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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 4 – Antipsicóticos no TEA

Os antipsicóticos representam uma das principais classes de medicamentos utilizadas no manejo clínico de sintomas associados ao Transtorno do Espectro Autista. Embora o autismo não seja um transtorno psicótico, determinados antipsicóticos demonstraram eficácia no controle de sintomas comportamentais graves que podem comprometer qualidade de vida, segurança, aprendizagem, convivência familiar, participação escolar e funcionamento adaptativo.

Entre os principais sintomas-alvo tratados com antipsicóticos no TEA encontram-se irritabilidade intensa, agressividade, agitação psicomotora, impulsividade severa, crises comportamentais, autolesão e comportamentos disruptivos com prejuízo funcional significativo. Nesses casos, a farmacoterapia pode auxiliar na redução da intensidade dos sintomas, favorecendo maior estabilidade clínica e melhores condições para intervenção terapêutica e educacional.

É fundamental compreender que esses medicamentos não atuam diretamente sobre as características centrais do autismo, como dificuldades de comunicação social, interesses restritos, padrões repetitivos ou diferenças sensoriais. Seu principal objetivo consiste em reduzir sintomas comportamentais associados que dificultam desenvolvimento, aprendizagem, segurança e participação social.

Os antipsicóticos atuam principalmente sobre neurotransmissores relacionados ao funcionamento cerebral, especialmente dopamina e serotonina. Essas substâncias participam da regulação emocional, controle comportamental, impulsividade, motivação, estabilidade do humor e resposta a estímulos ambientais. Por isso, medicamentos que modulam esses sistemas podem produzir efeitos sobre irritabilidade e desregulação comportamental.

Na perspectiva da Análise do Comportamento Aplicada, o uso de antipsicóticos deve ser compreendido como recurso complementar, jamais como substituto da avaliação funcional, do ensino de comunicação, da adaptação ambiental, da orientação familiar e das intervenções educacionais. A medicação pode reduzir barreiras, mas não ensina repertórios.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

Os antipsicóticos no TEA são utilizados para sintomas-alvo graves, como irritabilidade intensa, agressividade e autolesão. Eles não tratam o autismo em si e não substituem intervenções comportamentais, educacionais e familiares. Seu uso exige indicação médica, monitoramento contínuo e avaliação ética do benefício funcional.

Fonte: Adaptado de Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2002), Owen et al. (2009), Hyman, Levy e Myers (2020) e McPheeters et al. (2011).

Antipsicóticos típicos e atípicos

Historicamente, os primeiros antipsicóticos desenvolvidos foram chamados de antipsicóticos típicos, também conhecidos como antipsicóticos de primeira geração. Esses medicamentos atuam predominantemente por bloqueio dopaminérgico e foram amplamente utilizados no tratamento de transtornos psicóticos. Entretanto, seu uso esteve associado a efeitos colaterais neurológicos importantes, como rigidez muscular, tremores, acatisia, distonias e discinesia tardia.

Atualmente, os medicamentos mais utilizados no TEA pertencem ao grupo dos antipsicóticos atípicos ou de segunda geração. Esses medicamentos apresentam ação mais ampla, envolvendo principalmente sistemas dopaminérgicos e serotoninérgicos. Em geral, apresentam menor risco de alguns efeitos extrapiramidais graves quando comparados aos antipsicóticos típicos, embora ainda possam produzir efeitos adversos relevantes.

Entre os antipsicóticos atípicos mais utilizados e estudados no autismo destacam-se risperidona e aripiprazol. Ambos possuem evidência científica para redução de irritabilidade associada ao TEA em crianças e adolescentes, em contextos clínicos específicos. Ainda assim, a decisão pelo uso deve ser sempre individualizada.

Tabela 1 – Antipsicóticos típicos e atípicos

Classe Características gerais Riscos principais Uso no TEA
Antipsicóticos típicos Atuam principalmente por bloqueio dopaminérgico. Maior risco de efeitos extrapiramidais, rigidez, tremores e discinesias. Uso mais restrito, devido ao perfil de efeitos adversos.
Antipsicóticos atípicos Atuam sobre dopamina e serotonina, com perfil farmacológico mais amplo. Ganho de peso, sedação, alterações metabólicas e efeitos neurológicos possíveis. Risperidona e aripiprazol são os mais estudados para irritabilidade associada ao TEA.

Fonte: Adaptado de Stahl (2021), McPheeters et al. (2011), Hyman, Levy e Myers (2020) e Volkmar e Wiesner (2019).

Risperidona no TEA

A risperidona tornou-se um dos medicamentos mais estudados no contexto do autismo. Estudos clínicos demonstraram redução significativa de irritabilidade, agressividade, autolesão e crises comportamentais em crianças e adolescentes autistas com problemas comportamentais graves. Sua indicação costuma ocorrer quando os sintomas produzem risco, sofrimento intenso ou grande prejuízo funcional.

Esse medicamento atua principalmente sobre receptores dopaminérgicos e serotoninérgicos, promovendo maior estabilidade comportamental e emocional em alguns pacientes. No entanto, a resposta é individual. Algumas crianças apresentam melhora significativa, enquanto outras podem apresentar efeitos colaterais importantes ou resposta insuficiente.

Entre os efeitos colaterais mais frequentes da risperidona estão ganho de peso, aumento do apetite, sedação, sonolência, alterações metabólicas e elevação dos níveis de prolactina. O ganho de peso representa uma das maiores preocupações em uso prolongado, pois pode aumentar risco de obesidade, resistência à insulina e complicações cardiovasculares.

Caixa explicativa 2 – Risperidona não é medicação para “acalmar” sem critério

A risperidona pode ser útil em casos de irritabilidade grave associada ao TEA, mas seu uso deve ter objetivo clínico claro, como reduzir agressividade, autolesão ou crises intensas. Não deve ser usada apenas para tornar a criança mais quieta, obediente ou fácil de conduzir.

Fonte: Adaptado de Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2002), Nicolov et al. (2006) e Hyman, Levy e Myers (2020).

Aripiprazol no TEA

O aripiprazol é outro antipsicótico atípico amplamente estudado no TEA. Apresenta mecanismo de ação parcialmente diferente da risperidona, sendo frequentemente descrito como modulador dopaminérgico, com ação parcial em receptores dopaminérgicos e serotoninérgicos. Essa característica pode influenciar seu perfil clínico e seus efeitos adversos.

Estudos demonstraram eficácia do aripiprazol na redução de irritabilidade, agressividade e desregulação emocional em crianças e adolescentes com autismo. Em alguns casos, pode apresentar menor sedação ou menor impacto metabólico quando comparado à risperidona, embora isso não ocorra de forma universal.

Entre os possíveis efeitos colaterais do aripiprazol estão inquietação motora, náuseas, alterações do sono, sonolência, ganho de peso, cefaleia e acatisia. Por isso, também exige acompanhamento médico e monitoramento contínuo.

Tabela 2 – Principais antipsicóticos utilizados no TEA

Medicamento Objetivo clínico Possíveis efeitos colaterais Monitoramento necessário
Risperidona Irritabilidade, agressividade, autolesão e crises comportamentais graves. Ganho de peso, sedação, aumento do apetite, alterações metabólicas e aumento da prolactina. Peso, apetite, sono, exames laboratoriais, efeitos hormonais e resposta funcional.
Aripiprazol Irritabilidade, desregulação emocional, agressividade e impulsividade em casos selecionados. Inquietação motora, náuseas, alterações do sono, sonolência e ganho de peso. Sono, agitação, peso, sintomas motores, humor e participação funcional.

Fonte: Adaptado de Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2002), Owen et al. (2009), Marcus et al. (2009), McPheeters et al. (2011) e Stahl (2021).

Quando considerar antipsicóticos no TEA

O uso de antipsicóticos deve ocorrer apenas quando os sintomas produzem prejuízo funcional significativo, sofrimento emocional intenso ou risco comportamental. Exemplos incluem agressividade frequente, autolesão, crises severas, desregulação emocional intensa e comportamentos que impedem participação em atividades essenciais ou colocam a pessoa e outras pessoas em risco.

Antes de considerar a medicação, é necessário investigar fatores que podem estar contribuindo para o comportamento, como dor, alterações do sono, constipação, crises epilépticas, dificuldades de comunicação, sobrecarga sensorial, mudanças ambientais, demandas inadequadas e ausência de repertórios alternativos.

A decisão deve ser tomada pelo médico, preferencialmente com informações da família, escola e equipe terapêutica. A ABA pode contribuir oferecendo registros objetivos, descrição de antecedentes, frequência dos comportamentos, duração, intensidade, consequências e possíveis funções comportamentais.

Tabela 3 – Critérios clínicos antes do uso de antipsicóticos

Aspecto avaliado Pergunta clínica Exemplo de investigação Importância
Sintoma-alvo Qual comportamento será tratado? Agressões, autolesão, crises severas ou irritabilidade intensa. Evita uso sem objetivo claro.
Função comportamental O comportamento tem função identificável? Fuga de demanda, acesso a item, atenção, dor ou sobrecarga sensorial. Permite intervenção comportamental adequada.
Condições médicas Há dor, sono ruim, epilepsia ou problemas gastrointestinais? Investigar constipação, refluxo, infecções, cefaleia ou privação de sono. Evita medicar comportamento cuja causa é clínica.
Impacto funcional O sintoma prejudica segurança, aprendizagem ou participação? A criança não consegue frequentar escola ou se machuca com frequência. Ajuda a avaliar risco-benefício.

Fonte: Adaptado de Hyman, Levy e Myers (2020), Hanley, Iwata e McCord (2003), Cooper, Heron e Heward (2020) e McPheeters et al. (2011).

Caixa explicativa 3 – Comportamento grave também precisa de análise funcional

Mesmo quando há indicação médica para antipsicótico, a análise funcional continua necessária. A medicação pode reduzir intensidade de crises, mas a criança ainda precisa aprender comunicação, tolerância, flexibilidade, autocuidado e alternativas funcionais para lidar com demandas e frustrações.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley, Iwata e McCord (2003) e Hyman, Levy e Myers (2020).

Efeitos colaterais e monitoramento clínico

O monitoramento dos efeitos colaterais é um dos pontos mais importantes no uso de antipsicóticos no TEA. Crianças e adolescentes em uso desses medicamentos precisam de acompanhamento periódico envolvendo peso corporal, índice de massa corporal, apetite, sono, pressão arterial, exames laboratoriais e observação clínica contínua.

Alterações metabólicas são preocupação central. Ganho de peso, aumento de apetite, alterações glicêmicas e alterações lipídicas podem ocorrer durante o tratamento. Esses efeitos precisam ser identificados precocemente, pois podem impactar saúde física e qualidade de vida.

Também podem ocorrer efeitos neurológicos, como tremores, rigidez muscular, inquietação motora, acatisia, sonolência excessiva ou lentificação. Embora os antipsicóticos atípicos apresentem menor risco de alguns efeitos extrapiramidais em comparação aos típicos, esses eventos ainda podem ocorrer.

Sedação excessiva merece atenção especial. Uma criança muito sedada pode apresentar menos comportamentos disruptivos, mas também pode ter prejuízo na atenção, na aprendizagem, na comunicação, na brincadeira e na participação social. Por isso, redução de comportamento não deve ser confundida automaticamente com melhora clínica.

Tabela 4 – Monitoramento de efeitos colaterais dos antipsicóticos

Área monitorada O que observar Quem contribui Importância clínica
Metabolismo Peso, apetite, glicemia, colesterol e triglicerídeos. Médico e família. Previne obesidade, resistência à insulina e riscos cardiovasculares.
Sono e sedação Sonolência diurna, lentificação, dificuldade de engajamento e fadiga. Família, escola e equipe terapêutica. Evita confundir sedação com melhora funcional.
Efeitos motores Tremores, rigidez, inquietação motora, acatisia e movimentos involuntários. Médico, família e equipe clínica. Permite identificação precoce de efeitos extrapiramidais.
Comportamento funcional Participação, comunicação, aprendizagem, crises e engajamento. Família, escola, ABA e equipe multiprofissional. Verifica se houve melhora real na qualidade de vida.

Fonte: Adaptado de Hyman, Levy e Myers (2020), McPheeters et al. (2011), Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2002), Owen et al. (2009) e Stahl (2021).

Integração com ABA e equipe multiprofissional

Os antipsicóticos não substituem intervenções terapêuticas e educacionais. ABA, terapia ocupacional, fonoaudiologia, suporte escolar e orientação familiar continuam sendo fundamentais para o desenvolvimento global da pessoa autista. A medicação pode reduzir a intensidade de alguns comportamentos, mas a aquisição de habilidades depende de ensino estruturado.

A equipe multiprofissional possui papel relevante no acompanhamento. Psicólogos, analistas do comportamento, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, professores e familiares observam alterações importantes relacionadas ao comportamento, sono, alimentação, atenção, disposição emocional e participação social.

A comunicação entre equipe clínica e médico prescritor é fundamental para segurança terapêutica. Registros objetivos podem ajudar o médico a decidir se a medicação está trazendo benefício real, se há efeitos adversos ou se ajustes precisam ser considerados.

Tabela 5 – Contribuições da equipe no uso de antipsicóticos

Participante Contribuição Exemplo de observação Limite ético
Médico Prescrição, ajuste, suspensão gradual e monitoramento clínico. Avalia exames, dose, efeitos adversos e resposta clínica. Responsável pela decisão farmacológica.
Família Observação diária do sono, apetite, comportamento e disposição. Relata aumento de apetite, sonolência ou redução de crises. Não deve ajustar dose sem orientação médica.
Analista do comportamento Coleta dados e analisa função dos comportamentos. Registra frequência de agressões antes e depois da intervenção. Não prescreve, suspende ou indica medicamento.
Escola Observa participação, atenção, sonolência e interação social. Relata se a criança está aprendendo melhor ou apenas sedada. Deve comunicar dados, não orientar conduta médica.
Terapeuta ocupacional e fonoaudiólogo Observam comunicação, sensorialidade, participação e autonomia. Relatam mudanças na comunicação, alerta, motricidade ou autorregulação. Atuam dentro de suas competências profissionais.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hyman, Levy e Myers (2020), Behavior Analyst Certification Board (2020) e McPheeters et al. (2011).

Aspectos éticos do uso de antipsicóticos

O uso de antipsicóticos deve ocorrer apenas quando os sintomas produzem prejuízo funcional significativo, sofrimento emocional intenso ou risco comportamental. A prática ética contemporânea não recomenda a utilização indiscriminada de medicações apenas para tornar a criança mais obediente, mais quieta ou mais conveniente para o ambiente.

O objetivo da farmacoterapia deve ser melhorar qualidade de vida, segurança, estabilidade emocional, participação funcional e possibilidades de aprendizagem. A medicação deve beneficiar a pessoa atendida, e não apenas reduzir o incômodo de adultos ou instituições.

Também é fundamental discutir o tempo de utilização. Nem todos os pacientes necessitarão uso prolongado de antipsicóticos. Em alguns casos, ajustes ambientais, desenvolvimento da comunicação funcional, melhora do sono e avanço das habilidades adaptativas podem reduzir a necessidade medicamentosa ao longo do tempo. Qualquer redução ou suspensão deve ocorrer de forma gradual e supervisionada pelo médico.

Caixa explicativa 4 – Sedação não é sinônimo de melhora

Uma criança excessivamente sedada pode apresentar menos comportamentos difíceis, mas também pode aprender menos, comunicar-se menos e participar menos. O objetivo clínico deve ser funcionamento melhor, não apagamento comportamental.

Fonte: Adaptado de Hyman, Levy e Myers (2020), McPheeters et al. (2011), Nicolov et al. (2006) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Tabela 6 – Aspectos éticos do uso de antipsicóticos no TEA

Aspecto ético Importância clínica Exemplo adequado Risco a evitar
Avaliação individualizada Evita medicalização inadequada. Avaliar sintomas-alvo, função comportamental e comorbidades. Usar antipsicótico para qualquer comportamento difícil.
Monitoramento contínuo Permite identificar efeitos adversos precocemente. Acompanhar peso, sono, apetite, exames e comportamento. Manter medicação sem reavaliação.
Participação familiar Favorece decisões terapêuticas mais seguras. Responsáveis relatam melhora ou efeitos adversos no cotidiano. Ignorar observações familiares.
Integração multiprofissional Melhora acompanhamento clínico global. Médico recebe dados da ABA, escola e família. Tratar apenas pela medicação, sem intervenção ampla.
Uso funcional da medicação Prioriza qualidade de vida e adaptação social. Reduz autolesão e aumenta participação terapêutica. Usar medicação apenas para controle social.

Fonte: Adaptado de Nicolov et al. (2006), Hyman, Levy e Myers (2020), Behavior Analyst Certification Board (2020), Cooper, Heron e Heward (2020) e McPheeters et al. (2011).

Estudo de caso

Lucas, 9 anos, possui diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista e comunicação verbal limitada. Nos últimos meses, passou a apresentar episódios frequentes de agressividade, autoagressão e crises intensas quando suas rotinas eram alteradas. A família relata que Lucas se bate no rosto, joga objetos e tenta morder os braços quando não consegue comunicar o que deseja ou quando uma atividade preferida é interrompida.

A equipe de ABA realizou registros e observou que os comportamentos ocorriam principalmente diante de três situações: transições sem aviso, retirada de itens preferidos e ambientes muito barulhentos. Também foi identificado que Lucas dormia mal, acordava várias vezes durante a noite e apresentava maior irritabilidade nos dias seguintes.

Após avaliação médica, o profissional considerou a possibilidade de introdução de antipsicótico atípico para manejo da irritabilidade grave, ao mesmo tempo em que solicitou monitoramento de peso, apetite, sono e comportamento. A equipe multiprofissional manteve intervenção em comunicação funcional, rotina visual, treino de tolerância a transições, pedido de pausa e adaptação sensorial.

Tabela 7 – Análise didática do estudo de caso

Elemento do caso Interpretação clínica Conduta integrada Cuidado ético
Agressividade e autoagressão Sintomas-alvo graves, com risco físico e prejuízo funcional. Avaliação médica, análise funcional e intervenção comportamental. Não usar medicação sem investigar antecedentes e função.
Crises em transições Podem indicar dificuldade de flexibilidade e ausência de previsibilidade. Rotina visual, aviso prévio e treino de tolerância. Não interpretar apenas como desobediência.
Comunicação limitada Pode aumentar frustração e comportamentos de crise. Ensino de comunicação funcional e alternativa. Não substituir ensino de comunicação por sedação.
Sono ruim Pode aumentar irritabilidade e reduzir tolerância. Avaliação médica, higiene do sono e rotina estruturada. Investigar condições clínicas associadas.
Possível uso de antipsicótico Pode auxiliar na redução de irritabilidade grave quando indicado. Monitoramento de efeitos e integração com ABA. Avaliar benefício funcional, não apenas redução aparente de comportamento.

Fonte: Adaptado de Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2002), Hyman, Levy e Myers (2020), Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley, Iwata e McCord (2003) e Stahl (2021).

Questões reflexivas

  1. Quais sintomas-alvo justificam avaliação médica para possível uso de antipsicótico no caso de Lucas?
  2. Por que a medicação não deve substituir a análise funcional?
  3. Quais efeitos colaterais precisam ser monitorados?
  4. Como a ABA pode contribuir durante o uso de antipsicóticos?
  5. Por que sedação não deve ser confundida com melhora clínica?

Gabarito comentado

Na primeira questão, os sintomas-alvo incluem agressividade, autoagressão, crises intensas, irritabilidade grave e risco físico. Esses sintomas justificam avaliação médica porque produzem sofrimento, prejuízo funcional e risco para Lucas e para as pessoas ao seu redor.

Na segunda questão, a medicação não deve substituir a análise funcional porque os comportamentos de Lucas ocorrem em situações específicas, como transições sem aviso, retirada de itens preferidos e ambientes barulhentos. Esses antecedentes indicam que há variáveis ambientais e comunicativas envolvidas, que precisam ser tratadas por intervenção comportamental.

Na terceira questão, devem ser monitorados ganho de peso, aumento do apetite, sedação, sonolência, alterações metabólicas, possíveis efeitos motores, alterações hormonais, sono, participação escolar, comunicação e engajamento terapêutico.

Na quarta questão, a ABA pode contribuir por meio da definição operacional dos comportamentos-alvo, coleta de dados, análise de antecedentes e consequências, ensino de comunicação funcional, rotina visual, tolerância a transições e acompanhamento objetivo da melhora funcional.

Na quinta questão, sedação não deve ser confundida com melhora clínica porque uma criança sedada pode apresentar menos comportamento disruptivo, mas também pode ter prejuízo na aprendizagem, na comunicação, na autonomia e na participação social. A melhora verdadeira deve envolver qualidade de vida, segurança e funcionamento mais adaptativo.

Encerramento da aula

Encerramos esta aula destacando que os antipsicóticos podem representar recurso importante em determinados casos de TEA, especialmente quando há irritabilidade grave, agressividade, autolesão ou crises comportamentais com prejuízo funcional significativo. Entretanto, seu uso exige responsabilidade, indicação médica, monitoramento e integração com intervenções terapêuticas.

Compreendemos que risperidona e aripiprazol são os antipsicóticos mais estudados no contexto do TEA, mas ambos podem produzir efeitos colaterais importantes. Por isso, o acompanhamento clínico deve incluir observação de peso, apetite, sono, metabolismo, efeitos motores, comportamento e participação funcional.

Também vimos que a medicação não substitui ABA, fonoaudiologia, terapia ocupacional, suporte escolar e orientação familiar. O objetivo não deve ser apagar comportamentos ou produzir sedação, mas reduzir sofrimento, aumentar segurança, favorecer participação e melhorar qualidade de vida.

Na próxima aula, aprofundaremos os psicoestimulantes no TEA, compreendendo sua relação com sintomas de TDAH, atenção, hiperatividade, impulsividade, benefícios, riscos e monitoramento clínico.

Referências Bibliográficas

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