Aula 37 – Hipoglicemia e Hiperglicemia
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
As emergências relacionadas às alterações da glicemia são frequentes no atendimento pré-hospitalar e podem ocorrer tanto em pessoas com diagnóstico conhecido de diabetes mellitus quanto em indivíduos sem história prévia da doença. Entre as situações mais importantes estão a hipoglicemia, a cetoacidose diabética e o estado hiperosmolar hiperglicêmico. Essas condições apresentam mecanismos diferentes e exigem reconhecimento rápido, avaliação sistematizada e intervenções compatíveis com a gravidade do paciente. A glicose é uma das principais fontes de energia para o organismo, especialmente para o sistema nervoso central. Alterações importantes de sua concentração sanguínea podem comprometer o funcionamento cerebral, o equilíbrio hidroeletrolítico e a circulação. Por esse motivo, a glicemia capilar constitui uma avaliação importante diante de alterações inexplicadas do nível de consciência, convulsões, fraqueza, confusão ou outros sinais compatíveis com distúrbios metabólicos. 37.1 Hipoglicemia A hipoglicemia corresponde à redução da concentração de glicose no sangue. Em pessoas com diabetes, considera-se geralmente como nível de alerta uma glicemia inferior a 70 mg/dL, embora a intensidade dos sintomas e sua relação com o valor medido possam variar. Entre as causas estão administração excessiva de insulina ou outros medicamentos capazes de reduzir a glicemia, atraso ou ausência de refeições, atividade física acima do habitual e consumo de álcool. Outras condições clínicas também podem provocar hipoglicemia. O reconhecimento rápido é importante porque o cérebro depende continuamente de glicose para seu funcionamento. Quando a redução é acentuada ou prolongada, podem ocorrer alterações neurológicas graves. 37.2 Manifestações da hipoglicemia Os sintomas podem surgir rapidamente. Inicialmente, o organismo pode produzir respostas autonômicas, levando a sudorese, tremores, palpitações, fome, ansiedade e sensação de fraqueza. Com a redução da disponibilidade de glicose para o sistema nervoso central, podem aparecer dificuldade de concentração, comportamento incomum, confusão mental, alteração da fala, sonolência, déficit neurológico, convulsões e perda da consciência. Alguns pacientes, principalmente aqueles com episódios recorrentes, podem apresentar poucos sinais de alerta antes de desenvolver manifestações neurológicas. A hipoglicemia também pode simular outras emergências, inclusive acidente vascular cerebral. Por esse motivo, a glicemia deve ser verificada precocemente em pacientes com déficit neurológico ou alteração do nível de consciência. 37.3 Atendimento da hipoglicemia A abordagem inicial deve avaliar vias aéreas, respiração, circulação e estado neurológico. Em seguida, quando possível, realiza-se a glicemia capilar. Quando o paciente está consciente, colaborativo e consegue engolir com segurança, carboidrato de absorção rápida por via oral pode ser utilizado conforme protocolo assistencial. Após a administração, a glicemia e a condição clínica devem ser reavaliadas. A recuperação dos sintomas é tão importante quanto a alteração do valor glicêmico. Pacientes com consciência reduzida ou incapacidade de proteger as vias aéreas não devem receber alimentos, líquidos ou soluções açucaradas por via oral, devido ao risco de broncoaspiração. Nesses casos, o tratamento pode envolver glicose por via intravenosa ou glucagon quando indicado e disponível, de acordo com protocolos, prescrição e competências profissionais. 37.4 Cuidados após a correção A normalização da glicemia não encerra automaticamente o atendimento. É necessário identificar, quando possível, a causa do episódio. Deve-se investigar qual medicamento o paciente utiliza, horário da última dose, última refeição, atividade física recente, consumo de álcool e ocorrência de episódios anteriores. Alguns medicamentos hipoglicemiantes podem provocar episódios prolongados ou recorrentes. Dessa maneira, o paciente necessita de acompanhamento e avaliação adequada conforme a situação clínica. Também é necessário considerar traumatismos decorrentes de quedas ou convulsões ocorridas durante a hipoglicemia. 37.5 Hiperglicemia A hiperglicemia corresponde à elevação da glicose sanguínea. Diferentemente da hipoglicemia, seus sintomas frequentemente apresentam desenvolvimento mais gradual. Sede excessiva, aumento da frequência urinária, fraqueza, perda de peso, desidratação e alterações do nível de consciência podem ocorrer. Valores elevados isoladamente não permitem determinar a gravidade da situação. O profissional deve avaliar o quadro clínico completo e procurar sinais de complicações metabólicas. Entre as principais emergências hiperglicêmicas estão a cetoacidose diabética e o estado hiperosmolar hiperglicêmico. 37.6 Cetoacidose diabética A cetoacidose diabética é uma complicação grave caracterizada pela deficiência de insulina, hiperglicemia, produção aumentada de corpos cetônicos e acidose metabólica. Pode ocorrer em pessoas com diabetes tipo 1 e também em determinadas situações envolvendo diabetes tipo 2. Infecções, interrupção ou uso inadequado da insulina, doenças agudas e outras condições podem desencadear o quadro. Os pacientes podem apresentar poliúria, polidipsia, desidratação, fraqueza, náuseas, vômitos e dor abdominal. A respiração pode tornar-se profunda e rápida, padrão frequentemente denominado respiração de Kussmaul, como resposta à acidose metabólica. Pode ocorrer alteração característica do hálito relacionada à presença de cetonas, embora sua ausência não exclua o diagnóstico. 37.7 Estado hiperosmolar hiperglicêmico O estado hiperosmolar hiperglicêmico caracteriza-se por hiperglicemia acentuada, hiperosmolaridade e desidratação importante, geralmente com cetose ausente ou menos significativa que na cetoacidose diabética. É observado com maior frequência em pessoas com diabetes tipo 2, especialmente idosos, embora o diagnóstico definitivo dependa da avaliação clínica e laboratorial. A evolução costuma ser mais gradual. O paciente pode apresentar sede intensa, poliúria inicial, desidratação, fraqueza e alterações neurológicas. Confusão, sonolência, convulsões e coma podem ocorrer nos quadros graves. 37.8 Avaliação pré-hospitalar da hiperglicemia A equipe deve avaliar sinais vitais, glicemia, estado neurológico, padrão respiratório e sinais de desidratação. A história clínica deve investigar diagnóstico de diabetes, medicamentos utilizados, uso de insulina, última dose administrada, alimentação, episódios de vômitos e possíveis sinais de infecção. É importante observar que o diagnóstico definitivo da cetoacidose diabética e do estado hiperosmolar depende de exames laboratoriais que geralmente não estão disponíveis no ambiente pré-hospitalar. Portanto, o objetivo é reconhecer a possibilidade de emergência metabólica, iniciar suporte adequado e encaminhar o paciente para avaliação hospitalar. 37.9 Reposição de líquidos e medicamentos Pacientes com emergências hiperglicêmicas frequentemente apresentam déficit significativo de líquidos devido à diurese osmótica. A reposição intravenosa de fluidos pode integrar o tratamento inicial conforme quadro clínico, protocolo institucional e orientação médica. Entretanto, volume e velocidade devem considerar condições individuais, principalmente em pacientes com insuficiência cardíaca ou renal. A insulinoterapia exige controle cuidadoso e acompanhamento laboratorial, especialmente do potássio. Por essa razão, seu uso no ambiente pré-hospitalar depende estritamente do protocolo e da estrutura assistencial existente. Não se deve administrar insulina de maneira empírica simplesmente diante de um valor elevado de glicemia. 37.10 Alterações do nível de consciência Tanto a hipoglicemia quanto as emergências hiperglicêmicas podem causar alteração da consciência. Nesses pacientes, a proteção das vias aéreas é prioritária. Devem ser observados padrão respiratório, presença de vômitos, secreções e capacidade de manutenção dos reflexos protetores. Quando necessário, devem ser realizadas aspiração e medidas de suporte ventilatório. A avaliação neurológica deve ser repetida após qualquer intervenção, especialmente após a correção de hipoglicemia. 37.11 Atuação do enfermeiro O enfermeiro participa da avaliação sistematizada, identificação dos sinais de gravidade, monitorização e definição das prioridades assistenciais dentro de suas competências. Pode realizar ou supervisionar a verificação da glicemia capilar, estabelecer acesso vascular quando indicado, administrar medicamentos e soluções prescritos ou previstos em protocolos e avaliar a resposta às intervenções. Os registros devem incluir glicemia inicial, horários das verificações, manifestações clínicas, tratamentos realizados e valores encontrados nas reavaliações. 37.12 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa da verificação e registro dos sinais vitais, realização da glicemia capilar conforme protocolo, monitorização e preparação dos materiais necessários. Também pode administrar medicamentos e soluções conforme prescrição, protocolo e regulamentação profissional, observando a resposta do paciente e comunicando imediatamente alterações ao enfermeiro e à equipe responsável. Em pacientes com redução da consciência, deve auxiliar na manutenção das vias aéreas e prevenção de broncoaspiração. 37.13 Transporte e reavaliação Durante o transporte, a glicemia deve ser reavaliada quando clinicamente indicada, especialmente após tratamento de hipoglicemia. O nível de consciência, sinais vitais, respiração e perfusão devem permanecer sob observação. Na passagem do caso, devem ser informados valores glicêmicos, sintomas apresentados, antecedentes de diabetes, medicamentos utilizados, tratamento realizado e resposta clínica. 37.14 Considerações finais As alterações glicêmicas exigem avaliação rápida e sistematizada. A hipoglicemia merece atenção imediata porque pode produzir rapidamente alterações neurológicas graves e possui tratamento específico quando reconhecida. A hiperglicemia, por sua vez, deve ser interpretada no contexto clínico. Cetoacidose diabética e estado hiperosmolar são emergências metabólicas graves que frequentemente envolvem desidratação, alterações eletrolíticas e comprometimento neurológico. No atendimento pré-hospitalar, a prioridade consiste em reconhecer essas condições, avaliar glicemia, manter vias aéreas, respiração e circulação adequadas, corrigir hipoglicemia quando indicada, evitar administração oral em pacientes com consciência comprometida e encaminhar adequadamente os casos de hiperglicemia grave. Enfermeiros e técnicos de enfermagem desempenham papel essencial na identificação dessas alterações, execução segura das intervenções, monitorização e reavaliação contínua. A glicemia é um dado importante, mas nunca deve ser interpretada isoladamente: o tratamento seguro depende da associação entre o valor encontrado, as manifestações clínicas e o estado geral do paciente.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
American Heart Association. Basic Life Support e Advanced Cardiovascular Life Support, 2020; Ministério da Saúde, protocolos de urgência.
