Aula 4 – Estratégias de Reforçamento Positivo
Olá, alunos. Tudo bem com vocês? Eu sou a professora Bárbara e, na aula de hoje, vamos aprofundar um dos conceitos mais centrais da Análise do Comportamento Aplicada: o reforçamento positivo. Se na aula inicial compreendemos o conceito, agora vamos avançar para a dimensão clínica, técnica e estratégica do seu uso.
Na prática, muitos profissionais afirmam utilizar reforçamento positivo, mas o fazem de maneira intuitiva, sem critérios claros de aplicação. Isso pode levar a erros importantes, como reforçar o comportamento inadequado, utilizar reforçadores sem função, depender excessivamente de recompensas artificiais ou perder o momento correto da intervenção. Por isso, nesta aula, vamos compreender como o reforçamento positivo é planejado, ajustado e analisado dentro de um programa de intervenção.
O reforçamento positivo precisa ser compreendido como uma ferramenta de ensino. Ele não existe apenas para “agradar” a criança, nem para fazer com que ela obedeça momentaneamente. Seu objetivo é fortalecer comportamentos importantes para o desenvolvimento, como comunicação funcional, permanência em atividade, tolerância à espera, participação social, autonomia e seguimento de instruções.
Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula
O reforçamento positivo é uma ferramenta clínica de ensino. Ele deve ser imediato, contingente, individualizado e planejado para fortalecer comportamentos funcionais. Reforçar não é premiar sem critério, mas aumentar a probabilidade de repertórios importantes para a vida da criança.
Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Baer, Wolf e Risley (1968), Cooper, Heron e Heward (2020), Leaf et al. (2016) e Lopes (2025).
Reforçamento positivo como ferramenta de ensino
O reforçamento positivo não é uma estratégia isolada. Ele é uma ferramenta de ensino. Seu objetivo não é apenas aumentar comportamentos, mas construir repertórios que a criança ainda não possui. Isso significa que ele deve estar sempre vinculado a um objetivo claro de desenvolvimento.
Por exemplo, quando reforçamos uma criança por pedir ajuda, não estamos apenas “premiando” o comportamento. Estamos ensinando uma habilidade de comunicação funcional que pode substituir comportamentos interferentes como choro, agressão, fuga ou recusa. Quando reforçamos a criança por permanecer sentada por alguns segundos, estamos construindo gradualmente uma habilidade de permanência e engajamento em atividade.
Esse ponto é fundamental: o reforçamento positivo deve estar ligado a comportamentos-alvo bem definidos. Se o profissional não sabe exatamente qual comportamento deseja fortalecer, o reforço pode ser entregue de forma confusa e produzir pouco efeito. Por isso, antes de reforçar, é necessário definir: qual comportamento será reforçado? Em qual contexto? Com qual consequência? Com que frequência? Como o reforço será reduzido ao longo do tempo?
Tabela 1 – Elementos essenciais do reforçamento positivo clínico
| Elemento | Descrição | Aplicação Clínica | Risco Quando Mal Aplicado |
|---|---|---|---|
| Imediaticidade | O reforço ocorre logo após o comportamento esperado. | Elogiar imediatamente quando a criança pede ajuda de forma adequada. | A criança pode não associar o reforço ao comportamento correto. |
| Contingência | O reforço depende da emissão da resposta-alvo. | Reforçar apenas quando a criança realiza a tentativa combinada. | O reforço pode ser entregue sem relação com a resposta desejada. |
| Valor reforçador | A consequência precisa ter valor para aquela criança. | Usar itens, atividades ou elogios que realmente motivem o aluno. | O comportamento pode não aumentar se o item não for reforçador. |
| Clareza | A criança deve perceber qual comportamento foi reforçado. | Dizer: “Você esperou sua vez, muito bem”. | O elogio genérico pode não ensinar o que deve ser repetido. |
Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020), Kazdin (2013) e Lopes (2025).
Programação de reforço e progressão
O reforçamento positivo precisa ser programado. No início da aprendizagem, costuma-se utilizar reforçamento contínuo, reforçando todas as respostas corretas ou aproximações relevantes do comportamento esperado. Isso facilita a aquisição inicial, pois a criança entra em contato frequente com a consequência que fortalece sua resposta.
À medida que o comportamento se fortalece, o profissional deve passar para esquemas de reforçamento intermitente. Isso significa que nem todas as respostas serão reforçadas da mesma forma. Esse processo é essencial para a manutenção e para a generalização, pois aproxima o comportamento das contingências naturais do cotidiano.
Na vida real, nem sempre recebemos reforço imediato para cada comportamento adequado. Uma criança não receberá um brinquedo toda vez que permanecer sentada, nem um elogio a cada segundo em que espera. Por isso, o reforçamento precisa evoluir: primeiro ajuda a adquirir a habilidade, depois ajuda a estabilizá-la e, por fim, deve ser substituído por consequências naturais.
Caixa explicativa 2 – O reforço precisa evoluir
No início, reforçamos com mais frequência para ensinar. Depois, reduzimos gradualmente para evitar dependência. O objetivo final é que a criança responda às consequências naturais do ambiente, como comunicar-se melhor, participar da atividade, receber atenção adequada e experimentar maior autonomia.
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Kazdin (2013), Leaf et al. (2016) e Lopes (2025).
Tabela 2 – Programação de reforço na intervenção
| Fase | Tipo de Reforço | Objetivo | Exemplo Clínico |
|---|---|---|---|
| Inicial | Contínuo | Aquisição da habilidade. | Reforçar todas as vezes que a criança aponta para pedir água. |
| Intermediária | Intermitente | Estabilização do comportamento. | Reforçar algumas respostas independentes, variando elogio, acesso e atenção. |
| Avançada | Natural | Generalização e manutenção. | A criança pede água e recebe água como consequência natural. |
Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Cooper, Heron e Heward (2020), Kazdin (2013) e Lopes (2025).
Reforçamento diferencial e construção de repertórios
Na gestão de comportamentos interferentes, uma das formas mais importantes de uso do reforçamento positivo é o reforçamento diferencial. Ele consiste em reforçar determinados comportamentos e não reforçar outros, de acordo com o objetivo clínico. O profissional pode reforçar comportamentos alternativos, incompatíveis, aproximações sucessivas ou períodos sem ocorrência do comportamento interferente.
Por exemplo, se uma criança costuma gritar para receber atenção, o adulto pode reforçar quando ela chama pelo nome, toca no braço ou usa uma figura para pedir ajuda. Nesse caso, não basta ignorar o grito. É necessário ensinar e reforçar uma alternativa funcional. O reforçamento diferencial direciona a criança para o comportamento que queremos desenvolver.
Outro exemplo ocorre quando a criança apresenta dificuldade para permanecer em atividade. Em vez de exigir imediatamente 20 minutos sentada, o profissional começa reforçando 30 segundos, depois 1 minuto, depois 2 minutos. Esse processo utiliza modelagem e reforçamento positivo para construir gradualmente uma habilidade que ainda não estava consolidada.
Tabela 3 – Formas de reforçamento diferencial
| Tipo | Descrição | Exemplo | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Reforçamento de comportamento alternativo | Reforça uma resposta adequada que cumpre a mesma função do comportamento interferente. | Reforçar o pedido “ajuda” em vez do choro. | Substituição por comunicação funcional. |
| Reforçamento de comportamento incompatível | Reforça um comportamento que não pode ocorrer ao mesmo tempo que o comportamento-alvo inadequado. | Reforçar mãos ocupadas em atividade quando a criança costuma jogar objetos. | Redução indireta do comportamento interferente. |
| Reforçamento de aproximações sucessivas | Reforça pequenos avanços até alcançar o comportamento final. | Reforçar 10 segundos sentado, depois 30 segundos, depois 1 minuto. | Construção gradual da habilidade. |
| Reforçamento de baixa frequência | Reforça a redução gradual de um comportamento que ainda ocorre em excesso. | Reforçar quando a criança interrompe menos vezes durante a roda. | Diminuição progressiva da frequência. |
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Kazdin (2013), Hanley (2012) e Lopes (2025).
Cuidados clínicos no uso do reforçamento positivo
Embora seja uma estratégia poderosa, o reforçamento positivo exige cuidado. Um dos principais erros é utilizar reforçadores como barganha. Quando o adulto diz “se você parar de gritar, eu dou o tablet”, pode acabar reforçando o comportamento anterior de gritar, dependendo do momento em que a consequência é entregue. O reforço deve ser organizado para fortalecer o comportamento adequado, não apenas para interromper a crise.
Outro erro comum é manter reforçadores artificiais por tempo excessivo. Itens tangíveis podem ser úteis no início, principalmente quando a criança ainda tem baixo engajamento. No entanto, o plano deve prever o esvanecimento desses reforçadores e a introdução gradual de consequências naturais e sociais.
Também é importante evitar o reforçamento acidental. Isso ocorre quando o adulto, sem perceber, fortalece comportamentos inadequados. Por exemplo, se a criança se recusa a fazer uma tarefa e o adulto retira a atividade imediatamente, a recusa pode ser reforçada pela fuga da demanda. Nesse caso, a intervenção precisa ensinar uma resposta alternativa, como pedir ajuda, pedir pausa ou realizar a atividade em etapas.
Caixa explicativa 3 – Reforçar não é negociar crise
O reforçamento positivo deve fortalecer comportamentos adequados, não funcionar como pagamento para a criança parar uma crise. A consequência precisa estar ligada ao comportamento que se deseja ensinar.
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Hanley (2012), Kazdin (2013) e Lopes (2025).
Estudo de caso clínico-pedagógico
Marcos, 6 anos, diagnóstico de TEA nível 2 de suporte, apresentava dificuldade significativa em permanecer sentado durante atividades estruturadas em sala de aula. A professora relatava que Marcos levantava constantemente, circulava pela sala, tocava objetos e interrompia colegas, o que comprometia seu processo de aprendizagem e o andamento da aula.
A observação revelou que Marcos conseguia permanecer sentado por curtos períodos, mas não por tempo suficiente para concluir atividades. Sempre que se levantava, recebia atenção da professora, seja por correção, orientação ou tentativa de redirecionamento. Isso indicava que o comportamento poderia estar sendo mantido, em parte, por atenção social.
A equipe compreendeu que não seria adequado simplesmente exigir que Marcos permanecesse sentado por longos períodos de imediato. Essa exigência poderia aumentar fuga, agitação e resistência. A intervenção foi planejada com foco em reforçamento positivo diferencial e modelagem gradual da permanência em atividade.
Inicialmente, qualquer permanência sentada, mesmo que breve, era imediatamente reforçada com elogio específico e acesso curto a uma atividade de interesse. A professora dizia: “Marcos, você ficou sentado e começou a atividade, muito bem”. Esse elogio era acompanhado de uma consequência significativa, como escolher uma peça, participar de uma pequena brincadeira ou receber atenção positiva breve.
Foi estabelecido um critério inicial de poucos segundos de permanência. À medida que Marcos conseguia atingir esse critério, o tempo era aumentado gradualmente. Primeiro 20 segundos, depois 40 segundos, depois 1 minuto, até que ele conseguisse permanecer por períodos maiores. Esse processo utilizou aproximações sucessivas, sustentadas pelo reforçamento positivo.
Também houve mudança na resposta da professora quando Marcos se levantava. Em vez de oferecer longas correções verbais, ela passou a redirecionar com instruções breves e reforçar rapidamente o retorno ao comportamento esperado. Assim, a atenção deixou de aparecer principalmente após a interrupção e passou a ser entregue de forma mais clara quando Marcos permanecia engajado.
Com o tempo, o reforço foi sendo reduzido e substituído por consequências naturais, como participação em atividades coletivas, conclusão de tarefas curtas e maior autonomia. Após algumas semanas, observou-se aumento significativo do tempo de permanência e redução das interrupções.
Esse caso demonstra que o reforçamento positivo, quando bem planejado, não apenas reduz comportamentos interferentes, mas constrói habilidades fundamentais para o desenvolvimento. Marcos não foi apenas “controlado”; ele foi ensinado a participar de uma atividade com mais autonomia e previsibilidade.
Tabela 4 – Análise do estudo de caso de Marcos
| Situação Observada | Análise Funcional | Estratégia Utilizada | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Marcos levantava durante atividades. | Possível busca de atenção e dificuldade de permanência. | Reforçamento diferencial da permanência sentada. | Aumentar tempo de engajamento. |
| Recebia atenção intensa ao interromper. | A atenção podia fortalecer a interrupção. | Redirecionamento breve e atenção positiva para comportamento adequado. | Reduzir reforçamento acidental. |
| Não conseguia permanecer por longos períodos. | Habilidade ainda não consolidada. | Modelagem por aproximações sucessivas. | Construção gradual da permanência. |
| Dependia de reforços frequentes no início. | Fase inicial de aquisição. | Reforçamento contínuo com posterior redução. | Manutenção e generalização. |
Fonte: Adaptado de Cooper, Heron e Heward (2020), Kazdin (2013), Hanley (2012) e Lopes (2025).
Questões reflexivas
- Um profissional utiliza reforçadores apenas após comportamentos perfeitos, ignorando tentativas iniciais da criança. Analise criticamente essa prática.
- Por que o reforçamento contínuo não deve ser mantido indefinidamente?
- Uma criança só realiza atividades quando há promessa de recompensa. O que isso indica sobre o uso do reforçamento?
- Qual é a importância de utilizar elogios específicos no reforçamento positivo?
- Por que o reforçamento positivo é considerado uma estratégia ética na intervenção?
Gabarito comentado
Na primeira questão, o aluno deve explicar que essa prática pode dificultar a aprendizagem, pois ignora o princípio das aproximações sucessivas. Em processos iniciais, o reforço deve ocorrer também diante de respostas parciais, desde que representem avanço em direção ao comportamento-alvo. Exigir desempenho perfeito pode gerar frustração, esquiva e aumento de comportamentos interferentes.
Na segunda questão, espera-se que o aluno explique que o reforçamento contínuo não deve ser mantido indefinidamente porque pode gerar dependência de reforçadores artificiais. O objetivo do ensino não é que a criança responda apenas quando recebe reforço imediato, mas que o comportamento se mantenha em condições naturais. A transição para reforçamento intermitente favorece manutenção e generalização.
Na terceira questão, o aluno deve analisar que pode haver uso inadequado do reforçamento, especialmente quando há ausência de fading ou dependência de recompensas externas. Clinicamente, isso indica necessidade de reorganizar o programa de reforço, introduzindo variabilidade, redução gradual dos reforçadores artificiais e aproximação com consequências naturais.
Na quarta questão, espera-se que o aluno explique que elogios específicos aumentam a clareza da contingência. Quando o adulto diz “muito bem por esperar sua vez”, a criança entende exatamente qual comportamento está sendo reforçado. Isso favorece aprendizagem discriminativa e aumenta a probabilidade de repetição do comportamento adequado.
Na quinta questão, o aluno deve explicar que o reforçamento positivo é considerado ético porque promove ensino de habilidades sem recorrer a punições ou coerção. Ele valoriza o comportamento adequado, fortalece repertórios funcionais e respeita o processo de aprendizagem da criança. Essa abordagem está alinhada a práticas baseadas em evidência e a uma intervenção humanizada.
Encerramento da aula
Nesta aula, aprofundamos o uso do reforçamento positivo como ferramenta clínica estruturada. Compreendemos que reforçar é ensinar, e que esse processo exige planejamento, análise e progressão. Também vimos que o reforçamento deve ser imediato, contingente, individualizado e articulado a objetivos funcionais.
O reforçamento positivo, quando bem aplicado, não torna a criança dependente de prêmios. Pelo contrário, ele constrói repertórios que aumentam comunicação, autonomia, permanência, participação e flexibilidade. Seu uso clínico exige sensibilidade, técnica e acompanhamento contínuo.
Na próxima aula, avançaremos para o estudo do reforçamento negativo, ampliando nossa compreensão sobre as contingências que mantêm comportamentos e sobre como diferenciar reforçamento negativo de punição.
Referências Bibliográficas
Baer, D. M.; Wolf, M. M.; Risley, T. R. Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 1, n. 1, p. 91-97, 1968. DOI: 10.1901/jaba.1968.1-91. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1968.1-91. Acesso em: 15 jun. 2026.
Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Hanley, G. P. Functional assessment of problem behavior: dispelling myths, overcoming implementation obstacles, and developing new lore. Behavior Analysis in Practice, v. 5, n. 1, p. 54-72, 2012. DOI: 10.1007/BF03391818. Disponível em: https://doi.org/10.1007/BF03391818. Acesso em: 15 jun. 2026.
Kazdin, A. E. Behavior modification in applied settings. 7. ed. Long Grove: Waveland Press, 2013. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.waveland.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
Leaf, J. B. et al. Applied behavior analysis is a science and, therefore, progressive. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 46, p. 720-731, 2016. DOI: 10.1007/s10803-015-2591-6. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10803-015-2591-6. Acesso em: 15 jun. 2026.
Skinner, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.bfskinner.org. Acesso em: 15 jun. 2026.
“`
