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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 10 – Modelagem

Olá, aluno! Seja muito bem-vindo à Aula 10 do Módulo 3. Nesta aula, estudaremos uma das técnicas fundamentais da Análise do Comportamento Aplicada: a modelagem. Esse procedimento é utilizado para ensinar novos comportamentos por meio do reforçamento de aproximações sucessivas até que o comportamento final seja alcançado.

A modelagem é especialmente importante quando o comportamento desejado ainda não faz parte do repertório do indivíduo ou aparece de maneira muito limitada. Em vez de esperar que a pessoa realize imediatamente a resposta completa, o profissional reforça pequenos avanços que se aproximam progressivamente da meta final.

Segundo Skinner (1953), muitos comportamentos complexos não surgem prontos. Eles são construídos gradualmente a partir de pequenas respostas que vão sendo selecionadas pelas consequências. A modelagem utiliza esse princípio ao reforçar respostas cada vez mais próximas do objetivo final.

1. O que é modelagem?

Modelagem é um procedimento de ensino no qual o profissional reforça aproximações sucessivas de um comportamento-alvo. Isso significa que respostas simples, iniciais ou incompletas podem ser reforçadas no começo, desde que estejam na direção do comportamento que se deseja ensinar.

Com o avanço do ensino, o critério de reforçamento é gradualmente ajustado. Assim, a pessoa passa a emitir respostas cada vez mais elaboradas, completas e próximas do objetivo final.

Caixa explicativa 1 – Pequenos passos também são aprendizagem

Na modelagem, o profissional não espera que o comportamento final apareça de uma vez. Ele reforça avanços graduais, valorizando cada aproximação que indica progresso no processo de aprendizagem.

Fonte: Adaptado de Skinner (1953); Cooper, Heron e Heward (2020).

2. Definição do comportamento-alvo

O primeiro passo da modelagem consiste em definir claramente o comportamento-alvo. O profissional precisa saber exatamente o que deseja ensinar. Uma meta vaga, como “melhorar a comunicação”, não é suficiente para orientar uma intervenção precisa.

É necessário descrever de forma objetiva o comportamento esperado, como “pedir água usando palavra, figura ou gesto funcional”. Essa definição permite observar, medir e reforçar adequadamente as aproximações sucessivas.

3. Identificação do repertório inicial

Após definir o comportamento-alvo, o profissional identifica o repertório inicial do indivíduo. Isso significa observar o que a pessoa já consegue fazer naquele momento.

Se uma criança ainda não fala a palavra “água”, mas aponta para o copo, esse apontar pode ser considerado uma aproximação inicial. A partir desse ponto, o terapeuta reforça respostas progressivamente mais próximas da comunicação desejada.

Tabela 1 – Etapas da modelagem

Etapa Descrição Exemplo
Definir o comportamento-alvo Descrever claramente o comportamento final desejado. Pedir um brinquedo verbalmente.
Identificar o repertório inicial Observar quais respostas a pessoa já apresenta. Apontar para o brinquedo.
Reforçar aproximações sucessivas Reforçar respostas cada vez mais próximas da meta. Apontar, emitir som, dizer parte da palavra.
Aumentar gradualmente o critério Exigir respostas mais completas ao longo do ensino. Reforçar apenas quando a criança verbaliza o pedido.
Promover manutenção e generalização Ensinar a habilidade em diferentes contextos. Pedir brinquedos em casa, escola e clínica.

Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Catania (2013) e Cooper, Heron e Heward (2020).

4. Aproximações sucessivas e mudança de critério

Catania (2013) destaca que a aprendizagem por modelagem depende da seleção gradual de respostas. Inicialmente, respostas simples podem ser reforçadas. Depois, o critério de reforçamento é ajustado, exigindo respostas mais elaboradas.

Esse processo é chamado de mudança gradual de critério. Ele precisa ser realizado com cuidado para evitar frustração, abandono da tarefa ou perda de motivação.

Se o critério for elevado muito rapidamente, a criança pode não conseguir responder e o processo perde eficácia. Por outro lado, se o critério permanecer muito baixo por muito tempo, o comportamento pode não evoluir. Portanto, modelar exige sensibilidade clínica, observação cuidadosa e tomada de decisão baseada em dados.

Caixa explicativa 2 – O critério precisa acompanhar o aluno

Na modelagem, o profissional ajusta o nível de exigência conforme o desempenho do indivíduo. O avanço deve ser gradual, possível e suficientemente desafiador para produzir aprendizagem.

Fonte: Adaptado de Catania (2013); Cooper, Heron e Heward (2020).

5. Modelagem no contexto do TEA

No atendimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista, a modelagem é amplamente utilizada porque muitas habilidades precisam ser ensinadas em pequenas etapas. Crianças com TEA podem apresentar dificuldades de comunicação, imitação, flexibilidade, interação social e autonomia.

A modelagem permite transformar metas complexas em trajetórias de aprendizagem mais acessíveis. Uma habilidade como pedir ajuda, cumprimentar um colega, aceitar mudança de rotina ou escovar os dentes pode ser dividida em pequenas aproximações, reforçadas progressivamente até que a resposta final seja alcançada.

Lovaas (1987), em estudos sobre intervenção comportamental intensiva, demonstrou que procedimentos estruturados de ensino podem favorecer a aquisição de repertórios importantes em crianças autistas. A prática contemporânea da ABA avançou para modelos mais naturalísticos e individualizados, mas o princípio de reforçar progressos graduais continua sendo fundamental.

6. Modelagem combinada com outras estratégias

A modelagem também pode ser combinada com outras estratégias, como prompts, fading, reforçamento diferencial, ensino incidental e treino em ambiente natural. Essa combinação aumenta a efetividade do ensino e favorece a generalização.

Segundo Schreibman et al. (2015), intervenções naturalísticas baseadas em princípios comportamentais são relevantes porque aproximam o ensino das situações reais de vida. Dessa forma, a modelagem não precisa ocorrer apenas em uma mesa estruturada, mas também pode ser aplicada em brincadeiras, rotinas de autocuidado, interações sociais e atividades escolares.

7. Estudos de caso

Estudo de caso 1 – Modelagem da comunicação verbal

Uma criança de 4 anos com TEA apresentava dificuldade para pedir brinquedos verbalmente. Quando desejava algo, costumava puxar o adulto pela mão até o objeto. A equipe definiu como comportamento-alvo a solicitação verbal simples, como dizer “bola” ou “quero bola”.

Inicialmente, a criança foi reforçada sempre que apontava para o brinquedo. Depois, o critério foi aumentado: o terapeuta passou a reforçar sons aproximados, como “bo”. Em seguida, reforçou a emissão da palavra “bola”. Por fim, reforçou frases simples, como “quero bola”.

O processo foi realizado gradualmente, sem exigir imediatamente a resposta completa. Com o tempo, a criança passou a solicitar diferentes brinquedos usando palavras. Esse caso demonstra como a modelagem permite construir comunicação funcional a partir de respostas já existentes no repertório da criança.

Estudo de caso 2 – Modelagem de habilidade social

Um adolescente de 12 anos apresentava dificuldade para cumprimentar colegas na escola. Ele evitava contato visual, permanecia em silêncio e se afastava quando alguém se aproximava. A meta inicial não foi exigir uma conversa completa, mas construir pequenas aproximações sociais.

No início, a equipe reforçou o simples permanecer próximo ao colega por alguns segundos. Depois, reforçou olhar brevemente na direção da pessoa. Em seguida, reforçou acenos com a mão. Posteriormente, reforçou respostas verbais curtas, como “oi”.

Após algumas semanas, o adolescente passou a cumprimentar colegas conhecidos de maneira espontânea. Esse caso mostra que a modelagem pode ser utilizada no ensino de habilidades sociais, respeitando o ritmo do indivíduo.

Estudo de caso 3 – Modelagem da autorregulação emocional

Uma criança de 8 anos apresentava crises intensas quando atividades eram interrompidas. A equipe definiu como meta ensinar comportamentos alternativos de autorregulação, como pedir pausa, respirar fundo e comunicar frustração.

Inicialmente, qualquer redução leve na intensidade da crise era reforçada. Depois, a equipe passou a reforçar quando a criança aceitava ajuda do adulto. Em seguida, reforçou o uso de cartões visuais para pedir pausa. Posteriormente, reforçou verbalizações simples, como “estou bravo” ou “preciso parar”.

Com o avanço do programa, a criança passou a utilizar estratégias de regulação antes que a crise aumentasse. Esse exemplo demonstra que a modelagem não se limita a comportamentos motores ou verbais, mas também pode auxiliar no desenvolvimento de respostas emocionais mais adaptativas.

Tabela 2 – Comparação dos estudos de caso sobre modelagem

Caso Habilidade trabalhada Aproximações reforçadas Resultado
Caso 1 Comunicação verbal. Apontar, emitir sons, dizer palavras e formar frases. Aumento de pedidos funcionais.
Caso 2 Habilidade social. Permanecer próximo, olhar, acenar e cumprimentar. Maior interação social.
Caso 3 Autorregulação emocional. Reduzir intensidade, aceitar ajuda, pedir pausa e nomear emoção. Redução de crises e melhora da comunicação emocional.

Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Lovaas (1987), Cooper, Heron e Heward (2020) e Schreibman et al. (2015).

8. Cuidados técnicos e éticos

Apesar de sua utilidade, a modelagem exige cuidados técnicos. O profissional deve evitar reforçar aproximações que se distanciam do objetivo final. Também deve evitar avançar rápido demais ou permanecer muito tempo em uma etapa inicial. A coleta de dados auxilia nesse processo, permitindo verificar se o comportamento está evoluindo conforme planejado.

Outro cuidado importante refere-se à escolha dos reforçadores. Para que a modelagem funcione, as consequências precisam ser significativas para o indivíduo. A avaliação de preferências deve ser realizada continuamente, pois o valor dos reforçadores pode mudar ao longo do tempo. Michael (1993) destaca que operações motivadoras alteram a eficácia dos reforçadores e influenciam a probabilidade de ocorrência dos comportamentos.

Também é necessário considerar a generalização. Uma habilidade modelada em ambiente terapêutico precisa ser praticada em casa, na escola e em contextos sociais. Se uma criança aprende a pedir brinquedos apenas ao terapeuta, a habilidade ainda não está plenamente funcional.

Do ponto de vista ético, a modelagem deve respeitar a dignidade, o ritmo e as necessidades do indivíduo. O objetivo não é produzir obediência mecânica, mas ampliar repertórios que favoreçam autonomia, comunicação, participação social e qualidade de vida.

9. Questões

  1. O que é modelagem em ABA?
  2. Quando a modelagem é indicada?
  3. O que são aproximações sucessivas?
  4. Por que é importante definir o comportamento-alvo?
  5. O que significa identificar o repertório inicial?
  6. O que é mudança gradual de critério?
  7. Como a modelagem pode ser usada no TEA?
  8. Por que a coleta de dados é importante na modelagem?
  9. Qual é a relação entre modelagem e generalização?
  10. Quais cuidados éticos devem orientar a modelagem?

Gabarito comentado

Modelagem é o ensino de novos comportamentos por meio do reforçamento de aproximações sucessivas até alcançar o comportamento-alvo.

A modelagem é indicada quando o comportamento desejado ainda não faz parte do repertório do indivíduo ou ocorre de forma muito limitada.

Aproximações sucessivas são respostas cada vez mais próximas do comportamento final desejado.

Definir o comportamento-alvo é importante para orientar o ensino, a observação, a mensuração e o reforçamento adequado.

Identificar o repertório inicial significa observar quais respostas a pessoa já consegue emitir antes do início da intervenção.

Mudança gradual de critério é o ajuste progressivo do nível de exigência para reforçar respostas mais completas ao longo do ensino.

No TEA, a modelagem pode ser usada para ensinar comunicação, habilidades sociais, autocuidado, flexibilidade, autonomia e autorregulação.

A coleta de dados permite verificar se o comportamento está evoluindo e se os critérios precisam ser ajustados.

A modelagem deve incluir planejamento de generalização para que a habilidade seja usada em diferentes ambientes, pessoas e situações.

Os cuidados éticos incluem respeitar o ritmo da pessoa, evitar exigências excessivas e priorizar habilidades funcionais que melhorem sua qualidade de vida.

10. Fechamento

Nesta aula, estudamos a modelagem como procedimento essencial da ABA para ensinar novos comportamentos. Compreendemos que habilidades complexas podem ser construídas gradualmente por meio do reforçamento de pequenas aproximações.

Também vimos que a modelagem exige definição clara do comportamento-alvo, identificação do repertório inicial, mudança gradual de critérios, coleta de dados, escolha adequada de reforçadores e planejamento da generalização.

Na próxima aula, estudaremos a discriminação, compreendendo como o indivíduo aprende a responder de maneira diferente diante de estímulos distintos e como esse processo é fundamental para a aprendizagem adaptativa.

Referências Bibliográficas

Catania, A. C. Learning. 5. ed. Cornwall-on-Hudson: Sloan Publishing, 2013. DOI: 10.4324/9781315668121.

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020.

Lovaas, O. I. Behavioral treatment and normal educational and intellectual functioning in young autistic children. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 55, n. 1, p. 3-9, 1987. DOI: 10.1037/0022-006X.55.1.3.

Michael, J. Establishing operations. The Behavior Analyst, v. 16, n. 2, p. 191-206, 1993. DOI: 10.1007/BF03392623.

Schreibman, L. et al. Naturalistic developmental behavioral interventions: empirically validated treatments for autism spectrum disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 45, p. 2411-2428, 2015. DOI: 10.1007/s10803-015-2407-8.

Skinner, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953.

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