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Aula Introdutória da Pós-graduação em ABA
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Pós-Graduação em ABA 360h – Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo

Aula 8 – Interpretação dos Resultados do ABLLS-R

1. Introdução

Olá, alunos. Na aula anterior, estudamos a estrutura e os componentes do ABLLS-R, compreendendo que esse protocolo organiza diferentes áreas do desenvolvimento, como linguagem, aprendizagem, habilidades sociais, autonomia, repertórios acadêmicos e habilidades motoras. Agora, vamos avançar para uma etapa essencial: a interpretação dos resultados do ABLLS-R.

Aplicar o protocolo e preencher as pontuações é apenas uma parte do trabalho. O ponto mais importante está em compreender o que esses dados revelam sobre o repertório da criança. Interpretar o ABLLS-R significa transformar informações avaliativas em decisões clínicas, educacionais e familiares. É nesse momento que o profissional deixa de apenas registrar respostas e passa a construir um plano de intervenção mais funcional, individualizado e coerente com as necessidades reais da criança.

Caixa explicativa 1 – Ideia central da aula

Interpretar o ABLLS-R é transformar pontuações em raciocínio clínico. O profissional precisa analisar o que a criança faz, em quais condições faz, com quanta independência realiza e como essas habilidades aparecem na vida diária.

Fonte: Adaptado de Partington (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Martone (2017).

2. O que significa interpretar o ABLLS-R

Interpretar o ABLLS-R não significa olhar para uma pontuação isolada. O profissional precisa observar o conjunto das áreas avaliadas, identificar habilidades preservadas, lacunas, repertórios emergentes e habilidades que ainda dependem de ajuda. O objetivo não é simplesmente dizer que a criança sabe ou não sabe algo, mas compreender como ela responde, em quais condições responde e qual o próximo passo de ensino.

Uma criança pode apresentar bom desempenho em linguagem expressiva, mas dificuldades importantes em autocuidado. Pode reconhecer letras e números, mas não conseguir seguir instruções em grupo. Pode emparelhar figuras com facilidade, mas não pedir ajuda quando precisa. Por isso, a interpretação precisa considerar o perfil global do repertório, e não apenas uma área de bom desempenho.

A interpretação também exige cuidado para diferenciar habilidade adquirida, habilidade emergente e resposta dependente de ajuda. Uma criança que realiza uma tarefa apenas quando o adulto aponta, repete a instrução ou conduz fisicamente a resposta ainda não domina plenamente aquela habilidade. Esse dado não deve ser ignorado, pois orienta o planejamento da retirada gradual de prompts e o fortalecimento da independência.

3. Identificação de áreas fortes e áreas deficitárias

O primeiro passo da interpretação é identificar quais áreas estão mais desenvolvidas e quais apresentam maior déficit. As áreas fortes não devem ser vistas apenas como pontos positivos, mas como recursos para o ensino. Se a criança tem bom desempenho visual, por exemplo, o profissional pode usar pistas visuais, rotinas ilustradas, pareamento e materiais estruturados para ensinar habilidades mais frágeis.

Já as áreas deficitárias indicam prioridades possíveis de intervenção. No entanto, nem todo déficit deve ser trabalhado ao mesmo tempo. O profissional precisa analisar quais habilidades terão maior impacto funcional naquele momento. Em geral, habilidades relacionadas à comunicação, autonomia, cooperação, participação social e comportamento de aprendizagem devem receber atenção prioritária.

Tabela 1 – Leitura clínica das áreas avaliadas no ABLLS-R

Área observada O que interpretar Direção possível para intervenção
Cooperação e reforçador Se a criança aceita instruções, espera, responde ao adulto e mantém engajamento. Fortalecer controle instrucional, tolerância à espera e variedade de reforçadores.
Linguagem receptiva Se compreende instruções, nomes de objetos, gestos e comandos em diferentes contextos. Ensinar seguimento de instruções simples, depois instruções mais complexas e coletivas.
Linguagem expressiva Se a criança pede, nomeia, responde perguntas e usa linguagem funcionalmente. Ampliar mandos, tatos, intraverbais e comunicação espontânea.
Autonomia Se realiza atividades de vida diária com independência. Ensinar rotinas por análise de tarefas, prompts e retirada gradual de ajuda.

Fonte: Elaborado com base em Partington (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Martone (2017).

Caixa explicativa 2 – Área forte não significa desenvolvimento global

Uma criança pode ter bom desempenho em uma área, como nomeação ou emparelhamento visual, e ainda apresentar déficits importantes em comunicação funcional, autonomia, socialização ou comportamento de aprendizagem. A interpretação precisa olhar o conjunto.

Fonte: Adaptado de Partington (2006) e Cooper, Heron e Heward (2020).

4. Frequência, consistência e independência

Um erro comum na interpretação é considerar uma habilidade como adquirida apenas porque a criança a realizou uma vez. No ABLLS-R, o profissional precisa observar frequência, consistência e independência. Uma resposta ocasional não representa domínio. Uma resposta que ocorre apenas com ajuda também não indica aquisição plena.

Frequência diz respeito a quantas vezes o comportamento ocorre. Consistência mostra se ele se mantém em diferentes oportunidades. Independência indica se a criança realiza a habilidade sem ajuda verbal, gestual, física ou visual. Esses três aspectos ajudam o profissional a evitar conclusões precipitadas.

Tabela 2 – Critérios para interpretar uma habilidade no ABLLS-R

Critério Pergunta orientadora Risco de interpretação inadequada
Frequência A criança emite essa resposta várias vezes ou apenas uma vez? Superestimar uma habilidade que apareceu de forma isolada.
Consistência A resposta aparece em diferentes situações e materiais? Confundir desempenho de sessão com repertório consolidado.
Independência A criança faz sozinha ou depende de prompts? Registrar como adquirida uma resposta ainda dependente de ajuda.

Fonte: Elaborado com base em Partington (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Baer, Wolf e Risley (1968).

5. Interpretação funcional dos dados

A interpretação funcional busca responder a uma pergunta central: o que essa habilidade representa na vida real da criança? Uma criança que nomeia figuras pode não conseguir pedir aquilo que deseja. Uma criança que reconhece números pode não conseguir esperar sua vez. Uma criança que emparelha objetos pode não conseguir organizar seus materiais escolares. Por isso, a interpretação precisa ir além da pontuação.

O profissional deve analisar se a habilidade avaliada possui função no cotidiano. Quando uma habilidade não aparece fora do contexto estruturado, pode haver dificuldade de generalização. Quando ocorre apenas com ajuda, pode haver dependência de prompt. Quando aparece apenas diante de reforçadores muito fortes, pode haver baixa tolerância à demanda ou baixa variedade de reforçadores.

6. Definição de prioridades a partir dos resultados

Depois de interpretar os resultados, o profissional precisa definir prioridades. O ABLLS-R apresenta muitas habilidades, mas isso não significa que todas devem ser ensinadas simultaneamente. A escolha deve considerar funcionalidade, pré-requisitos, impacto na vida diária e possibilidade de generalização.

Em uma criança com baixa comunicação funcional, os objetivos de mando podem ser prioritários. Em uma criança que já se comunica, mas não realiza atividades básicas de autocuidado, a autonomia pode se tornar foco central. Em uma criança inserida na escola, mas com dificuldade em seguir instruções coletivas, as habilidades de grupo e rotinas de classe podem ser mais urgentes.

Tabela 3 – Da interpretação à prioridade clínica

Dado observado Interpretação clínica Prioridade possível
Nomeia objetos, mas não pede ajuda. Linguagem expressiva presente, mas comunicação funcional limitada. Ensinar mandos e pedidos de ajuda.
Segue instruções individuais, mas não coletivas. Déficit em resposta a grupo e rotina escolar. Ensinar instruções em grupo e participação em sala.
Realiza tarefa apenas com ajuda verbal. Dependência de prompt. Planejar retirada gradual de ajuda.
Reconhece figuras, mas não organiza materiais. Área visual preservada, mas autonomia frágil. Usar apoio visual para ensinar organização.

Fonte: Elaborado com base em Partington (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Martone (2017).

7. Estudo de caso

Laura, 8 anos, foi avaliada pelo ABLLS-R após dois anos de intervenção em ABA. A família relatava que ela havia avançado bastante na fala. Conseguia nomear objetos, responder perguntas simples, pedir alimentos preferidos e identificar figuras em livros. No entanto, ainda apresentava muitas dificuldades em casa e na escola.

Em casa, Laura dependia da mãe para iniciar quase todas as rotinas. Precisava de ajuda para escovar os dentes, separar a roupa, guardar os brinquedos e organizar a mochila. Quando a mãe dava uma instrução com dois passos, como “pegue o sapato e coloque perto da porta”, Laura frequentemente realizava apenas a primeira parte ou se distraía no caminho.

Na escola, a professora relatava que Laura respondia bem em atividades individuais, mas apresentava baixo desempenho em grupo. Quando a turma recebia uma instrução coletiva, ela esperava que a professora se aproximasse e repetisse a instrução individualmente. Também tinha dificuldade para esperar sua vez em jogos, compartilhar materiais e manter-se em tarefas com menor apoio.

Ao interpretar os resultados do ABLLS-R, a equipe observou que Laura apresentava repertório relativamente bom em nomeação e algumas respostas intraverbais simples. No entanto, havia déficits importantes em linguagem receptiva mais complexa, instruções em grupo, rotinas de classe, autonomia e generalização.

A interpretação dos dados mostrou que a intervenção anterior havia fortalecido principalmente habilidades verbais em contexto estruturado. Laura sabia responder, mas ainda não usava muitas dessas habilidades de forma funcional em contextos naturais. Isso indicava que o planejamento precisava ser reorganizado.

A equipe definiu como prioridades: seguir instruções de dois passos, responder a instruções coletivas, completar uma rotina visual de higiene, organizar a mochila com menos ajuda, esperar sua vez em jogos simples e generalizar pedidos funcionais para casa e escola. Também foi planejada a retirada gradual de prompts, pois Laura dependia muito da repetição da instrução pelo adulto.

Esse caso mostra que interpretar o ABLLS-R exige olhar para o repertório de forma integrada. Se a equipe observasse apenas a linguagem expressiva, poderia concluir que Laura estava evoluindo bem. Mas, ao analisar o protocolo como um todo, percebeu que havia lacunas funcionais importantes. A avaliação, portanto, permitiu reorganizar a intervenção para que ela se tornasse mais útil na vida diária da criança.

Tabela 4 – Interpretação do caso Laura

Área Dado identificado Interpretação Prioridade
Linguagem expressiva Nomeia objetos e responde perguntas simples. Repertório presente, mas ainda restrito a contextos estruturados. Ampliar uso funcional em casa e escola.
Linguagem receptiva Dificuldade em instruções de dois passos. Compreensão ainda limitada para demandas cotidianas. Ensinar instruções graduais e naturais.
Rotinas de classe Espera instrução individual após comando coletivo. Dependência de mediação adulta. Treinar resposta a instruções coletivas.
Autonomia Depende da mãe para higiene, mochila e organização. Baixa independência funcional. Ensinar rotinas visuais e encadeamento.
Generalização Habilidades aparecem melhor em sessão individual. Repertório pouco transferido para ambientes naturais. Planejar prática em casa e escola.

Fonte: Elaborado com base em Partington (2006), Cooper, Heron e Heward (2020) e Martone (2017).

8. Questões

  1. Uma criança avaliada pelo ABLLS-R apresenta boa pontuação em nomeação de objetos, mas baixa pontuação em seguir instruções, rotinas de classe e autonomia. Considerando a interpretação funcional dos resultados, explique por que não é adequado afirmar que essa criança possui desenvolvimento global satisfatório apenas porque fala bem.
  2. Durante a avaliação, uma criança realiza determinada habilidade apenas quando o terapeuta fornece ajuda gestual. Sem essa ajuda, ela não responde. Analise como esse dado deve ser interpretado e quais cuidados o profissional deve tomar antes de considerar a habilidade adquirida.
  3. Uma equipe decide iniciar objetivos acadêmicos de leitura e escrita porque a criança tem idade escolar. No entanto, o ABLLS-R mostra dificuldades em permanecer em tarefa, seguir instruções simples e responder a reforçadores sociais. Com base nos dados, discuta por que a idade cronológica não deve ser o principal critério para definir prioridades.
  4. Uma criança demonstra uma habilidade durante a sessão individual, mas não apresenta o mesmo comportamento em casa nem na escola. A família relata que ela só responde quando está diante dos mesmos materiais usados pelo terapeuta. Explique o que esse dado revela sobre generalização e como ele deve influenciar o planejamento.
  5. Ao interpretar o ABLLS-R, o profissional identifica que a criança possui bom desempenho visual, mas baixa comunicação funcional e baixa autonomia. Explique como uma área forte pode ser usada no planejamento sem mascarar os déficits existentes.

Gabarito comentado

Na primeira questão, espera-se que o aluno compreenda que a fala, embora importante, não representa sozinha o desenvolvimento global da criança. Nomear objetos indica um repertório de linguagem expressiva, especialmente relacionado ao tato, mas não garante compreensão de instruções, participação em grupo, independência em rotinas ou autonomia na vida diária. O ABLLS-R permite justamente identificar esse tipo de perfil irregular. Nesse caso, o planejamento deve usar a linguagem preservada como recurso, mas priorizar habilidades funcionais que ampliem independência, participação escolar e qualidade de vida.

Na segunda questão, o aluno deve indicar que a resposta ainda pode estar sob controle do prompt, e não do estímulo natural da tarefa. Quando a criança depende de ajuda gestual, verbal ou física, a habilidade ainda não está plenamente independente. Considerá-la adquirida seria um erro, pois o desempenho não se mantém sem suporte. O profissional deve registrar essa dependência, planejar retirada gradual de prompts e criar oportunidades para respostas independentes.

Na terceira questão, espera-se que o aluno compreenda que a idade cronológica pode indicar expectativas sociais e escolares, mas não deve substituir a análise do repertório real da criança. Se ela ainda não permanece em tarefa, não segue instruções simples e não responde bem ao contexto de ensino, iniciar diretamente leitura e escrita pode produzir frustração, fuga e baixa aprendizagem. A prioridade deve ser fortalecer comportamento de aprendizagem, cooperação, seguimento de instruções, tolerância à demanda e engajamento.

Na quarta questão, o aluno deve explicar que a habilidade está restrita a condições específicas de ensino. A criança responde na sessão, com determinados materiais e possivelmente sob controle de estímulos muito particulares, mas não transfere esse repertório para contextos naturais. Isso revela falha de generalização. O planejamento deve incluir variação de materiais, pessoas, ambientes e formas de instrução, além do envolvimento da família e da escola.

Na quinta questão, espera-se que o aluno compreenda que uma área forte deve ser usada como apoio para o ensino, mas não deve ocultar as dificuldades da criança. Se ela possui bom desempenho visual, o profissional pode utilizar rotinas visuais, cartões de comunicação, sequências ilustradas e materiais estruturados para ensinar comunicação e autonomia. No entanto, esse bom desempenho não significa que a criança esteja globalmente desenvolvida. A interpretação precisa reconhecer tanto os recursos quanto os déficits.

9. Fechamento

Nesta aula, aprendemos que interpretar os resultados do ABLLS-R exige uma leitura cuidadosa, funcional e integrada. O profissional precisa observar áreas fortes, déficits, frequência, consistência, independência, generalização e impacto das habilidades na vida diária da criança.

Também compreendemos que a pontuação isolada não é suficiente. O mais importante é transformar os dados em decisões clínicas e educacionais. Uma boa interpretação permite definir prioridades, ajustar estratégias e construir intervenções mais funcionais.

Na próxima aula, avançaremos para o planejamento de intervenções com base no ABLLS-R, compreendendo como transformar essa interpretação em objetivos de ensino claros, mensuráveis e aplicáveis na clínica, na escola e no cotidiano familiar.

Referências Bibliográficas

Baer, D. M.; Wolf, M. M.; Risley, T. R. Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 1, n. 1, p. 91-97, 1968. DOI: 10.1901/jaba.1968.1-91. Disponível em: https://doi.org/10.1901/jaba.1968.1-91. Acesso em: 15 jun. 2026.

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied behavior analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020. DOI: não se aplica. Disponível em: https://www.pearson.com. Acesso em: 15 jun. 2026.

Martone, M. C. C. Tradução e adaptação do verbal behavior milestones assessment and placement program (VB-MAPP) para a língua portuguesa e a efetividade do treino de habilidades comportamentais para qualificar profissionais. Tese de doutorado. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2017. DOI: não se aplica. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br. Acesso em: 15 jun. 2026.

Partington, J. W. The assessment of basic language and learning skills – revised: ABLLS-R. Pleasant Hill: Behavior Analysts, 2006. DOI: não se aplica. Disponível em: https://partingtonbehavioranalysts.com. Acesso em: 15 jun. 2026.