Aula 14 – OXIGENOTERAPIA E DISPOSITIVOS BÁSICOS DE VENTILAÇÃO
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
A oxigenoterapia e o suporte ventilatório constituem recursos importantes no atendimento pré-hospitalar de pacientes com comprometimento respiratório. No Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, SAMU, esses recursos são utilizados em diferentes situações clínicas e traumáticas, sempre de acordo com a avaliação do paciente, os protocolos assistenciais e as competências dos profissionais envolvidos. O objetivo da assistência respiratória não é simplesmente administrar oxigênio a todas as pessoas atendidas. O profissional deve identificar sinais de comprometimento da oxigenação ou ventilação, selecionar o dispositivo apropriado, acompanhar a resposta clínica e modificar a assistência quando necessário. A avaliação começa pelas vias aéreas e pela respiração. Frequência respiratória, esforço ventilatório, expansão do tórax, nível de consciência, coloração da pele e saturação periférica de oxigênio, quando disponível, fornecem informações importantes sobre a condição respiratória. 14.1 Avaliação inicial da respiração Antes de instalar qualquer dispositivo, a equipe deve avaliar o paciente. Durante o componente B do ABCDE, observa-se se existe respiração espontânea e se ela parece adequada. Devem ser avaliados frequência, profundidade, regularidade, expansão torácica e esforço respiratório. Uso de musculatura acessória, dificuldade para falar frases completas, alteração importante da frequência respiratória, redução do nível de consciência e outros sinais de deterioração devem ser valorizados. A oximetria de pulso complementa essa avaliação, mas não substitui o exame clínico. Um paciente pode apresentar importante esforço respiratório antes de uma redução acentuada da saturação. Da mesma maneira, uma leitura inadequada do oxímetro pode produzir valores incompatíveis com a situação clínica. 14.2 O que é oxigenoterapia Oxigenoterapia é a administração suplementar de oxigênio com finalidade terapêutica. Embora seja amplamente utilizado nas emergências, o oxigênio deve ser considerado um tratamento e empregado quando indicado. O objetivo é corrigir ou prevenir hipoxemia e manter oxigenação adequada às necessidades do paciente, observando as metas previstas nos protocolos para cada situação clínica. A quantidade administrada depende do dispositivo, fluxo utilizado, padrão respiratório e características individuais do paciente. A equipe deve acompanhar a resposta ao tratamento e evitar tanto oferta insuficiente quanto administração excessiva e desnecessária. 14.3 Oximetria de pulso O oxímetro de pulso estima de maneira não invasiva a saturação periférica de oxigênio, SpO₂. O sensor pode ser colocado em local adequado, frequentemente em um dedo, desde que existam condições para leitura confiável. Movimentação, tremores, baixa perfusão periférica, posicionamento inadequado e outras condições podem interferir no resultado. Por isso, o número apresentado deve ser comparado com o estado clínico. A saturação também precisa ser reavaliada após intervenções. Quando o oxigênio é iniciado ou sua oferta modificada, o profissional deve observar se houve melhora clínica e mudança dos parâmetros monitorados. 14.4 Cânula nasal A cânula nasal, também chamada de cateter nasal, é um dispositivo utilizado para oferta suplementar de oxigênio em pacientes que mantêm respiração espontânea. É composta por pequenas extensões posicionadas nas narinas e conectadas ao sistema de oxigênio. Uma vantagem é permitir maior conforto e possibilitar que o paciente fale durante sua utilização. Entretanto, a concentração efetivamente inspirada pode variar conforme o fluxo, padrão ventilatório e características individuais. A cânula nasal não é adequada para substituir suporte ventilatório quando o paciente apresenta ventilação espontânea insuficiente. A escolha deve ser baseada na necessidade clínica, e não apenas na disponibilidade do dispositivo. 14.5 Máscara simples A máscara facial simples é outra possibilidade de administração de oxigênio. Ela cobre boca e nariz e permite fornecer concentração de oxigênio superior à obtida em determinadas situações com cânula nasal. Para funcionar adequadamente, precisa receber fluxo suficiente conforme especificações do dispositivo, evitando reinalação inadequada do gás expirado. O profissional deve observar adaptação da máscara, conforto e tolerância do paciente. Pacientes com náuseas, vômitos, alterações importantes da consciência ou incapacidade de proteger as vias aéreas necessitam de atenção especial, pois uma máscara não resolve problemas relacionados à proteção das vias aéreas. 14.6 Máscara com reservatório A máscara com reservatório é utilizada quando se deseja fornecer concentração elevada de oxigênio a um paciente que ainda apresenta respiração espontânea. Possui uma bolsa reservatória associada à máscara. Para utilização adequada, o reservatório deve permanecer suficientemente insuflado durante a respiração. O fluxo precisa ser ajustado conforme o dispositivo e a necessidade clínica. O profissional deve verificar continuamente se o sistema está funcionando corretamente. A máscara com reservatório oferece oxigênio, mas não realiza ventilação pelo paciente. Se a respiração espontânea se tornar inadequada ou ausente, será necessário suporte ventilatório. Essa diferença é essencial. 14.7 Bolsa-válvula-máscara A bolsa-válvula-máscara, BVM, é um dos principais dispositivos de ventilação no atendimento pré-hospitalar. É utilizada quando o paciente não respira ou apresenta ventilação espontânea insuficiente. O equipamento é composto por bolsa autoinflável, válvulas, máscara e possibilidade de conexão a uma fonte de oxigênio e reservatório. Ao comprimir a bolsa, o profissional fornece uma ventilação com pressão positiva. A técnica exige treinamento. A máscara precisa produzir vedação adequada sobre a face. Vazamentos podem reduzir significativamente a quantidade de ar fornecida ao paciente. A ventilação deve ser suficiente para produzir elevação visível do tórax, evitando volumes e frequências excessivos. 14.8 Técnica com dois profissionais Quando há profissionais suficientes, a ventilação com BVM pode ser mais eficaz com duas pessoas. Um profissional utiliza as duas mãos para manter a máscara firmemente adaptada à face e auxiliar na manutenção da abertura das vias aéreas. O segundo comprime a bolsa. Essa organização pode melhorar a vedação e a ventilação, especialmente em pacientes nos quais é difícil manter a máscara adequadamente posicionada. Durante o procedimento, deve-se observar elevação torácica e resposta clínica. Se o tórax não se eleva, é necessário verificar posicionamento das vias aéreas, vedação da máscara, funcionamento do equipamento e possibilidade de obstrução. 14.9 Ventilação durante a RCP Na parada cardiorrespiratória, quando não existe via aérea avançada instalada, a RCP no adulto utiliza a relação de 30 compressões para duas ventilações. Cada ventilação deve produzir elevação visível do tórax. A hiperventilação deve ser evitada. Ventilações excessivamente rápidas ou com volumes elevados podem aumentar a pressão intratorácica e prejudicar aspectos da circulação produzida durante a RCP. Quando uma via aérea avançada está adequadamente instalada, a organização das compressões e ventilações modifica-se conforme o protocolo de ressuscitação utilizado. 14.10 Dispositivos básicos para manutenção das vias aéreas Além dos dispositivos de oxigenação e ventilação, a equipe pode utilizar recursos básicos destinados a auxiliar na manutenção da permeabilidade das vias aéreas. A cânula orofaríngea pode ser empregada em pacientes inconscientes sem reflexo de proteção adequado, conforme avaliação e treinamento. Seu tamanho deve ser selecionado corretamente. A introdução inadequada pode provocar complicações e não deve ser realizada de maneira automática. A cânula nasofaríngea representa outra possibilidade em situações específicas, devendo ser consideradas suas indicações e contraindicações. Esses dispositivos auxiliam na manutenção da via aérea, mas não substituem avaliação contínua. 14.11 Aspiração das vias aéreas Sangue, secreções ou vômitos podem comprometer a passagem de ar e dificultar a ventilação. Quando indicado, equipamentos de aspiração podem ser utilizados para remover esses materiais. A técnica deve ser realizada de forma adequada, evitando aspiração prolongada e manipulações desnecessárias. Após o procedimento, vias aéreas, respiração e oxigenação precisam ser novamente avaliadas. A recorrência de secreções ou vômitos exige vigilância permanente. 14.12 Cuidados com cilindros de oxigênio O oxigênio utilizado nas ambulâncias geralmente é armazenado em cilindros sob pressão. Esses cilindros precisam permanecer corretamente fixados e protegidos contra impactos. Óleos, graxas e materiais inflamáveis não devem entrar em contato com componentes do sistema de oxigênio. Também deve existir atenção ao volume disponível antes e durante o transporte. A equipe precisa conhecer o sistema presente na ambulância e verificar rotineiramente suas condições de funcionamento. Oxigênio favorece a combustão. Portanto, seu uso próximo a chamas, faíscas ou outras fontes de ignição representa risco. 14.13 Riscos da oxigenoterapia inadequada A administração de oxigênio não é isenta de riscos. O uso excessivo e sem indicação pode ser inadequado em determinadas condições clínicas. Por isso, sempre que possível, a oferta deve ser ajustada conforme a necessidade do paciente e as metas estabelecidas pelo protocolo. Também podem ocorrer problemas relacionados aos dispositivos, como desconforto, ressecamento, deslocamento da máscara e falhas no sistema. O profissional deve avaliar continuamente o benefício obtido. A expressão “quanto mais oxigênio, melhor” não constitui princípio adequado de assistência. 14.14 Atuação da equipe de enfermagem Técnico de enfermagem e enfermeiro participam diretamente da oxigenoterapia e do suporte ventilatório no SAMU, respeitando suas respectivas competências. O técnico pode instalar e acompanhar dispositivos de oxigenoterapia, auxiliar ou realizar ventilação com BVM conforme capacitação, preparar equipamentos, monitorar o paciente e comunicar alterações. O enfermeiro realiza avaliação de enfermagem, estabelece prioridades assistenciais, presta cuidados ao paciente grave, supervisiona a equipe e executa intervenções de maior complexidade dentro de sua competência e dos protocolos institucionais. A resposta do paciente deve ser documentada e comunicada. A oxigenoterapia e a ventilação básica, portanto, não consistem apenas em escolher uma máscara ou conectar um cilindro. A assistência começa pela avaliação da necessidade respiratória, passa pela seleção correta do dispositivo e continua com monitorização e reavaliação. Cânula nasal, máscaras, máscara com reservatório e bolsa-válvula-máscara possuem funções diferentes e precisam ser utilizadas de acordo com a condição do paciente. A equipe deve reconhecer especialmente a diferença entre oxigenar e ventilar: fornecer oxigênio a um paciente que respira espontaneamente é diferente de produzir ventilação em uma pessoa cuja respiração é ausente ou insuficiente. Compreender essa distinção é fundamental para a segurança e a qualidade do atendimento pré-hospitalar.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
American Heart Association. Basic Life Support e Advanced Cardiovascular Life Support, 2020; Ministério da Saúde, protocolos de urgência.
