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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 8 – Extinção

Olá, aluno! Seja muito bem-vindo à Aula 8 do Módulo 3. Nesta aula, estudaremos um dos procedimentos mais importantes da Análise do Comportamento Aplicada (ABA): a extinção. Embora seja frequentemente confundida com punição ou com o simples ato de ignorar comportamentos, a extinção possui fundamentos científicos específicos e deve ser aplicada com planejamento, monitoramento e responsabilidade ética.

Segundo Skinner (1953), a extinção ocorre quando um comportamento que anteriormente produzia uma consequência reforçadora deixa de produzir essa consequência. Como resultado, a frequência desse comportamento tende a diminuir ao longo do tempo. Em outras palavras, a extinção consiste na interrupção do reforço que mantém determinado comportamento.

Para compreender a extinção, é necessário recordar um princípio fundamental da ABA: comportamentos são influenciados por suas consequências. Quando uma criança obtém atenção ao gritar, escapa de uma tarefa ao chorar ou consegue acesso a um brinquedo após uma birra, essas consequências podem fortalecer o comportamento.

1. O que é extinção?

Extinção é o procedimento pelo qual se interrompe a consequência reforçadora que mantinha determinado comportamento. A partir dessa interrupção, espera-se que o comportamento diminua gradualmente de frequência, intensidade ou duração.

Entretanto, a extinção não significa ignorar qualquer comportamento de forma indiscriminada. Para aplicá-la corretamente, é necessário saber qual consequência mantém a resposta. Um comportamento mantido por atenção exige um procedimento diferente de um comportamento mantido por fuga, acesso a itens ou reforçamento automático.

Caixa explicativa 1 – Extinção não é simplesmente ignorar

A extinção consiste em interromper o reforçador que mantém o comportamento. Em alguns casos, isso pode envolver retirar atenção; em outros, impedir fuga de demanda, acesso a itens ou outras consequências específicas.

Fonte: Adaptado de Skinner (1953); Cooper, Heron e Heward (2020).

2. A importância da função do comportamento

De acordo com Cooper, Heron e Heward (2020), qualquer intervenção baseada em ABA deve considerar a função do comportamento antes de implementar procedimentos de redução comportamental. A identificação da função ocorre por meio da análise funcional.

Iwata et al. (1994) demonstraram que muitos comportamentos problemáticos são mantidos por quatro funções principais: obtenção de atenção, acesso a itens tangíveis, fuga ou esquiva de demandas e reforçamento automático.

Um erro comum consiste em acreditar que todos os comportamentos podem ser tratados da mesma forma. Duas crianças podem gritar, mas uma pode gritar para obter atenção, enquanto outra grita para escapar de uma tarefa difícil. Embora a forma do comportamento seja semelhante, sua função pode ser diferente.

Tabela 1 – Conceitos fundamentais da extinção

Conceito Definição Importância clínica
Extinção Interrupção da consequência reforçadora que mantém um comportamento. Favorece a redução de comportamentos interferentes.
Explosão de extinção Aumento temporário da frequência, intensidade ou duração do comportamento. Exige consistência da equipe.
Recuperação espontânea Retorno temporário do comportamento após período de redução. Não significa necessariamente falha da intervenção.
Reforçamento diferencial Reforçamento de comportamentos alternativos e mais adaptativos. Ensina novas formas de comunicação e adaptação.

Fonte: Adaptado de Skinner (1953), Lerman e Iwata (1995) e Cooper, Heron e Heward (2020).

3. Explosão de extinção

Um dos fenômenos mais conhecidos associados à extinção é a explosão de extinção. Segundo Lerman e Iwata (1995), quando um comportamento deixa de produzir a consequência que historicamente o reforçava, é comum ocorrer um aumento temporário de sua frequência, intensidade ou duração.

Imagine uma criança que sempre recebeu atenção ao gritar. Quando os pais deixam de responder aos gritos, a criança pode inicialmente gritar mais alto ou por mais tempo. Esse aumento inicial não significa que a intervenção está errada. Pode ser parte esperada do processo de extinção.

No entanto, se os adultos cedem durante a explosão de extinção, o comportamento pode se tornar ainda mais resistente. Por isso, a consistência é fundamental.

4. Recuperação espontânea

Outro fenômeno importante é a recuperação espontânea. Catania (2013) explica que comportamentos previamente extintos podem reaparecer temporariamente após um período sem ocorrência.

Esse retorno não significa, necessariamente, que a intervenção falhou. Trata-se de um processo natural da aprendizagem e geralmente ocorre com intensidade inferior à observada anteriormente.

Caixa explicativa 2 – O comportamento pode piorar antes de melhorar

Durante a extinção, pode ocorrer aumento inicial do comportamento. Por isso, a equipe precisa estar preparada, agir com consistência e reforçar comportamentos alternativos adequados.

Fonte: Adaptado de Lerman e Iwata (1995).

5. Extinção e reforçamento diferencial

Na prática clínica moderna, a extinção raramente é utilizada de forma isolada. Pesquisas indicam que sua combinação com procedimentos de reforçamento diferencial produz melhores resultados.

Em vez de apenas reduzir comportamentos inadequados, o profissional ensina respostas alternativas que permitam ao indivíduo alcançar os mesmos objetivos de forma socialmente apropriada. Carr e Durand (1985) demonstraram que comportamentos problemáticos podem diminuir significativamente quando são substituídos por formas adequadas de comunicação.

Essa estratégia ficou conhecida como Treinamento de Comunicação Funcional e tornou-se uma das intervenções mais utilizadas na ABA contemporânea.

6. Estudos de caso

Estudo de caso 1 – Comportamento mantido por atenção

Uma criança de 7 anos apresentava gritos frequentes durante atividades escolares. Sempre que os gritos ocorriam, professores interrompiam suas atividades para conversar com ela, pedir silêncio ou tentar acalmá-la.

Após observações sistemáticas, a equipe identificou que os gritos ocorriam principalmente quando a atenção dos adultos estava direcionada para outras crianças. A análise funcional indicou que o comportamento era mantido por reforço positivo na forma de atenção social.

A intervenção consistiu em reduzir a atenção fornecida aos gritos e aumentar o reforçamento de formas adequadas de solicitar interação, como levantar a mão ou chamar o professor pelo nome. Nas primeiras semanas ocorreu explosão de extinção, mas a equipe manteve consistência. Após aproximadamente um mês, observou-se redução significativa dos episódios e aumento dos comportamentos apropriados de comunicação.

Estudo de caso 2 – Comportamento mantido por escape

Um adolescente de 12 anos com TEA apresentava comportamento de empurrar materiais escolares sempre que recebia atividades consideradas difíceis. Em casa e na escola, os adultos frequentemente retiravam a tarefa para evitar conflitos. Com o tempo, o comportamento tornou-se cada vez mais frequente.

A avaliação funcional revelou que a função do comportamento era escapar das demandas acadêmicas. A intervenção utilizou extinção de fuga. Quando o adolescente empurrava os materiais, a atividade permanecia disponível. Simultaneamente, ele foi ensinado a solicitar ajuda verbalmente.

Inicialmente ocorreu aumento da resistência, mas os profissionais mantiveram o plano. Após algumas semanas, os pedidos de ajuda aumentaram significativamente e os comportamentos de fuga diminuíram.

Estudo de caso 3 – Comportamento mantido por acesso a itens tangíveis

Uma criança de 6 anos apresentava crises intensas quando os pais negavam acesso imediato ao tablet. Frequentemente, para interromper o choro, os responsáveis entregavam o dispositivo. Como consequência, as crises tornaram-se mais frequentes e intensas.

A equipe identificou que o comportamento era mantido pelo acesso ao item desejado. Os pais foram orientados a interromper a entrega do tablet após as crises e reforçar pedidos adequados. Também foram introduzidas atividades para ensinar tolerância à espera.

Durante as primeiras semanas ocorreu explosão de extinção. Contudo, com consistência e apoio profissional, as crises diminuíram gradualmente. Ao final da intervenção, a criança conseguia solicitar o tablet de forma adequada e esperar períodos determinados para utilizá-lo.

Tabela 2 – Comparação dos estudos de caso

Caso Função do comportamento Procedimento Comportamento alternativo Resultado
1 Atenção. Extinção da atenção. Pedido adequado de interação. Redução dos gritos.
2 Escape. Extinção de fuga. Solicitação de ajuda. Maior participação acadêmica.
3 Acesso a item tangível. Extinção do acesso. Pedido funcional e tolerância à espera. Redução das crises.

Fonte: Adaptado de Iwata et al. (1994), Carr e Durand (1985), Lerman e Iwata (1995) e Cooper, Heron e Heward (2020).

7. Cuidados éticos na aplicação da extinção

Do ponto de vista ético, a aplicação da extinção exige cautela. Procedimentos de redução comportamental devem ser utilizados apenas quando necessários e sempre acompanhados do ensino de habilidades adaptativas. A dignidade, a segurança e a qualidade de vida da pessoa atendida devem permanecer como prioridades.

Além disso, a extinção não é indicada para todos os comportamentos. Respostas que envolvem risco à integridade física do indivíduo ou de terceiros exigem avaliação especializada e estratégias adicionais de proteção.

Nesses casos, o profissional deve considerar alternativas baseadas em prevenção, manejo ambiental, comunicação funcional e fortalecimento de repertórios adaptativos.

8. Questões

  1. O que é extinção em ABA?
  2. Por que extinção não significa apenas ignorar?
  3. Qual é a importância da função do comportamento?
  4. Quais são as principais funções dos comportamentos problemáticos?
  5. O que é explosão de extinção?
  6. O que é recuperação espontânea?
  7. Por que a extinção deve ser combinada com reforçamento diferencial?
  8. O que é Treinamento de Comunicação Funcional?
  9. Quais cuidados éticos são necessários na aplicação da extinção?
  10. Por que a consistência da equipe é fundamental?

Gabarito comentado

Extinção é a interrupção da consequência reforçadora que mantinha determinado comportamento.

Extinção não significa apenas ignorar porque depende da função do comportamento. Em alguns casos, a consequência mantenedora não é atenção, mas fuga, acesso a itens ou reforçamento automático.

A função do comportamento é importante porque orienta a escolha correta da intervenção.

As principais funções são atenção, acesso a itens tangíveis, fuga ou esquiva de demandas e reforçamento automático.

Explosão de extinção é o aumento temporário da frequência, intensidade ou duração do comportamento quando ele deixa de produzir o reforçador habitual.

Recuperação espontânea é o retorno temporário de um comportamento previamente reduzido ou extinto.

A extinção deve ser combinada com reforçamento diferencial para ensinar respostas alternativas mais adequadas.

Treinamento de Comunicação Funcional é uma intervenção que ensina formas adequadas de comunicação para substituir comportamentos problemáticos.

Os cuidados éticos incluem proteger a segurança, respeitar a dignidade da pessoa, evitar procedimentos coercitivos e ensinar habilidades adaptativas.

A consistência é fundamental porque respostas inconsistentes podem fortalecer o comportamento e torná-lo mais resistente à mudança.

9. Fechamento

Nesta aula, estudamos a extinção como procedimento científico da ABA. Compreendemos que ela ocorre quando um comportamento deixa de produzir a consequência reforçadora que antes o mantinha.

Também vimos que a extinção exige análise funcional, planejamento, consistência e ensino simultâneo de habilidades alternativas. Quando aplicada corretamente, pode favorecer o desenvolvimento de formas mais adequadas de comunicação, interação social e autonomia.

Na próxima aula, estudaremos a discriminação, compreendendo como o indivíduo aprende a responder de maneira diferente diante de estímulos distintos e como esse processo é essencial para a aprendizagem adaptativa.

Referências Bibliográficas

Carr, E. G.; Durand, V. M. Reducing behavior problems through functional communication training. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 18, n. 2, p. 111-126, 1985. DOI: 10.1901/jaba.1985.18-111.

Catania, C. A. Learning. 5. ed. Cornwall-on-Hudson: Sloan Publishing, 2013.

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020.

Hanley, G. P.; Iwata, B. A.; McCord, B. E. Functional analysis of problem behavior: a review. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 36, n. 2, p. 147-185, 2003. DOI: 10.1901/jaba.2003.36-147.

Iwata, B. A. et al. Toward a functional analysis of self-injury. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 27, n. 2, p. 197-209, 1994. DOI: 10.1901/jaba.1994.27-197.

Lerman, D. C.; Iwata, B. A. Prevalence of the extinction burst and its attenuation during treatment. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 28, n. 1, p. 93-94, 1995. DOI: 10.1901/jaba.1995.28-93.

Skinner, B. F. Science and human behavior. New York: Macmillan, 1953.