Aula 6 – Estratégias de Extinção: Análise Clínica e Explosão de Extinção
Olá, alunos. Tudo bem com vocês? Eu sou a professora Bárbara e, na aula de hoje, vamos trabalhar um dos procedimentos mais sensíveis, complexos e frequentemente mal aplicados na prática clínica: a extinção.
Se nas aulas anteriores aprendemos a fortalecer comportamentos por meio do reforçamento, agora vamos compreender como reduzir comportamentos que estão sendo mantidos por reforço. No entanto, é fundamental deixar claro desde o início: extinção não significa simplesmente ignorar, não significa abandonar a criança e muito menos deixar de intervir.
A extinção é um procedimento técnico, baseado na retirada sistemática do reforço que mantém um comportamento. Quando mal compreendida, pode produzir efeitos contrários ao esperado, aumentar a intensidade do comportamento e gerar sofrimento para a criança, para a família e para a equipe.
Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula
Extinção é a retirada planejada do reforço que mantinha um comportamento. Ela não deve ser confundida com abandono, indiferença ou falta de acolhimento. O procedimento precisa estar associado ao ensino de uma resposta alternativa e funcional.
Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Lerman e Iwata (1995) e Lopes (2025).
O que é extinção?
A extinção ocorre quando um comportamento que antes era reforçado deixa de produzir o reforço que o mantinha, levando à redução gradual de sua frequência. Isso significa que o comportamento deixa de funcionar para obter aquilo que anteriormente conseguia.
Por exemplo, se uma criança grita para obter atenção e o adulto passa a não oferecer atenção ao grito, esse comportamento tende a diminuir ao longo do tempo, desde que não seja reforçado de outra forma. Porém, se a criança grita, o adulto tenta não responder, mas depois de alguns minutos oferece atenção para interromper o grito, o comportamento pode se fortalecer ainda mais.
Por isso, a extinção exige análise funcional. Antes de aplicar o procedimento, é necessário saber qual reforço mantém o comportamento. Se o comportamento é mantido por atenção, a extinção envolve retirar atenção ao comportamento inadequado. Se é mantido por fuga de demanda, a extinção envolve não permitir que o comportamento inadequado produza fuga. Se é mantido por acesso a itens, a extinção envolve não entregar o item após o comportamento problema.
Tabela 1 – Estrutura do processo de extinção
| Elemento | Descrição | Exemplo | Função Clínica |
|---|---|---|---|
| Comportamento | Resposta que vinha sendo reforçada. | Gritar para obter atenção. | Identificar exatamente o que será monitorado. |
| Reforço anterior | Consequência que mantinha o comportamento. | Adulto olha, fala, repreende ou se aproxima. | Compreender o que precisa deixar de ocorrer. |
| Mudança | Retirada sistemática do reforço. | Adulto não oferece atenção ao grito. | Interromper a relação entre comportamento e reforço. |
| Resposta alternativa | Comportamento adequado ensinado no lugar. | Chamar pelo nome ou tocar levemente. | Garantir que a criança tenha outro modo de obter o que precisa. |
| Resultado esperado | Redução gradual do comportamento inadequado. | Menos gritos ao longo do tempo. | Aumentar repertório funcional e reduzir interferência. |
Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Lerman e Iwata (1995) e Lopes (2025).
Explosão de extinção
Um dos fenômenos mais importantes e desafiadores da extinção é a chamada explosão de extinção. Quando um comportamento deixa de ser reforçado, é comum que ele aumente temporariamente em intensidade, frequência ou duração antes de diminuir. Isso ocorre porque a criança tenta, de forma mais intensa, produzir o reforço que anteriormente funcionava.
Por exemplo, se uma criança chorava baixo e recebia atenção, ao não receber mais resposta, pode passar a chorar mais alto, gritar, puxar o adulto ou até apresentar novas formas de comportamento. Esse aumento inicial não significa necessariamente que a intervenção falhou. Pode indicar que a contingência anterior deixou de funcionar e que o comportamento está passando por um processo de mudança.
Esse momento é crítico, pois muitos adultos interpretam a explosão como piora e acabam cedendo. Quando isso acontece, o comportamento mais intenso é reforçado. A criança aprende que, se insistir mais, gritar mais ou intensificar mais, o reforço volta a aparecer. Isso torna o comportamento mais resistente no futuro.
Tabela 2 – Características da explosão de extinção
| Aspecto | Descrição | Exemplo Clínico | Cuidado Necessário |
|---|---|---|---|
| Aumento de intensidade | O comportamento ocorre de forma mais forte. | A criança passa de choro baixo para gritos altos. | Manter segurança e consistência. |
| Aumento de frequência | O comportamento ocorre mais vezes. | A criança chama repetidamente o adulto. | Registrar dados e observar tendência. |
| Aumento de duração | O comportamento permanece por mais tempo. | A crise dura mais minutos do que antes. | Preparar família e equipe previamente. |
| Variabilidade | Novas formas de comportamento podem aparecer. | Além de gritar, a criança começa a puxar o braço do adulto. | Avaliar risco e ajustar o plano. |
Fonte: Adaptado de Lerman e Iwata (1995), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016) e Lopes (2025).
Caixa explicativa 2 – A explosão não significa fracasso
Durante a extinção, o aumento inicial do comportamento pode ser esperado. O problema ocorre quando o adulto cede justamente no pico da explosão, reforçando uma forma mais intensa do comportamento. Por isso, a equipe precisa prever esse fenômeno, orientar a família e garantir segurança.
Fonte: Adaptado de Lerman e Iwata (1995), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016) e Lopes (2025).
Extinção não é ignorar tudo
Um erro muito comum é entender extinção como “ignorar a criança”. Essa compreensão é perigosa e tecnicamente inadequada. A extinção não envolve ignorar a criança como pessoa, mas retirar o reforço específico que mantém determinado comportamento.
Se o comportamento é mantido por atenção, pode ser necessário retirar atenção daquele comportamento inadequado. Porém, isso deve ser feito junto com o reforçamento imediato de uma forma adequada de pedir atenção. Assim, a criança aprende: “gritar não funciona, mas chamar pelo nome funciona”.
Se o comportamento é mantido por acesso a item, a extinção não significa ignorar. Significa não entregar o item após o comportamento inadequado e ensinar uma forma adequada de pedir. Se o comportamento é mantido por fuga, a extinção não significa forçar sem sensibilidade. Significa não permitir que a fuga inadequada seja o caminho principal, ao mesmo tempo em que se ensina pedir ajuda, pedir pausa ou realizar a tarefa em etapas menores.
Tabela 3 – Extinção conforme a função do comportamento
| Função do Comportamento | Como a Extinção Atua | Resposta Alternativa a Ensinar | Cuidado Clínico |
|---|---|---|---|
| Atenção | Não oferecer atenção ao comportamento inadequado. | Chamar pelo nome, tocar levemente ou pedir “olha”. | Oferecer atenção imediatamente ao pedido adequado. |
| Acesso a item | Não entregar o item após grito, choro ou agressão. | Apontar, usar figura, gesto ou palavra para pedir. | Garantir que a criança consiga emitir a resposta alternativa. |
| Fuga de demanda | Não permitir que a fuga inadequada encerre totalmente a demanda. | Pedir pausa, pedir ajuda ou realizar uma etapa menor. | Adaptar a tarefa para evitar sobrecarga. |
| Sensorial | A extinção pode ser limitada, pois o reforço pode ser automático. | Ensinar alternativa sensorial segura e funcional. | Avaliar com muito cuidado e evitar procedimentos inadequados. |
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Lerman e Iwata (1995), Hanley (2012) e Lopes (2025).
Caixa explicativa 3 – Extinção precisa de ensino
A extinção reduz a eficácia de um comportamento inadequado, mas não ensina automaticamente uma habilidade nova. Por isso, deve ser combinada com reforçamento diferencial, comunicação funcional, apoio visual, previsibilidade e ensino de repertórios alternativos.
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016) e Lopes (2025).
Estudo de caso clínico-pedagógico
Luiza, 5 anos, diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista nível 2 de suporte, apresentava comportamento frequente de gritar e puxar o braço da mãe sempre que queria atenção durante atividades domésticas. A mãe relatava que, ao perceber o comportamento, interrompia imediatamente o que estava fazendo para atender a filha, buscando evitar escalada emocional.
A análise funcional indicou que o comportamento tinha função clara de obtenção de atenção. Sempre que Luiza gritava ou puxava, a mãe respondia rapidamente, olhava para a filha, falava com ela, explicava que não podia naquele momento ou tentava acalmá-la. Embora a intenção da mãe fosse acolher e prevenir uma crise, essa resposta acabava reforçando o comportamento de forma consistente.
A intervenção foi estruturada em dois eixos principais: retirada do reforço para o comportamento inadequado e ensino de um comportamento alternativo. O objetivo não era deixar Luiza sem atenção, mas ensiná-la a solicitar atenção de forma adequada. A equipe definiu que Luiza aprenderia a chamar a mãe pelo nome ou tocar levemente no braço dela.
Nos primeiros dias de intervenção, observou-se uma explosão de extinção significativa. Luiza passou a gritar mais alto, chorar por mais tempo e intensificar o comportamento de puxar o braço. Esse momento gerou grande angústia na mãe, que sentia que a situação estava piorando. A equipe explicou que aquele aumento poderia ser esperado, pois o comportamento antigo estava deixando de produzir o reforço habitual.
Com orientação adequada, a mãe foi treinada para manter consistência. Quando Luiza gritava ou puxava de forma intensa, a mãe evitava oferecer a atenção que antes mantinha o comportamento, desde que não houvesse risco físico. Porém, quando Luiza tocava levemente, chamava ou aceitava ajuda para fazer o pedido adequado, a mãe respondia imediatamente com atenção breve, clara e afetiva.
A equipe também orientou a mãe a oferecer atenção preventiva em momentos programados, para reduzir a privação de atenção. Assim, a intervenção não se baseou em ignorar a criança, mas em reorganizar a forma como a atenção era acessada. Luiza passou a receber mais atenção por comportamentos adequados e menos atenção por gritos e puxões.
Após o período crítico, houve redução progressiva dos comportamentos inadequados e aumento do comportamento funcional. Luiza passou a buscar atenção de forma mais organizada, e a relação mãe-filha tornou-se mais previsível e menos reativa.
Esse caso evidencia que a extinção não atua isoladamente. Ela precisa estar associada ao ensino de novas habilidades, ao reforçamento diferencial e ao suporte emocional da família. Quando bem aplicada, não se trata de negar atenção à criança, mas de ensinar formas mais adequadas de acessá-la.
Tabela 4 – Análise do estudo de caso de Luiza
| Situação Observada | Análise Funcional | Estratégia Utilizada | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Luiza gritava para chamar a mãe. | Comportamento mantido por atenção. | Extinção para o grito e reforço para pedido adequado. | Redução dos gritos e aumento da comunicação funcional. |
| A mãe respondia imediatamente ao grito. | A atenção reforçava o comportamento inadequado. | Treinamento parental e orientação de consistência. | Mudança nas contingências familiares. |
| Luiza intensificou o comportamento no início. | Explosão de extinção. | Apoio à mãe, segurança e manutenção do plano. | Redução gradual após o período crítico. |
| Luiza não sabia pedir atenção de modo adequado. | Déficit de comunicação funcional. | Ensino de tocar levemente ou chamar pelo nome. | Acesso à atenção por uma resposta adaptativa. |
Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Lerman e Iwata (1995), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016) e Lopes (2025).
Questões reflexivas
- Durante a aplicação de extinção, o comportamento da criança aumenta em intensidade. Como esse fenômeno deve ser interpretado?
- Por que a extinção não deve ser utilizada de forma isolada?
- Quais são os riscos de interromper a extinção durante a explosão?
- Em que situações a extinção deve ser aplicada com cautela?
- Qual é o papel do ensino de comunicação funcional na extinção?
Gabarito comentado
Na primeira questão, o aluno deve explicar que o aumento do comportamento pode caracterizar a explosão de extinção. Esse fenômeno ocorre quando o comportamento deixa de produzir o reforço anterior e a criança intensifica a resposta na tentativa de recuperar esse reforço. Clinicamente, esse momento exige preparo, segurança e consistência.
Na segunda questão, espera-se que o aluno compreenda que a extinção não ensina, por si só, o que a criança deve fazer no lugar. Se for aplicada sem ensino de resposta alternativa, pode gerar frustração, variabilidade comportamental e surgimento de novos comportamentos problema. Por isso, deve ser combinada com reforçamento diferencial e comunicação funcional.
Na terceira questão, o aluno deve explicar que interromper a extinção durante a explosão pode reforçar comportamentos mais intensos. Se a criança só obtém o reforço depois de gritar mais alto ou chorar por mais tempo, essas formas intensificadas podem se tornar mais prováveis e mais resistentes no futuro.
Na quarta questão, espera-se que o aluno destaque que a extinção deve ser aplicada com cautela em comportamentos que envolvem risco físico, como autoagressão, agressão a outros ou fuga perigosa. Também exige cautela quando a família não tem suporte suficiente para manter consistência. Nesses casos, é necessário planejar segurança, alternativas funcionais e estratégias preventivas.
Na quinta questão, o aluno deve explicar que a comunicação funcional é essencial porque oferece à criança uma forma adequada de acessar a mesma consequência que o comportamento inadequado produzia. Se a criança gritava para obter atenção, deve aprender a chamar, tocar levemente ou pedir. Assim, a extinção deixa de ser apenas retirada de reforço e passa a integrar um processo de ensino.
Encerramento da aula
Nesta aula, compreendemos que a extinção é um procedimento potente, mas que exige conhecimento técnico, planejamento, consistência e cuidado ético. Vimos que a explosão de extinção é um fenômeno esperado e que o sucesso da intervenção depende da manutenção da estratégia mesmo diante do aumento inicial do comportamento.
Também aprendemos que extinção não significa ignorar a criança, mas retirar o reforço que mantinha um comportamento específico. Ao mesmo tempo, é indispensável ensinar uma resposta alternativa, reforçar comportamentos adequados e garantir segurança emocional e física durante todo o processo.
Na próxima aula, avançaremos para o estudo da modelagem de comportamentos, compreendendo como construir novas habilidades por meio de aproximações sucessivas.
Referências Bibliográficas
Carr, E. G.; Durand, V. M. Reducing behavior problems through functional communication training. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 18, n. 2, p. 111-126, 1985. DOI: 10.1901/jaba.1985.18-111. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1985.18-111. Acesso em: 15 jun. 2026.
Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Hanley, G. P. Functional assessment of problem behavior: dispelling myths, overcoming implementation obstacles, and developing new lore. Behavior Analysis in Practice, v. 5, n. 1, p. 54-72, 2012. DOI: 10.1007/BF03391818. Disponível em: https://doi.org/10.1007/BF03391818. Acesso em: 15 jun. 2026.
Lerman, D. C.; Iwata, B. A. Prevalence of the extinction burst and its attenuation during treatment. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 28, n. 1, p. 93-94, 1995. DOI: 10.1901/jaba.1995.28-93. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1995.28-93. Acesso em: 15 jun. 2026.
Miltenberger, R. G. Behavior modification: principles and procedures. 6. ed. Boston: Cengage Learning, 2016. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.cengage.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Skinner, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.bfskinner.org. Acesso em: 15 jun. 2026.
