Aula 8 – Ansiolíticos no TEA
A ansiedade representa uma das condições emocionais mais frequentes associadas ao Transtorno do Espectro Autista. Muitas crianças, adolescentes e adultos autistas apresentam sofrimento significativo relacionado a mudanças de rotina, imprevisibilidade, sobrecarga sensorial, dificuldades sociais, experiências de exclusão e situações emocionalmente intensas.
Em determinados casos, os sintomas ansiosos tornam-se tão intensos que comprometem funcionamento cotidiano, participação escolar, adaptação social, qualidade do sono, estabilidade emocional e convivência familiar. Nessas situações, os ansiolíticos podem ser considerados como recurso terapêutico dentro de um acompanhamento multiprofissional, individualizado e monitorado.
Os ansiolíticos constituem uma classe de medicamentos voltada principalmente para redução da ansiedade, tensão emocional, hiperativação fisiológica e sofrimento psíquico relacionado ao medo, à insegurança e à dificuldade de autorregulação. Entre os medicamentos mais conhecidos estão os benzodiazepínicos, como clonazepam, diazepam e lorazepam.
Esses medicamentos atuam principalmente sobre o sistema GABAérgico, aumentando a ação do neurotransmissor GABA, responsável por processos de inibição neural e redução da excitabilidade do sistema nervoso central. Como consequência, podem produzir diminuição da ansiedade, relaxamento muscular, sedação e redução temporária da hiperativação emocional.
No entanto, é fundamental compreender que os ansiolíticos não tratam diretamente as características centrais do autismo. Seu objetivo principal é reduzir sofrimento emocional em situações específicas, favorecendo estabilidade, segurança e participação funcional quando há indicação médica clara.
Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula
Os ansiolíticos podem auxiliar em situações de ansiedade intensa no TEA, mas devem ser usados com cautela, principalmente os benzodiazepínicos, devido aos riscos de sedação, prejuízo cognitivo, tolerância, dependência e efeitos paradoxais. O uso deve ser médico, individualizado e integrado a intervenções comportamentais, emocionais e ambientais.
Fonte: Adaptado de Kerns et al. (2015), Nicolov et al. (2006), Hyman, Levy e Myers (2020), Stahl (2021) e Volkmar e Wiesner (2019).
Ansiedade no TEA: manifestações clínicas
A ansiedade no TEA pode aparecer de forma diferente daquela observada em pessoas neurotípicas. Em crianças pequenas ou em pessoas com comunicação limitada, a ansiedade nem sempre será verbalizada como medo, preocupação ou angústia. Muitas vezes, ela se manifesta por irritabilidade, crises emocionais, esquiva, choro, aumento de estereotipias, agressividade, recusa de atividades ou comportamentos de fuga.
Em adolescentes e adultos, os sintomas podem se aproximar dos transtornos ansiosos tradicionalmente descritos, incluindo preocupação excessiva, antecipação negativa, ataques de pânico, ansiedade social, isolamento, insônia, tensão corporal e sofrimento diante de mudanças. Mesmo assim, é necessário considerar as particularidades do autismo, como sensorialidade, rigidez cognitiva e dificuldade de leitura social.
A ansiedade também pode surgir diante de ambientes sensorialmente intensos. Barulhos, luzes, cheiros, texturas, multidões, mudanças inesperadas e interações sociais complexas podem gerar estados elevados de tensão. Em muitos casos, o comportamento desafiador é uma tentativa de escapar de situações aversivas ou de comunicar desconforto.
Tabela 1 – Manifestações da ansiedade no TEA
| Faixa ou perfil | Manifestação possível | Fatores associados | Conduta clínica inicial |
|---|---|---|---|
| Crianças pequenas | Choro, fuga, irritabilidade, crises, recusa e aumento de estereotipias. | Mudanças, separação, sobrecarga sensorial, dificuldade de comunicação e rotina imprevisível. | Rotina visual, comunicação funcional, adaptação sensorial e avaliação clínica. |
| Crianças com comunicação limitada | Agressividade, autoagressão, fuga de demandas ou resistência intensa. | Frustração, dor, medo, ausência de repertório comunicativo e excesso de estímulos. | Análise funcional, investigação médica e ensino de pedidos de ajuda ou pausa. |
| Adolescentes | Ansiedade social, isolamento, ruminação, medo de julgamento e recusa escolar. | Bullying, demandas sociais, mudanças corporais, comparação com pares e exclusão. | Psicoterapia, suporte escolar, treino de habilidades sociais e avaliação médica quando necessário. |
| Adultos | Preocupação persistente, pânico, esgotamento social e evitação de ambientes. | Sobrecarga social, trabalho, relações afetivas, demandas sensoriais e camuflagem social. | Apoio psicológico, ajustes ambientais, psicoeducação e avaliação psiquiátrica individualizada. |
Fonte: Adaptado de Kerns et al. (2015), Hyman, Levy e Myers (2020), Lord et al. (2020), Volkmar e Wiesner (2019) e Schwartzman e Araújo (2021).
Benzodiazepínicos e sistema GABAérgico
Os benzodiazepínicos, como clonazepam, diazepam e lorazepam, são medicamentos que atuam sobre receptores relacionados ao GABA, principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central. Ao aumentar a ação do GABA, esses medicamentos reduzem a excitabilidade neural, produzindo efeito ansiolítico, sedativo, relaxante muscular e anticonvulsivante em alguns contextos clínicos.
No TEA, podem ser considerados em situações específicas envolvendo crises intensas de ansiedade, desregulação emocional grave, sofrimento psíquico significativo, procedimentos médicos, viagens, mudanças ambientais importantes ou episódios agudos de pânico. Ainda assim, seu uso deve ser cauteloso e geralmente breve ou intermitente, conforme avaliação médica.
O uso prolongado de benzodiazepínicos exige cuidado devido ao risco de tolerância, dependência medicamentosa, sedação excessiva, prejuízo cognitivo, alteração de memória e redução da coordenação motora. Em alguns indivíduos autistas, podem ocorrer efeitos paradoxais, como aumento de irritabilidade, agitação ou impulsividade.
Caixa explicativa 2 – Cuidado com benzodiazepínicos
Benzodiazepínicos podem reduzir ansiedade rapidamente, mas seu uso contínuo deve ser evitado ou cuidadosamente monitorado devido a riscos de sedação, tolerância, dependência, alterações cognitivas e efeitos paradoxais.
Fonte: Adaptado de Stahl (2021), Nicolov et al. (2006), Hyman, Levy e Myers (2020) e Kerns et al. (2015).
Tabela 2 – Principais ansiolíticos utilizados em contextos clínicos do TEA
| Medicamento | Objetivo clínico possível | Possíveis efeitos colaterais | Cuidados principais |
|---|---|---|---|
| Clonazepam | Crises de ansiedade, desregulação emocional e situações específicas de hiperativação. | Sonolência, sedação, dificuldade de atenção, alteração de memória e risco de dependência. | Evitar uso sem objetivo claro e monitorar sedação e funcionamento diário. |
| Diazepam | Relaxamento, redução de ansiedade aguda e alguns contextos neurológicos específicos. | Sedação, redução da coordenação motora, tontura, fadiga e prejuízo cognitivo. | Cautela em atividades escolares, terapêuticas e motoras. |
| Lorazepam | Ansiedade aguda, crises emocionais e situações pontuais de intenso sofrimento. | Tontura, fadiga, sonolência, alteração cognitiva e possível efeito paradoxal. | Uso deve ser médico, individualizado e monitorado. |
Fonte: Adaptado de Stahl (2021), Volkmar e Wiesner (2019), Hyman, Levy e Myers (2020), Nicolov et al. (2006) e Kerns et al. (2015).
Quando considerar ansiolíticos no TEA
A indicação de ansiolíticos deve ocorrer apenas quando há sofrimento intenso, prejuízo funcional significativo ou necessidade clínica específica. Isso inclui situações de ansiedade aguda, crises de pânico, procedimentos médicos inevitáveis, viagens altamente estressoras, mudanças ambientais relevantes ou momentos em que a ansiedade impede participação mínima em atividades essenciais.
Mesmo nesses casos, é importante diferenciar ansiedade de outras condições. A criança pode parecer ansiosa quando, na verdade, está com dor, sono ruim, constipação, sobrecarga sensorial, dificuldade de comunicação ou exposição a demandas inadequadas. A avaliação clínica e funcional continua indispensável.
A decisão deve ser realizada pelo médico, com informações da família e da equipe. Quando a ansiedade é persistente, intervenções psicológicas, comportamentais e ambientais devem ser priorizadas e mantidas. A medicação pode auxiliar, mas não deve substituir o ensino de habilidades de enfrentamento.
Tabela 3 – Situações clínicas em que ansiolíticos podem ser discutidos
| Situação | Exemplo observável | Intervenção complementar | Cuidado ético |
|---|---|---|---|
| Crise aguda de ansiedade | Pânico, choro intenso, tremores, fuga e incapacidade de se acalmar. | Acolhimento, redução de estímulos, comunicação simples e ambiente seguro. | Evitar uso repetido sem investigar causas. |
| Procedimentos médicos | Ansiedade intensa em exames, vacinação ou atendimento hospitalar. | Preparação visual, dessensibilização, história social e previsibilidade. | Usar apenas quando necessário e com orientação médica. |
| Mudança ambiental importante | Mudança de casa, viagem, internação ou evento inevitável. | Antecipação, rotina visual, objetos de segurança e plano de transição. | Não usar medicação para evitar adaptações ambientais. |
| Ansiedade com prejuízo funcional grave | Recusa escolar persistente, isolamento ou crises frequentes. | Psicoterapia, ABA, suporte escolar e avaliação de comorbidades. | Avaliar se outra classe ou intervenção é mais adequada. |
Fonte: Adaptado de Kerns et al. (2015), Hyman, Levy e Myers (2020), Schwartzman e Araújo (2021), Volkmar e Wiesner (2019) e Cooper, Heron e Heward (2020).
Estratégias não farmacológicas no manejo da ansiedade
Nem toda ansiedade no autismo necessita tratamento medicamentoso. Muitas vezes, adaptações ambientais, organização de rotina, suporte emocional, comunicação alternativa, ABA, terapia ocupacional e estratégias sensoriais podem produzir melhora significativa. A farmacoterapia deve ser compreendida como recurso complementar dentro de uma abordagem terapêutica mais ampla.
A previsibilidade é um dos recursos mais importantes para muitas pessoas autistas. Rotinas visuais, avisos prévios, antecipação de mudanças, combinados claros e transições graduais reduzem incerteza e favorecem sensação de segurança. Quando a pessoa compreende o que vai acontecer, a ansiedade tende a diminuir.
A intervenção comportamental também pode ensinar habilidades de enfrentamento, pedidos de pausa, comunicação de desconforto, tolerância gradual a mudanças, relaxamento, identificação de sinais corporais e alternativas funcionais para fuga ou crise. Essas habilidades são fundamentais para reduzir dependência de respostas medicamentosas.
Tabela 4 – Estratégias complementares no manejo da ansiedade no TEA
| Estratégia | Objetivo terapêutico | Exemplo prático | Relação com ABA |
|---|---|---|---|
| Organização da rotina | Reduzir imprevisibilidade ambiental. | Usar quadro visual com sequência do dia. | Reduz antecedentes aversivos e aumenta previsibilidade. |
| Apoios visuais | Favorecer compreensão, antecipação e segurança. | Cartões de “pausa”, “ajuda” e “terminou”. | Auxilia comunicação funcional e redução de crises. |
| Intervenção ABA | Desenvolver habilidades adaptativas e comunicação funcional. | Ensinar pedir pausa em vez de fugir da sala. | Substitui respostas problemáticas por repertórios funcionais. |
| Estratégias sensoriais | Reduzir sobrecarga ambiental. | Diminuir ruídos, luz intensa ou oferecer local de regulação. | Ajusta antecedentes sensoriais que evocam ansiedade. |
| Psicoterapia e suporte emocional | Favorecer autorregulação emocional e compreensão de experiências internas. | Trabalhar identificação de emoções, medo e estratégias de enfrentamento. | Pode ser integrada a treino de habilidades e generalização. |
Fonte: Adaptado de Schwartzman e Araújo (2021), Cooper, Heron e Heward (2020), Kerns et al. (2015), Hyman, Levy e Myers (2020) e Volkmar e Wiesner (2019).
Caixa explicativa 3 – Ansiedade também é comunicação
Em muitas pessoas autistas, comportamentos de fuga, choro, recusa ou agressividade podem comunicar ansiedade, medo, dor ou sobrecarga. A análise funcional ajuda a compreender o que o comportamento está expressando antes de decidir por qualquer intervenção.
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley, Iwata e McCord (2003), Kerns et al. (2015) e Hyman, Levy e Myers (2020).
Riscos, efeitos adversos e monitoramento
Entre os principais efeitos adversos dos ansiolíticos estão sonolência, sedação, dificuldade de atenção, redução da coordenação motora, alterações cognitivas, prejuízo da memória, tontura e fadiga. Em crianças e adolescentes, sedação excessiva pode interferir negativamente no desempenho escolar, na aprendizagem terapêutica e na participação social.
Outro risco importante é o uso prolongado dos benzodiazepínicos. Embora possam produzir alívio rápido, o uso contínuo pode gerar tolerância, dependência e dificuldades na retirada. Por isso, muitos profissionais priorizam utilização breve, pontual ou intermitente, sempre com indicação clara.
Também podem ocorrer efeitos paradoxais. Em vez de acalmar, alguns indivíduos podem apresentar aumento de agitação, irritabilidade, impulsividade ou desinibição. Essas respostas demonstram a importância da individualização terapêutica e do monitoramento próximo após início ou ajuste da medicação.
Tabela 5 – Monitoramento dos ansiolíticos no TEA
| Área monitorada | O que observar | Quem pode contribuir | Importância clínica |
|---|---|---|---|
| Sedação | Sonolência excessiva, apatia, queda de alerta e cansaço. | Família, escola, equipe terapêutica e médico. | Evita confundir sedação com melhora emocional. |
| Cognição e aprendizagem | Atenção, memória, respostas independentes e participação em tarefas. | Escola, ABA e família. | Verifica se a medicação prejudica o ensino. |
| Coordenação motora | Quedas, lentificação, tontura e alteração de equilíbrio. | Família, terapeuta ocupacional e médico. | Previne riscos físicos e acidentes. |
| Efeito paradoxal | Aumento de irritabilidade, agitação, impulsividade ou desinibição. | Família, escola e equipe clínica. | Permite rápida reavaliação médica. |
| Uso prolongado | Necessidade crescente de dose, dependência ou dificuldade de retirada. | Médico e família. | Reduz riscos de tolerância e dependência. |
Fonte: Adaptado de Stahl (2021), Nicolov et al. (2006), Kerns et al. (2015), Hyman, Levy e Myers (2020) e Volkmar e Wiesner (2019).
Caixa explicativa 4 – Sedação não é tratamento da ansiedade
Reduzir movimento, fala ou agitação por sedação não significa necessariamente reduzir sofrimento. O tratamento adequado deve favorecer segurança emocional, participação funcional, aprendizagem e qualidade de vida.
Fonte: Adaptado de Hyman, Levy e Myers (2020), Nicolov et al. (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Stahl (2021).
Adolescência, ansiedade social e suporte emocional
Durante a adolescência, aumentam as demandas sociais, os conflitos emocionais e a percepção das diferenças interpessoais. Muitos adolescentes autistas tornam-se mais vulneráveis a quadros de ansiedade social, isolamento, sofrimento psíquico, bullying e dificuldades de pertencimento.
Nessa fase, a ansiedade pode aparecer como evitação escolar, crises antes de eventos sociais, retraimento, irritabilidade, preocupação excessiva, alterações do sono e queda no desempenho. A escuta clínica do adolescente deve ser valorizada, respeitando sua forma de comunicação e sua experiência subjetiva.
Em alguns casos, intervenções psicológicas associadas à farmacoterapia podem favorecer melhora importante da qualidade de vida. Entretanto, a medicação não deve ser utilizada para forçar adaptação a ambientes hostis. A escola, a família e a equipe precisam atuar para reduzir exclusão, previsibilidade inadequada e sobrecarga social.
Tabela 6 – Ansiedade na adolescência autista
| Situação | Possível manifestação | Intervenção recomendada | Cuidado ético |
|---|---|---|---|
| Ansiedade social | Medo de julgamento, recusa de grupos e isolamento. | Psicoterapia, treino social, apoio escolar e avaliação médica quando indicado. | Não medicar para adaptar o adolescente a relações excludentes. |
| Bullying | Choro, recusa escolar, irritabilidade e baixa autoestima. | Intervenção institucional, proteção, acolhimento e suporte emocional. | Não tratar apenas o sintoma sem modificar o ambiente. |
| Sobrecarga social | Esgotamento, crises após eventos e necessidade de isolamento. | Planejamento de pausas, previsibilidade e respeito ao limite sensorial e social. | Não interpretar necessidade de pausa como desinteresse. |
| Ansiedade noturna | Insônia, ruminação e dificuldade de relaxar. | Higiene do sono, rotina, redução de telas e suporte emocional. | Evitar sedação como única estratégia. |
Fonte: Adaptado de Kerns et al. (2015), Lord et al. (2020), Hyman, Levy e Myers (2020), Volkmar e Wiesner (2019) e Schwartzman e Araújo (2021).
Aspectos éticos no uso de ansiolíticos
O uso ético dos ansiolíticos exige que esses medicamentos não sejam utilizados apenas para sedar a criança, facilitar manejo institucional ou reduzir comportamentos considerados inconvenientes. O verdadeiro objetivo clínico deve ser redução do sofrimento emocional e promoção de maior estabilidade funcional.
A indicação deve considerar intensidade da ansiedade, risco, prejuízo funcional, resposta a intervenções não farmacológicas, comorbidades, idade, histórico clínico e contexto familiar. O uso deve ser acompanhado por médico e integrado a estratégias que ensinem autorregulação, comunicação e enfrentamento.
A participação familiar é fundamental. Muitas vezes, os responsáveis percebem alterações relacionadas ao humor, sono, irritabilidade, sedação e comportamento após início da medicação. A comunicação entre família, equipe terapêutica, escola e médico prescritor favorece acompanhamento mais seguro e individualizado.
Tabela 7 – Aspectos éticos no uso de ansiolíticos no TEA
| Aspecto ético | Importância clínica | Exemplo adequado | Risco a evitar |
|---|---|---|---|
| Avaliação individualizada | Evita uso indiscriminado. | Investigar ansiedade, dor, sono, sensorialidade e ambiente. | Medicar qualquer crise sem compreender sua origem. |
| Uso pontual quando possível | Reduz risco de tolerância e dependência. | Usar em situação aguda, com plano médico definido. | Uso contínuo sem reavaliação. |
| Monitoramento de sedação | Protege aprendizagem e participação. | Observar se a criança está menos ansiosa ou apenas sonolenta. | Confundir sedação com melhora clínica. |
| Integração terapêutica | Favorece tratamento global da ansiedade. | Associar medicação a apoio visual, ABA, psicoterapia e adaptação sensorial. | Usar ansiolítico como única intervenção. |
| Respeito à pessoa autista | Prioriza bem-estar e qualidade de vida. | Reduzir sofrimento sem apagar comunicação, iniciativa ou autonomia. | Usar medicação para controle social. |
Fonte: Adaptado de Behavior Analyst Certification Board (2020), Hyman, Levy e Myers (2020), Nicolov et al. (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Stahl (2021).
Estudo de caso
Marcos, 11 anos, possui diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista e apresenta comunicação verbal funcional. Nos últimos meses, passou a demonstrar ansiedade intensa antes de ir à escola. Relata medo de errar, preocupação com barulho no recreio e desconforto em atividades em grupo. Em alguns dias, chora, recusa-se a sair de casa e apresenta dor abdominal antes da aula.
A família relata que Marcos dorme mal na véspera de avaliações ou apresentações. A escola informa que ele é um aluno participativo em atividades individuais, mas se desorganiza quando há mudanças repentinas ou excesso de ruído. A equipe clínica observa rigidez diante de imprevistos, sensibilidade auditiva e dificuldade de pedir pausa em situações de sobrecarga.
Após avaliação médica e psicológica, a equipe discute a possibilidade de intervenção farmacológica para ansiedade intensa, mas também organiza um plano de apoio com rotina visual, previsibilidade escolar, local de pausa, treino de comunicação de desconforto, suporte emocional e orientação aos professores.
Tabela 8 – Análise didática do estudo de caso
| Elemento do caso | Interpretação clínica | Conduta integrada | Cuidado ético |
|---|---|---|---|
| Recusa escolar e choro | Possível ansiedade intensa associada ao ambiente escolar. | Avaliação médica, psicológica e plano escolar individualizado. | Não interpretar como preguiça ou oposição. |
| Medo de barulho no recreio | Sobrecarga sensorial auditiva. | Adaptação sensorial, local de pausa e antecipação. | Não medicar sem reduzir estímulos aversivos. |
| Dor abdominal antes da aula | Pode ser manifestação somática da ansiedade ou condição clínica associada. | Avaliação médica, registro de padrões e suporte emocional. | Não ignorar queixas físicas. |
| Possível ansiolítico | Pode ser discutido em caso de ansiedade intensa e prejuízo funcional. | Uso médico, monitorado e associado a intervenções não farmacológicas. | Evitar sedação como solução única. |
Fonte: Adaptado de Kerns et al. (2015), Hyman, Levy e Myers (2020), Cooper, Heron e Heward (2020), Schwartzman e Araújo (2021) e Stahl (2021).
Questões reflexivas
- Quais sinais de ansiedade aparecem no caso de Marcos?
- Por que o ambiente escolar precisa ser avaliado?
- Quais estratégias não farmacológicas podem ser utilizadas?
- Quais riscos precisam ser monitorados caso um ansiolítico seja indicado?
- Por que sedação não deve ser confundida com melhora clínica?
Gabarito comentado
Na primeira questão, Marcos apresenta recusa escolar, choro, medo de errar, preocupação com barulho, desconforto em atividades em grupo, dor abdominal e insônia antes de situações escolares. Esses sinais indicam ansiedade com prejuízo funcional.
Na segunda questão, o ambiente escolar precisa ser avaliado porque parte da ansiedade está relacionada a ruído, mudanças repentinas, atividades em grupo e falta de previsibilidade. Sem ajustar esses fatores, a medicação pode apenas mascarar o sofrimento.
Na terceira questão, podem ser utilizadas rotina visual, apoio antecipatório, local de pausa, redução de ruídos, comunicação funcional, treino de enfrentamento, psicoterapia, orientação aos professores e adaptação gradual às demandas sociais.
Na quarta questão, devem ser monitorados sedação, sonolência, alterações cognitivas, memória, coordenação motora, tontura, fadiga, efeitos paradoxais, irritabilidade e risco de uso prolongado com tolerância ou dependência.
Na quinta questão, sedação não deve ser confundida com melhora clínica porque a criança pode parecer mais calma apenas por estar sonolenta ou menos responsiva. A melhora verdadeira envolve menor sofrimento, maior participação, segurança emocional, aprendizagem e qualidade de vida.
Encerramento da aula
Encerramos esta aula destacando que os ansiolíticos podem representar recurso importante em situações específicas de ansiedade intensa no TEA, mas seu uso exige cautela, critério e monitoramento. Principalmente no caso dos benzodiazepínicos, é necessário considerar riscos de sedação, dependência, tolerância, prejuízo cognitivo e efeitos paradoxais.
Compreendemos que a ansiedade no autismo pode estar relacionada à imprevisibilidade, sobrecarga sensorial, dificuldades sociais, bullying, comunicação limitada e experiências de exclusão. Por isso, a intervenção deve ir além da medicação, incluindo ABA, psicoterapia, apoio visual, adaptação sensorial, organização de rotina e suporte familiar.
O uso ético dos ansiolíticos não busca silenciar a pessoa autista, mas reduzir sofrimento real e favorecer participação funcional. O cuidado deve ser humanizado, individualizado e integrado à equipe multiprofissional.
Na próxima aula, aprofundaremos a melatonina e a regulação do sono no TEA, discutindo a relação entre sono, comportamento, aprendizagem, neuroplasticidade e qualidade de vida.
Referências Bibliográficas
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