Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 16 – ACESSO VENOSO PERIFÉRICO E TERAPIA INTRAVENOSA

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a acesso venoso periférico e terapia intravenosa no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: American Heart Association. Basic Life Support e Advanced Cardiovascular Life Support, 2020; Ministério da Saúde, protocolos de urgência.

Conteúdo da aula

O acesso venoso periférico constitui um recurso importante na assistência pré-hospitalar, especialmente nos pacientes que necessitam de administração de medicamentos, soluções intravenosas ou outras intervenções previstas nos protocolos assistenciais. No Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, SAMU, sua obtenção deve estar relacionada à necessidade clínica e não pode atrasar medidas prioritárias, como manutenção das vias aéreas, ventilação, ressuscitação cardiopulmonar, controle de hemorragias ou transporte de pacientes que necessitam rapidamente de tratamento definitivo. A terapia intravenosa exige conhecimento técnico, biossegurança, seleção adequada do dispositivo, avaliação do local de punção, fixação segura, monitorização e reconhecimento precoce das complicações. No ambiente pré-hospitalar existem dificuldades adicionais, como iluminação limitada, movimentação da ambulância, instabilidade do paciente e necessidade de execução rápida dos procedimentos. 16.1 Indicações do acesso venoso periférico A decisão de estabelecer um acesso venoso deve considerar a condição clínica do paciente e o protocolo utilizado pelo serviço. O acesso pode ser necessário para administração de medicamentos intravenosos, reposição de fluidos ou manutenção de uma via disponível diante de situações em que exista possibilidade de deterioração clínica. Pacientes com emergências cardiovasculares, choque, alterações neurológicas graves, determinadas intoxicações, reações alérgicas graves, crises convulsivas e outras situações podem necessitar de terapia intravenosa. Entretanto, nem todo paciente transportado pelo SAMU precisa obrigatoriamente receber acesso venoso. O procedimento deve possuir finalidade assistencial definida. 16.2 Avaliação antes da punção Antes de realizar a punção, o profissional deve avaliar o paciente e selecionar o local mais apropriado. Devem ser consideradas as condições das veias, tipo de terapia prevista, características do paciente e duração estimada do atendimento. Sempre que clinicamente possível, podem ser priorizadas veias periféricas acessíveis dos membros superiores. O profissional deve inspecionar e palpar a região procurando uma veia adequada. Áreas com sinais de infecção, lesões, queimaduras ou outras condições que possam comprometer a segurança do acesso devem ser evitadas conforme avaliação e protocolos. A escolha precisa também considerar a necessidade de movimentação e transporte. 16.3 Materiais necessários Antes de iniciar o procedimento, os materiais devem estar preparados. Entre os itens utilizados podem estar dispositivo intravenoso periférico, garrote, solução antisséptica, gaze, sistema de conexão, material para fixação, solução prescrita ou protocolada, equipo quando necessário, luvas e recipiente adequado para descarte de perfurocortantes. A organização prévia reduz interrupções durante o procedimento. O profissional deve verificar a integridade e validade dos materiais utilizados. O dispositivo intravenoso precisa ser selecionado de acordo com a finalidade do acesso, características da veia e condição clínica. 16.4 Higiene das mãos e biossegurança A terapia intravenosa envolve risco de exposição a sangue e possibilidade de introdução de microrganismos no sistema vascular. Por isso, higiene das mãos e técnica asséptica são fundamentais. O profissional deve utilizar os equipamentos de proteção individual apropriados ao risco de exposição. A pele precisa receber antissepsia adequada antes da punção, respeitando o produto e a técnica previstos institucionalmente. Depois de preparada, a região não deve ser novamente contaminada antes da inserção. O material perfurocortante utilizado deve ser descartado imediatamente em recipiente apropriado. Não deve permanecer sobre a maca, banco ou outras superfícies da ambulância. 16.5 Técnica de punção periférica Após selecionar o local, realiza-se a preparação da região e o procedimento conforme técnica estabelecida. O garrote pode ser utilizado para favorecer a visualização e palpação da veia. Depois da antissepsia e do tempo necessário para ação do produto utilizado, realiza-se a punção com o dispositivo apropriado. Quando existem sinais de acesso vascular adequado, o cateter é avançado conforme técnica específica, evitando manipulações desnecessárias. A agulha utilizada durante a inserção deve ser imediatamente descartada no coletor de perfurocortantes. Após estabelecer o acesso, verifica-se sua funcionalidade conforme protocolo antes da utilização terapêutica. 16.6 Escolha do calibre do cateter Não existe um único calibre de cateter adequado para todos os pacientes. A escolha depende da veia disponível, idade e características do paciente, finalidade da terapia e necessidade de administração de fluidos ou medicamentos. Quando existe necessidade de infusão rápida de grande volume e as condições vasculares permitem, dispositivos de maior calibre podem proporcionar maior fluxo. Entretanto, escolher sempre o maior cateter possível não constitui uma regra adequada. Deve-se utilizar um dispositivo compatível com a finalidade terapêutica e com as condições da rede venosa. A escolha inadequada pode aumentar dificuldades de punção e complicações. 16.7 Fixação do acesso No atendimento pré-hospitalar, a fixação possui importância especial. O paciente será movimentado da cena para a maca, colocado na ambulância e posteriormente transferido para outra unidade. Um acesso mal fixado pode deslocar-se durante essas etapas. A fixação deve manter o cateter estável e permitir acompanhamento do local de inserção conforme as práticas assistenciais. Conexões também precisam permanecer seguras. Após movimentações importantes, a equipe deve verificar novamente o acesso. Dor, edema, vazamento ou resistência durante a utilização podem indicar complicações. 16.8 Terapia intravenosa A terapia intravenosa compreende a administração de soluções e medicamentos diretamente no sistema vascular. No SAMU, deve ser realizada mediante indicação clínica e respaldo correspondente, observando prescrição, protocolos institucionais e competências profissionais. Antes da administração de qualquer medicamento, devem ser realizadas as verificações de segurança pertinentes. O profissional precisa conhecer o medicamento utilizado, dose, via, forma de administração, possíveis incompatibilidades relevantes e cuidados de monitorização. A urgência da situação não elimina os princípios de segurança relacionados à administração de medicamentos. 16.9 Administração de soluções A administração de soluções intravenosas deve considerar a condição clínica do paciente. A reposição de volume não deve ser realizada automaticamente em qualquer pessoa com pressão arterial reduzida. A causa da instabilidade, presença de hemorragia, condição cardiovascular, idade e demais aspectos clínicos influenciam a estratégia terapêutica. No trauma hemorrágico, especialmente, o controle da hemorragia e o transporte oportuno para tratamento definitivo são fundamentais. A solução, quantidade e velocidade de administração devem seguir os protocolos e orientações aplicáveis ao caso. Durante a infusão, o paciente precisa ser reavaliado. 16.10 Administração intravenosa de medicamentos A via intravenosa permite início rápido do efeito de muitos medicamentos, característica particularmente importante nas emergências. Entretanto, essa rapidez também aumenta a necessidade de segurança. Um erro administrado diretamente pela via intravenosa pode produzir consequências imediatas. Antes da administração, devem ser confirmadas as informações necessárias conforme os princípios de segurança medicamentosa adotados pelo serviço. Após a administração, a resposta do paciente precisa ser acompanhada. Devem ser observados efeitos terapêuticos, alterações hemodinâmicas, reações adversas e outras manifestações relevantes. 16.11 Infiltração e extravasamento A infiltração ocorre quando uma solução não vesicante administrada por acesso periférico passa para os tecidos ao redor do vaso. Podem surgir edema, desconforto, alteração da temperatura local e redução ou interrupção do fluxo. O extravasamento envolve a saída de substância com potencial de provocar lesão tecidual e exige atenção específica. Diante da suspeita de infiltração ou extravasamento, a administração deve ser interrompida e a equipe deve seguir o protocolo correspondente ao medicamento ou solução envolvida. O local precisa ser avaliado e documentado. 16.12 Flebite e outras complicações Flebite corresponde à inflamação da veia e pode apresentar sinais como dor, vermelhidão e sensibilidade ao longo do trajeto vascular. Embora determinados pacientes permaneçam pouco tempo sob cuidados da equipe pré-hospitalar, o profissional deve reconhecer sinais de complicação, principalmente quando recebe um paciente que já possuía acesso instalado anteriormente. Também podem ocorrer sangramento, hematoma, obstrução do cateter, desconexão e deslocamento. Qualquer alteração precisa ser avaliada antes de continuar utilizando o acesso. 16.13 Dificuldade de obtenção do acesso Pacientes em choque, idosos, pessoas com doenças crônicas e outras condições podem apresentar acesso venoso periférico difícil. Tentativas repetidas podem consumir tempo e causar trauma. Nos pacientes críticos, a equipe deve seguir o protocolo do serviço quanto ao número de tentativas e às alternativas de acesso disponíveis. Em determinadas emergências, especialmente quando o acesso vascular é urgentemente necessário e a punção periférica não é obtida, outras estratégias podem ser consideradas por profissionais habilitados conforme regulamentação e protocolo. A tentativa de acesso não deve atrasar indefinidamente outras intervenções essenciais. 16.14 Acesso venoso durante o transporte Sempre que possível, procedimentos que exigem precisão devem ser realizados com o veículo parado e em condições seguras. Depois do início do transporte, o acesso precisa permanecer sob vigilância. Movimentação e vibração podem favorecer desconexões ou deslocamento do dispositivo. A equipe deve verificar o local, conexões, fluxo da infusão e resposta clínica do paciente. Bombas ou outros equipamentos utilizados devem permanecer adequadamente fixados. 16.15 Atuação do técnico de enfermagem e do enfermeiro O técnico de enfermagem pode realizar procedimentos relacionados à terapia intravenosa compatíveis com sua formação, legislação profissional, prescrição ou protocolos aplicáveis e supervisão do enfermeiro. Isso inclui participação na punção venosa periférica e administração de medicamentos dentro de suas atribuições, desde que capacitado e observadas as normas institucionais. O enfermeiro possui responsabilidade pela assistência de enfermagem de maior complexidade, avaliação do paciente grave, planejamento dos cuidados, supervisão da equipe e realização das intervenções que lhe são legalmente atribuídas. Em situações que envolvam maior complexidade, medicamentos de risco elevado ou procedimentos específicos, devem ser observadas as atribuições profissionais e os protocolos correspondentes. 16.16 Registro e reavaliação A punção e a terapia intravenosa devem ser registradas adequadamente. Informações relevantes incluem local do acesso, dispositivo utilizado, soluções e medicamentos administrados, horários e intercorrências identificadas. A resposta clínica também precisa ser documentada quando pertinente. Durante a transferência do cuidado, a equipe receptora deve receber informações sobre o acesso e as terapias administradas. O acesso venoso periférico no SAMU deve, portanto, ser compreendido como uma intervenção vinculada à necessidade clínica. Sua obtenção não pode transformar-se em objetivo isolado nem atrasar medidas capazes de salvar a vida do paciente. Punção segura, técnica asséptica, escolha adequada do dispositivo, fixação eficiente, administração criteriosa de soluções e medicamentos, reconhecimento de complicações e reavaliação contínua constituem os principais elementos da terapia intravenosa no atendimento pré-hospitalar. A segurança depende ainda do respeito às competências do técnico de enfermagem e do enfermeiro, da utilização de protocolos institucionais e do registro adequado de todas as intervenções realizadas.

CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

American Heart Association. Basic Life Support e Advanced Cardiovascular Life Support, 2020; Ministério da Saúde, protocolos de urgência.

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