Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 53 – Princípios de Salvamento e Atuação Integrada com Equipes de Resgate

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a princípios de salvamento e atuação integrada com equipes de resgate no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

Conteúdo da aula

O atendimento pré-hospitalar frequentemente ocorre em ambientes que apresentam riscos adicionais aos encontrados no atendimento convencional. Acidentes de trânsito, desabamentos, incêndios, quedas de altura, ocorrências em locais de difícil acesso, acidentes industriais e eventos envolvendo produtos perigosos podem exigir operações de salvamento antes que a equipe de saúde consiga acessar e tratar a vítima. Nessas situações, assistência médica e salvamento são atividades complementares, mas possuem responsabilidades específicas. A equipe de saúde deve reconhecer seus limites técnicos e atuar de forma integrada com bombeiros e demais profissionais especializados. Nenhuma intervenção clínica justifica expor profissionais a um cenário que ainda não esteja seguro. 53.1 Conceito de salvamento Salvamento corresponde ao conjunto de procedimentos destinados a localizar, acessar, proteger e retirar uma pessoa de uma situação que represente risco à vida ou à integridade física. Pode envolver acidentes automobilísticos, estruturas colapsadas, incêndios, ambientes aquáticos, espaços confinados, alturas, áreas de difícil acesso e diferentes situações ambientais. O atendimento pré-hospitalar concentra-se principalmente na avaliação e estabilização clínica da vítima. Entretanto, em muitas ocorrências, essas atividades acontecem simultaneamente às ações de salvamento. A integração entre as equipes permite que procedimentos de resgate sejam planejados considerando também as necessidades clínicas do paciente. 53.2 Segurança da cena A segurança da cena constitui a primeira etapa de qualquer atendimento. Antes de aproximar-se, a equipe deve identificar perigos como tráfego de veículos, incêndio, fumaça, eletricidade, combustível, estruturas instáveis, produtos químicos, violência, água, risco de queda e condições meteorológicas adversas. A pergunta inicial deve ser: é possível aproximar-se com segurança? Quando a resposta for negativa, a equipe de saúde deve permanecer em local protegido até que profissionais especializados controlem os riscos. Entrar prematuramente em uma área perigosa pode produzir novas vítimas e comprometer toda a operação. 53.3 Avaliação dinâmica dos riscos A segurança não deve ser avaliada apenas no início do atendimento. Uma cena inicialmente considerada segura pode modificar-se durante a ocorrência. Um veículo pode tornar-se instável, combustível pode começar a vazar, fogo pode surgir, uma estrutura pode movimentar-se ou o trânsito pode invadir a área de trabalho. Por isso, a avaliação dos riscos deve permanecer ativa durante toda a operação. Qualquer profissional que identifique uma nova ameaça deve comunicar imediatamente aos demais integrantes. 53.4 Equipamentos de proteção individual Os equipamentos de proteção individual devem ser selecionados conforme os riscos presentes. Luvas, proteção ocular, máscaras, capacetes, calçados apropriados e vestimentas de proteção podem ser necessários. Ocorrências específicas podem exigir equipamentos especializados, que somente devem ser utilizados por profissionais treinados. O EPI reduz riscos, mas não transforma uma área perigosa em ambiente seguro. Um profissional sem capacitação para determinada operação não deve entrar em uma área de risco apenas porque está utilizando equipamento de proteção. 53.5 Organização das áreas de trabalho Em operações complexas, a cena pode ser dividida em áreas conforme o nível de risco. A zona de maior perigo é destinada aos profissionais especificamente treinados e equipados para atuar naquele ambiente. Uma área intermediária pode ser utilizada para procedimentos de apoio, descontaminação ou transferência, dependendo da natureza da ocorrência. A zona segura é utilizada para organização de recursos, atendimento das vítimas e posicionamento de equipes que não precisam entrar diretamente na área de risco. A terminologia e delimitação exatas devem seguir o sistema de comando e os protocolos utilizados na ocorrência. 53.6 Comando e coordenação da ocorrência Ocorrências envolvendo várias equipes necessitam de organização clara. A presença simultânea de bombeiros, SAMU, polícia, concessionárias e outros serviços exige definição das responsabilidades e estabelecimento de comunicação entre os responsáveis. Cada equipe mantém suas competências técnicas, mas as ações precisam ser coordenadas. Ordens contraditórias e procedimentos realizados sem comunicação podem aumentar riscos e atrasar o atendimento. A equipe de saúde deve identificar quem está coordenando operacionalmente a ocorrência e manter comunicação contínua com os responsáveis pelo salvamento. 53.7 Atuação integrada com equipes de resgate O profissional de resgate controla os riscos e realiza procedimentos técnicos necessários para possibilitar acesso e retirada segura da vítima. A equipe de saúde avalia as condições clínicas, estabelece prioridades assistenciais e informa quais intervenções possuem maior urgência. Em uma colisão veicular, por exemplo, os bombeiros podem estabilizar o veículo e criar acesso à vítima enquanto a equipe de saúde avalia consciência, vias aéreas, respiração e circulação assim que houver condições seguras. O plano de retirada pode ser modificado quando a condição clínica exige maior rapidez. Essa decisão deve ocorrer por comunicação entre as equipes. 53.8 Acesso à vítima O acesso deve ocorrer somente quando houver autorização ou condições seguras. Assim que alcançar a vítima, a equipe deve realizar avaliação rápida das ameaças imediatas à vida. Em situações traumáticas, podem ser avaliadas hemorragias externas graves, vias aéreas, ventilação, circulação e condição neurológica conforme protocolo utilizado pelo serviço. Nem todos os procedimentos precisam ser realizados antes da retirada. A prioridade é executar intervenções que sejam necessárias, possíveis e seguras dentro daquele ambiente. 53.9 Estabilização durante o salvamento Dependendo da situação, algumas intervenções podem ocorrer enquanto os profissionais de resgate trabalham na liberação da vítima. Controle de hemorragia externa grave, abertura das vias aéreas, suporte ventilatório e outras medidas emergenciais podem ser realizadas quando houver acesso adequado. Procedimentos que prolonguem desnecessariamente a permanência em ambiente perigoso devem ser cuidadosamente avaliados. O benefício clínico precisa ser comparado ao risco operacional. Quando a cena apresenta ameaça imediata, a retirada pode assumir prioridade sobre procedimentos que normalmente seriam realizados no local. 53.10 Salvamento em acidentes de trânsito Acidentes automobilísticos constituem ocorrências frequentes de atuação integrada. Antes do atendimento, devem ser considerados tráfego, estabilidade dos veículos, combustível, airbags não acionados, eletricidade e possíveis cargas perigosas. A estabilização do veículo e a criação de acesso seguro são atribuições das equipes capacitadas para salvamento. A equipe de saúde deve evitar entrar em veículos instáveis antes da liberação pelos responsáveis pela segurança. Quando o acesso for autorizado, inicia-se avaliação e estabilização da vítima. 53.11 Incêndios e ambientes com fumaça Ambientes incendiados ou contaminados por fumaça não devem ser acessados por profissionais de saúde sem treinamento e equipamentos específicos. A equipe de salvamento realiza a retirada da vítima para área segura, onde pode ser iniciada ou continuada a assistência. Vítimas provenientes de incêndios devem ser avaliadas quanto a queimaduras, intoxicação por fumaça, lesões de vias aéreas e traumas associados. Rouquidão, dificuldade respiratória, alteração da consciência e sinais de queimaduras em determinadas regiões podem indicar maior gravidade. 53.12 Produtos perigosos Acidentes químicos, industriais ou envolvendo transporte de produtos perigosos exigem atenção especial. Uma vítima contaminada pode também contaminar profissionais, equipamentos e ambulâncias. A equipe deve manter distância até identificação do produto e definição das medidas de segurança. Quando necessária, a descontaminação deve ocorrer antes da entrada do paciente na área limpa e, sempre que possível, antes de sua colocação na ambulância. Não se deve transportar uma vítima contaminada sem considerar o risco de contaminação secundária. 53.13 Espaços confinados Poços, galerias, silos, tanques e outros espaços confinados podem apresentar deficiência de oxigênio, gases tóxicos ou atmosferas explosivas. A entrada nesses locais exige treinamento, monitorização ambiental e equipamentos especializados. Uma das principais causas de múltiplas vítimas nesses acidentes é a tentativa de resgate improvisado. Profissionais de saúde não habilitados para resgate em espaço confinado devem permanecer em área segura e preparar-se para receber a vítima após sua retirada. 53.14 Salvamento em altura Ocorrências envolvendo telhados, torres, encostas, árvores, andaimes e outras estruturas elevadas apresentam risco de queda. A atuação exige sistemas específicos de proteção e técnicas de salvamento. A equipe de saúde pode orientar prioridades clínicas, mas não deve acessar locais elevados sem treinamento e equipamentos adequados. Após a retirada, deve-se considerar a possibilidade de trauma decorrente da queda ou do próprio mecanismo que originou a ocorrência. 53.15 Movimentação e retirada A retirada da vítima deve considerar simultaneamente segurança, mecanismo do trauma e condição clínica. Quando não existe risco imediato, pode ser realizado planejamento mais controlado. Quando há incêndio, colapso estrutural, deterioração rápida do paciente ou outra ameaça significativa, pode ser necessária retirada emergencial. A restrição de movimento da coluna deve ser aplicada quando indicada pela avaliação clínica e pelo mecanismo, e não automaticamente a todas as vítimas. A prioridade permanece a preservação da vida. 53.16 Comunicação entre as equipes A comunicação deve ser curta, objetiva e confirmada. Informações importantes incluem número de vítimas, riscos identificados, condição clínica, necessidade de recursos adicionais e prioridade de retirada. Durante procedimentos complexos, deve existir coordenação clara antes de movimentações. Comandos como iniciar, interromper ou movimentar devem ser compreendidos por todos os profissionais envolvidos. Uma comunicação inadequada durante a retirada pode provocar quedas, deslocamentos de equipamentos e lesões adicionais. 53.17 Atuação do enfermeiro O enfermeiro participa da avaliação clínica, definição das prioridades assistenciais e organização dos recursos de enfermagem. Dentro de suas competências, pode realizar controle de hemorragias, suporte ventilatório, monitorização, acesso vascular e administração de medicamentos conforme protocolos. Também deve comunicar à equipe de salvamento quando determinada alteração clínica exigir modificação da estratégia de retirada. O enfermeiro não deve executar técnicas especializadas de salvamento para as quais não possua capacitação específica. 53.18 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa da preparação dos materiais, monitorização, imobilização quando indicada, oxigenoterapia, suporte à ventilação e demais procedimentos dentro de suas competências. Também auxilia na movimentação da vítima após definição da estratégia pela equipe. Deve utilizar os equipamentos de proteção adequados e respeitar os limites estabelecidos pelas equipes responsáveis pela segurança. Mudanças clínicas observadas devem ser imediatamente comunicadas. 53.19 Preparação para o transporte Após a retirada, a vítima deve ser reavaliada. Procedimentos que não puderam ser realizados durante o salvamento podem ser executados em ambiente seguro. Devem ser novamente avaliados vias aéreas, respiração, circulação, estado neurológico, exposição e lesões identificadas. Equipamentos utilizados durante o resgate devem ser organizados para evitar deslocamentos durante o transporte. A unidade receptora deve receber informações sobre mecanismo do acidente, tempo aproximado de salvamento, condições encontradas e intervenções realizadas. 53.20 Considerações finais O salvamento e o atendimento pré-hospitalar dependem de atuação integrada entre profissionais com diferentes competências. A equipe de saúde é responsável pela avaliação e estabilização clínica, enquanto operações técnicas de salvamento devem ser executadas por profissionais devidamente capacitados. A segurança da cena precede qualquer intervenção. Eletricidade, incêndios, estruturas instáveis, produtos perigosos, trânsito, altura e espaços confinados podem transformar profissionais em novas vítimas quando os riscos não são adequadamente controlados. O princípio fundamental é integrar necessidade clínica e segurança operacional. A retirada mais rápida nem sempre é a mais segura, assim como uma retirada excessivamente demorada pode ser inadequada diante de uma vítima instável. Comunicação objetiva, definição de responsabilidades, uso correto de equipamentos de proteção e reavaliação contínua dos riscos permitem que bombeiros, equipes de atendimento pré-hospitalar e demais serviços trabalhem de forma coordenada. O objetivo final é retirar a vítima do ambiente de risco sem produzir novos danos, iniciar o tratamento necessário e garantir transporte seguro para continuidade da assistência.

CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

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