Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 61 – Comunicação, Áreas de Atendimento e Evacuação em Incidentes com Múltiplas Vítimas

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a comunicação, áreas de atendimento e evacuação em incidentes com múltiplas vítimas no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

Conteúdo da aula

O atendimento a incidentes com múltiplas vítimas exige mais do que conhecimento técnico para avaliação e estabilização dos pacientes. A eficiência da resposta depende diretamente da comunicação entre as equipes, da organização das áreas destinadas ao atendimento e da evacuação ordenada das vítimas. Esses três elementos precisam funcionar de maneira integrada, pois uma falha em qualquer um deles pode comprometer todo o fluxo assistencial. Após o reconhecimento da ocorrência, estabelecimento das condições de segurança, organização da cena e início da triagem, torna-se necessário manter um sistema capaz de acompanhar cada vítima desde o local onde foi encontrada até sua transferência para a unidade de saúde de destino. Em situações envolvendo grande número de pessoas, essa organização evita perda de informações, duplicação de procedimentos, transporte inadequado e concentração excessiva de pacientes em um único hospital. 1. Comunicação no incidente com múltiplas vítimas A comunicação constitui um dos principais elementos de coordenação da resposta. Informações precisam circular entre profissionais que estão na cena, responsáveis pela triagem e tratamento, equipes de transporte, comando da operação, Central de Regulação e serviços hospitalares. A primeira equipe que chega ao local deve transmitir rapidamente informações capazes de dimensionar a ocorrência. Entre os dados relevantes estão localização, natureza do evento, riscos presentes, estimativa do número de vítimas, condições de acesso e recursos adicionais necessários. A informação inicial não precisa ser definitiva. Em grandes ocorrências, é comum que o número exato de vítimas seja desconhecido nos primeiros minutos. Nesse caso, deve ser fornecida uma estimativa, posteriormente atualizada. Mensagens devem ser objetivas. Comunicações excessivamente longas podem ocupar os canais de rádio e impedir a transmissão de informações prioritárias. 2. Padronização da comunicação A utilização de uma sequência padronizada reduz a possibilidade de informações importantes serem esquecidas. Uma comunicação inicial pode considerar: Localização: onde ocorreu o incidente. Natureza: colisão, incêndio, explosão, desabamento ou outro evento. Riscos: fogo, combustível, eletricidade, produtos perigosos, estruturas instáveis, violência ou outros perigos. Número aproximado de vítimas: estimativa inicial. Gravidade: distribuição aproximada conforme categorias de triagem, quando disponível. Acesso: melhor rota para entrada e saída das equipes. Recursos necessários: ambulâncias, bombeiros, segurança, apoio especializado ou outros meios. Esses dados permitem que a Central de Regulação dimensione a resposta e mobilize os recursos disponíveis. 3. Comunicação entre os setores da cena Depois que a estrutura operacional estiver estabelecida, a comunicação precisa acompanhar o fluxo das vítimas. O responsável pela triagem deve informar quantas vítimas foram identificadas em cada categoria. A área de tratamento precisa comunicar alterações clínicas e necessidades de transporte. O setor responsável pela evacuação deve registrar quais pacientes deixaram a cena e seus respectivos destinos. O objetivo é formar uma cadeia contínua de informações: Triagem → Tratamento → Transporte → Regulação → Hospital. A perda de uma dessas etapas pode resultar em pacientes transportados sem registro adequado ou em unidades hospitalares recebendo vítimas sem preparação prévia. 4. Organização das áreas de atendimento Após a triagem inicial, pode ser necessário estabelecer áreas específicas para concentração e tratamento das vítimas. Essas áreas devem ser instaladas em local seguro, suficientemente afastado dos riscos do incidente e com acesso adequado para profissionais e veículos. A escolha precisa considerar características do terreno, iluminação, possibilidade de expansão, condições meteorológicas, circulação das ambulâncias e facilidade de evacuação. Não existe benefício em instalar uma área assistencial próxima às vítimas se o local permanecer sujeito a incêndio, desabamento, atropelamento ou contaminação. A segurança continua sendo prioridade durante toda a operação. 5. Área destinada às vítimas vermelhas As vítimas classificadas como vermelhas apresentam prioridade imediata. Essa área deve possuir acesso facilitado aos recursos assistenciais e ao ponto de embarque das ambulâncias. Nela podem ser realizadas intervenções necessárias à estabilização inicial, conforme condição clínica, protocolos assistenciais, recursos disponíveis e competências dos profissionais. Entre as prioridades podem estar manutenção das vias aéreas, suporte ventilatório, controle de hemorragias graves, suporte circulatório, monitorização e outras intervenções indicadas. O objetivo não é reproduzir no cenário toda a estrutura de uma unidade hospitalar. O tratamento pré-hospitalar deve concentrar-se nas medidas necessárias para permitir estabilização possível e transporte seguro. 6. Área destinada às vítimas amarelas Pacientes classificados como amarelos apresentam condições que necessitam de atendimento, mas que inicialmente permitem algum atraso em relação às vítimas vermelhas. Isso não significa que sejam pacientes sem gravidade. Uma vítima amarela pode apresentar fraturas, traumatismos ou outras condições relevantes. Sua situação pode deteriorar durante a espera. Por esse motivo, esses pacientes devem permanecer identificados e ser periodicamente reavaliados. Caso surjam alterações respiratórias, circulatórias ou neurológicas importantes, a prioridade deve ser revista. A retriagem constitui, portanto, componente permanente do atendimento. 7. Área destinada às vítimas verdes As vítimas verdes geralmente são aquelas capazes de caminhar durante a primeira etapa do Método START. Devem ser orientadas para uma área segura e permanecer organizadas. Um erro operacional seria permitir que essas pessoas simplesmente abandonassem a ocorrência sem identificação ou avaliação. A capacidade de caminhar não exclui a presença de lesões. Além disso, sintomas relacionados a determinadas condições podem surgir ou tornar-se evidentes posteriormente. Sempre que possível, deve existir profissional responsável por acompanhar esse grupo, identificar mudanças clínicas e impedir que pacientes se dispersem antes da avaliação necessária. 8. Vítimas classificadas na categoria preta A área destinada às vítimas classificadas na categoria preta deve seguir os protocolos institucionais, médico-legais e operacionais aplicáveis. O manejo deve preservar dignidade, identificação e controle adequado das informações. A presença de óbitos também envolve procedimentos relacionados às autoridades competentes, não devendo haver movimentação desnecessária dos corpos fora das situações determinadas pela segurança ou pelos protocolos aplicáveis. Em incidentes de grandes proporções, a identificação adequada assume importância adicional para posterior trabalho das autoridades e comunicação institucional. 9. Ponto de embarque O ponto de embarque é o local onde ocorre a transferência das vítimas para as ambulâncias. Sua posição deve permitir acesso rápido às áreas de atendimento e saída organizada dos veículos. As ambulâncias não devem estacionar aleatoriamente próximas às vítimas. Quando muitos veículos chegam simultaneamente, pode ocorrer bloqueio das vias de circulação. Por isso, pode ser criada uma área de concentração de ambulâncias, de onde os veículos são liberados conforme a necessidade. A ambulância chamada aproxima-se do ponto de embarque, recebe o paciente determinado, registra o destino e deixa a área pela rota previamente estabelecida. Esse sistema favorece fluxo contínuo. 10. Evacuação das vítimas Evacuação significa retirar ordenadamente as vítimas da área do incidente e encaminhá-las para serviços capazes de dar continuidade ao atendimento. Evacuar não significa simplesmente colocar o paciente na primeira ambulância disponível. A decisão precisa considerar prioridade clínica, capacidade de transporte, distância, recursos hospitalares necessários e orientação da Central de Regulação. De maneira geral, as vítimas de prioridade imediata possuem precedência na evacuação. Entretanto, a decisão operacional deve considerar o conjunto do incidente. O transporte precisa ocorrer para unidades adequadas às necessidades dos pacientes. 11. Distribuição entre hospitais Enviar todas as vítimas para o hospital mais próximo constitui uma conduta inadequada em grandes incidentes. Mesmo uma instituição hospitalar estruturada possui capacidade limitada. Se dezenas de pacientes forem enviados simultaneamente para o mesmo local, pronto-socorro, centro cirúrgico, diagnóstico por imagem, banco de sangue e unidades de terapia intensiva podem ser rapidamente sobrecarregados. A Central de Regulação desempenha papel fundamental nesse processo. As vítimas podem ser distribuídas entre diferentes hospitais considerando capacidade instalada, disponibilidade momentânea e perfil assistencial. Pacientes com necessidades específicas devem, sempre que operacionalmente possível, ser encaminhados para unidades capazes de oferecer os recursos correspondentes. 12. Registro da evacuação Cada vítima transportada deve ser registrada conforme os instrumentos disponíveis no serviço. Informações importantes incluem identificação ou número atribuído ao paciente, categoria de triagem, horário da saída, ambulância responsável e unidade hospitalar de destino. Quando possível, também devem ser registrados dados clínicos relevantes e procedimentos realizados. Esse controle permite responder a uma pergunta fundamental: Quem foi transportado, quando, por qual equipe e para onde? Sem esse registro, familiares, hospitais, regulação e autoridades podem encontrar grandes dificuldades para localizar posteriormente as vítimas. 13. Retriagem antes do transporte A classificação realizada inicialmente pelo Método START não deve ser considerada permanente. Antes da evacuação, o paciente precisa ser reavaliado. Uma vítima inicialmente amarela pode apresentar deterioração e passar para vermelho. Da mesma forma, alterações encontradas durante a avaliação na área de tratamento podem modificar a prioridade de transporte. A retriagem deve ocorrer sempre que houver mudança clínica e em pontos estratégicos do fluxo assistencial. Assim, pode-se considerar: Triagem inicial → tratamento → retriagem → prioridade de evacuação. 14. Transporte seguro Após a definição da vítima que será evacuada, deve ocorrer preparação adequada para o transporte. Os procedimentos necessários dependerão da condição clínica, incluindo suporte das vias aéreas, controle de hemorragias, imobilização quando indicada, monitorização e outras medidas previstas nos protocolos assistenciais. Todos os ocupantes devem permanecer adequadamente protegidos durante o deslocamento. Equipamentos e materiais precisam estar fixados para evitar projeções durante movimentos bruscos. A pressa não deve justificar transporte inseguro. A velocidade excessiva pode aumentar o risco de acidente envolvendo paciente e equipe. 15. Papel da enfermagem Enfermeiros e técnicos de enfermagem possuem participação importante nas áreas de atendimento e no processo de evacuação, respeitando competências profissionais, protocolos institucionais e organização estabelecida para a ocorrência. O enfermeiro pode participar da avaliação, retriagem conforme protocolo, organização assistencial, definição das necessidades de cuidados de enfermagem, gerenciamento dos recursos disponíveis, preparação das vítimas e comunicação das informações clínicas. O técnico de enfermagem participa dos cuidados compatíveis com suas atribuições, auxiliando na assistência, monitorização, preparação dos materiais, transporte e registros correspondentes. A comunicação entre os integrantes da enfermagem deve permanecer objetiva, principalmente durante transferência do cuidado. 16. Encerramento da operação A ocorrência não termina quando a última vítima deixa a cena. É necessário confirmar que todas as vítimas foram contabilizadas, verificar registros de transporte, organizar materiais e equipamentos, comunicar o encerramento operacional e seguir os procedimentos institucionais relacionados à documentação. Após incidentes relevantes, também podem ser realizadas avaliações posteriores da operação com o objetivo de identificar dificuldades, acertos e oportunidades de melhoria. Treinamentos futuros podem ser estruturados a partir das necessidades observadas. Considerações finais A comunicação, a organização das áreas de atendimento e a evacuação constituem componentes interdependentes da resposta aos incidentes com múltiplas vítimas. O fluxo operacional pode ser sintetizado da seguinte forma: Reconhecimento → Comunicação → Triagem → Área de atendimento → Retriagem → Regulação → Embarque → Transporte → Hospital. O Método START contribui para estabelecer as prioridades iniciais, mas sua eficiência depende de uma estrutura capaz de manter essas vítimas organizadas após a classificação. Uma vítima corretamente classificada, mas encaminhada ao local inadequado ou transportada sem coordenação, demonstra que apenas a triagem não é suficiente. O atendimento eficiente depende da integração entre classificação, tratamento, comunicação, regulação e evacuação. Para as equipes do SAMU, especialmente enfermeiros e técnicos de enfermagem, compreender esse fluxo é essencial para atuar de maneira segura e coordenada em cenários de múltiplas vítimas e desastres.

PARTE X – PRÁTICA PROFISSIONAL NO SAMU
CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

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