Reunião de Devolutiva na Análise do Comportamento Aplicada (ABA)
Olá, aluno! Seja muito bem-vindo à Aula 10.1 do Módulo 4. Nas aulas anteriores, você aprendeu sobre observação, registro, análise de dados e procedimentos de avaliação na Análise do Comportamento Aplicada. Agora, avançaremos para uma etapa essencial da prática profissional: a reunião de devolutiva.
A reunião de devolutiva é o momento em que o profissional apresenta à família os resultados da avaliação realizada. Essa etapa exige preparo técnico, organização dos dados e sensibilidade humana, pois muitas vezes a família chega à reunião com dúvidas, inseguranças, expectativas e até medo do que será dito.
Na ABA, a devolutiva não deve ser baseada em impressões soltas ou opiniões pessoais. Ela precisa partir dos dados coletados durante a anamnese, observação direta, registros comportamentais, aplicação de protocolos e análise funcional. Assim, o profissional apresenta aquilo que foi observado, avaliado e interpretado com base em evidências.
Um ponto fundamental é lembrar que a família procurou ajuda por algum motivo. Por isso, a devolutiva deve responder à demanda inicial. Se os pais procuraram atendimento porque tinham dúvidas sobre linguagem, comportamento agressivo, atraso no desenvolvimento, dificuldades escolares ou suspeita de autismo, o profissional precisa retomar essa queixa e explicar o que foi compreendido a partir da avaliação.
A devolutiva também é um momento de acolhimento. O profissional deve tomar cuidado com as palavras, pois os pais estão ouvindo sobre uma criança que amam profundamente. Mesmo quando é necessário comunicar atrasos, déficits ou barreiras importantes, isso deve ser feito com clareza, respeito e empatia.
Uma forma adequada de organizar a devolutiva é iniciar apresentando as habilidades da criança. Antes de falar sobre dificuldades, o profissional pode destacar o que a criança já consegue fazer, seus interesses, suas respostas positivas, suas preferências e seus recursos. Isso ajuda a família a perceber que a criança não está sendo reduzida ao diagnóstico ou às dificuldades.
Depois dessa abertura acolhedora, o profissional pode apresentar os pontos de atenção. Nesse momento, deve explicar quais habilidades estão em atraso, quais comportamentos interferem na aprendizagem, quais barreiras foram observadas e quais demandas precisam ser priorizadas.
É importante evitar linguagem excessivamente técnica. Termos como mando, tato, operante verbal, reforçamento automático ou controle de estímulos podem aparecer no relatório, mas precisam ser traduzidos para a família. Por exemplo, ao falar de mando, o profissional pode explicar que se trata da capacidade de pedir algo, solicitar ajuda ou comunicar uma necessidade.
Outro aspecto importante é apresentar exemplos concretos. A família compreende melhor quando o profissional diz: “Quando a tarefa foi apresentada, Pedro saiu da mesa; quando a tarefa foi retirada, ele parou de chorar”. Esse tipo de explicação mostra a relação entre antecedente, comportamento e consequência.
A reunião de devolutiva também deve apresentar os objetivos terapêuticos. O profissional precisa explicar quais habilidades serão trabalhadas, por que foram escolhidas e qual é a prioridade naquele momento. Nem tudo pode ser trabalhado ao mesmo tempo. A seleção de metas deve considerar urgência, funcionalidade, segurança, qualidade de vida e pré-requisitos para novas aprendizagens.
Em muitos casos, a família deseja trabalhar várias demandas ao mesmo tempo. Porém, o profissional precisa explicar que um plano eficaz deve ser organizado por prioridades. É melhor trabalhar poucas habilidades de forma consistente do que listar muitas metas que ninguém conseguirá acompanhar.
A devolutiva também deve incluir orientações aos pais. Entretanto, essas orientações precisam ser possíveis de executar. Não adianta entregar uma lista extensa de tarefas para a família se ela não terá tempo, repertório ou organização para realizá-las. O ideal é começar com uma ou duas orientações práticas e acompanhar a execução.
Outro ponto indispensável é combinar o acompanhamento. A família deve saber quando haverá nova avaliação, quando os dados serão revistos e como os resultados serão comunicados. Algumas devolutivas podem ser formais, com relatório e reunião. Outras podem ser mais breves, ao longo do processo, para informar avanços e ajustar estratégias.
O relatório de devolutiva deve conter, de forma organizada, a demanda inicial, os procedimentos utilizados, a análise dos dados, as habilidades observadas, as barreiras identificadas, a hipótese funcional, os objetivos de intervenção e os encaminhamentos necessários.
Também é importante explicar que o relatório não é um modelo pronto para qualquer criança. Ele deve ser construído a partir da avaliação daquele indivíduo, de sua história, de seu contexto, de sua família e de suas necessidades específicas.
Tabela 1 – Etapas da reunião de devolutiva
| Etapa | Descrição | Objetivo |
|---|---|---|
| Acolhimento inicial | Receber a família, retomar a demanda e explicar a reunião | Diminuir ansiedade e criar vínculo |
| Apresentação das habilidades | Mostrar o que a criança já consegue fazer | Valorizar repertórios existentes |
| Apresentação das dificuldades | Explicar atrasos, barreiras e comportamentos-alvo | Direcionar prioridades |
| Discussão dos dados | Apresentar registros, gráficos e observações | Fundamentar decisões |
| Plano de intervenção | Explicar objetivos e estratégias iniciais | Organizar o tratamento |
| Orientações à família | Combinar ações simples para casa e escola | Aumentar adesão e generalização |
Fonte: próprio autor.
Tabela 2 – O que deve constar no relatório de devolutiva
| Item | Descrição | Exemplo |
|---|---|---|
| Demanda inicial | Motivo da procura pelo atendimento | Atraso na fala e dificuldade escolar |
| Procedimentos | Como a avaliação foi realizada | Anamnese, observação e registro ABC |
| Análise dos dados | Interpretação das informações coletadas | Comportamento mantido por fuga |
| Habilidades | Repertórios já apresentados | Imitação, pareamento e permanência breve na tarefa |
| Barreiras | Dificuldades que impedem a aprendizagem | Baixa tolerância à demanda |
| Objetivos | Metas de intervenção | Aumentar comunicação funcional |
| Encaminhamentos | Orientações para outros profissionais ou serviços | Fonoaudiologia, terapia ocupacional ou escola |
Fonte: próprio autor.
Estudo de Caso
Pedro, 6 anos, foi encaminhado para avaliação em ABA devido a dificuldades de comunicação, baixa permanência em atividades pedagógicas e episódios frequentes de choro quando era solicitado a realizar tarefas.
Durante a anamnese, os pais relataram que Pedro parecia “ansioso” e que chorava sempre que precisava fazer atividades escolares. Também disseram que, em casa, costumavam retirar a atividade quando ele chorava, pois acreditavam que ele estava sofrendo.
Na avaliação direta, observou-se que Pedro conseguia realizar pareamento de figuras, seguia algumas instruções simples e demonstrava interesse por brinquedos de encaixe. Essas habilidades foram apresentadas inicialmente na devolutiva para que os pais reconhecessem os recursos já existentes no repertório da criança.
Em seguida, foram apresentados os pontos de atenção. Os registros ABC mostraram que, diante da apresentação de tarefas, Pedro chorava, levantava da cadeira e empurrava os materiais. Como consequência, a tarefa era retirada. A hipótese funcional indicou que o comportamento era mantido por fuga de demanda.
Na reunião de devolutiva, o profissional explicou aos pais que o choro não deveria ser entendido apenas como “manha” ou “ansiedade”, mas como uma forma de comunicação que estava produzindo uma consequência: a retirada da atividade.
O plano inicial incluiu ensino de comunicação funcional para pedir pausa, reforçamento positivo para permanência na tarefa e aumento gradual da exigência. A família recebeu uma orientação simples: oferecer pequenas tarefas em casa, reforçar tentativas de permanência e ensinar Pedro a pedir pausa usando uma palavra, gesto ou cartão visual.
Ao final da reunião, os pais foram orientados a registrar durante uma semana em quais momentos Pedro pedia pausa, chorava ou permanecia na atividade. Também foi combinada uma nova reunião para revisar os dados.
Esse caso demonstra que a devolutiva não é apenas a entrega de um relatório. Ela é um momento de tradução técnica, acolhimento familiar e construção de parceria para o processo terapêutico.
Perguntas de Fixação
1. O que é reunião de devolutiva?
Resposta: É o momento de apresentar à família os resultados da avaliação.
2. A devolutiva deve ser baseada em quê?
Resposta: Em dados objetivos e evidências.
3. Por que é importante retomar a demanda inicial?
Resposta: Para responder ao motivo que levou a família a procurar atendimento.
4. O que deve ser apresentado antes das dificuldades?
Resposta: As habilidades e pontos positivos da criança.
5. Por que evitar linguagem muito técnica?
Resposta: Porque a família precisa compreender claramente as informações.
6. O que o relatório de devolutiva deve conter?
Resposta: Demanda, procedimentos, análise, habilidades, barreiras, objetivos e encaminhamentos.
7. A devolutiva acontece apenas uma vez?
Resposta: Não. Ela pode ocorrer no início, durante o acompanhamento e ao final de ciclos de intervenção.
8. Por que orientar a família com poucas tarefas?
Resposta: Para aumentar a chance de adesão e execução correta.
9. O que são encaminhamentos?
Resposta: Indicações para outros profissionais, serviços ou ajustes necessários.
10. Qual é o objetivo final da devolutiva?
Resposta: Alinhar família, equipe e intervenção com base nos dados avaliados.
Com esta aula, encerramos o Módulo 4, compreendendo que avaliar, registrar, analisar dados e realizar uma boa devolutiva são etapas indispensáveis para uma prática ética e baseada em evidências.
No Módulo 5, você aprenderá sobre Interpretação do VB-MAPP/ABLLS-R e sua Aplicação, aprofundando como utilizar esses instrumentos para compreender repertórios, planejar objetivos e construir intervenções individualizadas em ABA.
