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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 7 – Estabilizadores de Humor no TEA

Os estabilizadores de humor representam uma classe de medicamentos utilizada em determinados casos de Transtorno do Espectro Autista, especialmente quando existem quadros de desregulação emocional intensa, irritabilidade severa, impulsividade grave, agressividade persistente, instabilidade comportamental significativa ou comorbidades neurológicas e psiquiátricas associadas.

Embora esses medicamentos sejam tradicionalmente associados ao tratamento do transtorno bipolar, epilepsia e outras condições relacionadas à instabilidade do humor ou da excitabilidade neuronal, alguns indivíduos autistas podem apresentar sintomas emocionais e comportamentais que justificam sua utilização clínica. Essa indicação, entretanto, deve ser sempre individualizada, criteriosa e realizada por profissional médico habilitado.

É importante compreender que o TEA não é um transtorno de humor. O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças na comunicação social, nos padrões de comportamento, na flexibilidade cognitiva e no processamento sensorial. Entretanto, muitas pessoas autistas podem apresentar dificuldades importantes de autorregulação emocional, tolerância à frustração, manejo da impulsividade e adaptação a mudanças.

Além disso, comorbidades podem coexistir com o autismo, como epilepsia, transtornos de ansiedade, transtornos de humor, deficiência intelectual, TDAH e alterações comportamentais graves. Em alguns desses contextos, estabilizadores de humor ou anticonvulsivantes podem ser considerados como parte de um plano terapêutico mais amplo.

Na perspectiva da Análise do Comportamento Aplicada, o uso de estabilizadores de humor deve ser compreendido como recurso complementar. Esses medicamentos podem auxiliar na redução de instabilidade emocional ou impulsividade severa em casos específicos, mas não substituem avaliação funcional, ensino de comunicação, treino de autorregulação, adaptação ambiental, suporte familiar e intervenção comportamental estruturada.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

Os estabilizadores de humor podem ser considerados no TEA quando há desregulação emocional grave, impulsividade intensa, agressividade persistente, epilepsia associada ou comorbidades específicas. Seu uso deve ser médico, individualizado, monitorado e integrado a intervenções comportamentais, familiares e educacionais.

Fonte: Adaptado de Hollander et al. (2010), Hyman, Levy e Myers (2020), McPheeters et al. (2011), Nicolov et al. (2006) e Stahl (2021).

Estabilizadores de humor e neurodesenvolvimento

Os estabilizadores de humor atuam principalmente sobre sistemas neuroquímicos relacionados à excitabilidade neuronal, estabilidade emocional e regulação comportamental. Alguns desses medicamentos também possuem propriedades anticonvulsivantes, sendo utilizados em condições neurológicas como epilepsia, que pode estar presente em parte dos indivíduos autistas.

Entre os medicamentos mais discutidos nessa classe encontram-se ácido valproico, carbamazepina e lítio. Cada um possui mecanismos de ação, indicações, efeitos adversos e necessidades específicas de monitoramento. Por isso, não devem ser utilizados de forma genérica ou sem definição clara de sintomas-alvo.

A resposta medicamentosa em pessoas autistas pode variar amplamente. Algumas crianças, adolescentes ou adultos podem apresentar redução de irritabilidade, agressividade e instabilidade emocional. Outros podem não apresentar benefício clínico relevante ou podem desenvolver efeitos colaterais importantes. Essa variabilidade exige acompanhamento contínuo.

Tabela 1 – Conceitos centrais sobre estabilizadores de humor no TEA

Conceito Definição Aplicação no TEA Cuidado clínico
Estabilizador de humor Medicamento utilizado para reduzir instabilidade emocional, impulsividade ou oscilações graves de humor em contextos específicos. Pode ser considerado em desregulação emocional intensa ou comorbidades psiquiátricas. Exige indicação médica e monitoramento rigoroso.
Anticonvulsivante Medicamento que reduz excitabilidade neuronal e auxilia no controle de crises epilépticas. Pode ter relevância quando há epilepsia associada ao TEA. Necessita acompanhamento neurológico ou psiquiátrico.
Sintoma-alvo Comportamento ou condição clínica específica que se deseja tratar. Agressividade, irritabilidade severa, impulsividade grave ou instabilidade emocional. Deve ser descrito de forma observável e mensurável.
Monitoramento laboratorial Acompanhamento por exames para avaliar segurança do medicamento. Importante em uso de ácido valproico, carbamazepina e lítio. Ajuda a prevenir toxicidade e efeitos adversos graves.

Fonte: Adaptado de Stahl (2021), Hollander et al. (2010), Hyman, Levy e Myers (2020), McPheeters et al. (2011) e Volkmar e Wiesner (2019).

Ácido valproico no TEA

O ácido valproico, também conhecido como valproato ou divalproato de sódio em algumas formulações, é um dos estabilizadores de humor mais frequentemente discutidos no contexto do TEA. Pode ser considerado em casos associados à irritabilidade severa, agressividade intensa, instabilidade emocional e epilepsia, sempre mediante avaliação médica.

Seu mecanismo de ação envolve redução da excitabilidade neuronal e aumento da atividade do GABA, neurotransmissor relacionado à inibição neural. Como o equilíbrio entre excitação e inibição cerebral é um tema relevante nas pesquisas sobre TEA, medicamentos que atuam nesses sistemas podem ter interesse clínico em casos específicos.

Além do uso psiquiátrico, o ácido valproico é amplamente utilizado no tratamento da epilepsia. Essa característica é relevante porque a epilepsia apresenta prevalência aumentada em pessoas autistas, principalmente em casos associados à deficiência intelectual e alterações neurológicas mais intensas.

Entretanto, o ácido valproico pode produzir efeitos adversos importantes, como ganho de peso, sonolência, tremores, alterações gastrointestinais, alterações hepáticas, alterações hematológicas e efeitos metabólicos. Por isso, seu uso exige exames periódicos e acompanhamento clínico cuidadoso.

Caixa explicativa 2 – Estabilizador não substitui ensino de autorregulação

Mesmo quando um estabilizador de humor reduz impulsividade ou irritabilidade, a criança ainda precisa aprender formas funcionais de comunicar desconforto, pedir ajuda, tolerar mudanças, lidar com frustrações e organizar respostas emocionais.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hyman, Levy e Myers (2020), Hollander et al. (2010) e McPheeters et al. (2011).

Carbamazepina no TEA

A carbamazepina é outro medicamento utilizado em determinados contextos clínicos, especialmente por sua ação na modulação da atividade elétrica neuronal. Pode ser considerada em situações envolvendo epilepsia, impulsividade grave, instabilidade emocional ou agressividade persistente, dependendo da avaliação médica e do perfil do paciente.

Seu uso exige cautela, pois pode produzir efeitos adversos como tontura, sedação, náuseas, alterações hematológicas, alterações hepáticas, reações cutâneas e interações medicamentosas importantes. Em algumas situações, são necessários exames laboratoriais periódicos para garantir maior segurança.

Assim como ocorre com outros estabilizadores, a carbamazepina não deve ser usada apenas para controle de comportamento sem investigação clínica e funcional. É necessário compreender se a instabilidade observada está associada a comorbidades neurológicas, alterações de humor, dor, sono, ansiedade, comunicação limitada ou condições ambientais inadequadas.

Lítio no TEA

O lítio é um dos estabilizadores de humor mais antigos da psiquiatria, tradicionalmente utilizado no transtorno bipolar. No TEA, seu uso é menos frequente quando comparado a outros medicamentos, mas pode ser considerado em situações específicas relacionadas à instabilidade emocional grave, transtornos de humor associados ou impulsividade severa, sempre sob acompanhamento médico rigoroso.

O lítio possui janela terapêutica estreita, ou seja, a diferença entre dose terapêutica e dose tóxica pode ser pequena. Por isso, exige monitoramento de níveis séricos, função renal, função tireoidiana, hidratação, interações medicamentosas e sinais clínicos de toxicidade.

Entre os possíveis efeitos adversos estão tremores, aumento da sede, alterações gastrointestinais, sonolência, alterações renais, alterações tireoidianas e risco de toxicidade. O uso exige alta responsabilidade clínica e participação familiar atenta.

Tabela 2 – Principais estabilizadores de humor utilizados no TEA

Medicamento Objetivo clínico possível Possíveis efeitos colaterais Monitoramento necessário
Ácido valproico Irritabilidade severa, agressividade, instabilidade emocional e epilepsia. Ganho de peso, sonolência, tremores, alterações gastrointestinais, hepáticas e metabólicas. Função hepática, exames laboratoriais, peso, sonolência, apetite e comportamento.
Carbamazepina Impulsividade grave, instabilidade emocional e epilepsia em casos específicos. Tontura, sedação, náuseas, alterações hematológicas, hepáticas e reações cutâneas. Hemograma, função hepática, efeitos neurológicos, pele e interações medicamentosas.
Lítio Desregulação emocional grave ou transtorno de humor associado. Tremores, alterações renais, tireoidianas, gastrointestinais e risco de toxicidade. Níveis séricos, função renal, tireoide, hidratação e sinais de toxicidade.

Fonte: Adaptado de Stahl (2021), Volkmar e Wiesner (2019), Hollander et al. (2010), Hyman, Levy e Myers (2020) e Wink et al. (2010).

Epilepsia, TEA e estabilizadores de humor

A relação entre epilepsia e TEA é um tema de grande relevância clínica. Estudos indicam que a epilepsia é mais frequente em pessoas autistas do que na população geral, especialmente em indivíduos com deficiência intelectual associada, alterações neurológicas mais intensas ou histórico de regressão no desenvolvimento.

Nessas situações, medicamentos anticonvulsivantes como ácido valproico e carbamazepina podem exercer dupla função clínica: controle de crises epilépticas e possível estabilização comportamental. Entretanto, essa dupla função não significa que esses medicamentos devam ser utilizados automaticamente em todos os casos de irritabilidade ou agressividade.

A presença de crises epilépticas, alterações no sono, episódios de desligamento, movimentos involuntários ou mudanças comportamentais súbitas deve ser investigada por profissional médico. Em alguns casos, avaliação neurológica e exames complementares podem ser necessários.

Tabela 3 – Relação entre epilepsia, comportamento e TEA

Aspecto clínico Possível manifestação Conduta recomendada Cuidado interpretativo
Epilepsia associada Crises motoras, episódios de ausência, quedas ou alterações súbitas de consciência. Encaminhamento médico e avaliação neurológica. Nem toda crise comportamental é epilepsia, mas sinais neurológicos devem ser investigados.
Alterações comportamentais súbitas Mudança brusca de irritabilidade, sono, atenção ou comportamento. Investigar dor, sono, epilepsia, medicação, ambiente e ansiedade. Evitar atribuir tudo ao autismo ou à oposição.
Uso de anticonvulsivantes Controle de crises e possível estabilização emocional em casos específicos. Monitoramento médico e laboratorial. Não usar sem indicação clínica clara.

Fonte: Adaptado de Hyman, Levy e Myers (2020), Volkmar e Wiesner (2019), Stahl (2021), McPheeters et al. (2011) e Wink et al. (2010).

Caixa explicativa 3 – Mudança comportamental súbita merece investigação

Quando uma pessoa autista apresenta piora repentina de irritabilidade, agressividade, sono ou atenção, é necessário investigar dor, constipação, infecções, epilepsia, efeitos medicamentosos, ansiedade, sobrecarga sensorial e mudanças ambientais.

Fonte: Adaptado de Hyman, Levy e Myers (2020), Hanley, Iwata e McCord (2003), Cooper, Heron e Heward (2020) e Volkmar e Wiesner (2019).

Desregulação emocional no TEA

A desregulação emocional é uma dificuldade frequente em muitas pessoas autistas. Pode aparecer como explosões emocionais intensas, baixa tolerância à frustração, dificuldade em lidar com mudanças, crises diante de imprevisibilidade, agressividade, autolesão ou sofrimento psíquico significativo.

Essas manifestações não devem ser interpretadas apenas como birra, oposição ou falta de limites. Muitas vezes, estão relacionadas a dificuldades de comunicação, processamento sensorial, ansiedade, rigidez comportamental, demandas excessivas ou ausência de repertórios de enfrentamento.

Em determinados casos, os estabilizadores de humor podem auxiliar na redução da intensidade dessa instabilidade emocional. Entretanto, medicamentos não substituem o ensino de habilidades emocionais, comunicação funcional, tolerância, flexibilidade e estratégias de autorregulação.

Tabela 4 – Desregulação emocional e estratégias integradas

Manifestação Possível fator associado Estratégia comportamental Possível contribuição farmacológica
Explosões emocionais Frustração, rigidez, ansiedade ou dificuldade de comunicação. Ensino de pedido de pausa, comunicação funcional e tolerância gradual. Pode auxiliar quando há instabilidade intensa e persistente.
Agressividade persistente Fuga, acesso a reforçadores, dor, sono ruim ou impulsividade. Análise funcional, prevenção, reforçamento diferencial e ensino alternativo. Pode ser considerada se houver risco ou prejuízo grave.
Autolesão Dor, comunicação limitada, sobrecarga sensorial ou desregulação intensa. Avaliação funcional, adaptação ambiental e comunicação alternativa. Pode compor plano médico em casos graves.
Oscilações emocionais intensas Comorbidade de humor, adolescência, sono ou fatores neurobiológicos. Rotina, previsibilidade, treino emocional e suporte familiar. Pode ser discutida em avaliação psiquiátrica.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hollander et al. (2010), Hyman, Levy e Myers (2020), McPheeters et al. (2011) e Nicolov et al. (2006).

Monitoramento laboratorial e segurança clínica

O monitoramento laboratorial é um dos pontos mais importantes no uso de estabilizadores de humor. Alguns medicamentos dessa classe podem produzir alterações hepáticas, hematológicas, metabólicas, renais e tireoidianas. Exames periódicos fazem parte da segurança terapêutica e devem ser solicitados conforme a medicação utilizada e a avaliação médica.

Além dos exames, é necessário observar comportamento, sono, apetite, disposição, tremores, tontura, fadiga, alterações gastrointestinais e mudanças cognitivas. Em crianças e adolescentes, esses efeitos podem interferir no desenvolvimento, na aprendizagem e na participação escolar.

A família desempenha papel fundamental nesse processo, pois acompanha a rotina diária e pode perceber alterações antes mesmo das consultas. A equipe de ABA, escola e demais terapeutas também podem contribuir com dados objetivos sobre comportamento, atenção, aprendizagem e participação funcional.

Tabela 5 – Monitoramento dos estabilizadores de humor

Dimensão monitorada O que observar Medicamentos relacionados Importância clínica
Função hepática Alterações laboratoriais, náuseas, fadiga e sintomas físicos. Ácido valproico e carbamazepina. Previne complicações hepáticas.
Hemograma Alterações hematológicas, infecções frequentes ou sinais clínicos incomuns. Carbamazepina e ácido valproico. Identifica efeitos adversos hematológicos.
Função renal e tireoidiana Alterações laboratoriais, sede excessiva, tremores ou fadiga. Lítio. Reduz risco de toxicidade e complicações sistêmicas.
Comportamento e cognição Sonolência, lentificação, atenção, aprendizagem e participação. Todos os estabilizadores. Evita confundir sedação com melhora clínica.
Peso e metabolismo Ganho de peso, apetite, alterações metabólicas e disposição. Especialmente ácido valproico. Previne prejuízos físicos e metabólicos.

Fonte: Adaptado de Stahl (2021), Hyman, Levy e Myers (2020), Hollander et al. (2010), Volkmar e Wiesner (2019) e Wink et al. (2010).

Caixa explicativa 4 – Segurança laboratorial é parte do tratamento

O uso de estabilizadores de humor pode exigir exames periódicos. Esse cuidado não é burocrático: ele protege a criança contra efeitos hepáticos, hematológicos, metabólicos, renais, tireoidianos e sinais de toxicidade.

Fonte: Adaptado de Stahl (2021), Volkmar e Wiesner (2019), Hyman, Levy e Myers (2020) e Wink et al. (2010).

Aspectos éticos no uso de estabilizadores de humor

O uso ético desses medicamentos exige que toda intervenção farmacológica possua finalidade clínica legítima e benefício funcional real. Estabilizadores de humor não devem ser utilizados apenas para sedação institucional, controle excessivo do comportamento ou conveniência do ambiente.

O objetivo clínico deve priorizar qualidade de vida, segurança emocional, redução de sofrimento, maior participação, melhor estabilidade funcional e ampliação das possibilidades de aprendizagem. A medicação deve beneficiar a pessoa atendida, e não apenas reduzir incômodos externos.

Também é necessário refletir sobre a avaliação funcional antes da introdução medicamentosa. Nem toda agressividade ou irritabilidade no TEA possui origem neuroquímica. Muitas vezes, comportamentos desafiadores estão relacionados a dificuldades comunicativas, dor física, sono inadequado, sobrecarga sensorial, ansiedade, demandas excessivas ou ambientes pouco adaptados.

Tabela 6 – Aspectos éticos no uso de estabilizadores de humor

Aspecto ético Importância clínica Exemplo adequado Risco a evitar
Avaliação multiprofissional Permite compreensão ampla do comportamento. Investigar dor, sono, epilepsia, ansiedade, comunicação e ambiente. Medicar sem compreender o contexto.
Monitoramento laboratorial Favorece segurança clínica. Realizar exames conforme orientação médica. Manter medicação sem controle clínico.
Participação familiar Amplia observação dos efeitos terapêuticos. Família registra sono, comportamento, apetite e disposição. Ignorar relatos do cotidiano.
Uso funcional da medicação Prioriza qualidade de vida e estabilidade emocional. Reduzir sofrimento e ampliar participação em atividades. Usar apenas para sedação ou controle institucional.
Integração terapêutica Favorece abordagem humanizada e individualizada. Combinar acompanhamento médico, ABA, família, escola e terapias. Isolar a medicação como única estratégia.

Fonte: Adaptado de Nicolov et al. (2006), Behavior Analyst Certification Board (2020), Hyman, Levy e Myers (2020), Cooper, Heron e Heward (2020) e McPheeters et al. (2011).

Estudo de caso

Marcos, 13 anos, possui diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista e deficiência intelectual associada. Desde a infância, apresenta dificuldades de comunicação funcional, baixa tolerância a mudanças e histórico de crises comportamentais intensas. Nos últimos meses, a família observou aumento importante de irritabilidade, agressividade contra objetos, episódios de autoagressão e instabilidade emocional ao longo do dia.

A escola relata que Marcos apresenta maior dificuldade para permanecer em atividades, alternando períodos de agitação intensa com sonolência e recusa. A família também refere piora do sono e episódios em que ele parece “desligar” por alguns segundos, o que gerou preocupação neurológica. A equipe de ABA registrou que parte das crises ocorre em situações de mudança de rotina, mas também observou piora súbita sem antecedente ambiental claro.

Após avaliação médica e neurológica, foi considerada a possibilidade de investigação de epilepsia e discussão sobre uso de estabilizador de humor ou anticonvulsivante, conforme resultados clínicos e laboratoriais. Paralelamente, a equipe manteve intervenção em comunicação funcional, rotina visual, adaptação sensorial, treino de tolerância a mudanças e registro sistemático de comportamento, sono e crises.

Tabela 7 – Análise didática do estudo de caso

Elemento do caso Interpretação clínica Conduta integrada Cuidado ético
Agressividade e autoagressão Sintomas graves com risco físico e prejuízo funcional. Avaliação médica, análise funcional e intervenção comportamental. Não medicar sem investigar função e condições clínicas.
Possíveis episódios de desligamento Podem sugerir necessidade de avaliação neurológica. Encaminhamento médico e investigação de epilepsia. Não interpretar automaticamente como desatenção ou oposição.
Piora do sono Pode intensificar irritabilidade e reduzir tolerância. Rotina de sono, avaliação médica e registro familiar. Investigar sono antes de concluir que há apenas instabilidade de humor.
Mudanças de rotina Podem funcionar como antecedentes para crises. Rotina visual, aviso prévio e treino de tolerância. Não substituir ensino de flexibilidade por sedação.
Possível uso de estabilizador Pode ser considerado se houver indicação clínica ou neurológica. Monitoramento médico, laboratorial e comportamental. Avaliar benefício funcional real e efeitos adversos.

Fonte: Adaptado de Hollander et al. (2010), Hyman, Levy e Myers (2020), Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley, Iwata e McCord (2003) e Stahl (2021).

Questões reflexivas

  1. Quais sinais do caso de Marcos justificam avaliação médica e neurológica?
  2. Por que a avaliação funcional continua necessária mesmo diante de sintomas graves?
  3. Quais medicamentos poderiam ser discutidos pela equipe médica em casos semelhantes?
  4. Quais efeitos adversos e exames precisam ser monitorados?
  5. Por que estabilizadores de humor não substituem ABA e estratégias de autorregulação?

Gabarito comentado

Na primeira questão, os sinais que justificam avaliação médica e neurológica incluem agressividade persistente, autoagressão, piora súbita de comportamento, alterações importantes do sono, períodos de aparente desligamento e instabilidade emocional intensa. Esses sinais exigem investigação de condições clínicas, neurológicas e psiquiátricas associadas.

Na segunda questão, a avaliação funcional continua necessária porque parte das crises ocorre diante de mudanças de rotina, indicando que há antecedentes ambientais envolvidos. Mesmo quando há hipótese neurológica ou farmacológica, o comportamento precisa ser analisado em relação ao contexto, comunicação, sensorialidade, sono e consequências.

Na terceira questão, a equipe médica poderia discutir estabilizadores de humor ou anticonvulsivantes, como ácido valproico, carbamazepina ou outros fármacos conforme hipótese diagnóstica, presença de epilepsia, instabilidade emocional, risco comportamental e perfil clínico. O lítio poderia ser considerado apenas em situações específicas e com monitoramento rigoroso.

Na quarta questão, devem ser monitorados sonolência, ganho de peso, tremores, alterações gastrointestinais, disposição, atenção, aprendizagem, comportamento, função hepática, hemograma, função renal, tireoide e níveis séricos quando indicados. O tipo de exame depende do medicamento utilizado.

Na quinta questão, estabilizadores de humor não substituem ABA porque não ensinam comunicação funcional, tolerância a mudanças, estratégias de enfrentamento, autorregulação, autonomia ou flexibilidade. A medicação pode reduzir intensidade de alguns sintomas, mas o desenvolvimento de habilidades depende de intervenção estruturada e suporte ambiental.

Encerramento da aula

Encerramos esta aula destacando que os estabilizadores de humor podem representar recurso clínico importante em determinados casos de TEA, especialmente quando há desregulação emocional grave, agressividade persistente, impulsividade intensa, epilepsia associada ou comorbidades específicas.

Compreendemos que ácido valproico, carbamazepina e lítio possuem mecanismos, indicações e riscos diferentes. Por isso, seu uso exige avaliação médica individualizada, definição clara de sintomas-alvo, monitoramento laboratorial e acompanhamento contínuo de efeitos terapêuticos e adversos.

Também vimos que a medicação não deve ser usada para sedação institucional ou controle excessivo do comportamento. O objetivo ético deve ser reduzir sofrimento, ampliar segurança, favorecer estabilidade emocional, melhorar participação e promover qualidade de vida.

Na próxima aula, aprofundaremos os ansiolíticos no TEA, discutindo ansiedade, crises emocionais, riscos de sedação, dependência, alternativas terapêuticas e integração com intervenções comportamentais.

Referências Bibliográficas

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