Aula 44 – Parto de Emergência e Assistência Inicial ao Recém-Nascido
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
O parto de emergência no atendimento pré-hospitalar ocorre quando o nascimento é iminente e não existe tempo suficiente para transportar a gestante até uma maternidade antes do nascimento. Nessa situação, a equipe deve reconhecer rapidamente a evolução do trabalho de parto, preparar ambiente e materiais, assistir ao nascimento com segurança e iniciar os cuidados ao recém-nascido, sem negligenciar a condição materna. A maioria dos partos ocorre sem necessidade de intervenções complexas. A função da equipe é favorecer a evolução fisiológica, identificar complicações e intervir quando necessário, seguindo os protocolos assistenciais vigentes. Manobras desnecessárias ou tração sobre o recém-nascido e o cordão umbilical devem ser evitadas. 44.1 Reconhecimento do parto iminente A avaliação começa pela determinação da idade gestacional aproximada, número de gestações e partos anteriores, frequência e duração das contrações, presença de sangramento, perda de líquido amniótico e sensação de pressão pélvica. A gestante deve ser questionada sobre vontade involuntária de fazer força ou evacuar, pois essa sensação pode indicar progressão fetal pelo canal de parto. A inspeção externa do períneo pode identificar abaulamento e coroamento, situação em que a apresentação fetal se torna visível durante as contrações. Quando existe coroamento, contrações muito frequentes e forte necessidade de fazer força, o nascimento pode estar próximo. Nessas circunstâncias, tentar transportar rapidamente a gestante pode aumentar os riscos. A equipe deve preparar-se para assistir ao parto. 44.2 Preparação para o nascimento A privacidade da gestante deve ser preservada sempre que possível. O ambiente deve oferecer condições de segurança, iluminação adequada e proteção térmica. Devem ser preparados materiais para proteção individual, campos ou tecidos limpos, compressas, dispositivos para clampeamento e corte do cordão, aspirador quando indicado, material para ventilação neonatal e recursos para manutenção da temperatura do recém-nascido. A equipe também deve manter disponíveis equipamentos para atendimento de possíveis complicações maternas, principalmente hemorragias. A gestante deve ser posicionada de maneira que permita assistência segura e confortável, evitando posição que comprometa sua circulação ou respiração. 44.3 Assistência à saída da cabeça Durante o coroamento, a equipe deve permitir que a cabeça fetal progrida espontaneamente, oferecendo apenas suporte controlado. Não se deve puxar a cabeça do recém-nascido. Após a exteriorização da cabeça, deve-se observar se existe cordão umbilical ao redor do pescoço. Essa situação é denominada circular de cordão. Quando a circular está frouxa, pode ser possível deslizá-la cuidadosamente sobre a cabeça. Quando não é possível, a conduta deve seguir protocolo obstétrico específico, evitando manipulações desnecessárias. Não se deve realizar aspiração rotineira da boca ou do nariz de um recém-nascido vigoroso. 44.4 Nascimento dos ombros e do corpo Após o nascimento da cabeça ocorre geralmente rotação espontânea, seguida pela saída dos ombros. O profissional deve apoiar o recém-nascido, permitindo que o nascimento continue naturalmente, sem realizar tração excessiva. Após a saída dos ombros, o restante do corpo normalmente nasce rapidamente. O recém-nascido deve ser segurado com firmeza e cuidado, pois estará molhado e escorregadio. Imediatamente após o nascimento, deve-se registrar o horário, informação fundamental para documentação e decisões relacionadas à assistência neonatal. 44.5 Avaliação inicial do recém-nascido A avaliação inicial deve responder rapidamente a questões fundamentais: o recém-nascido é de termo? apresenta bom tônus? está respirando ou chorando? Quando o recém-nascido apresenta boa vitalidade, os cuidados podem ser realizados junto à mãe. Deve-se secá-lo, retirar tecidos molhados, fornecer calor e posicioná-lo adequadamente. O contato pele a pele com a mãe pode favorecer manutenção da temperatura e adaptação após o nascimento quando ambos apresentam condições clínicas adequadas. O recém-nascido deve permanecer sob observação contínua quanto à respiração, frequência cardíaca, tônus e coloração. 44.6 Prevenção da hipotermia O recém-nascido perde calor rapidamente, especialmente no ambiente pré-hospitalar. A prevenção da hipotermia constitui uma das prioridades da assistência inicial. O bebê deve ser secado imediatamente, tecidos úmidos devem ser substituídos e cabeça e corpo protegidos adequadamente. Quando mãe e recém-nascido estão estáveis, o contato pele a pele, associado à cobertura adequada, auxilia na manutenção da temperatura. Prematuros apresentam risco ainda maior de hipotermia e podem necessitar de estratégias específicas conforme protocolo neonatal. 44.7 Cordão umbilical Quando as condições maternas e neonatais permitem, não existe necessidade de clampear imediatamente o cordão em um recém-nascido vigoroso. O clampeamento tardio apresenta benefícios reconhecidos em diversas situações. O tempo e a técnica devem seguir protocolos atualizados de assistência neonatal e as condições clínicas presentes. Quando for necessário cortar o cordão, devem ser utilizados materiais apropriados e técnica limpa. Não se deve realizar tração sobre o cordão para acelerar a saída da placenta. 44.8 Recém-nascido que não respira adequadamente Quando o recém-nascido não apresenta respiração eficaz após o nascimento, a avaliação e as intervenções precisam ocorrer rapidamente. Inicialmente, devem ser garantidos aquecimento, posicionamento adequado das vias aéreas, secagem e estímulo quando indicado. Se permanecer em apneia, apresentar respiração irregular do tipo gasping ou frequência cardíaca inferior a 100 batimentos por minuto, a ventilação com pressão positiva deve ser iniciada conforme protocolo de reanimação neonatal. Na reanimação neonatal, a ventilação eficaz constitui a intervenção mais importante. Deve-se utilizar máscara de tamanho apropriado, garantindo vedação e observando movimento do tórax. 44.9 Frequência cardíaca neonatal A frequência cardíaca constitui importante indicador da resposta do recém-nascido às intervenções. Após ventilação adequada, deve ser reavaliada. Se permanecer abaixo de 100 batimentos por minuto, deve-se verificar principalmente a eficácia da ventilação e realizar as correções necessárias. Quando a frequência cardíaca permanece inferior a 60 batimentos por minuto apesar de ventilação efetiva, podem ser necessárias compressões torácicas associadas à ventilação, conforme protocolo de reanimação neonatal. 44.10 Compressões torácicas no recém-nascido A ressuscitação neonatal apresenta diferenças em relação à RCP realizada em crianças maiores. Quando indicadas, as compressões devem ser coordenadas com as ventilações na proporção de três compressões para uma ventilação, totalizando 90 compressões e 30 ventilações por minuto, correspondendo a 120 eventos por minuto. A técnica preferencial utiliza os dois polegares sobre o terço inferior do esterno, com as mãos envolvendo o tórax. A profundidade deve atingir aproximadamente um terço do diâmetro anteroposterior do tórax. A necessidade de compressões geralmente indica comprometimento neonatal grave e exige suporte avançado. 44.11 Índice de Apgar O índice de Apgar é utilizado para descrever a condição clínica do recém-nascido após o nascimento, tradicionalmente no primeiro e quinto minutos. São avaliados frequência cardíaca, esforço respiratório, tônus muscular, resposta reflexa e coloração. O Apgar é útil para documentação da evolução neonatal, mas não deve ser utilizado para decidir se a reanimação deve ou não ser iniciada. As intervenções necessárias começam imediatamente com base na avaliação clínica. 44.12 Dequitação da placenta Após o nascimento, ocorre a terceira etapa do parto, caracterizada pela separação e saída da placenta. A equipe não deve puxar o cordão para retirar a placenta. Quando a placenta for expelida espontaneamente, deve ser acondicionada adequadamente e encaminhada com a mãe para avaliação hospitalar. O horário aproximado da saída e características observadas devem ser registrados. A atenção deve permanecer voltada principalmente para o sangramento materno. 44.13 Hemorragia pós-parto A hemorragia pós-parto constitui uma das principais complicações obstétricas e pode produzir rápida deterioração. Sangramento vaginal intenso, taquicardia, palidez, sudorese, alteração da consciência, perfusão inadequada e hipotensão são sinais de alerta. O útero deve ser avaliado conforme treinamento e protocolo. Quando indicada, massagem uterina pode integrar as medidas iniciais diante de suspeita de atonia uterina. Medicamentos uterotônicos podem ser utilizados conforme protocolo, prescrição ou orientação médica. Acesso vascular e reposição de fluidos podem ser necessários diante de comprometimento circulatório. 44.14 Distocia de ombro A distocia de ombro ocorre quando, após o nascimento da cabeça, os ombros não conseguem progredir normalmente. Trata-se de emergência obstétrica. Não se deve realizar tração excessiva sobre a cabeça fetal. Manobras obstétricas específicas podem ser necessárias e devem ser realizadas por profissionais capacitados conforme protocolo. A identificação rápida e comunicação com a regulação são fundamentais. 44.15 Prolapso do cordão umbilical No prolapso de cordão, o cordão umbilical apresenta-se antes da parte fetal e pode sofrer compressão, comprometendo a circulação fetal. Essa condição exige transporte emergencial e medidas destinadas a reduzir a compressão conforme protocolo obstétrico. Não se deve tentar recolocar o cordão no interior do útero. Quando exteriorizado, deve ser protegido contra manipulação e ressecamento conforme orientação assistencial. 44.16 Parto pélvico Quando nádegas ou pés aparecem primeiro, trata-se de apresentação pélvica. O atendimento apresenta maior risco de complicações. A equipe deve solicitar suporte avançado e seguir protocolos específicos. Não se deve puxar o bebê para acelerar o nascimento. A prioridade é permitir progressão espontânea sempre que possível e reconhecer rapidamente dificuldades que necessitem de intervenção especializada. 44.17 Atuação da equipe de enfermagem O enfermeiro deve avaliar a evolução do trabalho de parto, reconhecer o nascimento iminente, preparar materiais e organizar a assistência materna e neonatal. Dentro de suas competências e protocolos, pode prestar assistência ao parto sem distocia, realizar cuidados imediatos ao recém-nascido e iniciar medidas de reanimação quando necessárias. O técnico de enfermagem auxilia na preparação do ambiente e materiais, monitorização materna, manutenção da temperatura neonatal e demais procedimentos dentro de suas competências e sob supervisão quando aplicável. Todos os horários e intervenções relevantes devem ser registrados. 44.18 Transporte da mãe e do recém-nascido Após o nascimento, mãe e bebê devem ser transportados para unidade adequada mesmo quando ambos apresentam aparente estabilidade. Durante o transporte, devem ser monitorizados sangramento materno, sinais vitais, condição uterina quando pertinente e estado geral da mãe. No recém-nascido, devem ser acompanhados temperatura, respiração, frequência cardíaca e condição clínica. Na transferência do cuidado devem ser informados horário do nascimento, idade gestacional estimada, condições do parto, Apgar quando realizado, intervenções neonatais, situação do cordão e placenta e condições maternas. 44.19 Considerações finais O parto de emergência no atendimento pré-hospitalar exige preparo para assistir simultaneamente duas pessoas. Na maioria dos partos sem complicações, a conduta adequada consiste em proporcionar ambiente seguro, permitir progressão fisiológica do nascimento, evitar tração desnecessária e prevenir hipotermia neonatal. Após o nascimento, a prioridade para um recém-nascido que não apresenta respiração eficaz é estabelecer ventilação adequada. Compressões torácicas são reservadas para situações específicas em que a frequência cardíaca permanece inferior a 60 batimentos por minuto apesar de ventilação efetiva. A assistência não termina com o nascimento. Hemorragia pós-parto, alterações maternas e deterioração neonatal podem ocorrer posteriormente. Enfermeiros e técnicos de enfermagem devem manter avaliação contínua, registrar os acontecimentos e garantir transporte seguro da mãe e do recém-nascido para continuidade da assistência hospitalar.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
National Association of Emergency Medical Technicians. Emergency Pediatric Care, 2022; Ministério da Saúde; legislação e protocolos profissionais aplicáveis.
