de atividades do dia. | Redução de ansiedade e aumento de colaboração. |
| Participação social | Promover presença e engajamento em contextos familiares e comunitários. | Participar de caminhada, grupo de convivência ou atividade de lazer. | Redução de isolamento e ampliação de qualidade de vida. |
| Segurança | Reduzir riscos e ensinar respostas protetivas. | Aprender a pedir ajuda, permanecer próximo ao cuidador ou evitar fuga. | Maior proteção em ambientes naturais. |
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Hume et al. (2021), Speyer et al. (2022) e Wolf (1978).
Comunicação funcional e comportamento adaptativo
A comunicação funcional é um dos eixos centrais da intervenção para adultos com TEA, especialmente quando há linguagem verbal limitada ou ausente. Muitos comportamentos desafiadores podem estar relacionados à dificuldade de expressar necessidades, recusar demandas, pedir ajuda, comunicar dor, indicar desconforto ou solicitar pausa. Quando o adulto não possui uma forma eficiente de comunicação, comportamentos como gritos, autoagressão, fuga ou resistência podem produzir efeitos no ambiente e se manter ao longo do tempo.
Nesse sentido, a comunicação alternativa ou aumentativa pode ter papel decisivo. Sistemas por figuras, pranchas de comunicação, gestos, sinais, dispositivos eletrônicos ou aplicativos podem ser utilizados conforme o perfil do adulto. O objetivo não é apenas oferecer um recurso visual, mas ensinar seu uso funcional em situações reais.
O comportamento adaptativo também precisa ser considerado. Ele envolve habilidades práticas necessárias para a vida cotidiana, como alimentação, higiene, vestuário, deslocamento, organização de objetos, participação em rotinas domésticas e uso de serviços da comunidade. Para muitos adultos com TEA, a intervenção deve priorizar essas habilidades porque elas impactam diretamente o cuidado diário, a segurança e a qualidade de vida.
Caixa explicativa 3 – Comunicação funcional reduz sofrimento
Quando o adulto não consegue comunicar fome, dor, cansaço, medo, desconforto ou desejo de pausa, o ambiente pode interpretar seu comportamento apenas como oposição ou crise. Ensinar comunicação funcional é oferecer uma via mais digna e eficaz para que ele seja compreendido.
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Durand e Carr (1991) e Hanley (2012).
Tabela 4 – Comunicação e comportamento adaptativo
| Área | Necessidade Frequente | Estratégia Possível | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Pedido de ajuda | Dificuldade em solicitar apoio diante de obstáculos. | Ensino de cartão, gesto, palavra ou botão de “ajuda”. | Redução de frustração e maior segurança. |
| Recusa funcional | Uso de gritos ou resistência para escapar de demandas. | Ensinar respostas como “pausa”, “não quero” ou “depois”. | Substituição de comportamento disruptivo por comunicação. |
| Autocuidado | Dependência em higiene, vestuário ou alimentação. | Análise de tarefas, prompts e fading gradual. | Participação mais ativa nas rotinas pessoais. |
| Rotina doméstica | Dificuldade em compreender sequência de atividades. | Quadros visuais, rotina previsível e reforçamento. | Maior previsibilidade e colaboração. |
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley (2012), Hume et al. (2021) e Wolf (1978).
Estudo de caso clínico-pedagógico
João, 22 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista nível 3 de suporte, apresenta comprometimentos significativos em comunicação, comportamento adaptativo e autonomia. Não utiliza linguagem verbal funcional de modo consistente, comunicando-se principalmente por vocalizações, aproximação física, movimentos corporais, condução manual de adultos e comportamentos não verbais. Em situações de desconforto, suas respostas tendem a se intensificar rapidamente.
João depende de suporte integral para diversas atividades de vida diária, como alimentação, higiene, troca de roupas, organização de rotina e deslocamento em ambientes externos. Embora consiga participar de algumas etapas quando recebe ajuda física ou visual, raramente inicia atividades de forma independente. Sua família relata que, quando a rotina é previsível, João permanece mais tranquilo; porém, diante de mudanças, atrasos ou demandas não compreendidas, apresenta comportamentos disruptivos.
Os comportamentos mais frequentes incluem gritos, choro intenso, resistência física, jogar objetos e episódios leves de autoagressão, especialmente bater as mãos contra a cabeça ou pressionar o corpo contra superfícies. Esses comportamentos ocorrem com maior frequência em três situações: transições entre atividades, interrupção de itens preferidos e impossibilidade de comunicar necessidades básicas.
A avaliação funcional indicou que parte desses comportamentos estava relacionada à dificuldade de comunicação. Em muitos momentos, João parecia tentar expressar fome, cansaço, dor, desejo de continuar uma atividade ou necessidade de pausa, mas não possuía repertório comunicativo funcional suficiente. Como os comportamentos disruptivos frequentemente produziam resposta rápida dos cuidadores, como retirada da demanda, oferta de item ou mudança de atividade, acabavam sendo fortalecidos.
Outro fator identificado foi a baixa previsibilidade ambiental. A rotina de João variava conforme a disponibilidade da família, e as mudanças nem sempre eram antecipadas. A ausência de sinais claros sobre o que aconteceria em seguida aumentava a probabilidade de resistência, especialmente quando uma atividade preferida era encerrada sem aviso prévio.
Diante dessa análise, a equipe estruturou uma intervenção voltada para comunicação alternativa, organização ambiental, redução de comportamentos disruptivos e aumento de participação em atividades funcionais. O objetivo inicial não era alcançar independência plena, mas ampliar a comunicação possível, reduzir sofrimento e aumentar a previsibilidade da rotina.
Foi introduzido um sistema de comunicação por figuras, iniciado com poucos itens altamente funcionais: água, comida, banheiro, pausa, ajuda, dor, mais e acabou. A equipe ensinou João a entregar ou apontar figuras em situações naturais, sempre vinculando o uso da comunicação a consequências significativas. Por exemplo, ao entregar a figura “pausa”, João recebia breve intervalo da atividade; ao usar “água”, tinha acesso à bebida; ao usar “ajuda”, recebia suporte do cuidador.
Também foram implementadas rotinas visuais simples, com sequência de atividades do dia. Para transições, a equipe utilizou cartões de “agora e depois”, avisos prévios e contagem visual. Quando João estava em uma atividade preferida, a transição era preparada gradualmente, reduzindo mudanças abruptas.
No campo das atividades de vida diária, a equipe selecionou metas iniciais de participação parcial. Em vez de exigir que João realizasse todo o processo de higiene sozinho, foram escolhidas etapas específicas, como pegar a toalha, entregar a escova, colocar a roupa usada no cesto e lavar as mãos com apoio visual. Cada resposta adequada era reforçada socialmente e, quando necessário, com acesso a itens preferidos.
A família recebeu treinamento para utilizar o mesmo sistema comunicativo e as mesmas rotinas visuais em casa. Esse ponto foi essencial, pois a comunicação alternativa não poderia ficar restrita ao atendimento. Os cuidadores foram orientados a aguardar brevemente a resposta comunicativa antes de antecipar necessidades, evitando resolver tudo sem dar oportunidade de comunicação.
Após três meses, João passou a utilizar algumas figuras de forma mais consistente, especialmente “água”, “mais”, “pausa” e “ajuda”. A frequência dos gritos reduziu em situações nas quais havia previsibilidade visual. Ainda ocorriam episódios de resistência, principalmente diante de mudanças inesperadas, mas a intensidade diminuiu quando os cuidadores utilizavam antecipação e ofereciam possibilidade de comunicação.
Após seis meses, observou-se maior participação em rotinas simples e redução dos episódios leves de autoagressão em transições planejadas. João passou a tolerar melhor o encerramento de atividades preferidas quando recebia aviso prévio e alternativa visual. A família relatou melhora na rotina doméstica e maior compreensão das necessidades do adulto.
O caso evidencia que, mesmo em adultos com TEA nível 3 e alta necessidade de suporte, a intervenção pode produzir mudanças significativas quando é baseada em análise funcional, comunicação alternativa, organização ambiental e metas realistas. A intervenção não eliminou todas as dificuldades, mas reduziu sofrimento, aumentou comunicação e ampliou a participação de João em sua rotina.
Tabela 5 – Matriz de análise do estudo de caso de João
| Situação Observada | Análise Funcional | Estratégia Utilizada | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Gritos diante de necessidades não compreendidas. | Déficit de comunicação funcional e acesso rápido à atenção do cuidador. | Ensino de comunicação alternativa por figuras. | Substituir gritos por pedidos funcionais. |
| Resistência física em transições. | Baixa previsibilidade e dificuldade em encerrar atividades preferidas. | Rotina visual, cartão “agora e depois” e aviso prévio. | Aumentar tolerância a mudanças. |
| Dependência integral em atividades de vida diária. | Poucas oportunidades de participação parcial e excesso de ajuda. | Análise de tarefas, prompts e reforçamento de etapas simples. | Ampliar participação em autocuidado. |
| Autoagressão leve em situações de frustração. | Expressão de desconforto sem repertório alternativo adequado. | Ensino de cartões “pausa”, “ajuda” e “dor”. | Reduzir risco e aumentar comunicação de desconforto. |
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Durand e Carr (1991), Hanley (2012), Hume et al. (2021) e Wolf (1978).
Questões reflexivas
- Explique por que a intervenção na vida adulta difere da intervenção na infância.
- Analise os principais desafios apresentados no caso de João.
- Justifique por que a comunicação alternativa é essencial para adultos com TEA e comunicação verbal limitada.
- Explique o papel da organização ambiental na intervenção para adultos com TEA.
- Discorra sobre a importância da análise funcional na definição da intervenção para adultos com TEA.
Gabarito comentado
Na primeira questão, o aluno deve explicar que a intervenção na vida adulta difere da infância porque os objetivos se modificam ao longo do desenvolvimento. Na infância, há forte ênfase na aquisição inicial de repertórios básicos. Na vida adulta, o foco se amplia para manutenção, generalização, funcionalidade, autonomia possível, segurança e qualidade de vida. O adulto está inserido em demandas próprias da vida adulta e deve ser respeitado em sua dignidade, idade e história.
Na segunda questão, espera-se que o aluno identifique que João apresenta desafios relacionados à comunicação funcional limitada, dependência em atividades de vida diária, baixa previsibilidade ambiental e comportamentos disruptivos. Esses desafios não devem ser compreendidos como problemas isolados, mas como respostas relacionadas às condições ambientais, à dificuldade de comunicar necessidades e à ausência de repertórios alternativos mais funcionais.
Na terceira questão, a resposta deve demonstrar que a comunicação alternativa é essencial porque oferece ao adulto uma forma funcional de expressar necessidades, recusas, desconfortos e pedidos de ajuda. Sem comunicação eficaz, comportamentos disruptivos podem se tornar meios de produzir mudanças no ambiente. Ao ensinar figuras, gestos ou dispositivos comunicativos, a intervenção reduz frustração e amplia participação.
Na quarta questão, o aluno deve explicar que a organização ambiental aumenta previsibilidade, reduz ansiedade e facilita compreensão das rotinas. Para adultos com TEA e maior necessidade de suporte, ambientes imprevisíveis podem aumentar comportamentos de resistência, fuga ou autoagressão. Rotinas visuais, cartões de transição e antecipação de mudanças ajudam o adulto a compreender o que acontecerá e a responder com maior segurança.
Na quinta questão, espera-se que o aluno afirme que a análise funcional permite compreender a função dos comportamentos, evitando intervenções baseadas apenas em controle ou tentativa e erro. No caso de João, os comportamentos disruptivos estavam relacionados à comunicação limitada e à baixa previsibilidade. A análise funcional orientou o uso de comunicação alternativa, organização ambiental e ensino de respostas substitutivas.
Encerramento da aula
Nesta aula, compreendemos que a intervenção para adultos com TEA exige uma abordagem específica, centrada na funcionalidade, na qualidade de vida, na comunicação, na segurança e no suporte contínuo. A vida adulta não deve ser compreendida como uma fase sem possibilidades de aprendizagem, mas como um período em que as intervenções precisam ser ajustadas às demandas reais do sujeito e de seus ambientes.
Vimos que a intervenção pode variar conforme o nível de suporte, desde estratégias voltadas à vida independente e adaptação profissional até intervenções intensivas em comunicação alternativa, organização ambiental e participação em atividades básicas. O caso de João demonstrou que, mesmo em situações de alta dependência, metas bem definidas e baseadas em análise funcional podem produzir ganhos importantes.
Na próxima aula, estudaremos as estratégias de intervenção para adultos com TEA, aprofundando como atuar na comunicação, nas habilidades de vida diária, na organização ambiental, na participação social e no manejo de comportamentos desafiadores.
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