Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 18 – MEDICAMENTOS UTILIZADOS NO ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a medicamentos utilizados no atendimento pré-hospitalar no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: American Heart Association. Basic Life Support e Advanced Cardiovascular Life Support, 2020; Ministério da Saúde, protocolos de urgência.

Conteúdo da aula

Os medicamentos utilizados no atendimento pré-hospitalar constituem recursos importantes para o tratamento de emergências clínicas e traumáticas. No Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, SAMU, a administração medicamentosa deve estar vinculada à avaliação do paciente, à indicação clínica, à composição da equipe, à Regulação Médica, aos protocolos institucionais e às competências legais de cada profissional. A ambulância não deve ser compreendida apenas como meio de transporte, mas como unidade assistencial equipada para iniciar cuidados antes da chegada ao hospital. Entretanto, a presença de determinado medicamento na unidade não significa que possa ser administrado indiscriminadamente. Cada fármaco possui indicações, contraindicações, vias de administração, doses, efeitos adversos e necessidades específicas de monitorização. Para enfermeiros e técnicos de enfermagem, a segurança medicamentosa é especialmente importante. Antes da administração, devem ser realizadas as conferências previstas pelas boas práticas e pelos protocolos do serviço. Após a administração, o paciente deve ser reavaliado, pois administrar um medicamento sem acompanhar seus efeitos torna a assistência incompleta. 18.1 Princípios da administração segura A administração de medicamentos no ambiente pré-hospitalar apresenta desafios específicos. O atendimento pode ocorrer sob pressão de tempo, com iluminação inadequada, ruído, movimentação, informações incompletas sobre o paciente e necessidade simultânea de diferentes intervenções. Essas condições aumentam a importância da organização. Antes da administração, devem ser confirmados paciente, medicamento, dose, via, horário ou momento adequado e demais elementos previstos nas práticas de segurança medicamentosa. Também é necessário verificar alergias conhecidas, concentração do medicamento, integridade da embalagem, validade e possíveis incompatibilidades relevantes. Sempre que houver dúvida sobre medicamento, concentração ou dose, a informação deve ser confirmada antes da administração. 18.2 Adrenalina A adrenalina, também denominada epinefrina, é um medicamento de grande importância na emergência. No suporte avançado à parada cardiorrespiratória, é utilizada de acordo com o algoritmo correspondente. Também constitui medicamento fundamental no tratamento da anafilaxia. É indispensável compreender que indicação, concentração, dose e via variam conforme a situação clínica. A utilização na PCR não é igual à administração realizada na anafilaxia. Confundir apresentações ou concentrações de adrenalina pode produzir erro grave. Por isso, a equipe deve conferir cuidadosamente a apresentação disponível e seguir o protocolo específico da emergência atendida. Após sua administração, a condição cardiovascular e demais parâmetros pertinentes devem ser monitorados. 18.3 Amiodarona A amiodarona é um medicamento antiarrítmico utilizado em situações específicas. No contexto da parada cardiorrespiratória, pode integrar o algoritmo de tratamento de fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso que persiste ou recorre apesar das intervenções indicadas. Sua utilização não substitui a desfibrilação nem a RCP. Essa compreensão é essencial. Em uma PCR com ritmo chocável, a prioridade permanece sendo compressões de alta qualidade e desfibrilação nos momentos indicados. A amiodarona também possui outras aplicações cardiovasculares, mas sua administração deve seguir indicação, protocolo e monitorização apropriados. 18.4 Adenosina A adenosina pode ser utilizada em determinadas taquicardias regulares, especialmente dentro de algoritmos específicos para taquicardia supraventricular. Possui ação extremamente rápida e requer técnica apropriada de administração. Antes de utilizá-la, é necessário avaliar adequadamente o ritmo e a condição hemodinâmica do paciente. Nem toda taquicardia deve receber adenosina. Pacientes instáveis podem necessitar de estratégias diferentes, conforme o tipo de arritmia e protocolo utilizado. Durante sua administração, a monitorização cardíaca é particularmente importante. 18.5 Atropina A atropina é utilizada em determinadas situações de bradicardia sintomática. A simples presença de frequência cardíaca reduzida não constitui, isoladamente, indicação automática. É necessário avaliar se existem sinais de comprometimento clínico associados e seguir o algoritmo correspondente. O profissional deve observar pressão arterial, nível de consciência, perfusão, sintomas cardiovasculares e resposta ao tratamento. Quando a abordagem farmacológica não produz resposta adequada, outras intervenções podem ser necessárias no suporte avançado. 18.6 Ácido acetilsalicílico O ácido acetilsalicílico, AAS, possui papel importante em determinados pacientes com suspeita de síndrome coronariana aguda. Seu efeito antiplaquetário é utilizado com o objetivo de reduzir a agregação plaquetária em situações apropriadas. Entretanto, antes da administração, devem ser verificadas contraindicações relevantes, como hipersensibilidade conhecida e determinadas situações de sangramento. A presença de dor torácica não significa automaticamente que todo paciente deva receber AAS. O quadro precisa ser avaliado segundo protocolo. A administração deve ser registrada, incluindo dose e horário. 18.7 Nitroglicerina A nitroglicerina possui ação vasodilatadora e pode ser empregada em situações cardiovasculares específicas conforme protocolos assistenciais. Sua utilização exige atenção especial à pressão arterial e às contraindicações. A equipe também deve investigar o uso de determinados medicamentos que podem produzir interação clinicamente importante com nitratos. Depois da administração, pressão arterial, intensidade dos sintomas e condição geral precisam ser reavaliadas. O medicamento não deve ser administrado simplesmente porque o paciente apresenta dor torácica. 18.8 Glicose A glicose é utilizada no tratamento da hipoglicemia quando existe indicação. A hipoglicemia pode provocar sudorese, tremores, confusão, alterações comportamentais, convulsões e perda da consciência. Sempre que possível, a glicemia deve ser verificada para confirmar a alteração. A escolha da via e da apresentação depende do nível de consciência, acesso disponível, protocolo e condição clínica. Após a correção, a glicemia e principalmente a resposta neurológica precisam ser reavaliadas. Melhora da consciência após tratamento constitui informação importante, mas não elimina necessariamente a necessidade de investigação da causa do episódio. 18.9 Broncodilatadores Medicamentos broncodilatadores podem ser utilizados em emergências respiratórias caracterizadas por broncoespasmo, como determinadas exacerbações de asma ou doença pulmonar obstrutiva. O salbutamol é um exemplo frequentemente empregado. A administração pode ocorrer por dispositivos apropriados conforme protocolo. Antes e depois da terapia, devem ser avaliados frequência respiratória, esforço ventilatório, ausculta quando aplicável, saturação periférica de oxigênio e resposta clínica. Também devem ser observados possíveis efeitos adversos, incluindo alterações da frequência cardíaca e tremores. 18.10 Medicamentos utilizados na anafilaxia A anafilaxia é uma reação sistêmica grave que pode comprometer rapidamente vias aéreas, respiração e circulação. A adrenalina administrada pela via recomendada para anafilaxia constitui o tratamento farmacológico prioritário. Outros medicamentos podem ser empregados como terapias complementares conforme avaliação e protocolo, mas não devem atrasar a administração de adrenalina quando esta estiver indicada. O paciente necessita de monitorização contínua porque pode apresentar deterioração rápida ou recorrência dos sintomas. A equipe deve manter atenção especial às vias aéreas, ventilação e circulação. 18.11 Analgesia no atendimento pré-hospitalar A dor deve ser avaliada e tratada de maneira adequada. Dependendo da composição da equipe e dos protocolos do SAMU, diferentes medicamentos analgésicos podem estar disponíveis. A escolha depende da intensidade da dor, causa provável, condição hemodinâmica, antecedentes e demais características do paciente. Quando medicamentos com potencial para alterar consciência, respiração ou pressão arterial são utilizados, a monitorização deve ser proporcional ao risco. A analgesia não elimina a necessidade de investigar e tratar a causa da dor. 18.12 Medicamentos anticonvulsivantes e sedativos Crises convulsivas prolongadas ou repetidas podem exigir tratamento farmacológico. Benzodiazepínicos podem fazer parte dos protocolos de emergência para controle de determinadas crises convulsivas. Esses medicamentos podem produzir depressão respiratória e redução do nível de consciência, exigindo monitorização e disponibilidade imediata de suporte ventilatório. A equipe deve observar frequência respiratória, saturação, vias aéreas, nível de consciência e resposta clínica. O profissional precisa estar preparado para intervir caso a ventilação se torne inadequada. 18.13 Vias de administração A via intravenosa é frequentemente utilizada no atendimento de emergência por proporcionar rápido acesso à circulação. Quando o acesso intravenoso não pode ser estabelecido rapidamente em paciente crítico, a via intraóssea pode constituir alternativa, conforme abordado no capítulo anterior. Alguns medicamentos possuem vias específicas para determinadas emergências. A adrenalina na anafilaxia, por exemplo, possui recomendação de administração intramuscular conforme protocolos específicos. Também existem medicamentos administrados por via oral, sublingual ou inalatória. A via nunca deve ser escolhida apenas pela conveniência. Deve corresponder à indicação e às características farmacológicas do medicamento. 18.14 Medicamentos na parada cardiorrespiratória Durante a PCR, os medicamentos constituem parte do suporte avançado, mas não podem substituir as intervenções fundamentais. RCP de alta qualidade e desfibrilação precoce nos ritmos chocáveis permanecem prioridades. O acesso vascular e a preparação dos medicamentos devem ocorrer de forma organizada, procurando não interromper as compressões. A equipe deve registrar medicamento, dose, via e horário da administração. Essas informações também precisam ser transmitidas à equipe que receberá o paciente caso ocorra retorno da circulação espontânea. 18.15 Monitorização após administração Todo medicamento administrado exige avaliação de resposta. Após um broncodilatador, avalia-se a condição respiratória. Após medicamento para bradicardia, acompanha-se ritmo, frequência cardíaca e perfusão. Depois do tratamento da hipoglicemia, verificam-se glicemia e estado neurológico. Também é necessário procurar efeitos adversos. Essa sequência pode ser resumida em quatro ações: avaliar, administrar, monitorar e reavaliar. Sem a última etapa, não é possível determinar adequadamente o resultado da intervenção. 18.16 Atuação do técnico de enfermagem e do enfermeiro O técnico de enfermagem participa da administração de medicamentos dentro de suas atribuições legais, capacitação, prescrição e protocolos aplicáveis, sob a supervisão de enfermagem prevista para o exercício profissional. Deve realizar as conferências de segurança, preparar e administrar os medicamentos autorizados e comunicar alterações do paciente. O enfermeiro possui responsabilidades relacionadas à avaliação de enfermagem, cuidados aos pacientes graves, administração de medicamentos dentro de sua competência, intervenções de maior complexidade e supervisão da equipe. Protocolos institucionais não devem ser interpretados como autorização para ultrapassar limites estabelecidos pela legislação profissional. 18.17 Registro e segurança medicamentosa Toda administração deve ser registrada conforme os instrumentos utilizados pelo serviço. Medicamento, dose, via, horário e resposta clínica constituem informações relevantes. Erros ou intercorrências também precisam ser tratados segundo os protocolos de segurança do paciente. No atendimento pré-hospitalar, portanto, conhecer medicamentos significa muito mais do que memorizar nomes e doses. É necessário compreender indicação, contraindicações, concentração, via, efeitos adversos, monitorização e competência profissional. Adrenalina, amiodarona, adenosina, atropina, AAS, nitratos, glicose, broncodilatadores, medicamentos para convulsões e outros fármacos podem integrar diferentes protocolos do SAMU. A seleção e as doses específicas devem seguir os protocolos vigentes do serviço e a Regulação Médica quando aplicável. O princípio central permanece o mesmo: nenhum medicamento deve ser administrado sem indicação definida, conferência segura e reavaliação posterior do paciente.

PARTE IV – ATENDIMENTO AO TRAUMA
CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

American Heart Association. Basic Life Support e Advanced Cardiovascular Life Support, 2020; Ministério da Saúde, protocolos de urgência.

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