Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 29 – TALAS E TÉCNICAS DE IMOBILIZAÇÃO

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a talas e técnicas de imobilização no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

Conteúdo da aula

As talas são dispositivos utilizados no atendimento pré-hospitalar para estabilizar extremidades lesionadas, limitar movimentos, reduzir dor e diminuir o risco de agravamento durante a movimentação e o transporte. Seu emprego é especialmente importante diante de suspeitas de fraturas, luxações e determinadas lesões musculoesqueléticas. No SAMU, a imobilização deve ocorrer depois da identificação e do tratamento das ameaças imediatas à vida. Uma fratura evidente não deve fazer a equipe abandonar a sequência do XABCDE. Hemorragia externa maciça, comprometimento das vias aéreas, alterações respiratórias e instabilidade circulatória possuem prioridade. Após a estabilização inicial, a equipe avalia a extremidade e escolhe o dispositivo mais apropriado. A técnica utilizada deve considerar localização da lesão, condição neurovascular, presença de ferimentos, posição do membro, disponibilidade de equipamentos e protocolos do serviço. 29.1 Objetivos da imobilização A imobilização pré-hospitalar não tem como objetivo realizar tratamento ortopédico definitivo. Sua finalidade é proteger temporariamente a região traumatizada até que o paciente seja submetido à avaliação hospitalar. Uma imobilização adequada pode reduzir movimentos entre estruturas lesionadas, diminuir dor e limitar danos adicionais aos músculos, vasos e nervos. Também facilita determinadas transferências e o transporte. Entretanto, uma tala mal colocada pode produzir compressão, comprometimento circulatório, dor e lesões de pele. Portanto, tão importante quanto saber colocar uma tala é saber avaliar sua necessidade e verificar seus efeitos depois da instalação. 29.2 Avaliação antes da imobilização Antes de colocar qualquer dispositivo, a extremidade deve ser examinada. O profissional observa deformidade, edema, ferimentos, sangramento, coloração e posição do membro. Quando possível, deve-se avaliar circulação, sensibilidade e função motora distalmente à lesão. A presença de pulso distal deve ser verificada quando aplicável. Também podem ser avaliados temperatura, coloração e perfusão periférica. O paciente deve ser questionado sobre formigamento, dormência ou perda de sensibilidade. Esses achados precisam ser registrados porque servirão como referência para a avaliação realizada depois da imobilização. 29.3 Preparação do material Todo material necessário deve ser preparado antes de iniciar o procedimento. Essa organização reduz o tempo durante o qual a extremidade permanece sendo manipulada. A equipe deve selecionar uma tala de tamanho compatível com o segmento corporal. Também devem estar disponíveis materiais para proteção da pele, fixação e controle de eventuais ferimentos. Se houver sangramento, a hemorragia deve ser controlada antes ou simultaneamente à imobilização, conforme sua gravidade. O equipamento precisa ser inspecionado para verificar integridade e funcionamento. 29.4 Talas rígidas As talas rígidas oferecem suporte estrutural ao membro. Podem ser produzidas com diferentes materiais e formatos. Durante sua aplicação, deve-se evitar contato inadequado com proeminências ósseas ou ferimentos. Quando necessário, materiais de proteção podem ser utilizados entre a tala e a pele. A fixação deve impedir movimentos significativos sem produzir compressão excessiva. Após a colocação, a equipe verifica novamente a perfusão e a condição neurológica distal. O surgimento de palidez, redução da perfusão, dormência ou aumento importante da dor exige reavaliação imediata. 29.5 Talas moldáveis As talas moldáveis podem ser adaptadas ao formato da extremidade. Essa característica permite acomodar determinadas deformidades e proporcionar suporte ao segmento traumatizado. O profissional deve moldar o dispositivo de maneira compatível com a posição do membro, evitando manipulações excessivas. A capacidade de moldagem não significa que a tala deva comprimir fortemente a extremidade. Ela deve proporcionar estabilidade e apoio. Após sua instalação, as mesmas regras de avaliação neurovascular utilizadas nas demais imobilizações precisam ser seguidas. 29.6 Talas pneumáticas Alguns serviços podem dispor de talas pneumáticas. Esses dispositivos envolvem a extremidade e utilizam insuflação para proporcionar suporte. Quando empregados, devem seguir rigorosamente as orientações do fabricante. É necessário cuidado com pressão excessiva. Mudanças de volume do membro decorrentes de edema também podem modificar o efeito da tala durante o transporte. Por isso, a condição distal precisa ser monitorada. A equipe deve conhecer as características específicas dos equipamentos disponíveis na ambulância e não utilizar um dispositivo com o qual não esteja adequadamente treinada. 29.7 Tala de tração A tala de tração possui indicação mais específica que as talas convencionais. Pode ser considerada em determinadas fraturas isoladas da diáfise do fêmur, conforme avaliação clínica e protocolo. Seu objetivo é proporcionar estabilização e tração longitudinal controlada. Entretanto, não deve ser utilizada indiscriminadamente em qualquer lesão do membro inferior. Suspeitas de lesões da pelve, joelho, perna ou outras condições associadas podem contraindicar ou modificar sua utilização. Por isso, antes de aplicá-la, a equipe deve realizar avaliação cuidadosa e seguir os critérios estabelecidos pelo serviço. 29.8 Imobilização de fraturas fechadas Nas fraturas fechadas, a extremidade deve ser apoiada durante todo o procedimento. Quando a posição encontrada permite transporte seguro e não existe comprometimento neurovascular que exija outra conduta prevista em protocolo, geralmente procura-se evitar manipulações desnecessárias. A tala deve proporcionar estabilidade adequada. A equipe deve considerar o segmento lesionado e as articulações relacionadas ao movimento dessa região. Depois da fixação, é obrigatório verificar novamente circulação, sensibilidade e função motora distal quando possível. 29.9 Imobilização de fraturas expostas Fraturas expostas exigem cuidados adicionais. Inicialmente, deve-se avaliar a presença de hemorragia. Sangramentos potencialmente fatais possuem prioridade e precisam ser controlados imediatamente. A ferida deve ser protegida com material apropriado. Não se deve tentar introduzir novamente o osso exposto no interior da ferida. A imobilização precisa acomodar a lesão sem exercer pressão inadequada diretamente sobre estruturas expostas. Depois do procedimento, devem ser novamente avaliados sangramento e condição neurovascular. 29.10 Imobilização de luxações Nas luxações, a articulação pode apresentar deformidade importante e dor intensa. O membro geralmente deve ser estabilizado na posição mais segura possível, evitando tentativas rotineiras de redução no ambiente pré-hospitalar. Antes e depois da imobilização, deve-se verificar a condição neurovascular distal. Em circunstâncias específicas de comprometimento vascular, podem existir protocolos para intervenções adicionais por profissional habilitado. Essas situações não devem ser confundidas com autorização para realizar reduções articulares indiscriminadamente. O tratamento definitivo pertence ao ambiente apropriado. 29.11 Alinhamento do membro Nem toda deformidade deve ser corrigida na cena. O objetivo da equipe pré-hospitalar não é restaurar perfeitamente a anatomia. Quando o membro está deformado, deve-se avaliar perfusão, sensibilidade, função motora e possibilidade de transporte. Em situações específicas, protocolos podem prever alinhamento cuidadoso quando existe comprometimento neurovascular ou quando a posição impede a imobilização e o transporte. Qualquer tentativa deve ser realizada por profissional treinado. Resistência significativa, piora da dor ou alterações durante a manobra exigem interrupção e nova avaliação. 29.12 Fixação da tala A tala deve ser fixada de modo suficientemente firme para manter estabilidade, mas sem comprometer circulação. As faixas devem ser distribuídas de maneira adequada. Não é necessário apertar excessivamente para impedir qualquer movimento. Ferimentos, proeminências ósseas e regiões dolorosas precisam ser considerados ao posicionar as fixações. Nós, fechos ou sistemas de retenção não devem exercer pressão diretamente sobre áreas traumatizadas quando isso puder ser evitado. Após a fixação, a equipe verifica se o membro está estável e se a circulação distal permanece preservada. 29.13 Imobilização de membro superior Lesões de braço, antebraço, punho e mão podem ser estabilizadas utilizando talas compatíveis com a região. Em determinadas situações, tipoias e sistemas de fixação ao tronco podem complementar a estabilização, desde que não comprometam respiração ou circulação. A posição deve considerar a deformidade e o conforto do paciente. Anéis e outros objetos podem tornar-se problemáticos quando ocorre edema progressivo. Quando apropriado e possível, a retirada precoce desses objetos deve ser considerada. 29.14 Imobilização de membro inferior Lesões de coxa, joelho, perna, tornozelo e pé exigem dispositivos adequados ao tamanho e localização do trauma. O membro deve ser sustentado durante a colocação da tala. Em fraturas de fêmur, a possibilidade de perda sanguínea e lesões associadas precisa ser considerada. A presença de deformidade no joelho ou comprometimento neurovascular exige avaliação cuidadosa. A equipe deve evitar movimentar repetidamente a extremidade para testar estabilidade. 29.15 Talas improvisadas Em situações nas quais equipamentos padronizados não estejam disponíveis, pode ser necessário utilizar recursos improvisados. Qualquer material empregado deve possuir resistência suficiente para fornecer suporte e não apresentar características capazes de produzir novas lesões. Superfícies cortantes ou estruturas inadequadamente rígidas devem ser evitadas. O material precisa ser protegido e fixado corretamente. Sempre que equipamentos próprios estiverem disponíveis, eles devem ser preferidos devido à maior previsibilidade e segurança de utilização. 29.16 Imobilização e dor A imobilização adequada pode reduzir significativamente a dor ao limitar a movimentação da região lesionada. Durante o procedimento, o profissional deve explicar ao paciente o que será realizado quando seu nível de consciência permitir. Movimentos devem ser coordenados e reduzidos ao necessário. Analgesia pode ser realizada conforme avaliação, protocolos e competência profissional. Depois da imobilização e das demais intervenções, a intensidade da dor deve ser novamente avaliada. 29.17 Reavaliação neurovascular A avaliação neurovascular após a colocação da tala é indispensável. O profissional deve comparar os achados com aqueles obtidos anteriormente. Pulso, perfusão, coloração, temperatura, sensibilidade e função motora são avaliados quando aplicáveis. O edema pode aumentar durante o transporte e tornar uma fixação excessivamente apertada. Por isso, a avaliação deve ser repetida periodicamente. Uma extremidade que se torna fria, pálida, dormente ou com piora importante da perfusão exige avaliação imediata da imobilização e da própria lesão. 29.18 Movimentação e transporte Depois de imobilizada, a extremidade deve continuar sendo protegida durante as transferências. A tala não torna o membro completamente resistente a movimentos. Ao transferir o paciente para prancha, maca scoop ou maca da ambulância, deve-se evitar que a extremidade fique sem apoio ou colida com estruturas. Após cada transferência, a tala deve ser novamente conferida. O paciente precisa estar adequadamente fixado à maca, sem que os cintos produzam pressão sobre a lesão. 29.19 Atuação da equipe de enfermagem O técnico de enfermagem participa da avaliação, preparação dos materiais, colocação das talas, controle de hemorragias, monitorização e transporte, conforme suas competências e protocolos. O enfermeiro realiza avaliação de enfermagem, identifica prioridades, supervisiona a equipe e executa procedimentos de maior complexidade dentro de suas atribuições profissionais. Os achados neurovasculares antes e depois da imobilização devem ser registrados e informados na transferência do cuidado. As talas constituem recursos essenciais para o atendimento pré-hospitalar das lesões de extremidades, mas sua utilização deve ser orientada pela avaliação clínica. Imobilizar não significa simplesmente colocar um equipamento ao redor de um membro. É necessário avaliar a lesão, verificar circulação e função neurológica, selecionar o dispositivo adequado, proteger a extremidade e reavaliar continuamente. Fraturas expostas exigem proteção da ferida e controle da hemorragia. Luxações não devem ser reduzidas rotineiramente na cena. Talas de tração possuem indicações específicas e não devem ser empregadas indiscriminadamente. Em todas as situações, a condição neurovascular distal precisa ser comparada antes e depois do procedimento. No SAMU, uma imobilização segura é aquela que cumpre sua finalidade sem produzir novos danos. Técnica correta, fixação adequada, monitorização e reavaliação transformam a tala de um simples equipamento em uma intervenção efetiva de proteção durante todo o percurso entre a ocorrência e o tratamento definitivo.

CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

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