Conteúdo do curso
Sumário do Curso de Pós Graduação em ABA
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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Módulo 13 – Farmacologia Aplicada ao Autismo
Aula de Conclusão
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Avaliação final do Curso
Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 2 – Introdução ao VB-MAPP

1. Introdução ao VB-MAPP e sua relevância clínica

O VB-MAPP, sigla para Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program, constitui um dos instrumentos mais relevantes dentro da Análise do Comportamento Aplicada para avaliação de linguagem e habilidades de aprendizagem em crianças com autismo ou atrasos no desenvolvimento. Sua importância está no fato de permitir que o profissional observe o repertório da criança de maneira funcional, organizada e diretamente relacionada ao planejamento da intervenção.

Diferentemente de instrumentos tradicionais, o VB-MAPP não avalia apenas a presença de fala, nem se limita a verificar se a criança consegue nomear figuras, repetir palavras ou responder perguntas isoladas. O protocolo investiga a função da linguagem. Isso representa uma mudança fundamental na prática clínica, pois o foco deixa de ser apenas “o que a criança fala” e passa a ser “para que ela fala”, “em que contexto ela fala” e “qual consequência mantém esse comportamento”.

Essa forma de avaliação é essencial porque muitas crianças apresentam fala, mas não apresentam comunicação funcional. Algumas repetem frases de desenhos, músicas ou falas de adultos, mas não conseguem pedir água quando estão com sede, solicitar ajuda quando precisam ou responder a perguntas simples do cotidiano. Nesses casos, a fala existe como topografia, mas ainda não funciona como comunicação efetiva.

O VB-MAPP auxilia justamente na identificação dessas diferenças. Ele permite compreender se a criança utiliza a linguagem para pedir, nomear, repetir, responder, interagir, brincar, seguir instruções e participar de situações sociais. Assim, o instrumento se torna uma ferramenta de análise do desenvolvimento, mas também um recurso para organizar o ensino.

A base teórica do VB-MAPP está na obra de Skinner sobre comportamento verbal. Para a Análise do Comportamento, a linguagem é entendida como comportamento aprendido, mantido por consequências e controlado por variáveis ambientais. Portanto, quando uma criança fala, aponta, entrega uma figura ou utiliza gestos para comunicar algo, é necessário compreender qual função esse comportamento exerce naquele contexto.

2. Fundamentos do comportamento verbal

O VB-MAPP se baseia na classificação dos operantes verbais. Esses operantes representam diferentes funções da linguagem. Entre os principais estão o mando, o tato, o ecoico e o intraverbal. Compreender esses conceitos é indispensável para interpretar corretamente os resultados da avaliação.

O mando ocorre quando a criança pede algo que deseja ou necessita. Ele está diretamente relacionado à motivação. Por exemplo, quando a criança está com sede e diz “água”, esse comportamento verbal tem função de mando. O reforço específico é o acesso à água. Por isso, o mando costuma ser uma das habilidades mais importantes no início da intervenção, especialmente quando a criança apresenta comportamentos de frustração por não conseguir se comunicar.

O tato ocorre quando a criança nomeia algo presente no ambiente. Por exemplo, ao ver um cachorro e dizer “cachorro”, a criança está emitindo um tato. Nesse caso, a resposta não ocorre porque ela quer o cachorro, mas porque está sob controle de um estímulo presente no ambiente. O tato contribui para a ampliação de vocabulário e para a interação com o mundo.

O ecoico ocorre quando a criança repete aquilo que ouve. Se o adulto diz “bola” e a criança repete “bola”, temos um comportamento ecoico. Essa habilidade pode ser importante para o desenvolvimento da fala, mas não deve ser confundida com comunicação funcional. Uma criança pode repetir muitas palavras e, ainda assim, não saber utilizá-las para pedir, responder ou interagir.

O intraverbal ocorre quando a criança responde verbalmente a outro estímulo verbal, sem correspondência direta com o que foi dito. Por exemplo, quando alguém pergunta “qual é o seu nome?” e a criança responde corretamente, está emitindo um intraverbal. Esse repertório é fundamental para conversação, respostas sociais e participação em atividades acadêmicas.

Tabela 1 – Operantes verbais e suas funções
Operante verbal Função principal Exemplo prático
Mando Solicitar algo desejado ou necessário. A criança diz “água” porque está com sede.
Tato Nomear objetos, pessoas, ações ou eventos presentes no ambiente. A criança vê um cachorro e diz “cachorro”.
Ecoico Repetir aquilo que foi ouvido. O adulto fala “bola” e a criança repete “bola”.
Intraverbal Responder verbalmente em contexto de conversa ou pergunta. O adulto pergunta “qual é o seu nome?” e a criança responde.
Fonte: elaborado com base em Skinner; Sundberg – VB-MAPP.

3. Estrutura geral do VB-MAPP

O VB-MAPP organiza o desenvolvimento em três níveis progressivos. Esses níveis foram construídos com base em marcos do desenvolvimento infantil e permitem ao profissional identificar em que ponto do desenvolvimento a criança se encontra. É importante destacar que esses níveis não devem ser tratados como idade cronológica rígida. Eles indicam repertório de desenvolvimento.

O nível 1 corresponde a habilidades iniciais, geralmente relacionadas ao desenvolvimento de 0 a 18 meses. Nesse nível, observam-se repertórios básicos, como primeiros mandos, atenção ao outro, imitação simples, vocalizações, respostas iniciais de ouvinte e engajamento em brincadeiras simples.

O nível 2 corresponde a habilidades intermediárias, associadas aproximadamente ao desenvolvimento entre 18 e 30 meses. Nesse nível, espera-se maior expansão da linguagem, aumento do vocabulário, discriminações mais refinadas, maior participação social, ampliação do brincar e respostas mais consistentes ao outro.

O nível 3 corresponde a habilidades mais complexas, associadas aproximadamente ao desenvolvimento entre 30 e 48 meses. Aqui aparecem repertórios como linguagem mais estruturada, respostas intraverbais mais elaboradas, habilidades acadêmicas iniciais, participação em grupo e maior independência em situações sociais.

Tabela 2 – Níveis do VB-MAPP
Nível Faixa aproximada de desenvolvimento Características principais
Nível 1 0–18 meses Habilidades iniciais de comunicação, imitação, interação, vocalização e primeiros mandos.
Nível 2 18–30 meses Expansão de linguagem, discriminação de estímulos, ampliação do brincar e maior interação social.
Nível 3 30–48 meses Linguagem mais complexa, habilidades acadêmicas iniciais, participação em grupo e maior independência.
Fonte: elaborado com base em Sundberg – VB-MAPP; Martone.

4. Aplicação clínica do VB-MAPP

A aplicação clínica do VB-MAPP exige preparo técnico, conhecimento dos conceitos de comportamento verbal e organização cuidadosa dos materiais. O profissional não deve iniciar a avaliação sem antes compreender os objetivos de cada área avaliada e sem observar minimamente o repertório inicial da criança.

Na prática, a aplicação envolve brinquedos, figuras, objetos do cotidiano, materiais de pareamento, livros, alimentos, itens de preferência e situações naturais de interação. A escolha desses materiais deve considerar a idade, os interesses e o repertório da criança. Para avaliar mando, por exemplo, é necessário identificar itens que realmente funcionem como reforçadores. Sem motivação, o mando pode não aparecer.

Outro ponto importante é que o VB-MAPP não deve ser aplicado como uma prova escolar. A avaliação deve ocorrer de forma natural, respeitando o ritmo da criança e observando suas respostas em diferentes situações. Algumas habilidades podem ser avaliadas em mesa, enquanto outras aparecem melhor durante brincadeiras, interações sociais ou atividades de rotina.

O avaliador também precisa distinguir resposta independente, resposta com ajuda e ausência de resposta. Essa diferenciação é essencial, pois uma criança que responde apenas com muita ajuda ainda não domina a habilidade. O planejamento posterior deve considerar esse grau de independência.

Além disso, o VB-MAPP exige atenção às barreiras de aprendizagem. Uma criança pode não demonstrar determinada habilidade porque não a possui, mas também pode não responder por falta de motivação, comportamento de fuga, dependência de dica, dificuldade de atenção ou defesa sensorial. Por isso, a interpretação do resultado precisa ser clínica, e não apenas numérica.

5. Estudo de caso:

João, 5 anos, foi encaminhado para avaliação com queixa principal de atraso de linguagem, dificuldades de interação social e comportamentos de frustração. A família relatava que João “fala bastante”, pois repetia frases de desenhos animados, cantava músicas e reproduzia falas inteiras ouvidas em vídeos. Apesar disso, apresentava grande dificuldade para pedir objetos, responder perguntas simples e participar de conversas.

No ambiente familiar, quando João queria algo, costumava puxar o adulto pela mão até o local desejado. Se o adulto não compreendia rapidamente, ele chorava, gritava ou jogava objetos. Na escola, a professora relatava que ele raramente respondia ao chamado pelo nome, não participava de brincadeiras em grupo e se mantinha por longos períodos girando carrinhos ou alinhando peças.

Durante a observação inicial, percebeu-se que João tinha bom repertório ecoico. Quando o adulto dizia “bola”, “carro” ou “dá tchau”, ele repetia algumas palavras ou expressões. No entanto, quando era colocado diante de um item altamente desejado, como bolhas de sabão, não emitia pedido espontâneo. Ele tentava pegar o frasco diretamente ou puxava a mão do adulto.

Na aplicação do VB-MAPP, João apresentou desempenho mais compatível com nível 1 em mando, imitação e ouvinte. Seu repertório de ecoico apareceu mais desenvolvido, mas ainda pouco funcional. O tato era inconsistente: ele nomeava algumas figuras conhecidas quando solicitado, mas não utilizava espontaneamente essas palavras para compartilhar atenção ou interagir.

Esse perfil evidenciou uma dissociação importante entre forma e função da linguagem. João possuía fala, mas não utilizava a linguagem de modo funcional para se comunicar. Esse dado é clinicamente relevante porque mostra que o objetivo inicial da intervenção não deveria ser apenas aumentar vocabulário, mas ensinar o uso funcional da comunicação.

A intervenção foi planejada com prioridade para o ensino de mandos. Foram selecionados reforçadores fortes, como bolhas de sabão, carrinhos e músicas preferidas. Inicialmente, qualquer tentativa comunicativa apropriada era reforçada, incluindo olhar, aproximação, vocalização ou tentativa de palavra. Gradualmente, o critério foi aumentado para respostas mais claras, como “bola”, “mais”, “abre” e “quero”.

Também foram incluídos programas de imitação motora, atenção compartilhada e respostas de ouvinte simples. O objetivo era ampliar as bases necessárias para novas aprendizagens. Após três meses de intervenção, João passou a emitir pedidos simples em várias situações, apresentou redução dos episódios de choro e começou a aceitar pequenas trocas comunicativas com adultos.

Esse caso demonstra que a presença de fala não significa, necessariamente, comunicação funcional. O VB-MAPP permitiu identificar quais repertórios estavam realmente presentes, quais estavam ausentes e quais precisavam ser priorizados. A partir dessa análise, foi possível transformar avaliação em intervenção.

6. Questões:

1. Explique por que avaliar apenas a fala da criança pode ser insuficiente na prática clínica.

Resposta: Avaliar apenas a fala pode levar a uma compreensão superficial do repertório da criança. Uma criança pode repetir palavras, cantar músicas ou reproduzir frases sem conseguir utilizar a linguagem para pedir, responder, interagir ou compartilhar interesses. A avaliação precisa considerar a função da linguagem, pois é a função que mostra se a comunicação está sendo usada de forma efetiva no cotidiano. O VB-MAPP permite essa análise ao diferenciar operantes verbais e ao mostrar quais habilidades precisam ser ensinadas.

2. Analise a importância do mando no desenvolvimento da linguagem.

Resposta: O mando é fundamental porque permite que a criança comunique necessidades e desejos. Ele está diretamente ligado à motivação e produz consequências específicas, como receber um objeto, uma ação ou ajuda. Quando a criança aprende a pedir de forma adequada, diminui a necessidade de recorrer a comportamentos de frustração, como choro ou agressividade. Por isso, em muitos casos, o mando é uma prioridade inicial na intervenção ABA.

3. Diferencie comportamento ecoico de comunicação funcional.

Resposta: O comportamento ecoico ocorre quando a criança repete aquilo que ouve. Ele pode ser importante para o desenvolvimento vocal, mas não garante comunicação funcional. A comunicação funcional ocorre quando a linguagem é usada com propósito, como pedir, responder, comentar ou interagir. Uma criança pode repetir “água” sem estar pedindo água, o que mostra que repetir não é o mesmo que comunicar. A intervenção deve buscar transformar repertórios vocais em usos funcionais da linguagem.

4. Explique por que os níveis do VB-MAPP não devem ser confundidos com idade cronológica.

Resposta: Os níveis do VB-MAPP representam repertórios de desenvolvimento, e não a idade real da criança. Uma criança de 6 anos pode apresentar repertórios compatíveis com o nível 1, enquanto outra mais nova pode ter habilidades de nível 2 ou 3. Essa distinção é importante porque a intervenção deve partir do que a criança realmente sabe fazer, e não daquilo que seria esperado apenas pela sua idade cronológica.

5. Analise a relação entre motivação e comportamento verbal.

Resposta: A motivação é uma variável essencial para compreender o comportamento verbal, especialmente o mando. A criança só tende a pedir algo quando aquele item ou atividade tem valor reforçador naquele momento. Se o avaliador ignora a motivação, pode concluir erroneamente que a criança não possui determinada habilidade. Por isso, identificar reforçadores e criar oportunidades naturais de comunicação é parte fundamental da avaliação e da intervenção.

6. Discuta a importância da avaliação funcional na ABA.

Resposta: A avaliação funcional permite compreender as variáveis que controlam o comportamento. Em vez de olhar apenas para a aparência da resposta, o profissional analisa antecedente, comportamento e consequência. Isso torna a intervenção mais precisa, pois permite ensinar habilidades adequadas para substituir comportamentos inadequados e fortalecer repertórios úteis no cotidiano.

7. Explique o impacto de uma intervenção inadequada ao nível de desenvolvimento da criança.

Resposta: Uma intervenção acima do repertório da criança pode gerar frustração, fuga, desmotivação e comportamentos-problema. Já uma intervenção abaixo do repertório pode limitar o avanço e tornar o ensino pouco desafiador. O VB-MAPP ajuda a identificar o ponto de partida adequado, permitindo que os objetivos sejam compatíveis com o repertório atual da criança e favoreçam progresso gradual.

8. Analise o papel do VB-MAPP no planejamento terapêutico.

Resposta: O VB-MAPP organiza o planejamento ao indicar quais habilidades estão presentes, quais estão ausentes e quais barreiras podem interferir na aprendizagem. A partir desses dados, o profissional define prioridades, seleciona programas de ensino e acompanha o progresso. Assim, o protocolo não é apenas uma avaliação, mas uma ferramenta para tomada de decisão clínica.

9. Discuta a importância da análise de dados na intervenção ABA.

Resposta: A análise de dados permite verificar se a intervenção está funcionando. Sem dados, o profissional depende apenas de impressões subjetivas. Com dados, é possível observar progresso, estagnação ou regressão, ajustando o ensino quando necessário. Isso garante maior rigor técnico e aumenta a efetividade da intervenção.

10. Relacione o estudo de caso apresentado com a importância da função da linguagem.

Resposta: O caso de João mostra que a presença de fala não garante comunicação funcional. Embora ele repetisse frases e palavras, não conseguia usar a linguagem para pedir ou responder de forma adequada. O VB-MAPP permitiu identificar essa diferença e direcionar a intervenção para o ensino de mandos e comunicação funcional. Isso demonstra que compreender a função da linguagem é essencial para planejar uma intervenção eficaz.