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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 8 – Ética Profissional em ABA

A ética profissional ocupa posição central na prática da Análise do Comportamento Aplicada. O trabalho desenvolvido em ABA envolve intervenções diretas sobre o comportamento humano, planejamento de contingências ambientais, ensino de habilidades e manejo de situações que frequentemente impactam profundamente a vida do cliente e de sua família. Por esse motivo, a atuação do profissional exige não apenas competência técnica, mas também responsabilidade ética contínua.

O principal documento internacional que orienta a ética profissional em ABA é o Ethics Code for Behavior Analysts, publicado pelo Behavior Analyst Certification Board. Esse código estabelece princípios, responsabilidades e diretrizes éticas relacionadas à prática clínica, supervisão, pesquisa, relação com clientes, documentação, confidencialidade, competência profissional e responsabilidade social.

O código de ética em ABA não deve ser compreendido apenas como um conjunto de regras punitivas. Seu objetivo principal é proteger os clientes, orientar a tomada de decisão profissional e promover práticas seguras, responsáveis e cientificamente fundamentadas.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

A ética profissional em ABA é o compromisso permanente de atuar com ciência, responsabilidade, respeito à dignidade humana, proteção do cliente, competência técnica, confidencialidade, consentimento informado e validade social das intervenções.

Fonte: Adaptado de Behavior Analyst Certification Board (2022), Cooper, Heron e Heward (2020), Wolf (1978) e Baer, Wolf e Risley (1968).

Responsabilidade primária com o cliente

Segundo o Behavior Analyst Certification Board (2022), os analistas do comportamento possuem responsabilidade primária com o bem-estar do cliente. Isso significa que toda intervenção deve priorizar proteção da dignidade, segurança, autonomia e qualidade de vida da pessoa atendida.

Essa responsabilidade exige que o profissional avalie continuamente se a intervenção está produzindo benefícios reais. Uma prática não pode ser mantida apenas porque faz parte de um protocolo, porque agrada à instituição ou porque atende à expectativa imediata da família. A pergunta ética central deve ser: esta intervenção melhora, de fato, a vida da pessoa atendida?

No contexto do autismo, essa reflexão é ainda mais importante. Muitas crianças, adolescentes e adultos autistas recebem intervenções intensivas, realizadas em diferentes ambientes e com grande participação de equipe. Quanto maior a intensidade da intervenção, maior deve ser o cuidado ético com seus objetivos, procedimentos e efeitos sobre a vida do cliente.

Tabela 1 – Princípios éticos fundamentais na ABA

Princípio ético Descrição Aplicação prática Risco quando ignorado
Beneficência Promover intervenções que favoreçam desenvolvimento e qualidade de vida. Ensinar comunicação funcional, autonomia e habilidades sociais úteis. Manter procedimentos sem benefício real.
Não maleficência Evitar danos físicos, emocionais e sociais ao cliente. Revisar intervenções que produzem medo, esquiva ou sofrimento intenso. Produzir trauma, resistência ou piora comportamental.
Competência profissional Atuar apenas dentro dos limites da formação e experiência profissional. Buscar supervisão diante de casos complexos ou de alto risco. Assumir casos sem preparo técnico.
Confidencialidade Proteger informações clínicas e dados pessoais do cliente. Guardar relatórios, vídeos e registros em local seguro. Exposição indevida da pessoa atendida.
Consentimento informado Garantir compreensão e autorização adequada da intervenção. Explicar objetivos, riscos, benefícios e procedimentos à família. Aplicar procedimentos sem autorização consciente.
Validade social Trabalhar objetivos funcionalmente relevantes para o cliente. Escolher metas que aumentem participação, autonomia e bem-estar. Ensinar habilidades sem sentido para a vida real.
Responsabilidade científica Utilizar práticas sustentadas por evidências científicas. Basear intervenções em literatura, dados e análise funcional. Usar práticas sem eficácia comprovada.

Fonte: Adaptado de Behavior Analyst Certification Board (2022), Wolf (1978), Cooper, Heron e Heward (2020), Baer, Wolf e Risley (1968) e Van Houten et al. (1988).

Prática baseada em evidências científicas

Um dos princípios fundamentais do código de ética refere-se à atuação baseada em evidências científicas. O profissional deve utilizar procedimentos sustentados pela literatura científica e evitar práticas sem validação adequada. A ética profissional em ABA está diretamente relacionada ao compromisso com a ciência e com a avaliação contínua dos resultados produzidos pelas intervenções.

Na ABA, evidência científica não significa apenas citar estudos. Significa aplicar procedimentos fundamentados, coletar dados, analisar o progresso, revisar estratégias e tomar decisões com base no comportamento observado. O profissional ético não insiste em uma intervenção que não apresenta resultados, mesmo que ela seja conhecida ou tradicional.

A prática baseada em evidências exige integração entre melhor pesquisa disponível, competência profissional e características individuais do cliente. Assim, o profissional não aplica protocolos de maneira mecânica, mas adapta procedimentos às necessidades reais da pessoa atendida.

Caixa explicativa 2 – Evidência científica também é ética

Usar práticas sem evidência pode gerar perda de tempo terapêutico, frustração familiar, ausência de progresso e exposição do cliente a riscos desnecessários. Em ABA, ciência e ética caminham juntas.

Fonte: Adaptado de Baer, Wolf e Risley (1968), Slocum et al. (2014), Cooper, Heron e Heward (2020) e Behavior Analyst Certification Board (2022).

Tabela 2 – Prática ética baseada em evidências

Elemento Descrição Exemplo em ABA Cuidado ético
Melhor evidência disponível Uso de procedimentos sustentados por pesquisas confiáveis. Treino de comunicação funcional, reforçamento diferencial e análise funcional. Evitar modismos sem validação científica.
Dados do cliente Registro contínuo do progresso e dos efeitos da intervenção. Medir frequência, duração, independência ou generalização. Não decidir apenas por impressão subjetiva.
Competência profissional Capacidade de aplicar, monitorar e revisar procedimentos. Buscar supervisão ao trabalhar com autolesão severa. Não atuar fora da formação.
Individualização Adaptação da intervenção ao repertório, contexto e necessidades do cliente. Escolher forma de comunicação compatível com a criança. Evitar plano padronizado para todos.
Revisão contínua Mudança do plano quando dados indicam ausência de progresso. Alterar estratégia após semanas sem evolução mensurável. Não manter intervenção ineficaz por hábito.

Fonte: Adaptado de Slocum et al. (2014), Cooper, Heron e Heward (2020), Baer, Wolf e Risley (1968), Behavior Analyst Certification Board (2022) e Van Houten et al. (1988).

Honestidade, integridade e relação profissional

Outro princípio importante envolve honestidade e integridade profissional. O analista do comportamento não deve prometer curas, resultados irreais ou mudanças incompatíveis com as possibilidades clínicas do cliente. Informações sobre objetivos terapêuticos, limites da intervenção, riscos e benefícios devem ser apresentadas de maneira transparente.

A relação profissional com clientes e familiares também é amplamente discutida no código de ética. O profissional deve manter relações estritamente profissionais, evitando envolvimento pessoal inadequado, exploração financeira, relações duplas ou qualquer situação que possa comprometer objetividade clínica e segurança do cliente.

As relações duplas ocorrem quando o profissional estabelece simultaneamente vínculo terapêutico e outro tipo de relação pessoal, afetiva, comercial ou familiar com o cliente. Essas situações podem prejudicar tomada de decisão ética e gerar conflitos de interesse.

Tabela 3 – Honestidade profissional e conflitos de interesse

Situação Risco ético Conduta recomendada Princípio protegido
Prometer cura do autismo Criar expectativa falsa e explorar vulnerabilidade familiar. Explicar objetivos funcionais e limites da intervenção. Honestidade e responsabilidade científica.
Prometer resultados rápidos Desconsiderar variabilidade do desenvolvimento. Apresentar metas mensuráveis e realistas. Transparência e validade social.
Atender familiar ou amigo íntimo Comprometer objetividade clínica. Avaliar conflito de interesse e encaminhar quando necessário. Limites profissionais.
Vender produto próprio como indispensável Exploração financeira e conflito comercial. Separar interesse clínico de interesse financeiro. Integridade profissional.
Divulgar caso como propaganda Exposição do cliente e autopromoção inadequada. Preservar sigilo e evitar exploração da imagem. Dignidade e confidencialidade.

Fonte: Adaptado de Behavior Analyst Certification Board (2022), Graber (2024), Wolf (1978), Cooper, Heron e Heward (2020) e Rosales-Ruiz e Baer (1997).

Confidencialidade e consentimento informado

A confidencialidade constitui outro elemento essencial da ética profissional em ABA. O profissional possui dever ético de proteger informações clínicas, registros comportamentais, relatórios, vídeos e dados pessoais obtidos durante o atendimento. O compartilhamento dessas informações somente deve ocorrer mediante autorização adequada ou em situações previstas legalmente.

Outro aspecto importante refere-se ao consentimento informado. O cliente ou responsável legal deve compreender claramente objetivos, procedimentos, riscos, benefícios e limites da intervenção antes do início do atendimento. O consentimento deve ser contínuo e atualizado sempre que ocorrerem mudanças significativas no plano terapêutico.

No atendimento de pessoas com TEA, sempre que possível, também deve ser considerado o assentimento do próprio cliente. Isso significa observar sinais de conforto, recusa, preferência, aproximação ou sofrimento. A autorização da família é indispensável, mas a experiência da pessoa atendida também deve orientar a intervenção.

Caixa explicativa 3 – Consentimento não é apenas assinatura

Consentimento informado é um processo contínuo de comunicação ética. A família precisa compreender o que será feito, por que será feito, quais riscos existem, quais benefícios são esperados e quando o plano será revisado.

Fonte: Adaptado de Graber (2024), Behavior Analyst Certification Board (2022), American Psychological Association (2006) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Tabela 4 – Confidencialidade, consentimento e proteção do cliente

Elemento ético Conduta adequada Exemplo prático Risco a evitar
Confidencialidade Proteger dados pessoais, clínicos e familiares. Guardar relatórios em sistema seguro. Expor informações em conversas informais.
Uso de imagem Solicitar autorização específica para cada finalidade. Diferenciar filmagem para supervisão de divulgação pública. Usar vídeo clínico como marketing.
Consentimento informado Explicar objetivos, procedimentos, riscos e benefícios. Reunião com família antes de iniciar plano de intervenção. Aplicar procedimento sem compreensão da família.
Assentimento Observar participação, conforto e sinais de recusa do cliente. Rever procedimento quando a criança demonstra sofrimento persistente. Ignorar sinais de desconforto.
Compartilhamento de informações Enviar dados apenas a pessoas autorizadas e quando necessário. Compartilhar relatório com escola somente mediante autorização. Circular informações em grupos não autorizados.

Fonte: Adaptado de Behavior Analyst Certification Board (2022), Graber (2024), American Psychological Association (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Sampaio (2014).

Competência profissional e supervisão

O código de ética também enfatiza a importância da competência profissional. O analista do comportamento deve atuar apenas dentro dos limites de sua formação, experiência e treinamento. Quando o caso exige conhecimentos especializados além da própria competência, torna-se necessário buscar supervisão, capacitação adicional ou encaminhamento para outro profissional.

A formação continuada faz parte da responsabilidade ética em ABA. Como a ciência do comportamento está em constante atualização, o profissional precisa manter-se atualizado sobre novas pesquisas, procedimentos, tecnologias e recomendações científicas.

O código do BACB também discute responsabilidade na supervisão profissional. Supervisores possuem obrigação ética de orientar adequadamente profissionais em formação, fornecer feedback técnico, garantir qualidade dos atendimentos e monitorar práticas realizadas pelos supervisionados.

Tabela 5 – Competência profissional em ABA

Situação Conduta ética Exemplo Risco se ignorada
Caso fora da experiência Buscar supervisão ou encaminhar. Autolesão grave com risco físico intenso. Dano ao cliente e à equipe.
Nova técnica ou protocolo Estudar, treinar e receber feedback antes de aplicar. Aplicar avaliação funcional complexa apenas após formação adequada. Uso incorreto de procedimentos.
Supervisão de aplicadores Monitorar desempenho e oferecer orientação contínua. Observar sessão, revisar dados e corrigir aplicação. Baixa qualidade e inconsistência clínica.
Mudanças científicas Atualizar-se continuamente. Ler revisões, diretrizes e pesquisas recentes. Manter práticas ultrapassadas.
Limites profissionais Reconhecer quando outro profissional é necessário. Encaminhar para avaliação médica, fonoaudiológica ou psicológica quando indicado. Assumir funções de outras áreas sem competência.

Fonte: Adaptado de Behavior Analyst Certification Board (2022), Cooper, Heron e Heward (2020), Deochand, Eldridge e Peterson (2020), Taylor et al. (2023) e Van Houten et al. (1988).

Dados, documentação e responsabilidade científica

Na prática em ABA, os dados comportamentais ocupam papel fundamental no processo terapêutico. Por isso, o profissional possui responsabilidade ética de registrar informações de maneira objetiva, precisa e organizada. Alteração inadequada de dados, omissão de informações ou manipulação de resultados configuram violações éticas graves.

Os dados são a base da tomada de decisão. Eles permitem verificar se uma intervenção está funcionando, se precisa ser modificada ou se deve ser interrompida. Sem dados, o profissional corre o risco de manter práticas ineficazes apenas por impressão subjetiva.

A documentação também protege o cliente, a família, a equipe e o próprio profissional. Relatórios, gráficos, registros de sessão, consentimentos, autorizações e decisões clínicas precisam ser organizados de forma clara e ética.

Tabela 6 – Responsabilidade ética com dados em ABA

Prática Conduta adequada Violação ética Consequência possível
Coleta de dados Registrar comportamento de forma objetiva e consistente. Preencher dados de memória sem observar. Decisão clínica equivocada.
Análise de progresso Revisar gráficos e tendências regularmente. Manter programa sem evolução por longos períodos. Perda de tempo terapêutico.
Relatórios Descrever dados reais, limites e evolução observada. Exagerar resultados para agradar família ou convênio. Falsa interpretação do caso.
Prontuários Armazenar registros de forma segura. Deixar documentos expostos ou desorganizados. Violação de confidencialidade.
Tomada de decisão Modificar intervenção com base nos dados. Ignorar dados que mostram piora. Aumento de risco e sofrimento.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Behavior Analyst Certification Board (2022), Baer, Wolf e Risley (1968), Slocum et al. (2014) e Wolf (1978).

Validade social, neurodiversidade e respeito à singularidade

Outro ponto amplamente discutido envolve a validade social das intervenções. Segundo Wolf (1978), os objetivos terapêuticos precisam possuir relevância funcional e social para o cliente. Isso significa que a intervenção deve promover ganhos reais relacionados à autonomia, comunicação, participação social e qualidade de vida.

No contexto do autismo, essa discussão tornou-se ainda mais importante nos últimos anos. O profissional ético deve refletir criticamente sobre objetivos terapêuticos, evitando intervenções que busquem apenas padronização excessiva do comportamento sem benefício funcional claro para o indivíduo.

A ética profissional também envolve respeito à diversidade, singularidade e neurodiversidade. Pessoas com TEA possuem diferentes formas de comunicação, interação social e processamento sensorial. A prática ética exige respeito às características individuais e construção de objetivos compatíveis com necessidades reais da pessoa atendida.

Caixa explicativa 4 – Nem toda diferença precisa ser eliminada

A intervenção ética em ABA não busca apagar a singularidade da pessoa autista. O foco deve estar em reduzir sofrimento, ensinar habilidades úteis, ampliar comunicação, favorecer autonomia e melhorar qualidade de vida.

Fonte: Adaptado de Wolf (1978), Sidman (2009), Van Houten et al. (1988), Behavior Analyst Certification Board (2022) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Tabela 7 – Validade social na ética profissional em ABA

Pergunta ética Meta adequada Meta problemática Justificativa ética
A meta melhora a vida do cliente? Ensinar comunicação funcional. Eliminar comportamento apenas por aparência social. A meta deve produzir benefício funcional.
A meta reduz sofrimento? Ensinar pedir pausa diante de sobrecarga. Forçar tolerância sem adaptação gradual. Intervenção não deve gerar sofrimento desnecessário.
A meta amplia autonomia? Ensinar autocuidado e segurança. Criar dependência excessiva de comandos. Autonomia é indicador de qualidade de vida.
A meta respeita a pessoa? Adaptar comunicação e ambiente sensorial. Exigir aparência de normalidade. Diferença não deve ser tratada como falha moral.
A meta foi discutida com família e cliente? Definir objetivos com participação dos envolvidos. Impor plano sem escuta. Validade social exige diálogo.

Fonte: Adaptado de Wolf (1978), Cooper, Heron e Heward (2020), Behavior Analyst Certification Board (2022), Sidman (2009) e Van Houten et al. (1988).

Responsabilidade social e combate à desinformação

Outro aspecto relevante do código de ética refere-se à responsabilidade social do profissional. Analistas do comportamento devem contribuir para promoção de práticas baseadas em evidências, combate à desinformação científica e desenvolvimento de serviços éticos e acessíveis para a população.

Rosales-Ruiz e Baer (1997) discutem a responsabilidade social da análise do comportamento, destacando que a ciência comportamental deve produzir contribuições relevantes para problemas humanos reais. Em ABA, isso significa que o conhecimento técnico precisa ser colocado a serviço do desenvolvimento, da inclusão, da autonomia e da qualidade de vida.

As violações éticas podem gerar consequências graves para clientes, famílias e profissionais. Exposição inadequada de imagens, promessas irreais, práticas coercitivas excessivas, atuação sem competência técnica, negligência clínica e manipulação de dados representam exemplos de comportamentos incompatíveis com a ética profissional em ABA.

Tabela 8 – Violações éticas frequentes e condutas preventivas

Violação ética Possível consequência Conduta preventiva Princípio protegido
Exposição de imagem do cliente Constrangimento, perda de privacidade e violação de sigilo. Autorização específica e avaliação de necessidade. Confidencialidade e dignidade.
Promessa de cura Falsa expectativa e exploração da vulnerabilidade familiar. Comunicação honesta e metas realistas. Integridade profissional.
Práticas coercitivas excessivas Medo, esquiva, sofrimento e ruptura de vínculo. Priorizar reforçamento positivo e estratégias preventivas. Não maleficência.
Atuação fora da competência Risco clínico e prejuízo ao cliente. Supervisão, formação ou encaminhamento. Competência profissional.
Manipulação de dados Decisões falsas e perda de confiabilidade clínica. Registro objetivo, auditoria e supervisão. Responsabilidade científica.

Fonte: Adaptado de Behavior Analyst Certification Board (2022), Cooper, Heron e Heward (2020), Rosales-Ruiz e Baer (1997), Sidman (2009) e Wolf (1978).

Estudo de caso

Laura, 6 anos, possui diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista e iniciou intervenção em ABA em uma clínica recém-inaugurada. A família recebeu a promessa de que, em seis meses, Laura estaria sem comportamentos autísticos e pronta para acompanhar a escola sem suporte. A clínica divulgava vídeos de outras crianças nas redes sociais, afirmando resultados rápidos e garantidos.

Durante o atendimento, a equipe passou a registrar poucos dados e a relatar verbalmente que Laura estava evoluindo muito. A mãe, entretanto, percebia que a criança chorava antes das sessões, apresentava resistência para entrar na clínica e não demonstrava generalização das habilidades em casa. Ao solicitar os dados, recebeu gráficos incompletos e sem critérios claros.

Uma supervisora externa foi chamada para avaliar o caso e identificou problemas éticos relacionados à promessa de resultados irreais, baixa qualidade dos registros, ausência de consentimento suficientemente claro, risco de exposição indevida de imagens e possível baixa validade social das metas.

Tabela 9 – Análise ética do estudo de caso

Situação observada Problema ético Conduta adequada Princípio envolvido
Promessa de resultados em seis meses Expectativa irreal e possível exploração da família. Apresentar metas individualizadas, mensuráveis e realistas. Honestidade profissional.
Divulgação de vídeos de crianças Risco de exposição e uso promocional da imagem. Evitar exposição clínica e exigir autorização específica. Confidencialidade e dignidade.
Poucos dados registrados Decisão clínica sem base objetiva. Coletar dados consistentes e revisar gráficos. Responsabilidade científica.
Choro e esquiva antes das sessões Sinal de sofrimento ou baixa aceitabilidade. Reavaliar procedimentos, assentimento e condições de ensino. Não maleficência.
Ausência de generalização Meta pode não estar funcional para a vida real. Planejar generalização e envolver família e escola. Validade social.

Fonte: Adaptado de Behavior Analyst Certification Board (2022), Cooper, Heron e Heward (2020), Wolf (1978), Graber (2024) e Sidman (2009).

Questões reflexivas

  1. Quais princípios éticos foram violados no caso de Laura?
  2. Por que prometer cura ou resultado garantido é uma conduta antiética?
  3. Qual é a importância dos dados comportamentais na ética profissional em ABA?
  4. Como a validade social deve orientar a escolha das metas terapêuticas?
  5. Que condutas a clínica deveria adotar para reorganizar eticamente o caso?

Gabarito comentado

Na primeira questão, foram violados princípios relacionados à honestidade profissional, responsabilidade científica, confidencialidade, validade social, consentimento informado e não maleficência. A promessa de resultados irreais, o uso promocional de vídeos e a ausência de dados consistentes indicam falhas éticas importantes.

Na segunda questão, prometer cura ou resultado garantido é antiético porque o desenvolvimento humano é variável, depende de múltiplos fatores e não pode ser assegurado em prazo fixo. Essa promessa pode explorar a vulnerabilidade emocional da família e comprometer a confiança no tratamento.

Na terceira questão, os dados comportamentais são essenciais porque permitem avaliar se a intervenção está funcionando. Sem dados, não há tomada de decisão objetiva. A ausência ou manipulação de dados pode manter intervenções ineficazes e prejudicar o cliente.

Na quarta questão, a validade social deve orientar metas que sejam relevantes para a vida real da pessoa atendida. Isso inclui comunicação, autonomia, segurança, participação social e redução de sofrimento. Metas escolhidas apenas por aparência ou conveniência institucional são eticamente frágeis.

Na quinta questão, a clínica deveria revisar o consentimento informado, suspender promessas irreais, reorganizar a coleta de dados, proteger imagens, reavaliar o plano terapêutico, observar sinais de sofrimento da criança, envolver a família e definir metas funcionais e mensuráveis.

Encerramento da aula

Encerramos esta aula destacando que a ética profissional em ABA não pode ser reduzida apenas ao cumprimento formal de regras. Trata-se de uma postura clínica fundamentada em responsabilidade, ciência, respeito humano e compromisso com desenvolvimento funcional e qualidade de vida da pessoa atendida.

Compreender o código de ética da ABA significa compreender que toda intervenção analítico-comportamental deve integrar competência técnica, evidência científica, confidencialidade, consentimento informado, honestidade, validade social e responsabilidade profissional.

A atuação profissional somente pode ser considerada verdadeiramente adequada quando promove segurança, dignidade, autonomia e respeito à singularidade do cliente.

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