Conteúdo do curso
Sumário do Curso de Pós Graduação em ABA
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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Módulo 13 – Farmacologia Aplicada ao Autismo
Aula de Conclusão
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Avaliação final do Curso
Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 10 – Estudos de Caso Comparativos: VB-MAPP vs. ABLLS-R

1. Introdução:

Olá alunos, tudo bem com vocês? Eu sou a professora Bárbara e, na aula de hoje, nós vamos avançar para um nível mais sofisticado da prática clínica: a comparação e integração entre instrumentos de avaliação. Até aqui, nós estudamos o VB-MAPP e o ABLLS-R separadamente. Agora, vamos aprender a utilizá-los de forma conjunta, construindo um raciocínio clínico mais completo e preciso.

Na prática, o analista do comportamento não trabalha apenas com protocolos, mas com decisões. E essas decisões dependem da capacidade de interpretar dados de diferentes fontes. Cada instrumento oferece uma leitura específica do desenvolvimento. Quando conseguimos integrar essas leituras, ampliamos nossa compreensão da criança e qualificamos nossa intervenção.

Essa aula tem como objetivo justamente desenvolver esse olhar clínico mais refinado. Vamos compreender as diferenças entre os instrumentos, analisar casos reais e aprender a tomar decisões baseadas em dados integrados.

2. Diferença estrutural entre VB-MAPP e ABLLS-R

O VB-MAPP organiza o desenvolvimento em níveis, com foco nos marcos do comportamento verbal e nas habilidades iniciais de aprendizagem. Ele é especialmente útil para identificar em que estágio a criança se encontra em relação à linguagem, aos mandos, tatos, respostas de ouvinte, imitação, brincar, interação social e repertórios iniciais importantes para o desenvolvimento.

Já o ABLLS-R amplia essa avaliação, organizando habilidades por áreas e incluindo repertórios mais complexos e funcionais, como autonomia, habilidades acadêmicas, comportamento de aprendizagem e vida diária. Ele permite olhar para além da linguagem, ajudando o profissional a compreender se a criança consegue usar aquilo que aprende de forma prática, independente e funcional.

Essa diferença estrutural explica por que os dois instrumentos não devem ser vistos como concorrentes, mas como complementares. O VB-MAPP ajuda a responder perguntas como: em que nível de desenvolvimento verbal essa criança está? Quais marcos ela já alcançou? Existem barreiras importantes impedindo a aprendizagem? Já o ABLLS-R ajuda a responder: quais habilidades específicas precisam ser ensinadas? Quais repertórios de vida diária estão ausentes? Como organizar um currículo individualizado mais amplo?

Outra diferença importante está no nível de detalhe. O VB-MAPP trabalha com marcos de desenvolvimento, oferecendo uma leitura mais organizada por níveis. O ABLLS-R, por sua vez, detalha um conjunto maior de habilidades específicas, permitindo que o profissional identifique pequenas lacunas dentro de áreas como linguagem, autocuidado, acadêmico, socialização e comportamento de aprendizagem. Por isso, enquanto o VB-MAPP costuma ser muito útil no início da avaliação e no planejamento inicial, o ABLLS-R favorece o aprofundamento curricular e a continuidade do ensino.

Tabela 1 – Comparação estrutural entre VB-MAPP e ABLLS-R
Aspecto VB-MAPP ABLLS-R
Organização Níveis de desenvolvimento Categorias de habilidades
Foco principal Comportamento verbal Desenvolvimento global e funcional
Aplicação clínica Avaliação inicial e marcos Planejamento curricular detalhado
Fonte: Adaptado de Sundberg e Partington.
Tabela 2 – Diferenças clínicas e implicações para a intervenção
Dimensão clínica VB-MAPP ABLLS-R Implicação prática
Tipo de leitura Desenvolvimental, com base em marcos Curricular, funcional e detalhada O VB-MAPP mostra o estágio geral; o ABLLS-R detalha o que ensinar
Foco da linguagem Diferencia operantes verbais, como mando, tato, ouvinte e intraverbal Avalia linguagem dentro de um conjunto mais amplo de habilidades Evita confundir fala com comunicação funcional ampla
Autonomia Aparece de forma mais indireta, especialmente na transição Aparece como área importante de avaliação e ensino Permite planejar vida diária, autocuidado e independência
Barreiras Possui avaliação específica de barreiras As dificuldades aparecem no desempenho das tarefas Exige interpretação ativa para identificar o que impede a aprendizagem
Uso ideal Fases iniciais, principalmente quando há atraso importante de linguagem Planejamento ampliado, escolar, funcional e de vida diária A integração dos dois instrumentos oferece visão mais completa
Fonte: Integração clínica baseada na ABA e nos instrumentos VB-MAPP e ABLLS-R.

3. Integração clínica dos instrumentos

Quando utilizamos VB-MAPP e ABLLS-R juntos, conseguimos uma leitura muito mais precisa do desenvolvimento. O VB-MAPP pode indicar que a criança possui repertório verbal emergente ou desenvolvido, enquanto o ABLLS-R pode revelar se esse repertório está sendo utilizado de forma funcional.

Essa integração evita um erro clínico bastante comum: confundir desempenho verbal com desenvolvimento global. Uma criança pode falar, responder perguntas e nomear objetos, mas ainda apresentar dificuldades importantes em autonomia, organização, comportamento de aprendizagem e participação social.

O papel do profissional é justamente integrar essas informações e transformar essa leitura em planejamento. Quando os dados dos dois protocolos são analisados em conjunto, o profissional consegue definir prioridades com mais segurança. Ele pode identificar, por exemplo, que a criança precisa continuar avançando em linguagem, mas também precisa aprender a esperar, seguir rotinas, participar de grupo, organizar materiais e realizar atividades de autocuidado com menos ajuda.

4. Estudo de caso comparativo

Marina, 6 anos, foi avaliada inicialmente pelo VB-MAPP. Os resultados mostraram que ela estava no nível 2, com bom repertório de nomeação, respostas a perguntas simples e início de intraverbais. A equipe interpretou que Marina apresentava bom desenvolvimento de linguagem.

No entanto, ao aplicar o ABLLS-R, surgiram novos dados. Marina não conseguia organizar seus materiais, tinha dificuldade em seguir instruções coletivas, não permanecia em atividades por muito tempo e dependia de ajuda para rotinas básicas, como vestir-se e guardar objetos.

Essa discrepância revelou um ponto importante: o repertório verbal estava presente, mas não estava sendo utilizado de forma funcional. Marina conseguia responder em situações estruturadas, mas não transferia essas habilidades para o cotidiano.

A partir dessa análise, o planejamento foi reorganizado. A intervenção passou a incluir objetivos relacionados à autonomia, comportamento de aprendizagem e participação em grupo. A linguagem continuou sendo trabalhada, mas deixou de ser o único foco.

Após alguns meses, Marina apresentou melhora significativa na independência e na participação escolar. Esse caso mostra que a integração dos instrumentos permite uma intervenção mais completa e alinhada com a realidade da criança.

5. Questões:

1. Uma criança apresenta bom desempenho no VB-MAPP, com repertório de nomeação e respostas intraverbais simples. No entanto, no ABLLS-R, apresenta déficits em autonomia e comportamento de aprendizagem. Analise essa discrepância e explique como ela deve orientar o planejamento.

Resposta comentada: A discrepância indica que a linguagem está presente, mas não está sendo utilizada de forma funcional. O VB-MAPP revela repertório verbal, enquanto o ABLLS-R mostra limitações no uso desse repertório no cotidiano. O planejamento deve, portanto, ampliar o foco, incluindo habilidades de autonomia, seguimento de instruções, permanência em tarefa e generalização. A linguagem pode ser utilizada como ferramenta para ensinar essas habilidades, mas não deve ser o único objetivo da intervenção.

2. Um profissional decide utilizar apenas o VB-MAPP para avaliar uma criança. Discuta criticamente as limitações dessa decisão.

Resposta comentada: Utilizar apenas o VB-MAPP limita a avaliação ao comportamento verbal e aos marcos iniciais do desenvolvimento. Isso pode ocultar déficits importantes em áreas como autonomia, habilidades sociais, comportamento de aprendizagem e vida diária. Como consequência, o planejamento pode ficar incompleto, focando apenas na linguagem e negligenciando aspectos fundamentais para a funcionalidade da criança. A prática clínica exige uma avaliação mais ampla, que pode ser alcançada com a integração de instrumentos.

3. Uma criança apresenta bom desempenho em sessão, mas não utiliza as habilidades em casa ou na escola. Analise essa situação à luz dos dois instrumentos.

Resposta comentada: Essa situação indica dificuldade de generalização. O VB-MAPP pode ter identificado aquisição de habilidades verbais, mas o ABLLS-R evidencia que essas habilidades não estão sendo utilizadas em contextos naturais. O planejamento deve incluir treino em ambiente natural, participação da família e variação de estímulos. O objetivo é garantir que a habilidade seja funcional, e não apenas uma resposta treinada em sessão.

4. Explique por que a presença de linguagem não garante autonomia.

Resposta comentada: A linguagem é apenas uma dimensão do desenvolvimento. Uma criança pode falar, mas não saber organizar sua rotina, tomar decisões ou agir de forma independente. O ABLLS-R permite identificar essas lacunas ao avaliar habilidades de vida diária e autonomia. A prática clínica deve considerar o sujeito de forma global, e não apenas sua capacidade verbal.

5. Analise a importância da integração entre instrumentos na prática baseada em ABA.

Resposta comentada: A integração permite uma avaliação mais completa, reduzindo o risco de interpretações superficiais. Cada instrumento oferece dados específicos, e sua combinação amplia a compreensão do repertório da criança. Isso possibilita intervenções mais precisas, individualizadas e eficazes, alinhadas com a vida real da criança.

6. Fechamento:

Nesta aula, avançamos para um nível mais complexo da prática clínica, aprendendo a integrar diferentes instrumentos de avaliação. Compreendemos que VB-MAPP e ABLLS-R se complementam e que essa integração permite uma visão mais completa do desenvolvimento.

Mais do que aplicar protocolos, o profissional precisa interpretar, comparar e tomar decisões. É isso que transforma a avaliação em intervenção e garante uma prática baseada em evidências.

Na próxima aula, faremos o fechamento do módulo, consolidando todo o aprendizado e organizando sua aplicação prática na clínica.