Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 23 – MOVIMENTAÇÃO EM BLOCO E TÉCNICAS DE ROLAMENTO

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a movimentação em bloco e técnicas de rolamento no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

Conteúdo da aula

A movimentação do paciente traumatizado constitui uma etapa importante do atendimento pré-hospitalar, especialmente quando existe suspeita de lesão da coluna vertebral. Retirar uma vítima do solo, acessar a região posterior do corpo, transferi-la para um dispositivo ou colocá-la na maca exige planejamento e coordenação entre os profissionais. Movimentos desnecessários podem aumentar a dor, agravar determinadas lesões, provocar sangramentos, deslocar dispositivos e dificultar a assistência. A movimentação em bloco procura manter cabeça, pescoço, tronco e pelve alinhados durante determinadas manobras, reduzindo movimentos independentes entre os segmentos corporais. Entretanto, essa técnica não deve ser aplicada automaticamente a todo traumatizado. Sua utilização depende da condição clínica, do mecanismo do trauma, da necessidade de acesso ao paciente, dos recursos disponíveis e dos protocolos do serviço. No SAMU, técnicos de enfermagem e enfermeiros participam dessas manobras juntamente com os demais profissionais da equipe, sendo indispensáveis comunicação, treinamento e definição clara de quem coordenará cada movimento. 23.1 Princípios gerais da movimentação Antes de movimentar o paciente, a equipe deve avaliar a segurança da cena e as ameaças imediatas à vida. O XABCDE continua sendo prioritário. Uma hemorragia externa maciça deve ser controlada rapidamente. Vias aéreas, ventilação e circulação também precisam ser consideradas antes de uma movimentação que possa ser adiada. Entretanto, existem situações nas quais a própria permanência no local representa perigo. Incêndio, risco de explosão, desabamento, tráfego não controlado ou violência podem exigir retirada emergencial. Nessas circunstâncias, a necessidade de preservar a vida pode se sobrepor à execução de uma técnica ideal de movimentação. 23.2 Conceito de movimentação em bloco Na movimentação em bloco, diferentes segmentos corporais são deslocados de forma coordenada. O objetivo é reduzir flexão, extensão e rotação desnecessárias da coluna durante determinadas transferências. Isso não significa que seja possível tornar o corpo completamente rígido. O objetivo é controlar os movimentos. Quando houver suspeita de lesão cervical, um profissional pode assumir o controle da cabeça e do pescoço enquanto outros profissionais estabilizam ombros, tronco, pelve e membros. Toda a equipe deve compreender previamente a direção e a finalidade do movimento. A movimentação somente começa depois que todos confirmarem que estão preparados. 23.3 Planejamento da manobra Antes de qualquer transferência, deve-se decidir para onde o paciente será movimentado. Prancha longa, maca scoop, maca da ambulância ou outro dispositivo deve estar preparado antes do início. Também é necessário verificar acessos venosos, oxigênio, monitorização, curativos, talas e outros equipamentos. Tubos e extensões precisam possuir comprimento e posicionamento adequados para não serem tracionados. A equipe deve observar ainda possíveis fraturas, objetos empalados, ferimentos extensos ou outras situações capazes de modificar a técnica. Planejar primeiro e movimentar depois reduz a necessidade de repetir manobras. 23.4 Comando único Uma das regras mais importantes é estabelecer um profissional responsável pelos comandos. Não é adequado que diferentes integrantes iniciem movimentos simultaneamente sem coordenação. O responsável deve verificar se todos estão posicionados e preparados. Podem ser utilizados comandos simples e objetivos para determinar preparação, início, interrupção e retorno. A movimentação ocorre simultaneamente. Se algum integrante identificar dificuldade, resistência, desconexão de equipamento ou mudança clínica, deve comunicar imediatamente. A equipe interrompe a manobra quando isso puder ser realizado com segurança, reorganiza a situação e somente depois continua. 23.5 Rolamento em bloco O rolamento em bloco pode ser utilizado quando existe necessidade específica de movimentar lateralmente o paciente mantendo controle dos segmentos corporais. Uma de suas aplicações é permitir avaliação da região posterior do corpo. Quando indicado, os profissionais posicionam-se de maneira que possam controlar cabeça, tronco, pelve e membros. Ao comando, o paciente é girado de maneira coordenada. A intenção é evitar que os ombros sejam movimentados enquanto a pelve permanece parada ou que a cabeça seja rodada independentemente do tronco. O movimento deve ocorrer somente na amplitude necessária para atingir seu objetivo. 23.6 Avaliação do dorso Ferimentos posteriores podem permanecer ocultos enquanto o paciente está em decúbito dorsal. Quando houver indicação de examinar o dorso, o rolamento permite acesso à região. Durante a manobra, um profissional pode realizar inspeção procurando hemorragias, ferimentos, deformidades e outras alterações. A palpação deve ser realizada quando indicada. O exame precisa ser objetivo para evitar que o paciente permaneça desnecessariamente em posição lateral. Depois da avaliação e das intervenções necessárias, a equipe realiza o retorno de maneira igualmente coordenada. 23.7 Rolamento e suspeita de trauma da coluna Quando existe suspeita de lesão vertebral ou medular, deve-se reduzir movimentos desnecessários. Isso não significa que o paciente jamais possa ser rolado. Se houver necessidade de avaliar uma hemorragia posterior, retirar um objeto localizado sob o corpo, tratar uma ameaça às vias aéreas ou realizar determinada transferência, a movimentação poderá ser necessária. O importante é que exista uma indicação e que a técnica seja planejada. Realizar repetidos rolamentos apenas por rotina aumenta manipulações sem benefício correspondente. 23.8 Elevação coordenada Em determinadas situações, o paciente pode ser elevado de forma coordenada para que um dispositivo seja colocado sob seu corpo. Essa estratégia depende da quantidade de profissionais, do peso do paciente, do espaço disponível e dos equipamentos. A equipe deve posicionar-se adequadamente antes de iniciar. Ao comando, o paciente é elevado somente o necessário. O dispositivo é colocado e, posteriormente, o paciente é baixado de forma coordenada. Não se deve manter o paciente suspenso por tempo maior do que o necessário. Após a transferência, realiza-se nova avaliação. 23.9 Movimentação com maca scoop A maca scoop, também conhecida como maca tipo colher, permite que suas partes sejam posicionadas ao redor do paciente e posteriormente conectadas. Essa característica pode reduzir a necessidade de determinados rolamentos durante a retirada do paciente do solo. Sua utilização depende do treinamento e dos protocolos. Antes de levantar o paciente, é indispensável confirmar que os mecanismos de conexão estão devidamente travados. A maca scoop será estudada detalhadamente no Capítulo 24, juntamente com a prancha longa e outros dispositivos de movimentação. 23.10 Movimentação diante de fraturas Fraturas exigem atenção durante transferências. Uma extremidade lesionada deve ser apoiada adequadamente para evitar movimentação excessiva. Quando possível e indicado, determinadas lesões podem ser estabilizadas antes da transferência. Entretanto, a imobilização de uma fratura não deve atrasar intervenções necessárias diante de ameaças imediatas à vida. Em suspeitas de trauma pélvico, manipulações repetidas devem ser evitadas. A equipe precisa observar se a movimentação provoca aumento importante da dor, sangramento ou alteração neurovascular. 23.11 Objetos empalados A presença de objeto empalado modifica a estratégia de movimentação. O objeto geralmente não deve ser removido no ambiente pré-hospitalar. Durante a transferência, deve ser estabilizado para evitar deslocamentos que possam ampliar a lesão. Antes de realizar rolamento ou transferência, a equipe precisa verificar a posição do objeto e garantir espaço suficiente. Pode ser necessário adaptar a técnica para impedir que o dispositivo ou o próprio solo exerça pressão sobre ele. 23.12 Paciente inconsciente O paciente inconsciente exige atenção especial porque não consegue informar dor ou alterações neurológicas durante a movimentação. Além disso, pode apresentar comprometimento dos mecanismos de proteção das vias aéreas. A equipe deve avaliar continuamente respiração e permeabilidade das vias aéreas. Quando houver vômito ou secreções capazes de provocar aspiração, poderá ser necessária movimentação coordenada para permitir drenagem e aspiração. Nessa situação, preservar as vias aéreas possui prioridade. A preocupação com a coluna não deve impedir uma intervenção necessária para evitar hipóxia ou aspiração. 23.13 Movimentação em situação de emergência Nem sempre haverá tempo ou condições para uma movimentação planejada com vários profissionais. Se a cena se tornar insegura, pode ser necessária retirada emergencial. A técnica deve ser compatível com o risco existente e com o treinamento da equipe. Depois que o paciente alcançar uma área segura, realiza-se avaliação sistematizada e reorganizam-se as medidas de restrição de movimento. A permanência em uma área perigosa apenas para executar uma técnica ideal não representa uma conduta segura. 23.14 Extricação veicular A movimentação de vítimas dentro de veículos exige integração entre atendimento médico e salvamento. Inicialmente, o veículo deve estar em condições seguras para abordagem. A equipe avalia consciência, vias aéreas, respiração, circulação e possibilidade de lesões importantes. O paciente pode estar apenas impossibilitado de sair sozinho ou fisicamente encarcerado pelas estruturas do veículo. A condição clínica influencia a velocidade da retirada. Pacientes instáveis podem exigir estratégia de extricação mais rápida, enquanto pacientes estáveis podem permitir planejamento mais controlado. A utilização específica do KED/BKED em vítimas sentadas será abordada no Capítulo 25. 23.15 Ergonomia da equipe A segurança dos profissionais também deve ser considerada. Levantar pacientes utilizando postura inadequada pode produzir lesões musculoesqueléticas. Antes da movimentação, devem ser avaliados peso aproximado do paciente, espaço disponível e quantidade de profissionais necessários. Quando disponíveis, equipamentos destinados a auxiliar o levantamento devem ser utilizados adequadamente. O profissional deve evitar realizar sozinho uma movimentação que exige mais pessoas. Uma técnica segura protege simultaneamente paciente e equipe. 23.16 Reavaliação após a movimentação Toda movimentação relevante deve ser seguida de nova avaliação. Vias aéreas, respiração, circulação e nível de consciência devem ser conferidos. Curativos, torniquetes, talas, acesso venoso, dispositivos respiratórios e equipamentos de monitorização precisam ser inspecionados. Uma hemorragia anteriormente controlada pode retornar depois da transferência. Um acesso pode ser tracionado ou um dispositivo pode mudar de posição. Nos pacientes com suspeita de lesão da coluna, alterações motoras ou sensitivas identificadas após a movimentação precisam ser comparadas aos achados anteriores. 23.17 Atuação da enfermagem O técnico de enfermagem participa das técnicas de movimentação, estabilização manual, preparação dos equipamentos, transferência e monitorização, respeitando suas competências e os protocolos. O enfermeiro realiza avaliação de enfermagem, identifica prioridades, participa do planejamento da movimentação e supervisiona os cuidados executados pela equipe. Em ocorrências envolvendo resgate complexo, o trabalho deve ser integrado com bombeiros e demais profissionais responsáveis pela extricação. 23.18 Registro e transferência do cuidado Intercorrências relevantes durante a movimentação devem ser registradas. Alterações neurológicas, retorno de sangramento, piora da dor ou qualquer mudança clínica significativa precisam constar na documentação e ser comunicadas à equipe receptora. A movimentação em bloco e as técnicas de rolamento não constituem apenas procedimentos mecânicos. Elas fazem parte da assistência ao traumatizado e precisam estar relacionadas às necessidades clínicas do paciente. O princípio fundamental é evitar movimentações desnecessárias, planejar cada transferência e trabalhar de maneira coordenada. O paciente deve ser movimentado somente quando houver finalidade definida, utilizando técnica compatível com sua condição. Quando corretamente executadas, essas manobras permitem examinar regiões ocultas, transferir o paciente, facilitar a extricação e preparar o transporte, ao mesmo tempo em que reduzem movimentos desnecessários. Planejamento, comando único, comunicação, técnica e reavaliação são os elementos fundamentais para uma movimentação segura no atendimento pré-hospitalar.

CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

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