Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 56 – Ergonomia e Transporte Manual de Pacientes

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a ergonomia e transporte manual de pacientes no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

Conteúdo da aula

A ergonomia aplicada ao atendimento pré-hospitalar é fundamental para garantir segurança tanto ao paciente quanto aos profissionais envolvidos na assistência. Levantar, transferir, reposicionar e transportar pessoas são atividades frequentes no trabalho das equipes de emergência e podem exigir considerável esforço físico. Quando realizadas de maneira inadequada, essas ações aumentam o risco de quedas, deslocamento de dispositivos, agravamento de lesões do paciente e distúrbios musculoesqueléticos nos trabalhadores. No atendimento pré-hospitalar, as dificuldades são maiores porque nem sempre o ambiente foi projetado para movimentação de pacientes. Escadas estreitas, corredores pequenos, terrenos irregulares, banheiros, veículos, residências sem acessibilidade e pacientes com diferentes níveis de mobilidade exigem planejamento. Por isso, a regra fundamental é avaliar antes de levantar: conhecer o paciente, o percurso, o equipamento disponível e a capacidade da equipe. 56.1 Conceito de ergonomia Ergonomia é o campo que estuda a adaptação das condições de trabalho às características e capacidades humanas, buscando segurança, eficiência e redução de riscos. No transporte de pacientes, isso significa organizar a atividade para reduzir esforços físicos excessivos, posições inadequadas e movimentos potencialmente lesivos. A ergonomia não depende somente da maneira como o profissional posiciona a coluna. Envolve equipamentos disponíveis, quantidade de profissionais, organização do ambiente, treinamento, comunicação e planejamento da tarefa. Portanto, técnicas corporais adequadas são importantes, mas não substituem equipamentos auxiliares e número suficiente de trabalhadores. 56.2 Avaliação antes da movimentação Antes de movimentar um paciente, a equipe deve responder a algumas questões fundamentais. Qual é a condição clínica do paciente? Ele consegue colaborar? Consegue permanecer sentado ou em pé? Qual é aproximadamente seu peso? Existem dispositivos conectados? O percurso possui escadas ou obstáculos? Quantos profissionais serão necessários? Existe equipamento adequado? Essa avaliação permite selecionar a estratégia mais segura. Uma pessoa consciente, orientada e capaz de colaborar exige abordagem diferente daquela necessária para um paciente inconsciente, politraumatizado ou com déficit motor importante. A pressa sem planejamento pode aumentar o tempo total da ocorrência caso provoque queda ou acidente ocupacional. 56.3 Preparação do ambiente O percurso deve ser verificado antes da transferência sempre que possível. Objetos no chão, tapetes, móveis, fios, superfícies molhadas e outros obstáculos devem ser retirados ou controlados. Portas podem precisar ser abertas previamente. Em ambientes externos, devem ser observados degraus, buracos, lama, inclinação e condições de iluminação. A maca deve ser posicionada tão próxima quanto possível do paciente para reduzir a distância de transporte manual. Quando o equipamento possui rodas, os sistemas de bloqueio devem ser utilizados durante transferências conforme orientação do fabricante. 56.4 Comunicação da equipe Nenhuma movimentação complexa deve começar sem que todos compreendam o procedimento. Um profissional deve assumir a coordenação e informar qual será o movimento. Comandos curtos e padronizados ajudam a sincronizar a equipe. Antes do levantamento, todos devem confirmar que estão posicionados e preparados. Mudanças inesperadas de direção durante o transporte devem ser comunicadas. Quando um profissional perceber que perdeu a estabilidade ou não consegue sustentar adequadamente a carga, deve informar imediatamente para que o movimento seja interrompido de maneira segura. 56.5 Princípios de posicionamento corporal Durante o manuseio, o profissional deve procurar manter base de apoio estável e aproximar-se do paciente ou da carga. Quanto maior a distância entre o peso e o corpo do trabalhador, maior tende a ser a exigência mecânica. Deve-se evitar realizar levantamento associado à rotação brusca do tronco. Quando for necessário mudar de direção, é preferível reposicionar os pés e o corpo em conjunto em vez de torcer a coluna enquanto se sustenta o peso. Movimentos devem ser coordenados e controlados. Entretanto, nenhuma técnica corporal torna seguro um levantamento que exceda a capacidade física da equipe. 56.6 Evitar levantamento manual desnecessário Sempre que possível, deve-se reduzir o levantamento completo do peso do paciente. Equipamentos de transferência e sistemas mecânicos ou motorizados podem diminuir significativamente a necessidade de força física. Macas com sistemas de elevação, lençóis deslizantes, pranchas de transferência, cadeiras específicas e outros dispositivos devem ser utilizados quando disponíveis e apropriados. O princípio é simples: quando um equipamento pode executar ou reduzir o esforço, não há justificativa para substituir esse recurso exclusivamente por força física. 56.7 Transferência entre superfícies Transferências entre cama, maca e outros dispositivos são frequentes. As superfícies devem ser aproximadas e estabilizadas. A diferença de altura deve ser reduzida quando os equipamentos permitirem. Antes da transferência, devem ser verificados cateteres, tubos, sondas, cabos, drenos e demais dispositivos. Um profissional deve ficar responsável pela proteção das vias aéreas e dos dispositivos críticos quando necessário. Após a transferência, tudo deve ser novamente conferido. 56.8 Utilização de lençóis e dispositivos deslizantes Lençóis e dispositivos de transferência podem auxiliar na movimentação horizontal do paciente. Quando adequadamente empregados, permitem distribuir melhor a carga entre os profissionais. Dispositivos deslizantes específicos podem reduzir o atrito entre superfícies e diminuir a força necessária. A equipe deve conhecer as limitações e capacidade dos equipamentos. Improvisações que possam rasgar, romper ou provocar queda devem ser evitadas. O paciente também deve ser informado sobre o movimento quando estiver consciente. 56.9 Transporte em cadeira A cadeira de transporte pode ser útil em espaços onde a maca não consegue acessar adequadamente. Entretanto, somente deve ser utilizada quando a condição clínica permitir posição sentada. Pacientes com determinadas lesões, instabilidade hemodinâmica ou outras condições podem necessitar de transporte em posição diferente. Os sistemas de retenção devem ser corretamente utilizados. Antes do transporte, a equipe deve verificar se braços, pernas, roupas e equipamentos estão posicionados de maneira que não sejam presos durante o movimento. 56.10 Transporte em escadas Escadas representam uma das situações de maior exigência física no transporte manual. Antes de iniciar, deve-se avaliar largura, inclinação, número de degraus, curvas, corrimãos e espaço disponível. Equipamentos próprios para transporte em escadas devem ser utilizados quando disponíveis e indicados. A equipe precisa estabelecer antecipadamente quem ficará em cada posição. Não se deve iniciar o deslocamento quando o número de profissionais for insuficiente para controlar o equipamento e o peso do paciente. Paradas planejadas podem ser necessárias em percursos longos. 56.11 Transporte em terrenos irregulares Terrenos com pedras, areia, lama, desníveis ou vegetação podem dificultar a utilização convencional da maca. O percurso mais seguro deve ser escolhido, mesmo que não seja necessariamente o mais curto. A equipe deve manter comunicação durante todo o deslocamento. Mudanças de inclinação precisam ser antecipadas. Quando o terreno impedir transporte seguro com os recursos disponíveis, deve-se solicitar apoio ou equipamentos adicionais. A tentativa de superar obstáculos sem recursos adequados aumenta o risco de queda coletiva. 56.12 Paciente com mobilidade preservada Nem todo paciente precisa ser carregado. Quando a condição clínica permitir, a capacidade funcional deve ser avaliada. Alguns pacientes conseguem realizar parte da transferência com orientação e assistência. Entretanto, a capacidade não deve ser presumida apenas porque a pessoa afirma conseguir caminhar. Tontura, hipotensão, fraqueza, trauma e efeitos medicamentosos podem provocar queda durante a tentativa. O paciente deve ser acompanhado e apoiado conforme sua condição. 56.13 Paciente inconsciente O paciente inconsciente não consegue colaborar e exige maior planejamento. A equipe deve controlar cabeça, tronco e membros durante a movimentação. Vias aéreas precisam ser protegidas continuamente. Tubos, acessos e dispositivos devem permanecer seguros. O número de profissionais deve ser suficiente para distribuir adequadamente a carga. Quando houver suspeita de trauma, os princípios de restrição de movimento da coluna devem ser considerados conforme indicação clínica. 56.14 Pacientes com obesidade Pacientes com obesidade podem exigir equipamentos e equipes específicas. Não se deve tentar levantar um paciente quando seu peso ultrapassa a capacidade segura dos profissionais ou dos equipamentos disponíveis. Quando necessário, devem ser solicitados recursos adicionais. Macas bariátricas, dispositivos motorizados e equipamentos de transferência com maior capacidade podem ser necessários. A capacidade máxima de carga indicada pelo fabricante deve ser rigorosamente respeitada. O planejamento deve preservar também privacidade, conforto e dignidade. 56.15 Crianças Embora apresentem menor peso corporal, crianças também necessitam de técnicas adequadas de transporte. Não devem permanecer soltas na ambulância nem ser transportadas no colo durante o deslocamento do veículo. Devem ser utilizados sistemas de transporte e retenção compatíveis com os protocolos do serviço e características do paciente. Em crianças criticamente enfermas, equipamentos e dispositivos devem ser cuidadosamente protegidos durante as transferências. 56.16 Idosos e pacientes frágeis Pessoas idosas podem apresentar fragilidade óssea, redução de massa muscular, alterações articulares e pele mais vulnerável. Movimentações bruscas podem provocar dor e lesões. A equipe deve evitar tracionar diretamente os membros ou utilizar pontos de apoio inadequados. Pacientes com osteoporose, contraturas ou deformidades podem necessitar de adaptações. A comunicação também deve considerar possíveis limitações auditivas, visuais ou cognitivas. 56.17 Prevenção de lesões ocupacionais Lesões lombares, musculares e articulares representam risco ocupacional relevante para profissionais que movimentam pacientes. A prevenção depende de treinamento, equipamentos adequados, organização do trabalho e reconhecimento dos próprios limites. Dor durante um levantamento não deve ser considerada parte normal da atividade profissional. Tarefas que repetidamente exigem esforço excessivo precisam ser avaliadas sob perspectiva ergonômica. O objetivo é eliminar ou reduzir o risco, e não apenas ensinar o trabalhador a tolerá-lo. 56.18 Macas e sistemas de elevação Macas modernas podem possuir sistemas hidráulicos, pneumáticos ou elétricos destinados a reduzir esforço manual. A equipe deve receber treinamento específico para cada equipamento. Antes do uso, devem ser verificados travamentos, rodas, cintos e condições gerais. Durante entrada e retirada da ambulância, é fundamental confirmar o acoplamento correto da maca. Falhas nessa etapa podem resultar em queda do paciente e dos profissionais. 56.19 Segurança durante o transporte manual O paciente deve ser adequadamente fixado ao equipamento. Braços e pernas devem permanecer protegidos. Equipamentos colocados sobre a maca precisam ser posicionados de forma segura. Cilindros de oxigênio, monitores e outros objetos não devem permanecer soltos. Durante deslocamentos, a equipe deve antecipar obstáculos e mudanças de nível. Quando houver necessidade de interromper o transporte, o equipamento deve ser colocado em posição estável antes que os profissionais modifiquem sua postura ou empunhadura. 56.20 Atuação do enfermeiro O enfermeiro deve avaliar se a condição clínica exige cuidados especiais durante a transferência e auxiliar no planejamento. Em pacientes críticos, deve garantir continuidade da ventilação, oxigenoterapia, monitorização e infusões durante a movimentação. Também deve avaliar se existem recursos humanos e equipamentos suficientes. Quando a movimentação proposta representar risco desnecessário, a estratégia deve ser revista antes da execução. 56.21 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa diretamente das transferências e transportes dentro de suas competências. Deve conhecer os equipamentos utilizados pelo serviço, verificar travamentos e sistemas de retenção e seguir os comandos definidos pela equipe. Também deve auxiliar na proteção de acessos, tubos e demais dispositivos. Qualquer alteração clínica percebida durante a movimentação deve ser comunicada imediatamente. 56.22 Reavaliação após o transporte Depois de qualquer movimentação importante, o paciente deve ser reavaliado. Vias aéreas, respiração, circulação e nível de consciência devem ser verificados conforme a condição clínica. A equipe deve confirmar o posicionamento de dispositivos, cateteres, curativos e equipamentos. Em pacientes traumatizados, dor, circulação e alterações neurológicas devem ser novamente observadas quando indicado. A movimentação somente termina quando o paciente está adequadamente posicionado e protegido. 56.23 Considerações finais A ergonomia no atendimento pré-hospitalar não se resume à maneira de levantar peso. Trata-se de organizar o transporte para reduzir a necessidade de esforço manual, utilizar equipamentos adequados e distribuir as tarefas entre número suficiente de profissionais. Antes de qualquer transferência devem ser avaliados paciente, ambiente, percurso, equipamentos e capacidade da equipe. Movimentos devem ser coordenados por comunicação clara e executados sem torções desnecessárias ou mudanças inesperadas. Sempre que possível, dispositivos mecânicos, superfícies deslizantes e equipamentos específicos devem substituir ou reduzir o levantamento manual. Em escadas, terrenos irregulares e no atendimento de pacientes com obesidade, o planejamento torna-se ainda mais importante. A proteção do profissional também constitui requisito de segurança assistencial. Uma técnica que coloca o trabalhador em risco não pode ser considerada adequada para o paciente. Planejamento, ergonomia, equipamentos apropriados, trabalho coordenado e reavaliação após cada movimentação formam a base para um transporte manual seguro no atendimento pré-hospitalar.

CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

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