Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 51 – Acidentes Elétricos e Descargas Atmosféricas

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a acidentes elétricos e descargas atmosféricas no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: Ministério da Saúde; Portaria GM/MS nº 2.048/2002; referências bibliográficas da apostila-base.

Conteúdo da aula

Os acidentes elétricos e as descargas atmosféricas constituem emergências potencialmente graves porque a passagem de corrente elétrica pelo organismo pode produzir alterações cardíacas, respiratórias, neurológicas e musculares, além de queimaduras e traumatismos associados. Em algumas situações, as lesões externas são discretas, enquanto o comprometimento interno pode ser significativo. No atendimento pré-hospitalar, a primeira preocupação deve ser a segurança da cena. A vítima não pode ser abordada enquanto permanecer em contato com uma fonte elétrica ativa. Somente após a interrupção segura da corrente ou liberação da área por profissionais responsáveis deve ser iniciada a avaliação direta. 51.1 Segurança da cena A eletricidade representa risco tanto para a vítima quanto para os profissionais. Antes de aproximar-se, a equipe deve identificar fios energizados, equipamentos elétricos, água em contato com eletricidade, estruturas metálicas e possíveis fontes de alta tensão. Nunca se deve tocar diretamente em uma vítima que ainda esteja em contato com corrente elétrica. Em acidentes envolvendo redes de distribuição, postes, transformadores ou cabos de alta tensão, deve-se considerar que a área ao redor pode permanecer energizada. A aproximação somente deve ocorrer após confirmação de segurança pela equipe especializada responsável pela rede elétrica ou pelo resgate. A utilização de objetos improvisados para afastar fios energizados deve ser evitada. 51.2 Mecanismo da lesão elétrica A gravidade de um acidente elétrico depende de vários fatores, incluindo intensidade da corrente, tensão, resistência dos tecidos, duração do contato e trajeto percorrido pelo organismo. O tipo de corrente também influencia os efeitos fisiológicos. A passagem da eletricidade através do tórax apresenta preocupação especial devido à possibilidade de comprometimento cardíaco e respiratório. Tecidos apresentam diferentes resistências à passagem da corrente. Pele, músculos, vasos sanguíneos, nervos e outros tecidos podem sofrer danos em diferentes intensidades. Por isso, a extensão das lesões visíveis na pele não permite determinar isoladamente a gravidade do acidente. 51.3 Baixa e alta tensão Acidentes elétricos podem ocorrer em ambientes domésticos, ocupacionais e industriais. A exposição a alta tensão está associada a maior risco de queimaduras profundas, lesões musculares extensas, arritmias, traumatismos e amputações. Entretanto, exposições a tensões mais baixas também podem causar eventos graves, dependendo das circunstâncias. A avaliação deve considerar mecanismo do acidente, tempo de contato, sintomas apresentados e alterações encontradas. 51.4 Avaliação inicial Após garantir a segurança, deve-se avaliar responsividade, vias aéreas, respiração e circulação. A vítima pode apresentar parada cardiorrespiratória imediatamente após o choque. Quando houver parada, a ressuscitação cardiopulmonar deve ser iniciada imediatamente, seguindo os protocolos de suporte básico e avançado de vida. O desfibrilador externo automático ou monitor-desfibrilador deve ser utilizado assim que disponível. Em pacientes com circulação espontânea, devem ser avaliados frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória, saturação periférica de oxigênio, nível de consciência e presença de queimaduras ou traumatismos. 51.5 Alterações cardíacas A passagem da corrente elétrica pode interferir na atividade elétrica do coração. Podem ocorrer diferentes arritmias, desde alterações transitórias até fibrilação ventricular e parada cardíaca. Pacientes com perda de consciência, dor torácica, palpitações, exposição significativa ou alterações dos sinais vitais necessitam de avaliação cardíaca adequada. Quando disponível, deve-se realizar monitorização eletrocardiográfica conforme protocolo. O eletrocardiograma de 12 derivações pode ser indicado em determinadas exposições e situações clínicas. A ausência de queimaduras importantes não exclui comprometimento cardíaco. 51.6 Comprometimento respiratório A corrente elétrica pode provocar contrações musculares intensas e interferir na respiração. Lesões neurológicas também podem comprometer o controle respiratório. A equipe deve observar frequência, profundidade e eficácia da ventilação. Quando houver ventilação inadequada, deve ser fornecido suporte ventilatório utilizando os equipamentos apropriados. Oxigênio suplementar deve ser utilizado quando clinicamente indicado. A avaliação respiratória deve ser repetida durante todo o atendimento. 51.7 Queimaduras elétricas As queimaduras elétricas apresentam características diferentes das queimaduras exclusivamente térmicas. Podem existir lesões nos pontos de contato da corrente com o organismo, porém o dano profundo pode ser maior do que o observado externamente. Músculos, vasos sanguíneos e nervos podem ser comprometidos. As queimaduras devem ser protegidas com cobertura limpa e seca conforme protocolo. Não devem ser aplicadas pomadas, cremes, produtos caseiros ou gelo diretamente sobre as lesões. A prioridade permanece a avaliação sistêmica do paciente, pois as consequências cardiovasculares e traumáticas podem representar risco maior que a queimadura externa. 51.8 Lesão muscular e rabdomiólise Exposições elétricas importantes podem produzir destruição muscular extensa. A ruptura das células musculares libera substâncias para a circulação, fenômeno relacionado à rabdomiólise. Uma das consequências pode ser comprometimento renal. Dor muscular intensa, edema e alterações urinárias podem estar presentes, embora nem sempre sejam imediatamente identificáveis no ambiente pré-hospitalar. Pacientes com exposição significativa necessitam de avaliação hospitalar e monitorização apropriada. 51.9 Trauma associado O choque elétrico pode produzir contrações musculares intensas capazes de provocar quedas ou projeção da vítima. Assim, além das lesões diretamente relacionadas à eletricidade, podem existir traumatismo craniano, lesões da coluna, fraturas e outros traumas. A equipe deve investigar se ocorreu queda de altura, projeção ou impacto contra estruturas. Quando o mecanismo indicar possibilidade de trauma significativo, devem ser aplicados os princípios apropriados de avaliação e movimentação. 51.10 Síndrome compartimental Lesões musculares profundas podem produzir edema dentro de compartimentos musculares, aumentando a pressão local. Esse processo pode comprometer circulação e estruturas nervosas. Dor intensa e progressiva, tensão do membro e alterações neurológicas ou circulatórias distais são sinais preocupantes. A síndrome compartimental é uma emergência que necessita de avaliação hospitalar imediata. A equipe pré-hospitalar deve reconhecer sinais sugestivos e comunicar a suspeita ao serviço receptor. 51.11 Crianças e acidentes domésticos Crianças podem sofrer acidentes envolvendo tomadas, fios danificados e aparelhos elétricos. Queimaduras na boca podem ocorrer quando crianças mordem cabos energizados. Mesmo quando a lesão parece pequena, deve-se avaliar mecanismo, sintomas e possíveis complicações. A prevenção inclui proteção adequada das instalações, manutenção dos equipamentos e supervisão das crianças em ambientes com risco elétrico. 51.12 Descargas atmosféricas As descargas atmosféricas, popularmente chamadas de raios, podem produzir corrente elétrica de altíssima intensidade durante período extremamente curto. A lesão pode ocorrer por impacto direto, contato com objeto atingido, propagação pelo solo ou outros mecanismos relacionados. Parada cardíaca e parada respiratória podem ocorrer imediatamente. Também podem surgir alterações neurológicas, queimaduras, lesões auditivas e traumatismos decorrentes de queda ou projeção. 51.13 Segurança durante tempestades Antes do atendimento, deve-se verificar se permanece risco de novas descargas. Áreas abertas, locais elevados, árvores isoladas, estruturas metálicas e proximidade de água podem representar perigo durante tempestades. A equipe deve seguir os protocolos de segurança para atuação em condições meteorológicas adversas. Diferentemente da vítima que permanece conectada a uma fonte elétrica convencional, uma pessoa atingida por raio não permanece eletricamente carregada. Após o evento e quando o ambiente estiver seguro, ela pode ser tocada e atendida normalmente. 51.14 Parada cardiorrespiratória por raio Vítimas de descarga atmosférica podem apresentar parada respiratória e cardíaca. A ressuscitação deve ser iniciada imediatamente quando indicada. Em ocorrências com múltiplas vítimas causadas por raios existe uma particularidade importante: pessoas aparentemente sem sinais vitais podem apresentar possibilidade de recuperação quando recebem ressuscitação rapidamente. Esse princípio é conhecido como triagem reversa em incidentes envolvendo múltiplas vítimas atingidas por raios. Diferentemente de determinadas situações convencionais de múltiplas vítimas, indivíduos em parada cardiorrespiratória podem receber prioridade para ressuscitação quando houver condições operacionais. 51.15 Alterações neurológicas Descargas elétricas e raios podem produzir perda da consciência, confusão, convulsões, alterações de memória e déficits neurológicos. Após uma descarga atmosférica, também podem ocorrer fraqueza ou paralisia transitória de membros, associadas a alterações autonômicas. A avaliação neurológica deve ser repetida durante o atendimento. Qualquer alteração persistente necessita de avaliação hospitalar. 51.16 Lesões auditivas e oculares A onda de choque produzida por uma descarga atmosférica pode causar lesões auditivas, incluindo ruptura da membrana timpânica. A vítima pode apresentar dor, redução da audição, zumbido ou sangramento pelo ouvido. Alterações visuais também podem ocorrer. Essas lesões não devem desviar a atenção das prioridades vitais, mas precisam ser identificadas e comunicadas à unidade receptora. 51.17 Atendimento às queimaduras Após estabilização das funções vitais, as queimaduras devem ser avaliadas quanto à localização, extensão e profundidade aparente. Roupas e objetos que não estejam aderidos podem ser manejados conforme protocolo. Objetos constritivos, como anéis, podem necessitar de remoção precoce diante da possibilidade de edema. Lesões devem ser protegidas adequadamente, evitando contaminação e perda excessiva de calor. 51.18 Atuação do enfermeiro O enfermeiro deve realizar avaliação sistematizada e identificar parada cardíaca, arritmias, insuficiência respiratória, queimaduras e traumas associados. Dentro de suas competências e protocolos, participa da RCP, desfibrilação, monitorização cardíaca, obtenção de acesso vascular, administração de medicamentos e tratamento inicial das queimaduras. Também deve registrar mecanismo, tipo conhecido de exposição, tempo aproximado de contato, perda de consciência, sinais vitais e intervenções realizadas. 51.19 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa das compressões torácicas, ventilação, oxigenoterapia, monitorização e preparação dos materiais. Dentro de suas competências, auxilia no tratamento das queimaduras e na administração dos medicamentos prescritos ou protocolados. Deve observar alterações cardíacas, respiratórias e neurológicas e comunicá-las imediatamente. A segurança elétrica da cena deve permanecer como preocupação durante toda a ocorrência. 51.20 Transporte Pacientes com exposição elétrica significativa, alterações cardíacas ou neurológicas, queimaduras importantes, perda de consciência ou trauma associado necessitam de avaliação hospitalar. Durante o transporte, devem ser mantidas monitorização e reavaliações. A unidade receptora deve receber informações sobre mecanismo do acidente, tensão quando conhecida, possível trajeto da corrente, perda de consciência, parada cardíaca, queimaduras, traumas e intervenções realizadas. 51.21 Considerações finais Acidentes elétricos podem provocar lesões muito mais extensas do que aquelas observadas externamente. A prioridade inicial é garantir que a fonte elétrica esteja desativada antes de tocar na vítima. Após a segurança da cena, devem ser avaliadas imediatamente respiração e circulação, iniciando RCP e desfibrilação quando indicadas. Arritmias, queimaduras profundas, lesões musculares e traumatismos associados devem ser considerados. Nas descargas atmosféricas, a vítima não permanece eletricamente carregada. Em eventos com múltiplas vítimas atingidas por raios, a possibilidade de triagem reversa constitui uma particularidade importante. A atuação organizada de enfermeiros e técnicos de enfermagem, associada à segurança da cena, ressuscitação precoce, monitorização cardíaca e reconhecimento das lesões internas e traumáticas, constitui a base do atendimento pré-hospitalar aos acidentes elétricos e às descargas atmosféricas.

CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

Ministério da Saúde; Portaria GM/MS nº 2.048/2002; referências bibliográficas da apostila-base.

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