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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 5 – Planejamento de Intervenção a partir do VB-MAPP

1. Introdução

Olá, alunos. Na aula anterior, aprendemos a interpretar os resultados do VB-MAPP, compreendendo que a avaliação não termina na pontuação, mas se transforma em leitura clínica do repertório da criança. Agora avançamos para um passo ainda mais decisivo: o planejamento da intervenção.

Saber o que a criança tem ou não tem é importante, mas insuficiente. O profissional precisa responder à seguinte pergunta: o que fazer com esses dados? O planejamento é o momento em que o conhecimento técnico se transforma em ação clínica. É aqui que definimos prioridades, objetivos, estratégias e formas de ensino.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

Planejar a intervenção é transformar os dados do VB-MAPP em objetivos clínicos claros, mensuráveis e funcionais. A avaliação indica o repertório da criança; o planejamento organiza o caminho para ensinar novas habilidades.

Fonte: Adaptado de Sundberg (2008), Baer, Wolf e Risley (1968) e Cooper, Heron e Heward (2020).

2. O que é planejar uma intervenção em ABA

Planejar uma intervenção em ABA significa organizar, de forma sistemática, quais habilidades serão ensinadas, como serão ensinadas e em quais condições. Esse planejamento deve ser individualizado, funcional e baseado em evidências.

Não se trata de aplicar um roteiro pronto. Cada criança apresenta um perfil único, com forças, dificuldades, interesses e barreiras específicas. O VB-MAPP oferece os dados. O planejamento transforma esses dados em ação.

Um bom planejamento deve considerar o repertório atual da criança, as habilidades ausentes, as barreiras de aprendizagem, os interesses motivadores, os contextos em que a habilidade precisa aparecer e a participação da família e da escola. Dessa forma, a intervenção deixa de ser uma sequência de atividades soltas e passa a ser um processo clínico organizado.

3. Definição de prioridades

Nem tudo deve ser ensinado ao mesmo tempo. Um dos maiores erros na prática clínica é tentar ensinar muitas habilidades simultaneamente, sem critério. O planejamento precisa estabelecer prioridades claras.

Em geral, priorizamos habilidades que aumentam a qualidade de vida da criança, como comunicação funcional, redução de comportamentos-problema, autonomia e participação social. Habilidades acadêmicas só devem ser foco principal quando os repertórios básicos já estiverem estabelecidos.

A definição de prioridades deve responder a uma pergunta central: qual habilidade, se ensinada agora, produzirá maior impacto na vida da criança? Essa pergunta ajuda o profissional a evitar objetivos pouco funcionais e a construir um plano realmente conectado às necessidades clínicas, familiares e educacionais.

Tabela 1 – Critérios para definição de prioridades

Critério Descrição Exemplo
Funcionalidade Habilidade útil no dia a dia. Pedir água em vez de chorar.
Impacto comportamental Habilidade que reduz comportamentos-problema. Comunicação funcional reduz crises.
Pré-requisito Base para outras habilidades. Imitação para aprender novas ações.
Generalização Possibilidade de uso em diferentes ambientes. Cumprimentar pessoas em casa, escola e clínica.

Fonte: Elaborado com base em Cooper, Heron e Heward (2020), Sundberg (2008) e Baer, Wolf e Risley (1968).

4. Construção de objetivos comportamentais

Após definir prioridades, o próximo passo é transformar essas prioridades em objetivos claros. Um objetivo comportamental precisa ser observável, mensurável e específico.

Por exemplo, dizer que “a criança precisa melhorar a comunicação” é vago. Já dizer que “a criança irá pedir itens desejados utilizando palavras ou figuras em 80% das oportunidades” é um objetivo mensurável.

Objetivos bem definidos permitem avaliar progresso, ajustar estratégias e garantir consistência entre profissionais. Eles também facilitam a comunicação com a família, pois tornam o plano mais claro e permitem acompanhar os avanços de forma concreta.

Tabela 2 – Estrutura de um objetivo comportamental

Elemento Descrição Exemplo aplicado
Comportamento O que a criança fará. Solicitar itens desejados.
Condição Em que situação ocorrerá. Diante de itens visíveis, mas fora de alcance.
Critério Nível esperado de desempenho. Em 80% das oportunidades, por três sessões consecutivas.

Fonte: Elaborado com base em Baer, Wolf e Risley (1968), Sundberg (2008) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Caixa explicativa 2 – Objetivo vago x objetivo mensurável

Objetivo vago: “melhorar a comunicação”. Objetivo mensurável: “a criança irá solicitar itens desejados por figura, gesto ou vocalização em 80% das oportunidades, com ajuda mínima, em dois ambientes diferentes”.

Fonte: Adaptado de Baer, Wolf e Risley (1968), Cooper, Heron e Heward (2020) e Sundberg (2008).

5. Escolha das estratégias de ensino

O planejamento também envolve escolher como ensinar. Entre as principais estratégias estão modelagem, encadeamento, ensino por tentativas discretas, ensino naturalístico e reforçamento diferencial.

A escolha depende do perfil da criança. Crianças com baixo repertório inicial podem se beneficiar de ensino mais estruturado. Já crianças com maior repertório podem aprender melhor em contextos naturais. O profissional deve considerar o nível de atenção, a motivação, a tolerância à demanda, a capacidade de imitação, a resposta a instruções e a necessidade de generalização.

Também é necessário definir os reforçadores, os tipos de ajuda que serão utilizados, a forma de retirada gradual dos prompts e os contextos em que a habilidade será ensinada. Sem essas definições, o plano pode ficar genérico e difícil de aplicar.

Tabela 3 – Estratégias de ensino e indicações clínicas

Estratégia Quando utilizar Exemplo
Modelagem Quando a habilidade ainda não existe no repertório. Reforçar aproximações até a criança apontar para pedir.
Encadeamento Quando a habilidade envolve sequência de passos. Ensinar lavar as mãos passo a passo.
Tentativas discretas Quando é necessário ensino estruturado e repetido. Ensinar imitação motora simples em ambiente controlado.
Ensino naturalístico Quando se busca funcionalidade e generalização. Ensinar pedidos durante brincadeiras e rotina.
Reforçamento diferencial Quando é preciso fortalecer respostas adequadas e reduzir respostas inadequadas. Reforçar pedir ajuda em vez de chorar diante da tarefa.

Fonte: Elaborado com base em Cooper, Heron e Heward (2020), Sundberg (2008) e Baer, Wolf e Risley (1968).

6. Estudo de caso

Ana, 4 anos, apresenta diagnóstico de TEA e foi avaliada pelo VB-MAPP. Seus resultados indicaram bom repertório de emparelhamento e interesse por brinquedos visuais, mas baixo repertório de mando, pouca imitação e dificuldades em seguir instruções simples.

A família relata que Ana chora frequentemente quando quer algo e não consegue se comunicar. Na escola, ela permanece isolada e evita atividades dirigidas.

A interpretação dos dados indicou que a prioridade deve ser comunicação funcional. O planejamento definiu como objetivo inicial: “Ana irá solicitar itens desejados utilizando figuras ou vocalizações em 80% das oportunidades, em ambiente terapêutico”.

Além disso, foram incluídos objetivos de imitação motora simples e resposta de ouvinte. As estratégias escolhidas foram ensino estruturado com reforço imediato e uso de estímulos visuais, aproveitando seu repertório forte.

O plano também incluiu orientação familiar, para que os pais não antecipassem as necessidades da criança e criassem oportunidades de comunicação.

Esse caso ilustra que o planejamento não é genérico. Ele parte dos dados da avaliação, considera o contexto da criança e define intervenções específicas e funcionais.

Tabela 4 – Planejamento inicial do caso Ana

Dado do VB-MAPP Interpretação Objetivo inicial Estratégia sugerida
Baixo repertório de mando. Dificuldade de comunicação funcional. Solicitar itens desejados com figura, gesto ou vocalização. Ensino naturalístico com reforço imediato.
Bom emparelhamento visual. Área forte que pode apoiar o ensino. Usar figuras como apoio comunicativo. Pistas visuais e comunicação por figuras.
Pouca imitação. Déficit em aprendizagem por observação. Imitar ações motoras simples. Tentativas discretas e reforçamento positivo.
Dificuldade em seguir instruções simples. Déficit em comportamento de ouvinte. Seguir instruções de uma etapa. Ensino estruturado com retirada gradual de prompts.

Fonte: Elaborado com base em Sundberg (2008), Cooper, Heron e Heward (2020) e Baer, Wolf e Risley (1968).

7. Questões

  1. Por que não é adequado iniciar uma intervenção ensinando habilidades acadêmicas quando a criança ainda não possui comunicação funcional?
  2. Uma criança apresenta bom desempenho em tarefas estruturadas, mas não usa essas habilidades fora da clínica. O que isso indica sobre o planejamento?
  3. Explique por que objetivos vagos comprometem a intervenção.
  4. Por que a escolha de estratégias deve considerar o perfil da criança?

Gabarito comentado

Na primeira questão, espera-se que o aluno compreenda que habilidades acadêmicas exigem pré-requisitos importantes, como atenção, compreensão de instruções e comunicação. Sem comunicação funcional, a criança pode apresentar frustração, comportamentos-problema e baixa participação. Ensinar primeiro a comunicação permite que ela interaja com o ambiente, reduza comportamentos inadequados e esteja mais disponível para aprender conteúdos acadêmicos posteriormente.

Na segunda questão, o aluno deve identificar que há falha na generalização. O planejamento pode estar excessivamente focado em contexto estruturado. Será necessário incluir ensino em ambientes naturais, com diferentes pessoas e situações, para que a habilidade seja funcional e não limitada à clínica.

Na terceira questão, espera-se que o aluno explique que objetivos vagos não permitem mensuração clara do progresso. Sem critérios definidos, diferentes profissionais podem interpretar o comportamento de formas distintas, prejudicando a consistência da intervenção. Objetivos claros garantem avaliação precisa e ajustes adequados.

Na quarta questão, o aluno deve compreender que cada criança responde de forma diferente aos métodos de ensino. Algumas precisam de estrutura intensa, outras aprendem melhor em contexto natural. Ignorar essas diferenças pode reduzir a eficácia da intervenção. O planejamento deve ser individualizado para garantir aprendizagem real.

8. Fechamento

Nesta aula, aprendemos que planejar uma intervenção é transformar avaliação em ação. O VB-MAPP fornece dados, mas é o planejamento que organiza o ensino. Definir prioridades, construir objetivos claros e escolher estratégias adequadas são etapas essenciais para uma intervenção eficaz.

Na próxima aula, avançaremos para a implementação da intervenção, compreendendo como aplicar, registrar e ajustar os programas na prática clínica e educacional.

Referências Bibliográficas

Baer, D. M.; Wolf, M. M.; Risley, T. R. Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 1, n. 1, p. 91-97, 1968. DOI: 10.1901/jaba.1968.1-91. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1968.1-91. Acesso em: 15 jun. 2026.

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Sundberg, M. L. VB-MAPP: verbal behavior milestones assessment and placement program. Concord: AVB Press, 2008. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.avbpress.com. Acesso em: 15 jun. 2026.