Aula 13 – OBSTRUÇÃO DAS VIAS AÉREAS POR CORPO ESTRANHO
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
A obstrução das vias aéreas por corpo estranho, conhecida pela sigla OVACE, constitui uma emergência potencialmente fatal caracterizada pelo bloqueio parcial ou completo da passagem de ar pelas vias respiratórias. No atendimento pré-hospitalar, seu reconhecimento precoce é fundamental, pois uma obstrução completa pode evoluir rapidamente para hipóxia, perda da consciência, parada cardiorrespiratória e morte. Alimentos estão entre as causas frequentes de obstrução em adultos, especialmente em idosos ou pessoas que apresentam alterações da deglutição. Objetos também podem provocar obstrução, principalmente em crianças. No SAMU, a equipe deve identificar rapidamente a gravidade da situação e iniciar as intervenções adequadas à idade, ao nível de consciência e às características do paciente. A abordagem deve ser sistematizada, evitando procedimentos que possam deslocar o objeto para uma posição mais profunda ou atrasar a desobstrução. 13.1 Reconhecimento da obstrução das vias aéreas A primeira etapa consiste em determinar se existe obstrução e avaliar sua gravidade. Na obstrução parcial, ainda existe passagem de ar. O paciente pode conseguir falar, tossir ou produzir sons. Quando a tosse é forte e eficaz, ela representa um mecanismo natural importante para expulsão do objeto. Nessas circunstâncias, o profissional deve acompanhar atentamente a evolução e incentivar a tosse espontânea, evitando intervenções desnecessárias que possam piorar a situação. Na obstrução grave, a passagem de ar encontra-se intensamente reduzida ou ausente. O paciente pode apresentar incapacidade de falar, tosse fraca ou silenciosa, dificuldade respiratória acentuada e progressiva alteração da coloração da pele. O reconhecimento dessa condição exige intervenção imediata. 13.2 Obstrução parcial e tosse eficaz Quando o adulto consciente apresenta tosse eficaz e consegue respirar, a conduta não deve interromper esse mecanismo de defesa. O paciente deve ser orientado a continuar tossindo enquanto a equipe permanece preparada para intervir caso a obstrução se agrave. Não se deve realizar manobras de desobstrução de maneira indiscriminada em uma pessoa que ainda consegue tossir vigorosamente. A situação, entretanto, pode modificar-se rapidamente. A tosse pode tornar-se progressivamente mais fraca, o paciente pode deixar de falar ou apresentar redução do nível de consciência. Por isso, a observação precisa ser contínua. 13.3 Obstrução grave no adulto consciente Quando um adulto consciente apresenta sinais de obstrução grave, devem ser iniciadas imediatamente as manobras recomendadas pelo protocolo de suporte básico de vida adotado pelo serviço. As recomendações contemporâneas podem combinar golpes nas costas e compressões abdominais em ciclos apropriados para adultos e crianças maiores de um ano com obstrução grave, conforme o protocolo de ressuscitação utilizado. As compressões abdominais aumentam a pressão intratorácica e podem produzir fluxo de ar suficiente para deslocar o corpo estranho. As manobras são mantidas conforme o algoritmo até que o objeto seja expelido ou o paciente se torne inconsciente. Mesmo durante a emergência, é importante utilizar técnica adequada, pois intervenções realizadas incorretamente podem provocar lesões. 13.4 Situações em que compressões abdominais precisam ser modificadas As características do paciente podem exigir adaptação da técnica. Em gestantes em fase avançada da gravidez e em pessoas nas quais não seja possível realizar adequadamente compressões abdominais, podem ser utilizadas compressões torácicas para desobstrução conforme as recomendações do protocolo adotado. A escolha deve considerar as características anatômicas e a condição do paciente. O profissional não deve insistir em uma técnica que seja claramente inadequada para aquela situação. 13.5 Quando o paciente perde a consciência A perda da consciência durante uma obstrução grave representa deterioração importante. O paciente deve ser colocado cuidadosamente em superfície adequada e a equipe deve iniciar a sequência de ressuscitação prevista para a situação. As compressões torácicas passam a fazer parte da abordagem. Antes das ventilações, ao abrir as vias aéreas, o profissional pode verificar se existe algum corpo estranho visível na boca. Caso seja claramente visualizado e possa ser retirado com segurança, realiza-se sua remoção. Não deve ser feita varredura digital às cegas. Introduzir os dedos na boca sem visualizar o objeto pode empurrá-lo para uma posição mais profunda e dificultar ainda mais sua retirada. O DEA deve ser disponibilizado caso o paciente evolua para parada cardiorrespiratória. 13.6 Obstrução em crianças Crianças também apresentam risco significativo de OVACE, especialmente durante alimentação ou manipulação de objetos pequenos. Na criança maior de um ano, a avaliação começa pela capacidade de tossir e respirar. Se a tosse permanece eficaz, ela deve ser estimulada e a criança acompanhada. Quando existe obstrução grave, são aplicadas as manobras de desobstrução previstas para essa faixa etária, considerando tamanho e características da criança. A força utilizada precisa ser adequada à anatomia pediátrica. Caso a criança se torne inconsciente, inicia-se a sequência correspondente de ressuscitação e acionam-se os recursos de emergência. 13.7 Obstrução em lactentes A abordagem do lactente, criança com menos de um ano, apresenta diferenças importantes. Não se realizam compressões abdominais no lactente para tratamento da OVACE. Na obstrução grave com lactente consciente, são utilizadas sequências de golpes interescapulares e compressões torácicas conforme os protocolos de suporte básico pediátrico. O lactente deve ser adequadamente sustentado durante as manobras, mantendo controle da cabeça e do corpo. Se ocorrer perda da consciência, inicia-se a ressuscitação correspondente à faixa etária. Durante a abertura das vias aéreas, o objeto somente deve ser removido quando estiver visível. 13.8 Uso de instrumentos para remoção do corpo estranho No atendimento realizado por equipes capacitadas e com recursos apropriados, determinados corpos estranhos podem ser removidos mediante visualização direta e utilização de instrumentos específicos. Essa abordagem exige treinamento e competência profissional. Não se deve realizar exploração cega das vias aéreas. Em situações nas quais as medidas básicas não conseguem resolver a obstrução e o paciente apresenta deterioração, o manejo avançado das vias aéreas pode tornar-se necessário, conforme composição da equipe, protocolos e competências profissionais. 13.9 OVACE e parada cardiorrespiratória A obstrução completa impede ventilação adequada e pode produzir hipóxia progressiva. Sem reversão, o paciente pode evoluir para perda da consciência e parada cardiorrespiratória. Nesse momento, as compressões torácicas são fundamentais tanto para manutenção parcial da circulação quanto para a possibilidade de produzir pressão capaz de contribuir para deslocamento do objeto. A equipe deve seguir o algoritmo de ressuscitação e utilizar o DEA assim que indicado e disponível. Mesmo que o evento tenha começado como uma obstrução das vias aéreas, depois da instalação da PCR a assistência precisa contemplar todas as prioridades da ressuscitação. 13.10 Cuidados após a desobstrução A expulsão do corpo estranho não significa necessariamente que o atendimento esteja concluído. O paciente deve ser reavaliado. Vias aéreas, frequência respiratória, esforço ventilatório, saturação periférica de oxigênio quando disponível, nível de consciência e demais parâmetros pertinentes devem ser observados. Podem permanecer fragmentos, lesões das vias aéreas ou complicações relacionadas às manobras realizadas. Pacientes que apresentaram obstrução grave, perda da consciência, necessidade de RCP ou sintomas persistentes necessitam de avaliação médica e encaminhamento conforme Regulação Médica e protocolos do serviço. 13.11 Prevenção da broncoaspiração Além dos corpos estranhos sólidos, conteúdo gástrico, sangue e secreções podem comprometer as vias aéreas. Pacientes com redução do nível de consciência apresentam maior risco de perda dos mecanismos naturais de proteção. A equipe deve observar continuamente as vias aéreas e utilizar medidas de posicionamento, aspiração ou dispositivos apropriados quando indicados e permitidos. Durante ventilação com bolsa-válvula-máscara, deve-se evitar ventilação excessiva, que pode favorecer distensão gástrica e aumentar o risco de regurgitação. 13.12 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem capacitado participa diretamente do reconhecimento e atendimento inicial da OVACE. Dentro de suas competências e protocolos, pode identificar sinais de obstrução, executar manobras de suporte básico, realizar RCP quando necessária, utilizar o DEA e auxiliar na ventilação e preparação dos materiais. Também deve monitorar a evolução e comunicar imediatamente qualquer deterioração. Procedimentos que ultrapassem suas atribuições profissionais não devem ser realizados. 13.13 Atuação do enfermeiro O enfermeiro participa das medidas básicas e, conforme capacitação, regulamentação profissional e protocolos institucionais, pode executar intervenções de enfermagem de maior complexidade relacionadas ao manejo das vias aéreas. Nos pacientes graves, realiza avaliação contínua, estabelece prioridades assistenciais de enfermagem, supervisiona a equipe e participa da comunicação com a Regulação Médica. O reconhecimento dos limites entre suporte básico e intervenções avançadas é essencial para uma assistência segura. A OVACE exige, portanto, identificação rápida da gravidade e intervenção proporcional à situação. Um paciente com tosse eficaz deve ser observado e incentivado a tossir, enquanto uma obstrução grave exige manobras imediatas. Se houver perda da consciência, a abordagem passa a incluir as medidas de ressuscitação. A equipe do SAMU deve dominar as diferenças entre adultos, crianças, lactentes e situações especiais, evitar varredura digital às cegas e reavaliar o paciente mesmo depois da aparente resolução da obstrução. A aplicação organizada dessas medidas reduz atrasos e contribui para preservar a ventilação, a oxigenação e a vida do paciente.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
American Heart Association. Basic Life Support e Advanced Cardiovascular Life Support, 2020; Ministério da Saúde, protocolos de urgência.
