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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 9 – Melatonina e Regulação do Sono no TEA

As alterações do sono representam uma das dificuldades mais frequentes associadas ao Transtorno do Espectro Autista. Estudos demonstram que uma parcela significativa das pessoas autistas apresenta problemas relacionados ao início do sono, despertares noturnos frequentes, irregularidade do ritmo circadiano, sono fragmentado, redução da qualidade do descanso e sonolência diurna.

Essas alterações podem impactar diretamente comportamento, aprendizagem, regulação emocional, atenção, funcionamento cognitivo, participação escolar, engajamento terapêutico e qualidade de vida tanto da pessoa autista quanto de sua família. Quando uma criança dorme mal, não é apenas o sono que fica prejudicado. Todo o funcionamento diário pode ser afetado.

O sono possui papel fundamental no neurodesenvolvimento humano. Durante o descanso, ocorrem processos importantes relacionados à consolidação da memória, organização neural, recuperação metabólica, regulação hormonal, equilíbrio emocional e fortalecimento de aprendizagens. Na infância e adolescência, esses processos são ainda mais importantes, pois o cérebro está em intenso desenvolvimento.

No TEA, diversos fatores podem contribuir para alterações do sono. Entre eles encontram-se diferenças neurobiológicas, alterações sensoriais, ansiedade, hiperatividade, dificuldades de autorregulação, uso excessivo de telas, rotina irregular, comorbidades clínicas, efeitos de medicamentos e possíveis alterações na produção ou no metabolismo da melatonina.

A melatonina é um hormônio produzido principalmente pela glândula pineal e possui função essencial na regulação do ciclo sono-vigília. Sua produção aumenta naturalmente durante a noite, sinalizando ao organismo que o período de repouso se aproxima. Por esse motivo, a melatonina tornou-se uma das substâncias mais estudadas no manejo dos distúrbios do sono associados ao TEA.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

As alterações do sono no TEA podem afetar comportamento, aprendizagem, humor, atenção e qualidade de vida familiar. A melatonina pode auxiliar em alguns casos, especialmente na dificuldade para iniciar o sono, mas deve ser utilizada com orientação médica e integrada a estratégias de higiene do sono, rotina previsível e adaptações ambientais.

Fonte: Adaptado de Malow et al. (2006), Rossignol e Frye (2011), Malow et al. (2012) e Hyman, Levy e Myers (2020).

Importância do sono no neurodesenvolvimento

O sono não é um período de simples inatividade. Durante o sono, o organismo realiza funções indispensáveis para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional. Entre essas funções estão consolidação da memória, processamento de experiências, regulação hormonal, recuperação energética, organização cerebral e fortalecimento de aprendizagens.

Quando o sono encontra-se prejudicado, aumentam dificuldades relacionadas à irritabilidade, impulsividade, hiperatividade, ansiedade, baixa tolerância à frustração, desatenção e desregulação comportamental. Em crianças autistas, esses efeitos podem ser ainda mais intensos, pois muitas já apresentam desafios relacionados à autorregulação, sensorialidade e comunicação.

Na Análise do Comportamento Aplicada, o sono deve ser considerado uma variável relevante na análise do comportamento. Uma criança que dormiu poucas horas pode apresentar maior probabilidade de crises, fuga de demandas, irritabilidade, redução de atenção e menor engajamento terapêutico. Por isso, avaliar sono é parte importante do planejamento clínico.

Tabela 1 – Relação entre sono, aprendizagem e comportamento no TEA

Função do sono Importância para o desenvolvimento Impacto quando prejudicado Implicação para ABA
Consolidação da memória Favorece retenção de aprendizagens e organização de experiências. Dificuldade de aprendizagem, menor retenção e menor desempenho. Considerar qualidade do sono ao analisar progresso nos programas.
Regulação emocional Auxilia estabilidade emocional e tolerância a frustrações. Aumento de irritabilidade, crises, ansiedade e agressividade. Registrar sono como variável antecedente relevante.
Atenção e funcionamento executivo Favorece foco, controle inibitório e organização comportamental. Desatenção, impulsividade, hiperatividade e baixa persistência. Avaliar sono antes de concluir que houve piora comportamental isolada.
Recuperação fisiológica Permite recuperação corporal, hormonal e metabólica. Fadiga, sonolência, irritação e piora da disposição diária. Ajustar intensidade das demandas conforme estado da criança.

Fonte: Adaptado de Malow et al. (2006), Malow et al. (2012), Hyman, Levy e Myers (2020), Cooper, Heron e Heward (2020) e Volkmar e Wiesner (2019).

Alterações do sono frequentes no TEA

As alterações do sono no TEA podem apresentar diferentes formas. Algumas crianças têm dificuldade para iniciar o sono, permanecendo longos períodos acordadas mesmo quando deitadas. Outras adormecem, mas acordam várias vezes durante a noite. Também podem ocorrer sono irregular, despertar precoce, resistência à rotina noturna e dificuldade de retornar ao sono após acordar.

Essas dificuldades podem ter múltiplas causas. Alterações sensoriais podem tornar o ambiente do quarto desconfortável. Ansiedade pode dificultar relaxamento. Uso de telas à noite pode interferir na produção natural de melatonina. Rotinas desorganizadas podem prejudicar o ritmo circadiano. Problemas clínicos, como refluxo, constipação, dor, epilepsia ou efeitos de medicamentos, também precisam ser investigados.

Por isso, antes de considerar qualquer intervenção farmacológica, é necessário compreender o padrão do sono, os horários, os despertares, os comportamentos antes de dormir, as condições ambientais, os hábitos familiares e a presença de possíveis fatores médicos ou sensoriais.

Tabela 2 – Alterações do sono frequentes no TEA

Alteração do sono Descrição Possíveis consequências O que investigar
Dificuldade para iniciar o sono A criança demora muito para adormecer. Irritabilidade, fadiga diurna, atraso na rotina familiar e redução do descanso. Uso de telas, ansiedade, rotina irregular, luz, ruído e horário de dormir.
Despertares noturnos frequentes Acorda várias vezes durante a noite. Sono fragmentado, sonolência e desgaste familiar. Dor, refluxo, epilepsia, ambiente, hábitos de retorno ao sono e reforçadores noturnos.
Sono irregular Horários muito variáveis para dormir e acordar. Desorganização comportamental, menor previsibilidade e pior atenção. Rotina familiar, cochilos, horários de tela, alimentação e exposição à luz.
Privação de sono Quantidade de sono insuficiente para a idade. Impulsividade, dificuldade de atenção, irritabilidade e baixa tolerância. Horas totais de sono, despertares, rotina, condições clínicas e medicamentos.
Alterações sensoriais no ambiente Incômodo com sons, luz, temperatura, textura ou roupas de cama. Ansiedade, resistência ao quarto e dificuldade de relaxamento. Ruído, iluminação, temperatura, colchão, pijama, cobertor e cheiros.

Fonte: Adaptado de Malow et al. (2006), Scoralick et al. (2015), Malow et al. (2012), Hyman, Levy e Myers (2020) e Volkmar e Wiesner (2019).

Caixa explicativa 2 – Sono ruim pode parecer piora comportamental

Irritabilidade, hiperatividade, agressividade, desatenção e crises podem aumentar após noites mal dormidas. Antes de interpretar a piora como “comportamento difícil”, é importante investigar o padrão de sono e suas possíveis causas.

Fonte: Adaptado de Malow et al. (2006), Hyman, Levy e Myers (2020) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Melatonina e ciclo sono-vigília

A melatonina é um hormônio produzido principalmente pela glândula pineal. Sua secreção é influenciada pelo ciclo claro-escuro: aumenta durante a noite e reduz durante o dia. Essa variação sinaliza ao organismo quando é hora de dormir e quando é hora de permanecer em alerta.

Pesquisas sugerem que algumas pessoas autistas podem apresentar alterações na secreção, no ritmo ou no metabolismo da melatonina, o que pode contribuir para dificuldades relacionadas ao início do sono e à organização do ritmo circadiano. Esse achado ajudou a ampliar o interesse científico pela melatonina no TEA.

A suplementação de melatonina pode auxiliar principalmente na redução do tempo necessário para adormecer. Em alguns casos, também pode melhorar a regularidade do sono e reduzir despertares noturnos. Contudo, sua indicação, dose, horário e duração devem ser definidos por profissional médico.

Tabela 3 – Melatonina no TEA: função, indicações e cuidados

Aspecto Descrição Aplicação clínica Cuidado necessário
Função fisiológica Regula o ciclo sono-vigília e sinaliza o período noturno. Ajuda o organismo a reconhecer o momento de iniciar o sono. Deve ser associada a rotina e ambiente adequados.
Indicação mais comum Dificuldade para iniciar o sono. Pode reduzir o tempo que a criança leva para adormecer. Avaliar hábitos de sono antes do uso.
Possíveis benefícios indiretos Melhora do descanso pode favorecer humor e atenção. Criança mais regulada pode participar melhor das atividades. Monitorar se há melhora funcional real.
Possíveis efeitos adversos Sonolência diurna, cefaleia, irritabilidade, sonhos intensos e desconfortos gastrointestinais. Exige observação após início ou ajuste. Não usar sem acompanhamento profissional.

Fonte: Adaptado de Rossignol e Frye (2011), Malow et al. (2012), Gringras et al. (2017), Hyman, Levy e Myers (2020) e Stahl (2021).

Higiene do sono no TEA

A melatonina não deve ser utilizada de maneira isolada ou indiscriminada. Antes da introdução medicamentosa, torna-se fundamental avaliar hábitos de sono, rotina familiar, exposição à luz, uso de telas eletrônicas, ansiedade, alimentação, cochilos, sensorialidade e condições ambientais.

A higiene do sono corresponde ao conjunto de hábitos e condições ambientais que favorecem descanso adequado. Entre essas estratégias encontram-se manutenção de horários regulares para dormir e acordar, redução da exposição às telas antes do sono, ambiente silencioso, iluminação adequada, temperatura confortável e rotina previsível.

No TEA, a previsibilidade ambiental possui enorme importância. Muitas crianças autistas apresentam maior dificuldade para relaxar diante de mudanças inesperadas ou excesso de estímulos sensoriais. Por isso, uma rotina noturna estruturada pode favorecer segurança emocional e preparar o organismo para o descanso.

Tabela 4 – Estratégias de higiene do sono no TEA

Estratégia Objetivo terapêutico Exemplo prático Contribuição para ABA
Horário regular para dormir Organizar ritmo circadiano. Manter horário semelhante para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana. Aumenta previsibilidade e reduz resistência à rotina.
Redução do uso de telas Favorecer produção natural de melatonina e reduzir hiperestimulação. Retirar celular, televisão e tablet antes do horário de dormir. Reduz estímulos antecedentes que dificultam o sono.
Ambiente silencioso e previsível Reduzir hiperestimulação sensorial. Diminuir ruídos, luz intensa, cheiros fortes e excesso de objetos no quarto. Diminui antecedentes aversivos e facilita relaxamento.
Rotina noturna estruturada Favorecer relaxamento emocional e previsibilidade. Banho, pijama, escovar dentes, história curta e deitar. Permite encadeamento de comportamentos e redução de resistência.
Acompanhamento multiprofissional Avaliar fatores emocionais, sensoriais, médicos e comportamentais. Integrar médico, ABA, terapia ocupacional, família e escola quando necessário. Favorece plano individualizado e monitoramento por dados.

Fonte: Adaptado de Malow et al. (2012), Scoralick et al. (2015), Schwartzman e Araújo (2021), Hyman, Levy e Myers (2020) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Caixa explicativa 3 – Melatonina não substitui rotina

A melatonina pode auxiliar em alguns quadros de insônia, mas tende a funcionar melhor quando associada a rotina previsível, redução de telas, ambiente adequado e manejo de fatores sensoriais e emocionais.

Fonte: Adaptado de Malow et al. (2012), Rossignol e Frye (2011) e Hyman, Levy e Myers (2020).

Sensorialidade e ambiente de sono

Muitas pessoas autistas apresentam alterações sensoriais importantes relacionadas ao ambiente de sono. Barulhos mínimos, texturas específicas, luminosidade, temperatura, cheiro do quarto, tipo de pijama, peso do cobertor ou sensação do colchão podem interferir diretamente na capacidade de relaxamento.

Essas questões não devem ser vistas como birra ou resistência voluntária. Para algumas crianças autistas, determinados estímulos são percebidos como intensos, incômodos ou aversivos. Quando o ambiente de sono é sensorialmente inadequado, a criança pode resistir ao quarto, levantar repetidamente, chorar, buscar os pais ou demorar muito para relaxar.

A terapia ocupacional pode contribuir na identificação dessas questões sensoriais. A ABA pode auxiliar na organização da rotina, no ensino gradual de tolerância e no registro dos fatores que facilitam ou dificultam o sono. A família participa observando o que acontece no cotidiano e ajustando o ambiente de forma realista.

Tabela 5 – Aspectos sensoriais que podem afetar o sono

Aspecto sensorial Possível dificuldade Exemplo observável Adaptação possível
Auditivo Sensibilidade a ruídos internos ou externos. Acorda com sons leves ou não dorme com barulhos da casa. Reduzir ruídos, usar isolamento possível ou som ambiente estável quando indicado.
Visual Incômodo com luz ou estímulos visuais. Não relaxa com luz acesa ou se distrai com objetos no quarto. Luz baixa, cortina adequada e ambiente visualmente simples.
Tátil Incômodo com tecidos, etiquetas, pijamas ou lençóis. Tira roupas, reclama do lençol ou evita cobertor. Testar tecidos confortáveis, remover etiquetas e ajustar roupa de dormir.
Térmico Sensibilidade ao calor ou frio. Acorda suando, retira cobertor ou reclama de frio. Ajustar ventilação, roupas e cobertas conforme tolerância.
Proprioceptivo Busca por pressão corporal ou dificuldade de relaxamento. Procura se enrolar, apertar objetos ou deitar sob peso. Avaliar estratégias seguras com terapeuta ocupacional.

Fonte: Adaptado de Marco et al. (2011), Hyman, Levy e Myers (2020), Schwartzman e Araújo (2021), Scoralick et al. (2015) e Volkmar e Wiesner (2019).

Adolescência, telas e ritmo circadiano

Durante a adolescência, alterações hormonais, aumento das demandas emocionais e maior uso de dispositivos eletrônicos podem intensificar problemas relacionados ao sono. Muitos adolescentes autistas apresentam ansiedade aumentada, dificuldade de desligamento mental, interesses intensos durante a noite e uso prolongado de telas.

A exposição à luz de telas no período noturno pode interferir na sinalização natural do ciclo sono-vigília, dificultando a produção de melatonina endógena e retardando o início do sono. Além disso, conteúdos altamente estimulantes podem manter o adolescente em estado de alerta.

Nesses casos, intervenções de higiene do sono tornam-se ainda mais importantes. A retirada abrupta de telas pode gerar resistência, especialmente quando o dispositivo é altamente reforçador. Por isso, estratégias graduais, combinadas com rotina alternativa e reforçamento, tendem a ser mais efetivas.

Tabela 6 – Adolescência, telas e sono no TEA

Fator Impacto possível Estratégia recomendada Cuidado clínico
Uso noturno de telas Dificuldade para iniciar o sono e maior alerta cognitivo. Redução gradual, horário limite e atividades alternativas. Evitar retirada brusca sem planejamento quando a tela é altamente reforçadora.
Ansiedade adolescente Ruminação, insônia, irritabilidade e cansaço diurno. Rotina previsível, suporte emocional e estratégias de relaxamento. Avaliar comorbidades ansiosas e depressivas.
Interesses intensos à noite Dificuldade de interromper atividades preferidas. Avisos prévios, combinados, temporizadores e reforço por transição. Ensinar flexibilidade e encerramento gradual da atividade.
Horários irregulares Desorganização do ritmo circadiano. Horário regular para dormir e acordar. Monitorar cochilos e rotina de fim de semana.

Fonte: Adaptado de Scoralick et al. (2015), Malow et al. (2012), Hyman, Levy e Myers (2020), Cooper, Heron e Heward (2020) e Volkmar e Wiesner (2019).

Impacto familiar das alterações do sono

As alterações do sono no TEA não afetam apenas a criança ou adolescente. Quando a criança dorme mal, frequentemente toda a dinâmica familiar torna-se impactada. Pais e cuidadores podem desenvolver exaustão física, privação de sono, aumento do estresse emocional, irritabilidade, redução da produtividade e dificuldades na organização da rotina.

O sofrimento familiar precisa ser considerado no plano terapêutico. Uma família exausta tende a ter menor disponibilidade emocional e maior dificuldade para manter estratégias consistentes. Por isso, melhorar a qualidade do sono da criança também favorece o bem-estar dos cuidadores e a estabilidade do ambiente doméstico.

A orientação familiar deve ser prática, realista e progressiva. Não basta dizer que a família precisa organizar a rotina. É necessário construir com os cuidadores um plano possível, considerando condições da casa, horários de trabalho, número de filhos, recursos disponíveis e características sensoriais da criança.

Caixa explicativa 4 – O sono também é cuidado familiar

Melhorar o sono da criança autista pode reduzir estresse parental, exaustão familiar e dificuldades na rotina. O plano de intervenção deve considerar a criança e também as condições reais dos cuidadores.

Fonte: Adaptado de Malow et al. (2006), Malow et al. (2012), Hyman, Levy e Myers (2020) e Volkmar e Wiesner (2019).

Monitoramento clínico e comportamental do sono

O monitoramento do sono deve envolver informações simples, objetivas e úteis. A família pode registrar horário em que a criança deita, horário em que adormece, número de despertares, horário em que acorda, uso de telas, alimentação noturna, crises durante a noite e comportamento no dia seguinte.

Esses registros ajudam a equipe a identificar padrões. Por exemplo, a criança pode dormir pior em dias de uso prolongado de tela, em dias de mudanças de rotina ou quando cochila no fim da tarde. Também pode apresentar mais irritabilidade, fuga de demandas ou estereotipias após noites mal dormidas.

Na ABA, esses dados podem ser relacionados ao desempenho nos programas. Se a criança apresenta queda de respostas, aumento de comportamentos interferentes ou baixa atenção em dias de sono ruim, o sono deve ser considerado variável clínica relevante.

Tabela 7 – Registro simples de monitoramento do sono

Item observado Como registrar Por que importa? Uso clínico
Horário de deitar Anotar hora em que a criança foi para a cama. Ajuda a verificar regularidade da rotina. Ajustar horário e sequência noturna.
Tempo para adormecer Registrar quanto tempo demorou para dormir. Indica dificuldade de início do sono. Avaliar higiene do sono e possível indicação médica.
Despertares noturnos Anotar quantas vezes acordou e por quanto tempo. Mostra fragmentação do sono. Investigar causas clínicas, sensoriais ou comportamentais.
Uso de telas Registrar horário e tempo de uso à noite. Pode interferir no início do sono. Planejar redução gradual e atividades alternativas.
Comportamento no dia seguinte Observar irritabilidade, atenção, crises e disposição. Relaciona sono e funcionamento diário. Ajustar demandas e interpretar dados comportamentais.

Fonte: Adaptado de Malow et al. (2012), Scoralick et al. (2015), Cooper, Heron e Heward (2020) e Hyman, Levy e Myers (2020).

Uso ético da melatonina

O uso ético da melatonina exige avaliação cuidadosa das necessidades individuais e acompanhamento contínuo. Embora seja geralmente considerada segura, seu uso inadequado pode produzir efeitos adversos, como sonolência excessiva durante o dia, cefaleia, irritabilidade, sonhos intensos e alterações gastrointestinais.

O objetivo da intervenção farmacológica não deve ser apenas sedar a criança, mas favorecer descanso adequado e melhor funcionamento global. Sedação não é sinônimo de sono restaurador. O objetivo clínico deve ser melhorar qualidade do sono, organização do ciclo sono-vigília, regulação emocional e qualidade de vida.

A decisão sobre introdução, dose, horário, manutenção ou retirada da melatonina deve ser realizada por profissional médico. A família e a equipe podem contribuir com registros e observações, mas não devem iniciar ou ajustar substâncias por conta própria.

Tabela 8 – Aspectos éticos no uso da melatonina no TEA

Aspecto ético Importância clínica Exemplo adequado Risco a evitar
Avaliação individualizada Evita uso desnecessário ou inadequado. Investigar rotina, telas, ambiente, dor, ansiedade e despertares. Usar melatonina sem avaliar causas do sono ruim.
Orientação médica Garante segurança, dose adequada e acompanhamento. Médico define indicação, horário e monitoramento. Automedicação ou ajuste por conta própria.
Integração com higiene do sono Aumenta chance de benefício e reduz dependência de intervenção isolada. Associar melatonina a rotina noturna e redução de telas. Usar substância sem mudar hábitos que mantêm a insônia.
Monitoramento de efeitos Permite avaliar benefício e efeitos adversos. Registrar tempo para dormir, despertares e sonolência diurna. Confundir sedação com melhora do sono.

Fonte: Adaptado de Rossignol e Frye (2011), Malow et al. (2012), Hyman, Levy e Myers (2020), Stahl (2021) e Scoralick et al. (2015).

Estudo de caso

Lucas, 7 anos, possui diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. A família relata que ele demora cerca de duas horas para adormecer, acorda duas ou três vezes durante a noite e apresenta muita irritabilidade pela manhã. Na escola, a professora observa que Lucas fica sonolento, pouco atento e apresenta crises com maior frequência nos dias em que dorme mal.

Ao investigar a rotina, a equipe percebe que Lucas costuma usar tablet até poucos minutos antes de dormir, dorme em horários variáveis e apresenta forte incômodo com a textura do pijama. Também foi observado que, quando acorda durante a noite, recebe acesso ao celular para se acalmar, o que acaba prolongando o tempo acordado.

A equipe orienta a família a registrar o sono por duas semanas, reduzir gradualmente o uso de telas, criar uma rotina visual noturna, adaptar o pijama e organizar um ambiente mais escuro e silencioso. Após avaliação médica, a possibilidade de uso de melatonina é considerada para auxiliar o início do sono, sempre associada às estratégias de higiene do sono.

Tabela 9 – Análise didática do estudo de caso

Elemento do caso Interpretação clínica Conduta integrada Cuidado ético
Demora para adormecer Pode envolver rotina irregular, telas, ansiedade ou alteração do ritmo sono-vigília. Rotina visual, redução de telas e avaliação médica para melatonina. Não usar melatonina sem avaliar hábitos de sono.
Despertares noturnos Sono fragmentado e possível manutenção por acesso ao celular. Reorganizar respostas familiares durante a noite e reduzir reforçadores inadequados. Evitar estratégias que mantêm o despertar prolongado.
Incômodo com pijama Possível hipersensibilidade tátil. Adaptar textura, retirar etiquetas e avaliar com terapia ocupacional. Não interpretar como birra.
Irritabilidade e desatenção diurna Possíveis consequências da privação de sono. Relacionar registros de sono com dados escolares e terapêuticos. Não concluir piora comportamental sem considerar sono.

Fonte: Adaptado de Malow et al. (2006), Rossignol e Frye (2011), Malow et al. (2012), Cooper, Heron e Heward (2020) e Hyman, Levy e Myers (2020).

Questões reflexivas

  1. Quais alterações do sono estão presentes no caso de Lucas?
  2. Quais fatores ambientais e sensoriais podem estar contribuindo para o problema?
  3. Por que a melatonina não deve ser usada como estratégia isolada?
  4. Como a ABA pode contribuir no manejo do sono?
  5. Quais dados a família deve registrar para auxiliar a equipe?

Gabarito comentado

Na primeira questão, Lucas apresenta dificuldade para iniciar o sono, despertares noturnos frequentes, sono fragmentado, irritabilidade matinal, sonolência e desatenção durante o dia. Esses sinais indicam prejuízo na qualidade e na regularidade do sono.

Na segunda questão, os fatores ambientais e sensoriais incluem uso de tablet antes de dormir, horários variáveis, acesso ao celular durante despertares noturnos, ambiente possivelmente estimulante e incômodo tátil com o pijama. Esses elementos podem dificultar o relaxamento e manter o padrão de sono inadequado.

Na terceira questão, a melatonina não deve ser usada como estratégia isolada porque hábitos e condições ambientais podem manter a insônia. Se a criança continua usando telas, dormindo em horários irregulares e tendo acesso ao celular à noite, a intervenção farmacológica tende a ser menos efetiva e menos ética.

Na quarta questão, a ABA pode contribuir organizando rotina visual, encadeando comportamentos da rotina noturna, reduzindo reforçadores que mantêm despertares, ensinando transições, registrando padrões de sono e relacionando noites mal dormidas com comportamentos durante o dia.

Na quinta questão, a família deve registrar horário de deitar, tempo para adormecer, número de despertares, duração dos despertares, horário de acordar, uso de telas, alimentação noturna, alterações sensoriais e comportamento no dia seguinte.

Encerramento da aula

Encerramos esta aula destacando que a regulação do sono é um componente essencial do cuidado no Transtorno do Espectro Autista. Dormir bem não é um detalhe secundário. O sono influencia comportamento, aprendizagem, atenção, memória, regulação emocional, saúde física e qualidade de vida familiar.

Compreendemos que a melatonina pode ser uma ferramenta útil em determinados casos, especialmente quando há dificuldade para iniciar o sono. Entretanto, seu uso deve ser orientado por profissional médico e integrado a estratégias de higiene do sono, rotina previsível, redução de telas, adaptação sensorial e acompanhamento multiprofissional.

Também vimos que alterações do sono podem parecer piora comportamental. Irritabilidade, hiperatividade, desatenção e crises podem aumentar após noites mal dormidas. Por isso, a avaliação do sono deve fazer parte da compreensão clínica e comportamental da pessoa autista.

Na próxima aula, aprofundaremos o uso de cannabis medicinal e canabidiol no TEA, abordando evidências científicas, limites atuais, aspectos éticos, regulamentação, segurança e necessidade de acompanhamento médico.

Referências Bibliográficas

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