Aula 6 – SEGURANÇA DA CENA, BIOSSEGURANÇA E EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
A segurança constitui uma das primeiras prioridades do atendimento pré-hospitalar. Antes de qualquer aproximação ao paciente, a equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, SAMU, deve avaliar se existem condições para realizar a assistência sem produzir novas vítimas. Essa avaliação envolve a proteção dos profissionais, do paciente, de familiares, de testemunhas e das demais pessoas presentes no local. O ambiente pré-hospitalar apresenta características particulares. Diferentemente de uma unidade de saúde, onde existe maior controle do espaço assistencial, as equipes móveis podem trabalhar em rodovias, residências, indústrias, áreas rurais, locais de violência, incêndios, desabamentos, enchentes e diferentes ambientes com riscos desconhecidos. Por esse motivo, a assistência começa antes do contato físico com o paciente. Avaliar a cena, identificar perigos, utilizar equipamentos de proteção individual e reconhecer os próprios limites de atuação são medidas fundamentais. 6.1 Segurança da cena A segurança da cena consiste na avaliação inicial dos perigos existentes no ambiente da ocorrência. A equipe deve observar o local antes de se aproximar da vítima. Entre os riscos que podem estar presentes estão veículos em movimento, fios elétricos, incêndio, fumaça, combustíveis, produtos químicos, estruturas instáveis, vidros, objetos perfurocortantes, animais, armas e pessoas com comportamento agressivo. Em acidentes de trânsito, por exemplo, não basta observar apenas as vítimas. O profissional precisa perceber a movimentação dos veículos, estabilidade dos automóveis envolvidos, existência de combustível derramado, possibilidade de incêndio e outros riscos ambientais. A pergunta inicial deve ser objetiva: existem condições seguras para a aproximação? Quando a resposta for negativa, a equipe não deve transformar-se em vítima. Deve permanecer em posição segura e solicitar ou aguardar o suporte especializado necessário. 6.2 Avaliação dinâmica da segurança A segurança não é avaliada apenas uma vez. Uma cena considerada inicialmente segura pode modificar-se durante o atendimento. Um veículo pode tornar-se instável, um incêndio pode se propagar, familiares podem tornar-se agressivos ou surgir algum perigo anteriormente não identificado. Por isso, a avaliação da segurança deve ser contínua. Enquanto alguns integrantes realizam o atendimento, todos devem manter percepção do ambiente. Mudanças importantes precisam ser imediatamente comunicadas à equipe. Essa vigilância é especialmente relevante em ocorrências prolongadas ou que envolvem múltiplas instituições. 6.3 Dimensionamento inicial da ocorrência Além dos riscos, a equipe deve observar rapidamente quantas vítimas estão envolvidas e quais recursos podem ser necessários. Uma ocorrência inicialmente informada como envolvendo uma pessoa pode apresentar várias vítimas quando a equipe chega ao local. Quando o número ou a gravidade das vítimas ultrapassa a capacidade da unidade presente, essa situação deve ser comunicada para que sejam providenciados recursos adicionais conforme a organização local. Também pode ser necessária participação de Corpo de Bombeiros, forças de segurança ou outros serviços especializados. O reconhecimento precoce dessas necessidades evita que a equipe tente resolver isoladamente uma situação que exige resposta integrada. 6.4 Biossegurança no atendimento pré-hospitalar Biossegurança corresponde ao conjunto de medidas utilizadas para prevenir ou reduzir riscos relacionados às atividades profissionais. Na assistência pré-hospitalar, os profissionais podem entrar em contato com sangue, secreções, fluidos corporais, materiais contaminados, superfícies potencialmente contaminadas e agentes transmissíveis. As precauções devem ser aplicadas de acordo com o risco de exposição. A proteção não deve depender apenas da existência de diagnóstico conhecido de doença infecciosa. Muitas vezes, a equipe não possui informações suficientes sobre o histórico clínico do paciente. Assim, as medidas de prevenção precisam fazer parte da rotina assistencial. 6.5 Higienização das mãos A higiene das mãos é uma medida fundamental para prevenção da transmissão de microrganismos. No ambiente pré-hospitalar, sua realização pode apresentar dificuldades devido às características da cena, mas isso não elimina sua importância. As mãos devem ser higienizadas nos momentos indicados pelas práticas de prevenção e controle de infecção, utilizando técnica e produto adequados à situação. Quando houver sujidade visível, a higiene com água e sabonete deve ser realizada assim que existirem condições apropriadas. O uso de luvas não substitui a higienização das mãos. As mãos também precisam ser higienizadas após a retirada das luvas conforme as recomendações aplicáveis. 6.6 Equipamentos de Proteção Individual Os Equipamentos de Proteção Individual, conhecidos como EPIs, constituem barreiras destinadas a reduzir a exposição do trabalhador aos riscos ocupacionais. No SAMU, a escolha dos equipamentos deve considerar a natureza da ocorrência e o tipo de exposição prevista. Entre os equipamentos que podem ser utilizados estão luvas, máscaras, proteção ocular ou facial e vestimentas de proteção adequadas à atividade. Outros equipamentos relacionados à segurança operacional podem ser necessários conforme o cenário e a organização do serviço. O profissional deve verificar as condições do equipamento antes da utilização e realizar sua colocação e retirada de maneira adequada. Um EPI utilizado incorretamente pode oferecer proteção insuficiente e favorecer contaminação durante sua retirada. 6.7 Uso de luvas As luvas são utilizadas quando existe possibilidade de contato com sangue, secreções, mucosas, pele não íntegra ou materiais potencialmente contaminados. Elas devem ser trocadas quando necessário, especialmente quando houver mudança de atividade que possa provocar contaminação cruzada. O uso de luvas não significa que o profissional possa tocar indiscriminadamente equipamentos, telefones, maçanetas e materiais limpos depois de entrar em contato com superfícies contaminadas. Esse comportamento pode transferir microrganismos para outros objetos e ampliar a contaminação. Após o atendimento e retirada das luvas, deve ser realizada higiene das mãos. 6.8 Proteção respiratória, ocular e facial Dependendo da situação assistencial, pode existir risco de exposição das mucosas da boca, nariz e olhos a gotículas, respingos ou partículas. Nessas circunstâncias, devem ser utilizados equipamentos adequados ao risco identificado. A seleção entre máscara cirúrgica e equipamento de proteção respiratória deve considerar o tipo de exposição e as recomendações vigentes para a situação. Óculos de proteção e protetor facial podem ser necessários quando houver possibilidade de respingos de sangue ou outros fluidos sobre os olhos e a face. A proteção precisa ser escolhida antes do procedimento sempre que o risco puder ser antecipado. 6.9 Materiais perfurocortantes Agulhas e outros materiais perfurocortantes representam risco ocupacional importante. Durante procedimentos, o profissional deve manter atenção à manipulação e ao descarte desses materiais. Perfurocortantes utilizados devem ser descartados em recipiente apropriado, resistente à perfuração e destinado especificamente para essa finalidade. Condutas inseguras, como deixar agulhas utilizadas sobre bancos, macas ou superfícies da ambulância, aumentam o risco de acidentes. Caso ocorra exposição ocupacional a material biológico, o profissional deve seguir imediatamente o protocolo institucional para acidentes dessa natureza. 6.10 Limpeza e descontaminação da ambulância A ambulância é também um ambiente assistencial e necessita de medidas sistemáticas de limpeza. Depois do atendimento, superfícies e equipamentos potencialmente contaminados precisam receber processamento compatível com sua utilização e com os protocolos institucionais. Maca, equipamentos reutilizáveis e superfícies que tiveram contato com o paciente ou fluidos corporais merecem atenção especial. Resíduos devem ser acondicionados e descartados conforme sua classificação e normas aplicáveis. A limpeza adequada entre os atendimentos contribui para proteger tanto os profissionais quanto os próximos pacientes transportados. 6.11 Segurança em acidentes de trânsito Acidentes de trânsito exigem atenção especial devido ao risco de atropelamento secundário. A ambulância deve ser posicionada conforme os procedimentos operacionais do serviço e as características da via. A equipe precisa observar fluxo de veículos, iluminação, visibilidade, condições climáticas e localização das vítimas. Em determinadas situações, a aproximação somente será possível depois que a área estiver adequadamente protegida pelos órgãos responsáveis. O desejo de chegar rapidamente ao paciente não pode justificar uma aproximação que coloque toda a equipe em perigo. 6.12 Ocorrências envolvendo violência Situações envolvendo agressões, armas ou comportamento violento apresentam risco diferenciado. A equipe de saúde não possui como função realizar contenção de ameaças armadas ou entrar em local que ainda apresente risco ativo. Quando houver possibilidade concreta de violência, a segurança da cena deve ser estabelecida pelos órgãos competentes antes da aproximação da equipe assistencial. Mesmo depois da liberação do local, a atenção ao ambiente deve continuar. 6.13 Produtos químicos, incêndios e eletricidade Ocorrências envolvendo substâncias químicas, gases, incêndios ou eletricidade podem exigir conhecimento e equipamentos especializados. A equipe não deve entrar em uma área contaminada ou perigosa sem condições apropriadas de segurança. Em situações com produtos perigosos, a identificação e o controle do ambiente são atribuições que podem exigir equipes especializadas. Da mesma forma, uma vítima em contato com fonte elétrica não deve ser tocada enquanto existir possibilidade de corrente ativa. A prioridade é interromper ou controlar o perigo por meios seguros e somente depois iniciar o atendimento direto. 6.14 Segurança durante movimentação e transporte Os riscos continuam depois que o paciente é colocado na ambulância. Maca, cintos, equipamentos e materiais precisam permanecer adequadamente fixados. Objetos soltos dentro do compartimento assistencial podem causar acidentes durante frenagens ou colisões. Sempre que as condições assistenciais permitirem, os profissionais devem utilizar os sistemas de retenção disponíveis. A condução do veículo também precisa considerar segurança, pois velocidade excessiva e manobras desnecessariamente arriscadas podem aumentar o risco para paciente, equipe e população. O transporte rápido não deve ser confundido com transporte inseguro. 6.15 Segurança como responsabilidade de toda a equipe A segurança da assistência depende da participação de todos. O técnico de enfermagem deve reconhecer riscos, utilizar corretamente os EPIs e comunicar situações perigosas. O enfermeiro, além de realizar suas próprias medidas de proteção, participa da organização e supervisão da assistência de enfermagem. Da mesma forma, condutor, médico e demais integrantes precisam manter comunicação constante. Uma equipe tecnicamente preparada não é aquela que entra rapidamente em qualquer cenário, mas aquela que reconhece quando pode aproximar-se, quando precisa utilizar proteção adicional e quando deve aguardar apoio especializado. A sequência lógica do atendimento pré-hospitalar começa, portanto, pela segurança. Antes de avaliar vias aéreas, respiração, circulação ou qualquer outro componente clínico, é necessário estabelecer condições mínimas para que a assistência possa acontecer. Segurança da cena, biossegurança, higiene das mãos, utilização adequada dos EPIs, prevenção de acidentes com perfurocortantes, limpeza dos equipamentos e reconhecimento dos riscos ambientais constituem partes integrantes da assistência. No SAMU, proteger a equipe não representa afastamento do objetivo de salvar vidas. Ao contrário, é condição necessária para que os profissionais possam aproximar-se do paciente, prestar atendimento e concluir a ocorrência sem produzir novas vítimas.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
Brasil. Lei nº 7.498/1986; Decreto nº 94.406/1987; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.
