Conteúdo do curso
Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 9 – Estratégias de Generalização

Olá, alunos. Na aula de hoje, vamos trabalhar um dos aspectos mais importantes e, ao mesmo tempo, mais negligenciados da intervenção em ABA: a generalização de comportamentos.

Até aqui, aprendemos a ensinar habilidades, reduzir comportamentos interferentes e estruturar sequências comportamentais. No entanto, uma pergunta fundamental precisa ser feita: de que adianta uma criança aprender uma habilidade na clínica se ela não consegue utilizá-la na escola, em casa ou em outros contextos?

A generalização é o que transforma aprendizagem em funcionalidade real. Sem ela, o comportamento permanece restrito ao ambiente de ensino, perdendo grande parte do seu valor prático.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

Generalizar significa usar uma habilidade aprendida em diferentes ambientes, com diferentes pessoas, materiais e situações. Na prática clínica, a aprendizagem só se torna funcional quando aparece fora do contexto em que foi ensinada.

Fonte: Adaptado de Stokes e Baer (1977), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

O que é generalização?

Generalização é a capacidade de um comportamento aprendido ocorrer em diferentes contextos, com diferentes pessoas, estímulos e situações. Isso inclui manter o comportamento ao longo do tempo, transferi-lo para novos ambientes e utilizá-lo de forma flexível.

Por exemplo, uma criança que aprende a pedir água na clínica deve ser capaz de fazer o mesmo pedido em casa, na escola ou em qualquer outro ambiente, sem depender das mesmas condições exatas de ensino. Se ela só pede água diante do terapeuta, com o mesmo copo e dentro da sala clínica, a habilidade ainda está restrita.

Na ABA, a generalização não deve ser tratada como algo que acontece espontaneamente. Ela precisa ser planejada desde o início da intervenção, pois muitas crianças com TEA aprendem de forma muito dependente do contexto, dos materiais e das pessoas envolvidas.

Tabela 1 – Tipos de generalização

Tipo Descrição Exemplo Importância Clínica
Generalização de estímulo A resposta ocorre diante de estímulos diferentes. Pedir água em diferentes copos, garrafas ou ambientes. Evita que a criança dependa de um único material ou situação.
Generalização de resposta A criança utiliza variações funcionais do mesmo comportamento. Dizer “água”, apontar ou entregar uma figura. Aumenta flexibilidade comunicativa.
Generalização de ambiente A habilidade aparece em diferentes locais. Pedir ajuda na clínica, em casa e na escola. Transforma a aprendizagem em funcionalidade real.
Manutenção O comportamento continua ocorrendo ao longo do tempo. Continuar pedindo ajuda semanas após o ensino inicial. Garante estabilidade da aprendizagem.

Fonte: Adaptado de Stokes e Baer (1977), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

Por que a generalização não acontece automaticamente?

Um dos maiores equívocos na prática é acreditar que, após aprender uma habilidade, a criança automaticamente irá utilizá-la em outros contextos. Isso raramente acontece, especialmente quando o ensino foi realizado de forma muito restrita.

A aprendizagem é altamente dependente das condições em que foi ensinada. Se o comportamento foi reforçado apenas em um ambiente específico, com estímulos específicos e com uma pessoa específica, ele tende a permanecer restrito a essas condições.

Por isso, a generalização precisa ser planejada desde o início da intervenção, e não apenas depois que a criança “aprendeu” a habilidade. O profissional deve variar materiais, pessoas, ambientes, instruções e formas de reforçamento, para que o comportamento fique sob controle de múltiplas condições.

Caixa explicativa 2 – Generalização não é consequência automática

A criança pode aprender uma habilidade em sessão e ainda assim não usá-la em casa ou na escola. Isso não significa que ela “não quer” ou “regrediu”. Muitas vezes, significa que a habilidade ficou presa ao contexto de ensino e precisa ser ensinada em novas condições.

Fonte: Adaptado de Stokes e Baer (1977), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

Tabela 2 – Fatores que dificultam a generalização

Fator Impacto Exemplo Ajuste Necessário
Ambiente único Restrição do comportamento ao local de ensino. A criança só pede ajuda na clínica. Treinar a habilidade em casa, escola e comunidade.
Pessoa única Dependência do terapeuta ou professor específico. A criança responde apenas para uma profissional. Incluir familiares, professores e mediadores no treino.
Material único Resposta ocorre apenas diante de um estímulo específico. A criança nomeia apenas uma figura de copo. Variar objetos, imagens, cores, tamanhos e formatos.
Reforço artificial Dificuldade de manutenção no cotidiano. Só responde quando recebe ficha ou prêmio. Migrar gradualmente para reforçadores naturais.

Fonte: Adaptado de Stokes e Baer (1977), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

Estratégias para promover generalização

A generalização deve ser ensinada de forma planejada. Uma das estratégias mais importantes é variar os estímulos desde o início. Se a criança está aprendendo a pedir água, por exemplo, o ensino deve envolver diferentes copos, garrafas, ambientes e pessoas.

Outra estratégia é envolver diferentes mediadores. A criança precisa aprender que uma habilidade pode ser utilizada com o terapeuta, com a professora, com os pais, com avós e com outras pessoas relevantes. Quando apenas um adulto controla a resposta, a habilidade fica restrita.

Também é necessário aproximar o reforço das consequências naturais. No início, reforçadores artificiais podem ser úteis. No entanto, com o avanço da intervenção, o comportamento deve ser mantido por consequências do próprio ambiente, como conseguir ajuda, participar de uma atividade, resolver uma dificuldade ou ser compreendido.

Caixa explicativa 3 – Planejar generalização é planejar vida real

Toda habilidade ensinada deve responder a uma pergunta prática: onde essa criança precisa usar isso? Se a resposta for “em casa”, “na escola” ou “na comunidade”, esses contextos precisam entrar no plano de intervenção.

Fonte: Adaptado de Stokes e Baer (1977), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

Tabela 3 – Estratégias práticas para generalização

Estratégia Como Aplicar Objetivo
Variar estímulos Usar diferentes materiais, objetos, figuras e exemplos. Evitar dependência de um único estímulo.
Variar pessoas Treinar a habilidade com terapeuta, pais, professores e cuidadores. Ampliar o controle social da resposta.
Variar ambientes Aplicar o ensino na clínica, casa, escola e comunidade. Aumentar funcionalidade do comportamento.
Usar reforçadores naturais Fazer com que a própria consequência da habilidade mantenha o comportamento. Favorecer manutenção ao longo do tempo.
Treinar em situações reais Criar oportunidades dentro da rotina cotidiana. Aproximar ensino e vida prática.

Fonte: Adaptado de Stokes e Baer (1977), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

Estudo de caso clínico-pedagógico

Miguel, 6 anos, diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista nível 1 de suporte, havia desenvolvido, em contexto clínico, a habilidade de solicitar ajuda verbalmente ao enfrentar dificuldades em tarefas. Durante as sessões terapêuticas, Miguel utilizava a expressão “me ajuda” de forma consistente, adequada ao contexto e com boa latência de resposta, demonstrando aquisição do comportamento-alvo.

No entanto, ao ser observado no ambiente escolar, constatou-se uma discrepância significativa. Diante de dificuldades em atividades acadêmicas, Miguel não utilizava a habilidade previamente adquirida. Em vez disso, permanecia em silêncio, abandonava a tarefa ou apresentava comportamentos de esquiva, como desviar o olhar, levantar-se da cadeira ou evitar iniciar a atividade.

A professora relatava que Miguel “não pedia ajuda”, interpretando esse comportamento como falta de iniciativa ou desinteresse. No entanto, a análise funcional indicou que o comportamento de solicitar ajuda estava sob controle de estímulos específicos da clínica, como a presença do terapeuta, o formato estruturado das atividades e o padrão de reforçamento utilizado naquele contexto.

Ou seja, embora a habilidade estivesse adquirida, ela não havia sido generalizada. Miguel havia aprendido onde e com quem emitir o comportamento, mas não quando e em quais condições ele era funcional.

Diante disso, a intervenção foi reorganizada com foco explícito na generalização. Inicialmente, houve articulação entre clínica e escola, com orientação direta à professora para reconhecer, evocar e reforçar o comportamento de solicitar ajuda.

Foram introduzidas oportunidades naturais dentro da sala de aula, nas quais Miguel poderia experimentar dificuldades controladas e, a partir disso, ser estimulado a utilizar a comunicação funcional. Diferentes tipos de tarefas foram incluídos, com variação de nível de exigência, reduzindo o controle restrito de estímulos.

Além disso, o comportamento foi treinado com diferentes pessoas, incluindo outros professores e mediadores, ampliando o repertório social associado à resposta. O reforçamento também foi progressivamente ajustado, migrando de contingências artificiais para reforçadores naturais, como resolução da tarefa e feedback positivo contextual.

Com o tempo, Miguel passou a emitir o comportamento de solicitar ajuda de forma mais espontânea e funcional no ambiente escolar. Observou-se redução dos comportamentos de esquiva, aumento da permanência nas atividades e maior participação acadêmica.

Esse caso evidencia um princípio central da ABA: a aprendizagem não se define apenas pela aquisição do comportamento, mas pela sua capacidade de ocorrer em diferentes contextos, sob controle de múltiplos estímulos. A generalização, portanto, não é um efeito colateral da intervenção, mas um objetivo que precisa ser planejado desde o início.

Tabela 4 – Análise do estudo de caso de Miguel

Situação Observada Análise Clínica Estratégia Utilizada Resultado Esperado
Miguel pedia ajuda na clínica. Habilidade adquirida em contexto específico. Manutenção do treino e ampliação de contextos. Preservar a habilidade já aprendida.
Miguel não pedia ajuda na escola. Ausência de generalização para ambiente natural. Treino na sala de aula com orientação da professora. Uso funcional da habilidade no cotidiano escolar.
Abandonava tarefas difíceis. Esquiva diante de demanda sem solicitação de ajuda. Criar dificuldades controladas e reforçar pedido adequado. Reduzir esquiva e aumentar permanência na tarefa.
Respondia melhor ao terapeuta. Controle restrito por pessoa específica. Treino com diferentes professores e mediadores. Ampliar uso da habilidade com diferentes pessoas.

Fonte: Adaptado de Stokes e Baer (1977), Cooper, Heron e Heward (2020), Miltenberger (2016), Martin e Pear (2019) e Lopes (2025).

Questões reflexivas

  1. Por que uma habilidade aprendida na clínica pode não aparecer em outros ambientes?
  2. Qual é o papel do ambiente no controle e na generalização do comportamento?
  3. Por que o uso exclusivo de reforçadores artificiais pode comprometer a generalização?
  4. Como o profissional pode promover generalização de forma planejada e sistemática?
  5. Por que a generalização é considerada um dos principais objetivos da intervenção em ABA?

Gabarito comentado

Na primeira questão, o aluno deve explicar que uma habilidade aprendida na clínica pode não aparecer em outros ambientes porque o comportamento pode estar sob controle restrito de estímulos específicos daquele contexto, como o terapeuta, o tipo de tarefa, o ambiente físico ou o padrão de reforçamento. Clinicamente, isso exige planejamento ativo de generalização, com variação de contextos, pessoas e situações.

Na segunda questão, espera-se que o aluno compreenda que o ambiente exerce papel central no controle do comportamento, funcionando como conjunto de estímulos discriminativos que sinalizam quando uma resposta deve ocorrer. Para que haja generalização, é necessário ampliar esse controle, variando ambientes, pessoas, tarefas, materiais e contingências.

Na terceira questão, o aluno deve explicar que o uso exclusivo de reforçadores artificiais pode comprometer a generalização porque esses estímulos nem sempre estão disponíveis nos ambientes naturais da criança. Por isso, é essencial realizar transição gradual para reforçadores naturais, como resolver uma tarefa, ser compreendido, participar de uma atividade ou receber feedback social contextual.

Na quarta questão, espera-se que o aluno descreva estratégias como variação de estímulos, mudança de ambientes, inclusão de diferentes pessoas, uso de múltiplos contextos de ensino e criação de oportunidades naturais para emissão do comportamento. A generalização exige articulação entre clínica, família, escola e demais contextos relevantes.

Na quinta questão, o aluno deve afirmar que a generalização é um dos principais objetivos da ABA porque garante que o comportamento aprendido seja funcional, útil e aplicável no cotidiano da criança. Sem generalização, a aprendizagem permanece artificial, limitada e restrita a um ambiente específico.

Encerramento da aula

Nesta aula, compreendemos que a generalização é o que transforma o aprendizado em funcionalidade real. Ela exige planejamento, variação de estímulos, integração entre ambientes e participação ativa dos adultos que convivem com a criança.

Também vimos que uma habilidade não deve ser considerada plenamente adquirida apenas porque aparece na clínica. É necessário observar se ela ocorre em casa, na escola, com diferentes pessoas e em situações naturais. A generalização é, portanto, um dos principais indicadores de eficácia da intervenção.

Na próxima aula, encerraremos o módulo com o treino parental, abordando o papel da família na manutenção e expansão dos comportamentos aprendidos.

Referências Bibliográficas

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Martin, G.; Pear, J. Behavior modification: what it is and how to do it. 11. ed. New York: Routledge, 2019. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.routledge.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Miltenberger, R. G. Behavior modification: principles and procedures. 6. ed. Boston: Cengage Learning, 2016. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.cengage.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Stokes, T. F.; Baer, D. M. An implicit technology of generalization. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 10, n. 2, p. 349-367, 1977. DOI: 10.1901/jaba.1977.10-349. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1977.10-349. Acesso em: 15 jun. 2026.