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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 2 – Avaliação de Comportamentos Prejudiciais

Olá, alunos. Tudo bem com vocês? Eu sou a professora Bárbara e, na aula de hoje, vamos avançar para um dos pilares mais importantes da prática clínica em ABA: a avaliação de comportamentos prejudiciais.

Se na aula anterior compreendemos a importância de fortalecer comportamentos adequados por meio do reforçamento positivo, agora precisamos dar um passo anterior à intervenção: aprender a observar, registrar e analisar o comportamento de forma técnica. Nenhuma intervenção eficaz começa pela técnica. Ela começa pela compreensão do comportamento.

Na prática, um dos erros mais comuns é intervir sem avaliar. Quando isso acontece, o profissional ou o cuidador age por tentativa e erro, baseando-se em impressões, emoções ou urgência. No entanto, o comportamento humano segue padrões, e esses padrões podem ser identificados quando observamos de forma sistemática.

Nesta aula, vamos aprender a definir comportamento, diferenciar descrição de interpretação, utilizar o modelo ABC e compreender como a avaliação orienta toda a intervenção.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

A avaliação comportamental é a base da intervenção. Antes de aplicar qualquer técnica, é necessário compreender o comportamento, descrevê-lo de forma objetiva, identificar seus antecedentes, observar suas consequências e levantar hipóteses sobre sua função.

Fonte: Adaptado de Baer, Wolf e Risley (1968), Carr e Durand (1985), Hanley (2012), Cooper, Heron e Heward (2020) e Lopes (2025).

O que é um comportamento prejudicial?

Chamamos de comportamento prejudicial aquele que interfere no desenvolvimento, na aprendizagem, na segurança ou na convivência da criança. Isso inclui comportamentos que podem causar dano físico, dificultar a participação social, impedir a aquisição de habilidades ou gerar sofrimento significativo para a criança, a família, a escola ou os profissionais envolvidos.

É importante destacar que o comportamento não é prejudicial por si só. Ele se torna prejudicial dentro de um contexto. Por exemplo, gritar pode ser uma forma de comunicação em uma situação de dor ou medo. Porém, se ocorre de forma frequente para evitar tarefas, acessar itens ou escapar de situações previsíveis, pode interferir no desenvolvimento da criança e precisar de avaliação cuidadosa.

Além disso, comportamentos prejudiciais podem ocorrer tanto por excesso quanto por déficit. Não apenas gritar, bater ou fugir são considerados problemas. Não responder, não pedir ajuda, não participar, não permanecer em atividades e não se comunicar também são comportamentos que interferem no desenvolvimento e precisam ser avaliados.

Tabela 1 – Tipos de comportamentos prejudiciais

Tipo Descrição Exemplo Possível Impacto
Comportamento por excesso Resposta que ocorre em frequência, intensidade ou duração elevada. Gritar, bater, chorar intensamente, fugir ou se jogar no chão. Pode comprometer segurança, aprendizagem e participação social.
Comportamento por déficit Ausência ou baixa frequência de uma habilidade necessária. Não pedir ajuda, não responder ao nome, não iniciar interação. Pode limitar autonomia, comunicação e desenvolvimento social.
Comportamento de risco Resposta que pode gerar dano físico à criança ou a terceiros. Autoagressão, agressão, fuga para rua ou escalada de móveis. Exige manejo imediato, avaliação funcional e plano de segurança.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley (2012), Hume et al. (2021) e Lopes (2025).

Definição operacional do comportamento

O primeiro passo para avaliar um comportamento é descrevê-lo de forma objetiva. Isso significa evitar interpretações e focar naquilo que pode ser observado. Em vez de dizer “a criança foi desobediente”, devemos descrever exatamente o que aconteceu: “a criança permaneceu sentada e não iniciou a atividade após o comando”.

A definição operacional permite que diferentes profissionais observem o mesmo comportamento e cheguem à mesma conclusão. Isso torna a avaliação mais confiável, facilita a coleta de dados e permite que a equipe planeje intervenções com maior precisão.

Quando descrevemos mal um comportamento, corremos o risco de intervir sobre uma interpretação, e não sobre um dado real. Termos como birra, manipulação, preguiça, teimosia ou oposição podem expressar uma opinião do adulto, mas não descrevem exatamente o que a criança fez. A prática comportamental exige descrições observáveis, mensuráveis e compartilháveis.

Caixa explicativa 2 – Descrever antes de interpretar

Uma boa avaliação começa quando o profissional troca julgamentos por descrições. Em vez de perguntar “por que ela está sendo difícil?”, pergunta-se: “o que exatamente ela fez, quando aconteceu, o que veio antes e o que aconteceu depois?”.

Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Baer, Wolf e Risley (1968), Cooper, Heron e Heward (2020) e Hanley (2012).

Tabela 2 – Diferença entre descrição e interpretação

Forma Inadequada Problema da Descrição Forma Adequada Vantagem Clínica
“Está fazendo birra.” É uma interpretação subjetiva. “Chorou, gritou e se jogou no chão por 3 minutos.” Permite medir duração, frequência e contexto.
“Está desobediente.” Não informa o que a criança fez. “Não iniciou a tarefa após três instruções.” Permite avaliar instrução, latência e resposta.
“Está agressivo.” É amplo e pouco específico. “Empurrou o colega com as duas mãos.” Permite identificar topografia e gravidade.
“Não quer aprender.” Atribui intenção sem evidência. “Afastou o material e virou o corpo após a apresentação da tarefa.” Permite investigar dificuldade, motivação ou função de fuga.

Fonte: Adaptado de Baer, Wolf e Risley (1968), Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley (2012) e Moreira e Medeiros (2019).

Modelo ABC: antecedente, comportamento e consequência

O modelo ABC é uma das ferramentas mais importantes da análise comportamental. Ele permite identificar padrões e compreender a função do comportamento. O objetivo não é apenas registrar o que aconteceu, mas compreender como o ambiente participa da ocorrência e da manutenção da resposta.

O antecedente é tudo aquilo que acontece antes do comportamento. Pode ser um comando, uma mudança de ambiente, uma exigência, um estímulo sensorial, uma espera, uma retirada de item, uma interação social ou uma transição. O comportamento é a resposta observável da criança. A consequência é o que acontece imediatamente após o comportamento e que pode aumentar ou diminuir sua frequência futura.

Ao registrar repetidamente antecedentes, comportamentos e consequências, a equipe começa a identificar padrões. Esses padrões são fundamentais para levantar hipóteses funcionais e planejar intervenções mais eficazes.

Tabela 3 – Exemplo de análise ABC

Antecedente Comportamento Consequência Hipótese Funcional
Adulto pede para guardar o brinquedo. Criança chora e se joga no chão. Adulto permite mais tempo de brincadeira. O comportamento pode estar sendo mantido por acesso ao brinquedo e fuga da transição.
Professora apresenta atividade de escrita. Criança afasta o caderno e chora. A atividade é retirada ou reduzida. O comportamento pode estar sendo mantido por fuga de tarefa difícil.
Adulto conversa com outra pessoa. Criança joga objetos no chão. Adulto olha, fala e se aproxima da criança. O comportamento pode estar sendo mantido por atenção.

Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Hanley (2012), Cooper, Heron e Heward (2020) e Lopes (2025).

Função do comportamento

A avaliação permite levantar hipóteses sobre a função do comportamento. Em geral, os comportamentos podem ocorrer para obter atenção, escapar de demandas, acessar objetos ou atividades, ou atender necessidades sensoriais. Identificar a função é essencial, pois comportamentos com a mesma aparência podem ter funções completamente diferentes.

Por exemplo, duas crianças podem chorar durante uma atividade. Uma pode chorar para fugir de uma tarefa difícil. Outra pode chorar para receber atenção do adulto. Se a intervenção for igual para ambas, provavelmente será ineficaz para uma delas. Por isso, a função orienta a intervenção.

Intervir sem considerar a função pode tornar o comportamento ainda mais forte. Se uma criança chora para fugir de uma tarefa e o adulto retira a atividade, o comportamento pode ser reforçado. Se uma criança grita para obter atenção e o adulto responde com longas explicações, o grito também pode ser reforçado. A avaliação funcional ajuda a evitar esse tipo de erro.

Caixa explicativa 3 – Mesma forma, funções diferentes

Dois comportamentos podem parecer iguais e ter funções diferentes. Por isso, não basta olhar para a topografia. É necessário investigar o que acontece antes e depois do comportamento.

Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Hanley (2012), Cooper, Heron e Heward (2020) e Wolf (1978).

Tabela 4 – Funções comuns do comportamento

Função Descrição Exemplo Direção Clínica
Atenção O comportamento produz aproximação, fala, olhar ou contato do adulto. A criança grita quando o adulto está falando com outra pessoa. Ensinar forma adequada de chamar atenção.
Fuga ou esquiva O comportamento remove, adia ou reduz uma demanda. A criança chora diante de atividade de escrita e a tarefa é retirada. Adaptar tarefa e ensinar pedir ajuda ou pausa.
Acesso a item ou atividade O comportamento produz acesso a algo desejado. A criança se joga no chão e recebe o celular. Ensinar pedido funcional e acesso planejado.
Sensorial ou automática O comportamento produz estimulação ou alívio sensorial. A criança balança o corpo, morde objetos ou tampa os ouvidos. Avaliar perfil sensorial e oferecer alternativas regulatórias.

Fonte: Adaptado de Carr e Durand (1985), Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley (2012), Hume et al. (2021) e Lopes (2025).

Estudo de caso clínico-pedagógico

Ana, 6 anos, apresentava episódios frequentes de choro intenso na escola durante atividades de escrita. A professora relatava que Ana “não queria fazer nada” e “chorava sem motivo”. Essa interpretação, embora compreensível diante da rotina escolar, não explicava o comportamento de forma técnica.

Após observação, a equipe identificou que o comportamento ocorria sempre após a solicitação de atividades que exigiam escrita manual. O comportamento incluía choro, recusa, afastamento da atividade e, em alguns momentos, colocar a cabeça sobre a mesa. Como consequência, a professora retirava a atividade, reduzia a quantidade de escrita ou oferecia ajuda excessiva.

A análise indicou que o comportamento tinha provável função de fuga de uma tarefa difícil. A escrita exigia coordenação motora fina, organização visuomotora, atenção sustentada e tolerância ao erro. Para Ana, a tarefa era mais difícil do que parecia para os adultos.

A intervenção incluiu adaptação da atividade, divisão da tarefa em pequenas etapas, ensino gradual da habilidade e reforçamento positivo para pequenas tentativas de participação. A equipe também orientou a professora a não retirar totalmente a atividade após o choro, mas ajustar a exigência e reforçar respostas alternativas, como pedir ajuda, solicitar pausa curta ou tentar uma pequena parte da tarefa.

Com o tempo, Ana passou a tolerar melhor as atividades e reduziu significativamente os episódios de choro. O caso demonstrou que a avaliação adequada permitiu sair da interpretação “não quer fazer nada” para uma hipótese funcional mais precisa: a criança estava escapando de uma tarefa difícil e precisava de ensino, apoio e adaptação.

Tabela 5 – Análise do caso de Ana

Situação Observada Análise Técnica Hipótese Funcional Intervenção Indicada
Choro durante atividades de escrita. O comportamento ocorria após solicitação de tarefa escrita. Fuga ou esquiva de tarefa difícil. Dividir a tarefa, adaptar demanda e reforçar tentativas.
Professora retirava a atividade. A consequência reduzia a exigência imediatamente. O choro podia estar sendo fortalecido pela retirada da demanda. Ensinar pedir ajuda ou pausa sem remover totalmente a tarefa.
Ana evitava iniciar a escrita. Havia possível dificuldade motora, atencional ou baixa tolerância ao erro. A tarefa exigia repertórios ainda frágeis. Ensino gradual, apoio visual e reforço positivo.

Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley (2012), Hume et al. (2021) e Lopes (2025).

Questões reflexivas

  1. Por que é importante diferenciar descrição de interpretação na avaliação comportamental?
  2. Explique a importância do modelo ABC na análise do comportamento.
  3. Uma criança chora sempre que recebe uma tarefa difícil e o adulto retira a atividade. Qual pode ser a função do comportamento?
  4. Por que não devemos intervir sem avaliação prévia?
  5. Comportamentos por déficit também devem ser avaliados? Justifique.

Gabarito comentado

Na primeira questão, o aluno deve explicar que a interpretação pode ser subjetiva e variar entre observadores. A descrição objetiva permite registrar o comportamento de forma precisa e confiável, facilitando a análise e o planejamento da intervenção. Em vez de afirmar que a criança “fez birra”, é necessário descrever o que ela fez, por quanto tempo, em qual contexto e após qual antecedente.

Na segunda questão, espera-se que o aluno explique que o modelo ABC permite identificar relações entre antecedente, comportamento e consequência. Essa análise ajuda a compreender padrões, levantar hipóteses sobre a função do comportamento e planejar intervenções mais eficazes. Sem o modelo ABC, o profissional pode focar apenas na aparência do comportamento e ignorar as variáveis ambientais que o mantêm.

Na terceira questão, o aluno deve afirmar que a função pode ser fuga ou esquiva da tarefa. Se a criança chora após receber uma atividade difícil e, como consequência, o adulto retira a tarefa, o choro pode ser reforçado porque permite evitar ou adiar a demanda. A intervenção deve ensinar respostas alternativas, como pedir ajuda, pedir pausa ou realizar a tarefa em etapas menores.

Na quarta questão, espera-se que o aluno explique que não devemos intervir sem avaliação prévia porque, sem compreender a função do comportamento, a intervenção pode ser ineficaz ou até reforçar o comportamento indesejado. A avaliação permite escolher estratégias coerentes com a necessidade da criança e evita decisões baseadas apenas em urgência, julgamento ou tentativa e erro.

Na quinta questão, o aluno deve justificar que comportamentos por déficit também devem ser avaliados, pois a ausência de habilidades interfere diretamente no desenvolvimento. Não pedir ajuda, não iniciar comunicação, não permanecer em atividades ou não responder a instruções são repertórios ausentes que precisam ser ensinados. Avaliar déficits permite planejar o ensino de habilidades alternativas e funcionais.

Encerramento da aula

Nesta aula, aprendemos que a avaliação é a base de toda intervenção comportamental. Compreendemos a importância de descrever comportamentos de forma objetiva, utilizar o modelo ABC e identificar possíveis funções antes de selecionar qualquer estratégia.

Também vimos que comportamentos prejudiciais não se limitam aos excessos, como gritar, chorar ou bater. Déficits de repertório, como não pedir ajuda, não se comunicar ou não tolerar demandas, também precisam ser avaliados, pois interferem diretamente na aprendizagem e na autonomia.

Na próxima aula, avançaremos para as estratégias de intervenção para comportamentos prejudiciais, transformando a análise em ação clínica estruturada.

Referências Bibliográficas

Baer, D. M.; Wolf, M. M.; Risley, T. R. Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 1, n. 1, p. 91-97, 1968. DOI: 10.1901/jaba.1968.1-91. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1968.1-91. Acesso em: 15 jun. 2026.

Carr, E. G.; Durand, V. M. Reducing behavior problems through functional communication training. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 18, n. 2, p. 111-126, 1985. DOI: 10.1901/jaba.1985.18-111. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1985.18-111. Acesso em: 15 jun. 2026.

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Hanley, G. P. Functional assessment of problem behavior: dispelling myths, overcoming implementation obstacles, and developing new lore. Behavior Analysis in Practice, v. 5, n. 1, p. 54-72, 2012. DOI: 10.1007/BF03391818. Disponível em: https://doi.org/10.1007/BF03391818. Acesso em: 15 jun. 2026.

Hume, K. et al. Evidence-based practices for children, youth, and young adults with autism: third generation review. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 51, n. 11, p. 4013-4032, 2021. DOI: 10.1007/s10803-020-04844-2. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10803-020-04844-2. Acesso em: 15 jun. 2026.

Moreira, M. B.; Medeiros, C. A. Princípios básicos de análise do comportamento. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.grupoa.com.br. Acesso em: 15 jun. 2026.

Skinner, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.bfskinner.org. Acesso em: 15 jun. 2026.

Wolf, M. M. Social validity: the case for subjective measurement or how applied behavior analysis is finding its heart. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 11, n. 2, p. 203-214, 1978. DOI: 10.1901/jaba.1978.11-203. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1978.11-203. Acesso em: 15 jun. 2026.

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