Aula 10 – Estudos de Caso Comparativos: VB-MAPP vs. ABLLS-R
1. Introdução
Olá alunos, tudo bem com vocês? Eu sou a professora Bárbara e, na aula de hoje, nós vamos avançar para um nível mais sofisticado da prática clínica: a comparação e integração entre instrumentos de avaliação. Até aqui, nós estudamos o VB-MAPP e o ABLLS-R separadamente. Agora, vamos aprender a utilizá-los de forma conjunta, construindo um raciocínio clínico mais completo e preciso.
Na prática, o analista do comportamento não trabalha apenas com protocolos, mas com decisões. E essas decisões dependem da capacidade de interpretar dados de diferentes fontes. Cada instrumento oferece uma leitura específica do desenvolvimento. Quando conseguimos integrar essas leituras, ampliamos nossa compreensão da criança e qualificamos nossa intervenção.
Essa aula tem como objetivo justamente desenvolver esse olhar clínico mais refinado. Vamos compreender as diferenças entre os instrumentos, analisar casos reais e aprender a tomar decisões baseadas em dados integrados.
Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula
O VB-MAPP e o ABLLS-R não devem ser vistos como instrumentos concorrentes, mas complementares. O VB-MAPP ajuda a compreender os marcos do comportamento verbal e as barreiras iniciais, enquanto o ABLLS-R amplia a análise para repertórios funcionais, acadêmicos, sociais e de autonomia.
Fonte: Adaptado de Sundberg (2008), Partington (2006) e Cooper, Heron e Heward (2020).
2. Diferença estrutural entre VB-MAPP e ABLLS-R
O VB-MAPP organiza o desenvolvimento em níveis, com foco nos marcos do comportamento verbal e nas habilidades iniciais de aprendizagem. Ele é especialmente útil para identificar em que estágio a criança se encontra em relação à linguagem, aos mandos, tatos, respostas de ouvinte, imitação, brincar, interação social e repertórios iniciais importantes para o desenvolvimento.
Já o ABLLS-R amplia essa avaliação, organizando habilidades por áreas e incluindo repertórios mais complexos e funcionais, como autonomia, habilidades acadêmicas, comportamento de aprendizagem e vida diária. Ele permite olhar para além da linguagem, ajudando o profissional a compreender se a criança consegue usar aquilo que aprende de forma prática, independente e funcional.
Essa diferença estrutural explica por que os dois instrumentos não devem ser vistos como concorrentes, mas como complementares. O VB-MAPP ajuda a responder perguntas como: em que nível de desenvolvimento verbal essa criança está? Quais marcos ela já alcançou? Existem barreiras importantes impedindo a aprendizagem? Já o ABLLS-R ajuda a responder: quais habilidades específicas precisam ser ensinadas? Quais repertórios de vida diária estão ausentes? Como organizar um currículo individualizado mais amplo?
Outra diferença importante está no nível de detalhe. O VB-MAPP trabalha com marcos de desenvolvimento, oferecendo uma leitura mais organizada por níveis. O ABLLS-R, por sua vez, detalha um conjunto maior de habilidades específicas, permitindo que o profissional identifique pequenas lacunas dentro de áreas como linguagem, autocuidado, acadêmico, socialização e comportamento de aprendizagem. Por isso, enquanto o VB-MAPP costuma ser muito útil no início da avaliação e no planejamento inicial, o ABLLS-R favorece o aprofundamento curricular e a continuidade do ensino.
Tabela 1 – Comparação estrutural entre VB-MAPP e ABLLS-R
| Aspecto | VB-MAPP | ABLLS-R |
|---|---|---|
| Organização | Níveis de desenvolvimento. | Categorias de habilidades. |
| Foco principal | Comportamento verbal e marcos iniciais. | Desenvolvimento global e funcional. |
| Aplicação clínica | Avaliação inicial, marcos e barreiras. | Planejamento curricular detalhado. |
| Nível de detalhe | Leitura por marcos do desenvolvimento. | Leitura por habilidades específicas. |
Fonte: Elaborado com base em Sundberg (2008), Partington (2006) e Martone (2017).
Tabela 2 – Diferenças clínicas e implicações para a intervenção
| Dimensão clínica | VB-MAPP | ABLLS-R | Implicação prática |
|---|---|---|---|
| Tipo de leitura | Desenvolvimental, com base em marcos. | Curricular, funcional e detalhada. | O VB-MAPP mostra o estágio geral; o ABLLS-R detalha o que ensinar. |
| Foco da linguagem | Diferencia operantes verbais, como mando, tato, ouvinte e intraverbal. | Avalia linguagem dentro de um conjunto mais amplo de habilidades. | Evita confundir fala com comunicação funcional ampla. |
| Autonomia | Aparece de forma mais indireta, especialmente na transição. | Aparece como área importante de avaliação e ensino. | Permite planejar vida diária, autocuidado e independência. |
| Barreiras | Possui avaliação específica de barreiras. | As dificuldades aparecem no desempenho das tarefas. | Exige interpretação ativa para identificar o que impede a aprendizagem. |
| Uso ideal | Fases iniciais, principalmente quando há atraso importante de linguagem. | Planejamento ampliado, escolar, funcional e de vida diária. | A integração dos dois instrumentos oferece visão mais completa. |
Fonte: Elaborado com base em Sundberg (2008), Partington (2006), Cooper, Heron e Heward (2020).
3. Integração clínica dos instrumentos
Quando utilizamos VB-MAPP e ABLLS-R juntos, conseguimos uma leitura muito mais precisa do desenvolvimento. O VB-MAPP pode indicar que a criança possui repertório verbal emergente ou desenvolvido, enquanto o ABLLS-R pode revelar se esse repertório está sendo utilizado de forma funcional.
Essa integração evita um erro clínico bastante comum: confundir desempenho verbal com desenvolvimento global. Uma criança pode falar, responder perguntas e nomear objetos, mas ainda apresentar dificuldades importantes em autonomia, organização, comportamento de aprendizagem e participação social.
O papel do profissional é justamente integrar essas informações e transformar essa leitura em planejamento. Quando os dados dos dois protocolos são analisados em conjunto, o profissional consegue definir prioridades com mais segurança. Ele pode identificar, por exemplo, que a criança precisa continuar avançando em linguagem, mas também precisa aprender a esperar, seguir rotinas, participar de grupo, organizar materiais e realizar atividades de autocuidado com menos ajuda.
Caixa explicativa 2 – Atenção clínica
Uma criança que fala bastante não necessariamente se comunica bem em todos os contextos. Da mesma forma, uma criança que apresenta boa pontuação em linguagem pode ainda precisar de intervenção intensiva em autonomia, comportamento de aprendizagem, generalização e participação escolar.
Fonte: Adaptado de Sundberg (2008), Partington (2006) e Cooper, Heron e Heward (2020).
4. Estudo de caso comparativo
Marina, 6 anos, foi avaliada inicialmente pelo VB-MAPP. Os resultados mostraram que ela estava no nível 2, com bom repertório de nomeação, respostas a perguntas simples e início de intraverbais. A equipe interpretou que Marina apresentava bom desenvolvimento de linguagem.
No entanto, ao aplicar o ABLLS-R, surgiram novos dados. Marina não conseguia organizar seus materiais, tinha dificuldade em seguir instruções coletivas, não permanecia em atividades por muito tempo e dependia de ajuda para rotinas básicas, como vestir-se e guardar objetos.
Essa discrepância revelou um ponto importante: o repertório verbal estava presente, mas não estava sendo utilizado de forma funcional. Marina conseguia responder em situações estruturadas, mas não transferia essas habilidades para o cotidiano.
A partir dessa análise, o planejamento foi reorganizado. A intervenção passou a incluir objetivos relacionados à autonomia, comportamento de aprendizagem e participação em grupo. A linguagem continuou sendo trabalhada, mas deixou de ser o único foco.
Após alguns meses, Marina apresentou melhora significativa na independência e na participação escolar. Esse caso mostra que a integração dos instrumentos permite uma intervenção mais completa e alinhada com a realidade da criança.
Tabela 3 – Integração dos dados do caso Marina
| Dado observado | Instrumento | Interpretação clínica | Direção de intervenção |
|---|---|---|---|
| Bom repertório de nomeação. | VB-MAPP | Linguagem expressiva em desenvolvimento. | Manter expansão verbal e uso funcional da linguagem. |
| Respostas intraverbais simples. | VB-MAPP | Capacidade inicial de responder perguntas e participar de trocas verbais. | Ampliar conversação funcional em contextos naturais. |
| Dificuldade em organizar materiais. | ABLLS-R | Déficit em autonomia e rotina escolar. | Ensinar organização por análise de tarefas e apoio visual. |
| Dificuldade em instruções coletivas. | ABLLS-R | Baixa generalização para ambiente escolar. | Treinar resposta a instruções em grupo com fading de apoio individual. |
| Dependência em rotinas básicas. | ABLLS-R | Linguagem presente, mas baixa independência funcional. | Incluir autocuidado, rotina e vida diária no plano terapêutico. |
Fonte: Elaborado com base em Sundberg (2008), Partington (2006) e Cooper, Heron e Heward (2020).
5. Questões
- Uma criança apresenta bom desempenho no VB-MAPP, com repertório de nomeação e respostas intraverbais simples. No entanto, no ABLLS-R, apresenta déficits em autonomia e comportamento de aprendizagem. Analise essa discrepância e explique como ela deve orientar o planejamento.
- Um profissional decide utilizar apenas o VB-MAPP para avaliar uma criança. Discuta criticamente as limitações dessa decisão.
- Uma criança apresenta bom desempenho em sessão, mas não utiliza as habilidades em casa ou na escola. Analise essa situação à luz dos dois instrumentos.
- Explique por que a presença de linguagem não garante autonomia.
- Analise a importância da integração entre instrumentos na prática baseada em ABA.
Gabarito comentado
Na primeira questão, espera-se que o aluno compreenda que a discrepância indica que a linguagem está presente, mas não está sendo utilizada de forma plenamente funcional. O VB-MAPP revela repertório verbal, enquanto o ABLLS-R mostra limitações no uso desse repertório no cotidiano. O planejamento deve ampliar o foco, incluindo habilidades de autonomia, seguimento de instruções, permanência em tarefa e generalização.
Na segunda questão, o aluno deve compreender que utilizar apenas o VB-MAPP pode limitar a avaliação ao comportamento verbal e aos marcos iniciais do desenvolvimento. Isso pode ocultar déficits importantes em áreas como autonomia, habilidades sociais, comportamento de aprendizagem e vida diária. A prática clínica exige avaliação mais ampla, especialmente quando se pretende planejar intervenção funcional.
Na terceira questão, espera-se que o aluno identifique dificuldade de generalização. O VB-MAPP pode ter identificado aquisição de habilidades verbais, mas o ABLLS-R pode revelar que essas habilidades não aparecem em contextos naturais. O planejamento deve incluir treino em ambiente natural, participação da família, articulação com a escola e variação de estímulos.
Na quarta questão, o aluno deve explicar que a linguagem é apenas uma dimensão do desenvolvimento. Uma criança pode falar, mas não saber organizar sua rotina, tomar decisões, seguir instruções coletivas ou agir de forma independente. O ABLLS-R ajuda a identificar essas lacunas ao avaliar habilidades de vida diária, comportamento de aprendizagem e autonomia.
Na quinta questão, espera-se que o aluno compreenda que a integração permite uma avaliação mais completa, reduzindo o risco de interpretações superficiais. Cada instrumento oferece dados específicos, e sua combinação amplia a compreensão do repertório da criança. Isso possibilita intervenções mais precisas, individualizadas e eficazes, alinhadas com a vida real da criança.
6. Fechamento
Nesta aula, avançamos para um nível mais complexo da prática clínica, aprendendo a integrar diferentes instrumentos de avaliação. Compreendemos que VB-MAPP e ABLLS-R se complementam e que essa integração permite uma visão mais completa do desenvolvimento.
Mais do que aplicar protocolos, o profissional precisa interpretar, comparar e tomar decisões. É isso que transforma a avaliação em intervenção e garante uma prática baseada em evidências.
Na próxima aula, faremos o fechamento do módulo, consolidando todo o aprendizado e organizando sua aplicação prática na clínica.
Referências Bibliográficas
Baer, D. M.; Wolf, M. M.; Risley, T. R. Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 1, n. 1, p. 91-97, 1968. DOI: 10.1901/jaba.1968.1-91. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1968.1-91. Acesso em: 15 jun. 2026.
Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Martone, M. C. C. Adaptação para a língua portuguesa do Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program (VB-MAPP) e a efetividade do treino de habilidades comportamentais para qualificar profissionais. 2017. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2017. DOI: não se aplica. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br. Acesso em: 15 jun. 2026.
Partington, J. W. The assessment of basic language and learning skills – revised: ABLLS-R. Pleasant Hill: Behavior Analysts, 2006. DOI: não se aplica. Disponível em: https://partingtonbehavioranalysts.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Sundberg, M. L. VB-MAPP: verbal behavior milestones assessment and placement program. Concord: AVB Press, 2008. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.avbpress.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
