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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 5 – Psicoestimulantes no TEA

Os psicoestimulantes representam uma importante classe de medicamentos utilizada no manejo clínico de sintomas relacionados à atenção, impulsividade e hiperatividade em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista. Embora esses medicamentos sejam mais conhecidos no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, muitos indivíduos autistas também apresentam sintomas compatíveis com dificuldades atencionais, inquietação motora e desregulação comportamental.

A comorbidade entre TEA e TDAH é relativamente frequente. Muitas crianças autistas apresentam dificuldade de concentração, agitação constante, impulsividade, baixa persistência em tarefas, dificuldade de esperar, interrupções frequentes e comportamentos que interferem diretamente no desempenho escolar, na aprendizagem terapêutica, na interação social e no funcionamento cotidiano.

Os psicoestimulantes atuam principalmente sobre neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, substâncias relacionadas ao funcionamento executivo, atenção, motivação, controle inibitório e organização comportamental. Ao modular esses sistemas, podem favorecer maior capacidade de foco, melhor persistência em atividades e redução de impulsividade em casos clinicamente indicados.

Entre os medicamentos mais conhecidos encontram-se metilfenidato e lisdexanfetamina. Ambos possuem ação estimulante sobre o sistema nervoso central e podem favorecer melhora da concentração, organização cognitiva e redução da hiperatividade. No entanto, pessoas autistas podem apresentar respostas mais variáveis aos psicoestimulantes, exigindo avaliação individualizada e monitoramento cuidadoso.

Na perspectiva da Análise do Comportamento Aplicada, os psicoestimulantes devem ser compreendidos como recursos complementares. Eles podem melhorar condições atencionais e reduzir impulsividade, mas não ensinam sozinhos habilidades sociais, comunicação funcional, autonomia, tolerância à espera, organização de rotina ou comportamento acadêmico. Essas habilidades dependem de ensino estruturado, reforçamento, treino sistemático e generalização.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

Os psicoestimulantes podem auxiliar no manejo de desatenção, hiperatividade e impulsividade em pessoas autistas com sintomas compatíveis, mas seu uso deve ser individualizado, prescrito por médico e monitorado continuamente. A medicação não substitui ABA, suporte escolar, orientação familiar e intervenções voltadas ao ensino de habilidades.

Fonte: Adaptado de Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2005), Handen et al. (2000), Hyman, Levy e Myers (2020) e McPheeters et al. (2011).

TEA, TDAH e sintomas atencionais

A presença de sintomas de TDAH em pessoas autistas é um tema de grande importância clínica. Crianças, adolescentes e adultos com TEA podem apresentar dificuldades de atenção sustentada, desorganização, impulsividade, inquietação motora e baixa tolerância a atividades que exigem esforço cognitivo prolongado.

Esses sintomas podem comprometer a participação em atividades escolares, sessões terapêuticas, brincadeiras compartilhadas, tarefas de vida diária e interações sociais. Uma criança que não consegue permanecer em uma atividade por tempo suficiente pode ter menor acesso a oportunidades de ensino, mesmo quando há um programa bem planejado.

No entanto, nem toda inquietação motora no autismo significa TDAH. A agitação pode estar relacionada à ansiedade, dor, sobrecarga sensorial, dificuldades comunicativas, privação de sono, fuga de demandas, busca sensorial ou falta de repertório para permanecer em determinada atividade. Por isso, a avaliação clínica e funcional é indispensável antes de qualquer decisão farmacológica.

Tabela 1 – Diferenças entre sintomas atencionais e outras causas de agitação no TEA

Manifestação observável Possível interpretação O que investigar Conduta clínica
Levantar-se constantemente durante tarefas. Hiperatividade, fuga de demanda, busca sensorial ou tarefa difícil. Dificuldade da tarefa, duração, reforçadores, sono e estímulos sensoriais. Avaliação funcional antes de atribuir apenas a TDAH.
Interromper colegas ou adultos. Impulsividade, busca por atenção ou falta de repertório social. Função do comportamento, contexto social e habilidades de espera. Ensinar turnos, espera, comunicação funcional e autocontrole.
Dificuldade de concentração. Desatenção, excesso de estímulos, ansiedade ou baixa motivação. Ambiente, interesse, nível de ajuda, reforço e qualidade do sono. Ajustar ensino e avaliar necessidade médica quando indicado.
Agitação em ambientes específicos. Sobrecarga sensorial ou imprevisibilidade ambiental. Ruído, luz, multidão, transições e alterações de rotina. Adaptação ambiental, rotina visual e estratégias de regulação.

Fonte: Adaptado de Hyman, Levy e Myers (2020), Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley, Iwata e McCord (2003) e Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2005).

Mecanismo de ação dos psicoestimulantes

Os psicoestimulantes atuam principalmente aumentando a disponibilidade de dopamina e noradrenalina em regiões cerebrais relacionadas à atenção, motivação, controle executivo e regulação comportamental. Esses neurotransmissores participam da capacidade de manter foco, inibir respostas impulsivas, organizar ações e sustentar esforço diante de tarefas.

O metilfenidato age principalmente inibindo a recaptação de dopamina e noradrenalina, aumentando sua disponibilidade em sinapses específicas. Esse efeito pode melhorar atenção sustentada, reduzir hiperatividade e favorecer maior controle inibitório em algumas crianças.

A lisdexanfetamina é um pró-fármaco da dextroanfetamina e também atua em sistemas dopaminérgicos e noradrenérgicos. Apresenta duração prolongada de ação e pode favorecer maior estabilidade comportamental ao longo do dia em alguns pacientes. Entretanto, seu uso em pessoas autistas exige a mesma cautela clínica, pois pode aumentar ansiedade, irritabilidade ou alterações do sono.

Caixa explicativa 2 – Atenção não depende apenas de medicamento

A atenção também depende de ambiente organizado, tarefas adequadas ao repertório da criança, reforçadores eficazes, sono adequado, motivação, previsibilidade e qualidade do ensino. A medicação pode ajudar em alguns casos, mas não substitui organização pedagógica e intervenção comportamental.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hyman, Levy e Myers (2020) e Stahl (2021).

Metilfenidato no TEA

O metilfenidato é um dos psicoestimulantes mais estudados em crianças com sintomas de hiperatividade e desatenção. Em pessoas com TEA, estudos demonstram que pode haver melhora de atenção, redução de hiperatividade e maior participação em atividades estruturadas. No entanto, a resposta tende a ser mais variável do que em crianças com TDAH sem TEA.

Algumas crianças autistas apresentam melhora significativa da atenção sustentada, da organização comportamental e do engajamento em atividades escolares e terapêuticas. Outras podem apresentar efeitos adversos, como irritabilidade, aumento de estereotipias, ansiedade, perda de apetite, insônia, dor abdominal ou labilidade emocional.

Por esse motivo, a introdução deve ser gradual, com acompanhamento médico e observação cuidadosa da família, escola e equipe terapêutica. O objetivo não é apenas observar se a criança “fica mais quieta”, mas se apresenta melhora funcional real, como maior participação, melhor aprendizagem, menor impulsividade e maior tolerância às atividades.

Lisdexanfetamina no TEA

A lisdexanfetamina também pode ser utilizada em quadros de TDAH, com ação prolongada ao longo do dia. Atua sobre sistemas de dopamina e noradrenalina, podendo favorecer controle da impulsividade, redução da hiperatividade e organização comportamental em determinados pacientes.

Embora seja amplamente utilizada no TDAH, sua indicação em indivíduos autistas deve considerar cuidadosamente o perfil clínico, os sintomas-alvo, a presença de ansiedade, alterações sensoriais, sono, apetite e comorbidades. Em alguns casos, pode favorecer maior estabilidade comportamental. Em outros, pode aumentar irritabilidade, ansiedade, insônia ou sensibilidade emocional.

A resposta individual precisa ser monitorada por dados clínicos e comportamentais. Família, escola e equipe de intervenção podem contribuir observando mudanças na atenção, na impulsividade, no apetite, no sono, no humor, na participação em tarefas e no engajamento social.

Tabela 2 – Principais psicoestimulantes utilizados no TEA

Medicamento Objetivo clínico Possíveis efeitos colaterais Monitoramento necessário
Metilfenidato Melhora da atenção, redução da hiperatividade e controle da impulsividade. Insônia, irritabilidade, perda de apetite, dor abdominal, cefaleia e aumento de ansiedade. Sono, apetite, humor, atenção, pressão arterial, engajamento e efeitos comportamentais.
Lisdexanfetamina Controle da impulsividade, organização comportamental e melhora atencional em casos indicados. Ansiedade, cefaleia, alterações do sono, redução do apetite, irritabilidade e alterações cardiovasculares. Sono, apetite, peso, humor, irritabilidade, ansiedade, pressão arterial e participação funcional.

Fonte: Adaptado de Handen et al. (2000), Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2005), Stahl (2021), Hyman, Levy e Myers (2020) e Volkmar e Wiesner (2019).

Efeitos adversos e monitoramento

Entre os principais efeitos adversos dos psicoestimulantes encontram-se perda de apetite, insônia, irritabilidade, aumento de ansiedade, dor abdominal, cefaleia, taquicardia, elevação de pressão arterial e alterações emocionais. Em algumas pessoas autistas, também pode haver aumento de estereotipias ou maior sensibilidade a mudanças ambientais.

O impacto sobre sono e alimentação merece atenção especial. Crianças que dormem mal ou se alimentam pouco podem apresentar piora de irritabilidade, menor rendimento escolar, dificuldades de regulação emocional e prejuízos no desenvolvimento físico. Assim, monitorar peso, apetite, padrão de sono e disposição ao longo do dia é parte essencial do acompanhamento.

Também é importante observar se a medicação está favorecendo aprendizagem ou apenas reduzindo movimento. Uma criança pode parecer mais parada, mas não necessariamente mais engajada. O critério clínico deve ser a melhora funcional: participação, atenção, tolerância, comunicação, aprendizagem e qualidade de vida.

Tabela 3 – Monitoramento dos psicoestimulantes no TEA

Área monitorada O que observar Quem pode contribuir Importância clínica
Sono Dificuldade para dormir, despertares, sonolência diurna e horário de sono. Família e médico. Sono ruim pode piorar irritabilidade e aprendizagem.
Apetite e peso Redução alimentar, perda de peso ou alterações no padrão alimentar. Família, médico e nutricionista quando necessário. Previne prejuízos nutricionais e físicos.
Humor e ansiedade Irritabilidade, choro, ansiedade, agitação ou sensibilidade emocional. Família, escola e equipe terapêutica. Ajuda a diferenciar benefício de piora emocional.
Participação funcional Atenção, engajamento, permanência em tarefa, aprendizagem e interação. Escola, ABA, família e equipe clínica. Verifica se há melhora real na vida cotidiana.
Aspectos cardiovasculares Pressão arterial, frequência cardíaca e queixas físicas. Médico e família. Garante segurança clínica durante o uso.

Fonte: Adaptado de Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2005), Handen et al. (2000), Hyman, Levy e Myers (2020), McPheeters et al. (2011) e Stahl (2021).

Caixa explicativa 3 – Ficar parado não é o mesmo que aprender melhor

A melhora esperada com psicoestimulantes deve ser funcional. O objetivo não é apenas reduzir movimento, mas favorecer atenção, participação, aprendizagem, segurança, comunicação e melhor adaptação ao cotidiano.

Fonte: Adaptado de Hyman, Levy e Myers (2020), Cooper, Heron e Heward (2020) e McPheeters et al. (2011).

Avaliação funcional antes da medicação

A avaliação funcional do comportamento é indispensável antes da introdução ou interpretação dos efeitos de psicoestimulantes. Nem toda desatenção ou agitação é causada por TDAH. Muitas vezes, a criança se movimenta porque a tarefa é longa, difícil, pouco reforçadora, sensorialmente desconfortável ou apresentada sem apoio visual adequado.

Também é possível que a inquietação esteja relacionada à fuga de demanda, busca de atenção, busca sensorial ou dificuldade de comunicação. Uma criança que não consegue pedir pausa pode levantar-se repetidamente. Outra pode correr pela sala porque está buscando estimulação vestibular. Outra pode interromper atividades porque ainda não aprendeu habilidades de espera.

A ABA contribui ao definir comportamentos de forma operacional, registrar frequência, duração e contexto, identificar antecedentes e consequências e ensinar respostas alternativas. Esses dados são valiosos para a equipe médica, pois ajudam a diferenciar sintomas neuropsiquiátricos de comportamentos mantidos por contingências ambientais.

Tabela 4 – Perguntas funcionais antes de considerar psicoestimulantes

Pergunta clínica Por que é importante? Exemplo de observação Possível intervenção
A tarefa está adequada ao repertório? Tarefas difíceis podem evocar fuga e agitação. A criança levanta sempre em atividades de escrita. Ajustar dificuldade, usar ajuda e reforçamento.
Há reforçadores suficientes? Baixa motivação reduz permanência em tarefa. A criança abandona atividades longas sem reforço. Programar reforçamento diferencial e pausas.
O ambiente é sensorialmente adequado? Sobrecarga sensorial pode parecer hiperatividade. A criança se agita em sala barulhenta. Reduzir ruídos, organizar espaço e oferecer pausa sensorial.
A criança sabe pedir pausa ou ajuda? Falta de comunicação pode gerar fuga ou impulsividade. Ela joga materiais quando não entende a tarefa. Ensinar comunicação funcional e pedido de ajuda.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley, Iwata e McCord (2003), Hyman, Levy e Myers (2020) e Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2005).

Associação entre psicoestimulantes, ABA e escola

A melhora atencional produzida pelos psicoestimulantes pode favorecer maior engajamento em programas terapêuticos, atividades escolares e interações sociais. Quando a criança consegue permanecer mais tempo em tarefa, responder a instruções e controlar impulsos, ela pode aproveitar melhor oportunidades de ensino.

Entretanto, a observação escolar deve ser integrada às avaliações clínicas e comportamentais. Professores podem relatar melhora ou piora da atenção, mas esses dados precisam ser analisados junto com informações da família, do médico e da equipe terapêutica. O comportamento pode variar conforme horário, ambiente, dose, qualidade do sono e tipo de atividade.

Na ABA, os dados comportamentais continuam sendo essenciais. É possível comparar indicadores antes e depois da medicação, como tempo em tarefa, número de respostas independentes, frequência de fuga, impulsividade, agressividade, estereotipias, participação social e aprendizagem. Essa análise ajuda a verificar se houve benefício funcional real.

Tabela 5 – Integração entre medicação, ABA e escola

Contexto O que observar Como registrar Uso dos dados
Clínica ABA Permanência em tarefa, respostas independentes, fuga e impulsividade. Frequência, duração, porcentagem de acerto e gráficos. Verificar se houve melhora no ensino e no engajamento.
Escola Atenção, organização, interação com pares e participação nas atividades. Relatórios objetivos e observações por período. Identificar impacto funcional no contexto educacional.
Família Sono, apetite, humor, rotina, irritabilidade e disposição. Diário simples de sono, alimentação e comportamento. Apoiar decisão médica e ajustes clínicos.
Médico Resposta clínica, efeitos adversos, pressão, peso e comorbidades. Consulta, exame físico e dados da equipe. Definir manutenção, ajuste ou suspensão gradual quando necessário.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hyman, Levy e Myers (2020), Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2005) e Stahl (2021).

Aspectos éticos no uso de psicoestimulantes

O uso ético dos psicoestimulantes exige clareza de objetivos. A medicação não deve ser utilizada apenas para aumentar desempenho escolar, tornar a criança mais produtiva ou facilitar a rotina de adultos. O critério principal deve ser o benefício funcional real para a pessoa atendida, considerando bem-estar emocional, segurança, participação, aprendizagem e qualidade de vida.

Também é necessário cuidado para não transformar dificuldades escolares ou ambientais em problema exclusivamente medicamentoso. Uma criança pode apresentar desatenção porque está em uma sala muito barulhenta, porque a atividade não foi adaptada, porque não compreendeu a instrução ou porque não há reforçadores suficientes. Nesses casos, a intervenção deve incluir ajustes ambientais e pedagógicos.

A participação familiar é indispensável. Muitas vezes, são os responsáveis que percebem mudanças relacionadas ao humor, sono, alimentação e comportamento após o início da medicação. A comunicação entre família, escola, equipe terapêutica e médico prescritor torna-se fundamental para tomada de decisão responsável.

Caixa explicativa 4 – Uso ético dos psicoestimulantes

O objetivo da medicação não deve ser apenas aumentar desempenho, produtividade ou obediência. O uso ético exige benefício funcional real, monitoramento de efeitos adversos, respeito à singularidade da criança e integração com intervenções educacionais e terapêuticas.

Fonte: Adaptado de Nicolov et al. (2006), Hyman, Levy e Myers (2020), Behavior Analyst Certification Board (2020) e Cooper, Heron e Heward (2020).

Tabela 6 – Aspectos éticos no uso de psicoestimulantes

Aspecto ético Importância clínica Exemplo adequado Risco a evitar
Avaliação individualizada Evita medicalização inadequada. Diferenciar TDAH, ansiedade, busca sensorial e fuga de demanda. Medicar toda agitação como hiperatividade.
Monitoramento contínuo Permite identificar benefícios e efeitos adversos. Acompanhar sono, apetite, peso, humor e atenção. Manter medicação sem reavaliação.
Participação familiar Favorece observação ampla do comportamento. Família registra alimentação, sono e irritabilidade. Ignorar mudanças relatadas pelos cuidadores.
Integração escolar e terapêutica Permite avaliação funcional mais completa. Escola e ABA observam atenção e aprendizagem com dados. Basear decisão apenas em impressão subjetiva.
Uso funcional da medicação Prioriza qualidade de vida e adaptação social. A criança participa melhor das atividades e apresenta menor sofrimento. Usar medicamento apenas para produtividade ou obediência.

Fonte: Adaptado de Nicolov et al. (2006), Cooper, Heron e Heward (2020), Hyman, Levy e Myers (2020), Behavior Analyst Certification Board (2020) e McPheeters et al. (2011).

Estudo de caso

Pedro, 8 anos, possui diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista e apresenta linguagem verbal funcional. Na escola, demonstra dificuldade de permanecer sentado, levanta-se durante as atividades, interrompe colegas, responde antes do término das perguntas e abandona tarefas quando exigem maior tempo de concentração. A professora relata que Pedro aprende melhor em atividades curtas e com reforçadores claros, mas se desorganiza em tarefas longas.

Em casa, os pais observam que Pedro é impulsivo, fala em excesso sobre seus interesses e tem dificuldade de esperar sua vez. Também relatam que ele dorme tarde, usa telas à noite e apresenta seletividade alimentar. A equipe de ABA identificou que parte dos comportamentos ocorre em tarefas difíceis ou pouco reforçadoras, mas também observou sinais consistentes de hiperatividade e impulsividade em diferentes contextos.

Após avaliação médica, foi discutida a possibilidade de uso de psicoestimulante para manejo de sintomas atencionais e hiperatividade. A equipe manteve intervenção comportamental com divisão de tarefas, reforçamento diferencial, treino de espera, comunicação funcional, rotina visual e registro de dados antes e após a introdução medicamentosa.

Tabela 7 – Análise didática do estudo de caso

Elemento do caso Possível interpretação clínica Conduta integrada Cuidado ético
Levantar-se e abandonar tarefas. Pode envolver hiperatividade, fuga de demanda ou baixa motivação. Avaliação funcional, ajuste de tarefas e avaliação médica. Não medicar sem investigar contexto e função.
Impulsividade em vários contextos. Pode indicar sintomas compatíveis com TDAH associado. Avaliação médica, treino de espera e reforçamento diferencial. Observar benefício funcional e efeitos adversos.
Sono inadequado e uso de telas à noite. Pode piorar atenção e irritabilidade. Higiene do sono e rotina noturna estruturada. Não atribuir toda desatenção apenas ao TDAH.
Possível uso de psicoestimulante. Pode auxiliar atenção e impulsividade quando indicado. Monitorar sono, apetite, humor, ansiedade e participação. Não usar medicação como substituta do ensino.

Fonte: Adaptado de Handen et al. (2000), Research Units on Pediatric Psychopharmacology Autism Network (2005), Cooper, Heron e Heward (2020), Hyman, Levy e Myers (2020) e Stahl (2021).

Questões reflexivas

  1. Quais sintomas de Pedro podem justificar avaliação médica para uso de psicoestimulante?
  2. Por que a avaliação funcional continua necessária?
  3. Quais efeitos adversos devem ser monitorados?
  4. Como a ABA pode contribuir durante o uso de psicoestimulantes?
  5. Por que o sono precisa ser investigado antes e durante o tratamento?

Gabarito comentado

Na primeira questão, os sintomas que justificam avaliação médica incluem hiperatividade, impulsividade, dificuldade persistente de concentração, interrupções frequentes, abandono de tarefas e dificuldade de esperar. Esses sinais aparecem em diferentes contextos, o que torna importante investigar possível TDAH associado.

Na segunda questão, a avaliação funcional continua necessária porque parte dos comportamentos de Pedro ocorre em tarefas difíceis, longas ou pouco reforçadoras. Isso indica que nem toda desatenção ou agitação pode ser atribuída apenas a fatores neuroquímicos. O ambiente, a motivação, o sono e o repertório da criança também influenciam o comportamento.

Na terceira questão, devem ser monitorados perda de apetite, alterações do sono, irritabilidade, aumento de ansiedade, cefaleia, dor abdominal, alterações cardiovasculares, humor, peso, engajamento e participação funcional.

Na quarta questão, a ABA pode contribuir registrando dados antes e depois da medicação, avaliando tempo em tarefa, frequência de fuga, impulsividade, respostas independentes, aprendizagem, tolerância à espera e participação em atividades. Também pode ensinar habilidades de autocontrole, comunicação funcional e organização comportamental.

Na quinta questão, o sono precisa ser investigado porque privação de sono pode causar ou intensificar desatenção, irritabilidade, hiperatividade e dificuldade de aprendizagem. Além disso, psicoestimulantes podem interferir no início do sono, tornando o monitoramento ainda mais importante.

Encerramento da aula

Encerramos esta aula destacando que os psicoestimulantes podem representar recurso importante para determinados indivíduos autistas, especialmente quando sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade comprometem significativamente desenvolvimento, aprendizagem e funcionamento cotidiano.

Compreendemos que metilfenidato e lisdexanfetamina atuam principalmente sobre dopamina e noradrenalina, podendo favorecer atenção e controle inibitório. No entanto, a resposta em pessoas autistas é variável, exigindo introdução cautelosa, acompanhamento médico e monitoramento de efeitos adversos.

Também vimos que a medicação não substitui avaliação funcional, organização ambiental, intervenção comportamental, suporte escolar e orientação familiar. O objetivo não é apenas reduzir movimento, mas favorecer participação, aprendizagem, segurança, bem-estar e qualidade de vida.

Na próxima aula, aprofundaremos os antidepressivos no TEA, com ênfase em ansiedade, humor, rigidez comportamental, sintomas obsessivos, indicações clínicas, limites terapêuticos e monitoramento.

Referências Bibliográficas

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Hanley, G. P.; Iwata, B. A.; McCord, B. E. Functional analysis of problem behavior: a review. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 36, n. 2, p. 147-185, 2003. DOI: 10.1901/jaba.2003.36-147. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.2003.36-147. Acesso em: 09 jun. 2026.

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McPheeters, M. L. et al. A systematic review of medical treatments for children with autism spectrum disorders. Pediatrics, v. 127, n. 5, p. e1312-e1321, 2011. DOI: 10.1542/peds.2011-0427. Disponível em: https://doi.org/10.1542/peds.2011-0427. Acesso em: 09 jun. 2026.

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