Aula 25 – KED/BKED E EXTRICAÇÃO DE VÍTIMA SENTADA
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
O atendimento a vítimas de acidentes automobilísticos exige avaliação cuidadosa das condições da cena, do estado clínico do paciente e da necessidade real de utilização de dispositivos de extricação. Entre os equipamentos tradicionalmente empregados para auxiliar na retirada de uma vítima encontrada sentada está o dispositivo conhecido como KED, sigla de Kendrick Extrication Device, além de equipamentos equivalentes, como o BKED, conforme o modelo disponível no serviço. Esses dispositivos foram desenvolvidos para auxiliar na restrição dos movimentos do tronco e da coluna durante determinadas extricações, especialmente quando a vítima permanece sentada em espaço limitado. Entretanto, seu emprego não deve ser automático em todo acidente automobilístico. A condição clínica do paciente, o mecanismo do trauma, a segurança da cena, o tempo necessário para aplicação e os protocolos do serviço devem determinar a estratégia de retirada. No SAMU, a prioridade continua sendo o paciente. Um equipamento de extricação nunca deve atrasar intervenções essenciais ou prolongar desnecessariamente a permanência de uma vítima grave dentro de um veículo. 25.1 O que é o KED/BKED O KED é um dispositivo semirrígido desenvolvido para envolver o tronco de uma pessoa encontrada sentada. Possui estrutura que auxilia na limitação dos movimentos da coluna durante a retirada e geralmente apresenta cintos destinados à fixação do tronco, pelve e cabeça. Existem diferentes fabricantes e modelos, razão pela qual detalhes de colocação podem apresentar variações. O BKED é utilizado com finalidade semelhante, devendo sempre ser aplicado segundo as orientações específicas do fabricante do equipamento disponível no serviço. Por isso, o profissional não deve memorizar apenas uma sequência genérica de cores ou cintos. É necessário conhecer exatamente o dispositivo existente na ambulância, suas partes, sistema de fechamento e recomendações de utilização. 25.2 Indicações gerais O dispositivo pode ser considerado em determinadas vítimas encontradas sentadas que apresentem suspeita de lesão da coluna e estejam clinicamente estáveis o suficiente para permitir uma extricação controlada. Uma situação possível é o ocupante de veículo que permanece sentado, apresenta indicação de restrição do movimento e necessita ser transferido de maneira planejada. Entretanto, a indicação deve seguir protocolos atualizados. A utilização rotineira do KED em todas as vítimas sentadas não é recomendada como princípio geral. Em alguns pacientes conscientes e estáveis, outras técnicas de extricação podem ser mais apropriadas e produzir menos manipulação. 25.3 Quando não atrasar a retirada A aplicação do dispositivo exige tempo. Esse aspecto é especialmente importante em pacientes críticos. Hemorragia externa maciça, comprometimento das vias aéreas, insuficiência ventilatória, choque, deterioração neurológica ou outra ameaça imediata à vida podem exigir retirada mais rápida. Da mesma forma, incêndio, fumaça, combustível, instabilidade estrutural, risco de colisão secundária ou outras ameaças ambientais podem tornar inadequada uma extricação demorada. Nessas circunstâncias, a equipe deve priorizar segurança e tratamento das ameaças à vida. A técnica mais adequada é aquela compatível com a situação real, e não necessariamente aquela que utiliza maior quantidade de equipamentos. 25.4 Segurança da cena Antes de entrar em um veículo acidentado, deve-se garantir que a cena tenha sido avaliada. Trânsito, posição do veículo, risco elétrico, combustível, incêndio, vidros, metais deformados e funcionamento de sistemas de segurança precisam ser considerados pelas equipes responsáveis. Quando houver necessidade de desencarceramento, o atendimento deve ocorrer de forma integrada com o Corpo de Bombeiros ou equipe de salvamento. O veículo precisa estar adequadamente estabilizado antes das manobras quando houver risco de movimentação. O profissional de saúde não deve entrar em uma estrutura insegura apenas para iniciar precocemente a avaliação. 25.5 Avaliação inicial dentro do veículo O primeiro contato deve priorizar o XABCDE. Hemorragias externas maciças precisam ser identificadas e controladas quando possível. As vias aéreas devem ser avaliadas e mantidas permeáveis. Respiração, circulação e estado neurológico precisam ser rapidamente verificados. A posição do paciente também deve ser observada. É necessário identificar se ele está realmente encarcerado, isto é, fisicamente preso pelas estruturas do veículo, ou apenas impossibilitado de sair sozinho. Essa diferença interfere diretamente na estratégia de extricação. 25.6 Estabilização manual Quando houver suspeita de lesão cervical e indicação conforme protocolo, pode ser iniciada estabilização manual da cabeça. O objetivo é reduzir movimentos desnecessários durante a avaliação e preparação para a retirada. A cabeça não deve ser forçada para uma posição considerada ideal quando houver resistência, dor importante, deformidade ou piora de sintomas. A estabilização precisa ser compatível com a condição encontrada. Enquanto um profissional realiza esse controle, os demais podem continuar o XABCDE e preparar a estratégia de retirada. 25.7 Preparação do KED/BKED Antes de colocar o dispositivo, a equipe deve conferir sua integridade. Cintas, fivelas, velcros, estrutura e demais componentes precisam estar funcionais. O equipamento deve ser preparado antes de ser introduzido atrás do paciente. Todos os profissionais envolvidos precisam conhecer a sequência de colocação prevista pelo fabricante. É importante verificar também objetos existentes entre o paciente e o banco, como bolsas, ferramentas ou outros materiais que possam interferir no posicionamento. Quando possível, esses objetos são retirados sem provocar movimentos desnecessários. 25.8 Posicionamento atrás da vítima O dispositivo é introduzido cuidadosamente entre o dorso do paciente e o banco, conforme as características do equipamento. Essa etapa exige atenção para não produzir flexão ou rotação excessiva do tronco. Os profissionais devem trabalhar coordenadamente. Depois de colocado, verifica-se se o dispositivo está adequadamente centralizado e na posição prevista pelo fabricante. Uma instalação inadequada pode reduzir sua eficácia e dificultar posteriormente a retirada. Durante todo o procedimento, a condição clínica continua sendo observada. Se ocorrer deterioração, a estratégia deve ser reavaliada. 25.9 Fixação do tronco Os cintos destinados ao tronco são aplicados segundo a sequência indicada para o modelo utilizado. O objetivo é aproximar adequadamente o paciente do dispositivo e limitar movimentos durante a extricação. As cintas precisam permanecer firmes, mas não devem comprometer a expansão torácica. Depois da fixação, a respiração deve ser reavaliada. Em pacientes com trauma torácico, obesidade, gestação ou outras condições, o posicionamento dos cintos pode exigir cuidados adicionais. Qualquer dificuldade respiratória após a aplicação exige avaliação imediata. 25.10 Fixação da região inferior Dependendo do modelo, existem sistemas destinados a auxiliar na estabilização da região inferior do tronco e pelve. Esses componentes devem ser utilizados exatamente conforme instruções do fabricante. O profissional deve evitar compressão inadequada sobre lesões existentes. Suspeita de trauma pélvico, fraturas de membros inferiores e ferimentos próximos aos pontos de passagem das cintas precisam ser considerados. A finalidade é aumentar a segurança da extricação sem provocar novas lesões. 25.11 Estabilização da cabeça Depois do posicionamento adequado do tronco, podem ser utilizados componentes destinados ao apoio lateral da cabeça e faixas de fixação, conforme o dispositivo. O objetivo é reduzir movimentos durante a retirada. A fixação não pode impedir acesso às vias aéreas. O profissional deve continuar observando consciência, respiração e possibilidade de vômito. Nenhum sistema de fixação da cabeça elimina a necessidade de vigilância das vias aéreas. Se ocorrer comprometimento respiratório, o tratamento dessa ameaça possui prioridade. 25.12 Sequência das cintas A sequência de fechamento das cintas pode variar conforme o modelo e as instruções do fabricante. Esse ponto é fundamental para a segurança da assistência. Não é adequado estabelecer uma sequência universal baseada apenas em cores, pois diferentes equipamentos podem utilizar padrões distintos. A equipe deve treinar com o KED ou BKED efetivamente disponível no serviço. Durante os treinamentos, cada profissional precisa reconhecer os componentes, identificar a sequência recomendada e praticar colocação e retirada em diferentes cenários. 25.13 Preparação para a extricação Depois da aplicação, a equipe deve planejar a retirada. A porta, coluna do veículo, banco, volante e demais estruturas podem limitar o espaço. Quando necessário, a equipe de salvamento amplia o acesso. Antes da movimentação, verificam-se novamente cintas, vias aéreas, equipamentos e condição clínica. Um profissional deve assumir o comando. A vítima é então movimentada de maneira coordenada, procurando reduzir movimentos desnecessários. Não se deve iniciar a retirada antes que todos saibam exatamente qual será o percurso. 25.14 Rotação e retirada da vítima Em determinadas situações, será necessário realizar rotação controlada do paciente para permitir sua saída pelo espaço disponível. O movimento deve envolver tronco e membros de maneira coordenada. A equipe precisa evitar movimentos bruscos e manipulações repetidas. Depois que o paciente estiver em posição que permita a retirada, ele é transferido para o dispositivo preparado, que poderá ser maca, prancha para movimentação ou outro recurso previsto. A técnica exata depende das características do veículo, do paciente e dos equipamentos. 25.15 Extricação rápida A extricação rápida é considerada quando a condição do paciente ou da cena não permite uma retirada demorada. Pacientes com comprometimento grave de vias aéreas, ventilação ou circulação podem necessitar de acesso imediato a intervenções que não conseguem ser realizadas adequadamente dentro do veículo. Também pode ser necessária quando a cena apresenta perigo. Nessas situações, a prioridade é retirar o paciente de forma coordenada e tão segura quanto as circunstâncias permitirem. O KED/BKED não deve atrasar essa decisão. 25.16 Paciente consciente e capaz de colaborar Pacientes conscientes, clinicamente estáveis e capazes de seguir comandos podem, em situações selecionadas e conforme protocolo, participar ativamente da extricação. Isso reforça que a utilização do KED não deve ser automática apenas porque a vítima estava sentada em um veículo. A equipe deve avaliar individualmente mecanismo, sintomas, achados neurológicos e necessidade de restrição do movimento. A estratégia deve produzir o menor número possível de movimentos desnecessários. 25.17 Reavaliação após a retirada Assim que a vítima estiver fora do veículo, o XABCDE deve ser novamente avaliado. Curativos, torniquetes, acessos, oxigênio e demais dispositivos precisam ser conferidos. A condição neurológica deve ser comparada com aquela observada antes da extricação. Também deve ser reavaliada a necessidade de manter os dispositivos utilizados durante a retirada. Um equipamento necessário para extricação não precisa obrigatoriamente permanecer durante todo o transporte. 25.18 Atuação da enfermagem O técnico de enfermagem pode participar da preparação do equipamento, estabilização, monitorização, aplicação das cintas e movimentação, conforme treinamento, atribuições profissionais e protocolos. O enfermeiro realiza avaliação de enfermagem, identifica prioridades, participa da definição da estratégia assistencial e supervisiona os cuidados executados pela equipe. Em ocorrências veiculares complexas, a integração com médico, condutor socorrista e equipes de salvamento é indispensável. 25.19 Treinamento e segurança O domínio do KED/BKED depende de treinamento prático. Conhecer teoricamente as cintas não é suficiente. A equipe deve praticar sua colocação em veículos, espaços reduzidos e diferentes posições, sempre seguindo o manual específico do equipamento utilizado. Após cada uso, o dispositivo deve ser inspecionado, higienizado e novamente preparado para utilização. Danos estruturais ou problemas nas cintas precisam ser identificados antes da próxima ocorrência. O KED/BKED constitui, portanto, um recurso de extricação para situações selecionadas, e não uma intervenção obrigatória para toda vítima encontrada sentada. Seu emprego deve resultar de avaliação clínica, segurança da cena, indicação de restrição de movimento e análise do tempo necessário para aplicação. A prioridade permanece no XABCDE. Quando a vítima está instável ou existe perigo imediato, uma técnica mais rápida pode ser necessária. Quando as condições permitem uma extricação controlada e o dispositivo está indicado, sua utilização deve seguir rigorosamente o treinamento, o protocolo do serviço e as instruções do fabricante. No atendimento pré-hospitalar, saber utilizar o KED/BKED significa também saber reconhecer quando não utilizá-lo. A segurança resulta da associação entre avaliação clínica, escolha adequada do dispositivo, trabalho coordenado, domínio técnico e reavaliação contínua do paciente.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.
